sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

PRIMEIROS CARROS NA PISTA

Lewis Hamilton: Ter o melhor tempo no cômputo geral da primeira semana de pré-temporada é um bom começo, mas vamos devagar com o entusiasmo, porque nada ainda é garantido.

            E a Fórmula 1 2026 está em ação. Esta semana, em Barcelona, todas as escuderias, à exceção da Williams, estiveram na pista da Catalunha para suas primeiras experiências de pista real com seus novos carros, leia-se estudos dos sistemas, propulsores, aerodinâmica, fiabilidade, etc. É claro que não dá para levar a sério propriamente as marcas obtidas. Os tempos tem sido bem mais altos do que os apresentados pelos carros no ano passado, mas os bólidos serem mais lentos já era algo esperado, e claro, foram apenas os primeiros momentos na pista, onde velocidade propriamente não é o objetivo principal. Ao invés disso, a principal preocupação é com a fiabilidade, e neste aspecto, os times novatos, como a Audi e a Cadillac, mostraram claramente o seu noviciado, enfrentando vários problemas que comprometeram até o aproveitamento do dia, resultando em prejuízos no trabalho. Mas, é para isso que estes testes servem. As escuderias precisam avaliar seus novos projetos, e mesmo que tudo esteja perfeito, e no seu devido lugar, tudo ainda pode falhar. Descobrir isso é primordial para se avaliar se o projeto foi bem concebido, e se ele reage na pista conforme as simulações e testes nos túneis de vento.

            Mas claro que todo mundo tem suas expectativas. E não são poucas… A McLaren, novamente campeã de construtores, e enfim, também de pilotos, manterá a sua força dos últimos anos? Depois dos desaires do ano passado, a Ferrari irá acertar enfim, e brigar pelo título este ano? A Red Bull, agora sob nova direção completa, e com um corpo técnico sem a presença de Adrian Newey, irá manter a sua posição de time de ponta? A Ford, após duas décadas fora, terá sucesso em seu retorno como parceira do time dos energéticos na produção das novas unidades de potência? A Aston Martin, nova equipe de Adrian Newey, enfim irá crescer de performance com o “mago das pranchetas”? Estas e muitas outras questões estão na cabeça de todos, e claro que buscam respostas. Mas isso certamente não será respondido nesta semana.

            O tempo em Barcelona teve lá suas surpresas. A terça-feira foi marcada pela chuva, de modo que o dia não foi produtivo, mesmo para os poucos pilotos que resolveram se aventurar com o piso molhado. No restante dos dias, felizmente o tempo esteve mais firme e seco, mesmo assim, o frio no autódromo, mal passando dos 10º, certamente impôs suas particularidades aos times, que precisaram se concentrar em testar parâmetros que pudessem ser analisados com mais confiança mesmo em baixas temperaturas, algo que dificilmente encontrarão nas corridas da temporada que começa em março.

            A Mercedes é o time que mais impressionou até agora, pela fiabilidade, e pelas voltas rápidas conquistadas. Se a velocidade em volta lançada chama atenção, o dado realmente importante é a fiabilidade, onde a dupla de pilotos de Brackley não tem tido percalços com o novo modelo W17, e chegando até a afirmar que o carro está se saindo melhor na pista do que no simulador propriamente. Os carros prateados sempre foram marcados por uma grande fiabilidade, e esta característica parece estar mantida no novo modelo da escuderia, que depois de virar coadjuvante de luxo nos últimos anos, parece pronta para tentar enfim recuperar o seu protagonismo perdido. E tanto George Russell quanto Andrea Kimi Antonelli tem dado declarações positivas e entusiasmadas sobre o novo modelo, o que parece confirmar que o novo carro, sim, parece ter nascido bem, e é bom. Certamente deveremos ter indícios mais exatos do potencial do novo bólido nos testes marcados para o Bahrein.

            A equipe alemã encerrou seus trabalhos de pista na quinta-feira, e por isso mesmo, o balanço foi considerado altamente animador, com todos os objetivos plenamente cumpridos, de acordo com a escuderia. Alguns percalços foram surgindo, mas nada que preocupasse pilotos e equipe. Mesmo assim, a Mercedes prefere manter os pés no chão, e não começar a comemorar antes do tempo, especialmente porque o tempo frio na Catalunha não serve como um indicador muito confiável do rendimento dos carros, o que não será o caso na pista de Sakhir, onde o calor poderá exigir mais dos carros e colocar os novos bólidos à prova. O vice-campeonato de 2025 no campeonato de construtores é um lembrete de que o resultado foi obtido não apenas por méritos próprios, mas também pela má campanha dos adversários, que poderiam ter ido melhor do que os prateados, em particular a Ferrari.

            Não se pode, claro, também subestimar os resultados. Foram cerca de 502 voltas completadas pelo time alemão, e isso é um indicativo mais do que claro que o carro é confiável, fora que os tempos de volta foram consistentes, o que mostra que o novo W17 parece de fato ser um excelente projeto. Como a escuderia mencionou, o clima frio impediu uma verificação mais adequada do novo carro, e que as temperaturas mais altas do Bahrein poderão proporcionar a oportunidade ideal para confirmar as boas expectativas resultantes desta semana.

Lando Norris indo para a pista como atual campeão mundial: expectativa se a McLaren cointinuará sendo forte como em 2025.

            Igualmente importante também foi a confiabilidade do novo carro da Ferrari. O novo modelo SF-26 andou nada menos que 437 voltas no cômputo geral, sendo o time que mais rodou depois da Mercedes, e o mais importante, tanto Charles LeClerc quanto Lewis Hamilton elogiaram o comportamento do bólido, indicando que ele aparentemente também nasceu muito bem. E hoje, no último dia dos testes, eis que Lewis Hamilton fechou com o melhor tempo de toda a semana, sendo que o ritmo do carro também esteve constante. Os tempos obtidos, claro, precisam ser relativizados, não podendo serem comemorados antes do tempo. São importantes dentro do que se procurou testar e descobrir a respeito do novo carro, mas não se pode dizer ainda que a Ferrari é favorita, mas é inegável que isso já dá muitas esperanças aos tiffosi de que o time italiano parece ter acertado bem no projeto do novo carro, mesmo que seja apenas os resultados da primeira semana de pré-temporada. Mas, comparado ao que os pilotos sentiram em relação ao modelo SF-25 no ano passado, o novo SF-26 tem trazido impressões muito mais positivas, que parecem confirmar o entusiasmo de sua dupla de pilotos, mesmo diante da postura cautelosa com que os resultados dos trabalhos sugiram. LeClerc, com o 3º melhor tempo geral, colabora no otimismo, mas mantendo os pés devidamente no chão por enquanto.

            A Red Bull parece ter um bom carro, mas os resultados precisam ser bem ponderados. A nova unidade de potência, concebida pela nova parceria entre a Red Bull Powertrains e a Ford, parece ter impressionado, o que é um dado positivo. Mas o time teve um forte revés com a batida de Isack Hadjr, que comprometeu o cronograma da escuderia diante da falta de peças de reposição, fazendo o time desistir de ir à pista. Com isso, o time dos energéticos foi apenas o 6º colocado em quilometragem acumulada, com 303 voltas, mais de um terço delas sendo realizada justamente nesta sexta-feira, com Max Verstappen ao volante, tentando tirar todo o atraso possível. A Red Bull parece estar bem, mas ainda é incerta a sua posição na relação de forças. Seu maior trunfo, é obviamente, Max Verstappen, mas se o carro não andar direito, até o braço do holandês tem seus limites, mas quando o carro corresponde, todos nós já vimos do que o tetracampeão é capaz.

            Curiosamente, é o segundo time, a Racing Bulls, quem conseguiu andar mais do que o time principal, ocupando a 5ª posição, com 321 voltas rodadas na pista catalã, e um dos pontos fortes que o seguindo time pôde comprovar foi a fiabilidade demonstrada pelas novas unidades de potência produzidas pela Red Bull Powertrains, agora em sua nova associação com a Ford, depois de adquirirem know-how com as unidades de potência da Honda desde que a nova empresa foi criada há poucos anos atrás, para suprir os dois times da Red Bull na competição. Os esforços concentrados em eliminar sua dependência de fornecedores externos parece estar prontos para colherem seus merecidos frutos, já que na parceria anterior, apesar da nova RBPT ser a responsável pelas unidades, ainda era a Honda que providenciava muita coisa. É bem verdade que eles próprios admitiram que ainda não mediram suas forças propriamente a fundo com as demais unidades de potência na pista, mas a confiabilidade demonstrada tem sido um fator amplamente positivo para os dois times.

            A Haas foi o time com a 3ª maior quilometragem acumulada, com 390 voltas computadas, com seu novo modelo VF-26, que parece pelo menos manter o patamar de competitividade do time, situando-o firme no pelotão intermediário. Contando agora com parceria técnica com a Toyota, a Hass em tese pode aspirar a melhores resultados, tendo o auxílio dos japoneses para desenvolvimento de seus carros.

            E a McLaren? Por incrível que pareça, os atuais campeões do mundo não andaram tanto quando poderiam> houve tempos competitivos e boa performance em constância, mas também alguns problemas que demandaram maior atenção por parte do time. Com 287 voltas completadas, o time de Woking foi o 7º em quilometragem, mas a dupla de pilotos pareceu feliz com os momentos que tiveram ao volante do novo modelo MCL40, e se a McLaren tiver conseguido manter sua coesão técnica, podemos esperar um time novamente forte para a temporada de 2026. Lando Norris, o atual campeão, fez o segundo melhor tempo dos testes, e isso não é algo a ser subestimado.

Nova Aston Martin: muita expectativa no novo projeto de Adrian Newey pós-Red Bull, mas com poucas voltas de início.

            A Aston Martin entrou ontem na pista com o novo AMR26, o primeiro carro concebido por Adrian Newey, e é claro que levanta muita expectativa, mas o primeiro dia foi de poucas voltas e muito trabalho aparente dentro dos boxes. Hoje, Fernando Alonso também não andou muito, e o novo motor Honda também não foi exigido como se deveria. No total foram apenas 66 voltas, o time que menos andou, o que já deixa todo mundo meio preocupado. O novo carro nem veio com a pintura oficial, estando completamente preto, e as poucas fotos divulgadas pela escuderia mostram um bólido com alguns detalhes interessantes, com nítido diferencial para os demais times que estiveram na pista, um cuidado óbvio de Newey em tentar tirar do carro tudo o que o novo regulamento permite. Resta esperar que o projetista não tenha sido radical demais e suas soluções possam ter comprometido a fiabilidade do carro, mesmo com boas idéias. Não deu para ter a mínima idéia de como eles poderão andar.

            A Alpine deu adeus aos propulsores da Renault, estreando como cliente da Mercedes. A fala do time, de que não haverá desculpas para um eventual fracasso este ano faz mais farol do que deveria, porque se o motor não for problema, como parece não ser, haja visto o bom desenvolvimento nos carros do time de fábrica, o problema será o carro, que no ano passado foi o pior da temporada, comprometendo visivelmente as chances de sua dupla de pilotos. Mas os tempos de volta divulgados foram constantes, o que em tese é um bom indício, e que pode sugerir que a escuderia francesa terá dias melhores pela frente, pelo menos em relação a 2025. Com 347 voltas, a Alpine foi o 4º time que mais andou, o que é um bom sinal. Só resta saber se, quando forem exigidos a fundo, eles conseguirão responder em performance. E disso dependerão as chances de sua dupla de pilotos de permanecerem na F-1. Por mais que Pierre Gasly esteja renovado até 2028, outro ano fraco pode ser fatal para o piloto, assim como para Franco Colapinto, que terminou a temporada passada completamente zerado. Se o carro de fato andar melhor, o argentino será amplamente cobrado, assim como o francês. E Flavio Briatore estará de olho firme nos dois, podem apostar.

            Como não poderia deixar de ser Cadillac e Audi, os novos times da competição, enfrentaram os mais diversos problemas, não conseguindo alcançar um número de voltas significativo. A Audi, egressa da Sauber, o que em tese deveria facilitar as operações, afirmou ter cumprido o seu cronograma previsto, apesar de todos os percalços, mas é certo de que a baixa quilometragem certamente deve ter pesado na avaliação e balanço geral do novo carro, que apresentou problemas tanto com Nico Hulkenberg quanto com Gabriel Bortoleto. Hoje, felizmente, Bortoleto conseguiu dar um bom número de voltas, juntamente com Hulkenberg, dando maior alento à escuderia, que alcançou no total 240 voltas na pista, e segundo o brasileiro, apesar das dificuldades enfrentadas, esse era de fato o objetivo, identificar falhas e problemas, e descobrir onde precisam trabalhar mais, visando melhorar e resolver o que não funcionou direito.

Cadillac na pista: vários problemas para resolver ainda.

            A Cadillac até conseguiu um número de voltas razoável, 164 giros, mas mesmo assim, longe de impressionar. Como um time completamente virgem na F-1, a nova escuderia dos Estados Unidos está tendo os problemas de seu noviciado, e o momento dos percalços é de fato agora nos testes, que é para isso mesmo que servem. Mas já dá para cravar que tanto Valtteri Bottas quanto Sergio Perez, que voltam ao grid após um ano de ausência, vão ter muitos problemas pela frente.

            A Williams corre o risco de perder a chance de consolidar a sua recuperação iniciada no ano passado, perdendo tempo de pista útil para poder entender seu novo carro. Em um momento onde entra em ação o novo regulamento técnico, só o fato de já perder 1/3 do tempo de pista disponível pode resultar em prejuízos claros para a escuderia inglesa. Mesmo que o carro nasça bem, todo tempo de pista é precioso, e em um ano onde a pré-temporada volta ser uma pré-temporada de fato, e não uma piada sem graça como foi nos anos anteriores (9 dias de pista, contra os estúpidos 3 dias dos últimos anos), isso pode se transformar em um forte revés para o time de Grove, depois da melhor temporada que a escuderia obteve em quase uma década recente.

            A se criticar o termo “privado” dos testes, praticamente sem presença do público e também da impresa, mas levado a extremos quando torcedores e fãs tentaram ver de áreas próximas, sem entrarem no autódromo, e serem depois abordados por “leões de chácara” pedindo para eles saírem dali, um gesto absurdo e desmedido que só me faz perder a fé (pouca) que ainda tenho no pessoal da F-1. Quer dizer então que, se em algum prédio próximo alguém tivesse uma janela no apartamento permitindo ver a pista, estes caras apareceriam para “tampar” a janela da propriedade? Absolutamente ridículo, desnecessário, e truculento. A F-1, que vive se vangloriando de seu melhor momento de popularidade em anos, dá um verdadeiro tiro no pé com atitudes esdrúxulas e cretinas deste tipo. Dizer que isso foi desejo das equipes, que queriam tranquilidade para  trabalhar, e não se exporem demasiadamente é desculpa das mais bestas, porque a categoria vive de exposição, ela não existe sem o público, portanto, um pouco mais de satisfação e abertura teriam sido mais do que bem-vindas.

            Sem a presença até mesmo de imprensa no circuito, as informações foram passadas de forma extra-oficial, sendo que os tempos e números de voltas foram divulgadas pelas próprias escuderias, bem como as declarações de seus pilotos. Por mais que a semana tenha sido encarada como um shakedown gigante dos times, tal tipo de procedimento é muito ruim quando a F-1 precisa estabelecer uma imagem mais aberta e transparente, ainda mais quando os fãs estão tentando e querendo ver tudo, especialmente pelas dúvidas e expectativas que o novo regulamento técnico apresenta para este ano. A F-1 ainda está apresentando muitos vícios e defeitos que poderia resolver facilmente, mas aparentemente, não faz, seja lá por quais motivos sejam.

            Mas, como os fãs não largam a competição, e continuam dando à competição todo o cartaz que ela desfruta, atitudes assim certamente poderão continuar… Se irão piorar, ninguém sabe...

            Agora, são duas semanas até a próxima sessão, no Bahrein, onde pelo menos poderemos acompanhar tudo com mais naturalidade e proximidade, e quem sabe, possamos começar a ver quem terá as maiores chances de dar as cartas nesta nova temporada que se inicia com regras técnicas completamente novas...

 

 

A Formula-E inicia hoje os treinos para o ePrix de Miami, terceira etapa da atual temporada da competição de carros monopostos 100% elétricos. A novidade é o novo local da competição, que irá usar parte do circuito que é montado para a prova da F-1, ao lado doHard Rock Stadium, em substituição ao traçado utilizado no ano passado no autódromo de Homestead, nos subúrbios da Zona Metropolitana de Miami, que não agradou à categoria. A nova pista, usando parte do circuito montado para as provas da categoria máxima do automobilismo, tem 2,32 Km de extensão, com 14 curvas. O traçado utiliza o pit lane e paddock da F-1. A largada da corrida está marcada para este sábado, a partir das 16:00 Hrs., pelo horário de Brasília, com transmissão ao vivo pelo canal pago Bandsports, e pela GPTV, o canal de internet do site Grande Prêmio. Nick Cassidy, que subiu ao pódio na etapa inaugural da temporada em São Paulo, e conseguiu uma vitória espetacular na Cidade do México, lidera o campeonato.

O traçado para o ePrix de Miami, em parte usado pela F-1.

 

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