sexta-feira, 16 de agosto de 2019

JÁ ERA MAIS UM...?

Pierre Gasly foi "devolvido" à Toro Rosso por falta de resultados no time principal dos energéticos. Mais um degolado pela falta de paciência da cúpula da Red Bull.

            Não foi preciso muito tempo para a Fórmula 1 voltar ao noticiário esportivo em plenas férias do verão europeu. O que muitos já esperavam aconteceu antes mesmo do que se esperava: Pierre Gasly foi “rifado” da Red Bull, com Alexander Albon ocupando o seu lugar no time dos energéticos já em Spa-Francorchamps, na próxima corrida da F-1. A justificativa foi a mais óbvia de todas: falta de resultados, que na opinião da cúpula da equipe, estava comprometendo a escuderia na luta no campeonato de construtores contra a Ferrari. Aliás, pelo tanto de críticas que o francês levou de Christian Horner e Helmut Marko desde o início do ano, não se podia esperar nada diferente. Ajudaria eles serem menos hipócritas e deixassem de fazer declarações cretinas de que Gasly permaneceria no time até o fim do ano...
            Enquanto o tailandês ganha a chance de sua vida na carreira, Gasly ficará “de castigo” na Toro Rosso, onde correu no ano passado. E terá como companheiro alguém que sabe muito bem o que ele está passando. Daniil Kvyat, por muito menos, foi queimado pela cúpula rubrotaurina em 2016, e isso quase acabou com sua carreira, que renasceu não graças à Red Bull, diga-se de passagem. O russo, apeado da escuderia para dar lugar unicamente a Max Verstappen, entrou em parafuso psicológico com a rasteira sofrida, e acabou demitido algum tempo depois. Ele encontrou refúgio na Ferrari, onde ficou todo o ano passado testando no simulador em Maranello, onde colocou a cabeça em ordem, para voltar a ser considerado no mercado de pilotos. Fica a expectativa se Pierre terá o mesmo destino, ou se conseguirá ter equilíbrio e força mental para absorver o golpe, e dar seguimento à carreira.
            Infelizmente, sua jornada pelo time principal não foi boa nas provas disputadas até aqui. Se é preciso lembrar que a comparação com Max Verstappen, que é um daqueles fenômenos do automobilismo, já não ajuda, Gasly teve sua cota de erros nesta primeira fase do campeonato, que acabaram resultado em uma pontuação muito inferior ao do parceiro holandês. Mas, dando mais uma vez mostras do pouco respeito que tem por seus pilotos, a Red Bull demonstrou sua impaciência e falta de tato trocando de piloto ainda no meio da temporada. E isso só ajuda a marca de bebidas energéticas a ficar cada vez menos considerada entre os jovens pilotos que buscam oportunidades na carreira automobilística de competição, que já teve um grande programa de formação de pilotos, mas que atualmente praticamente não possui ninguém em vista para chegar rapidamente à F-1. O motivo é mais do conhecido: de tanto rifar e queimar seus pilotos, as jovens promessas de hoje querem distância do programa do time dos energéticos, e principalmente de Helmut Marko, cuja fama de intratável, arrogante, e agora, pouco confiável, pela maneira como atropela os critérios mais objetivos de escolha e promoção dos pilotos, só não o fazem ser um pária porque sempre tem aqueles que aceitam flertar até com o diabo se isso promover suas carreiras.
Enquanto Max Verstappen conseguiu vencer corridas, e ameaça a vice-liderança de Valtteri Bottas, Gasly estava duelando com pilotos no bloco intermediário em algumas corridas, como os da McLaren. Muito pouco para o carro que tem nas mãos.
            Em maio de 2016, fiz um texto criticando o modo como o programa de desenvolvimento de pilotos da Red Bull vinha sendo gerido por Marko & Cia. Na ânsia de terem um novo Sebastian Vettel, eles desandaram a defenestrar seus pilotos, em um processo que só foi piorando, tanto que de lá para cá, ficaram praticamente sem nomes para compor a dupla titular no seu time “B” na F-1, a Toro Rosso. Carlos Sainz Jr. preferiu não esperar para ser mais um a ser fritado por Marko, e assim que teve oportunidade, caiu fora. Hoje, está na McLaren, e não se arrepende nem um pouco por ter saído de lá. E a adulação por Max Verstappen, entre outros fatores, fez Daniel Ricciardo resolver apostar em um novo rumo na carreira, indo para o time oficial da Renault. Isso deixou a Red Bull sem bons nomes para seu plantel. E não se pode negar que Ricciardo está fazendo muita falta na escuderia, que poderia estar bem à frente da Ferrari no campeonato, se continuasse com os serviços do australiano, um piloto muito eficiente. Mas se alguém espera que o time dos energéticos confesse tal coisa, estará sendo muito ingênuo.
            Verstappen, para a felicidade da equipe, parou de se meter em confusões na pista, e segue rápido, e atrevido, e amadurecendo, o que é muito bom para ele, e para a F-1. Seria interessante ver se ele manteria essa maturidade inesperada se ainda tivesse que duelar com Ricciardo dentro do time, que embora fosse menos arrojado, era extremamente eficiente e sabia aproveitar todas as oportunidades que via na pista, obtendo excelentes resultados, e que conseguia andar no ritmo do holandês. Agora, será Albon que será cobrado para obter resultados à altura como novo companheiro de Verstappen. O time até já deixou claro: dependendo da performance, será escolhido o parceiro de Max para a temporada de 2020. O problema é Alexander cair na mesma armadilha que vitimou Gasly, e acabar se queimando no processo também. E aí, se Gasly também não melhorar sua performance, de volta à Toro Rosso, quem a Red Bull irá colocar como parceiro de Verstappen no próximo ano?
            O programa de desenvolvimento de pilotos da Red Bull não tem mais nomes que possam ser colocados já na F-1. Aliás, no ano passado mesmo, esse problema já se tornou visível. Sem ter alguém que poderia formar dupla com Gasly na Toro Rosso, Marko teve de chamar de volta Brendon Hartley, que já tinha feito parte do programa de desenvolvimento da Red Bull, mas tinha sido dispensado, anos antes. Mas Hartley obteve bom desempenho no Mundial de Endurance, onde foi campeão, chegando a vencer as 24 Horas de Le Mans. Tinha currículo. E poderia até ter ficado por lá, mas a tentação de experimentar a F-1, finalmente, foi mais forte, e infelizmente, seu desempenho foi pífio, ficando muito abaixo do de Gasly durante toda a temporada de 2018, e obviamente vendo sua tão esperada chance na F-1 se tornar um sonho de uma noite de verão. E a situação se agravou neste ano. Com a saída de Ricciardo, a opção óbvia era promover Gasly para o time principal, mas quem ficaria na Toro Rosso? Praticamente não tinham mais ninguém.
Cobranças excessivas e critérios questionáveis de promoção de seus pilotos tem colocado em xeque a atratividade do Programa de Desenvolvimento de Pilotos na Red Bull, coordenado por Helmut Marko, o todo-poderoso consultor da empresa de bebidas energéticas.
            A solução foi engolir um pouco a soberba, e acabaram chamando Daniil Kvyat de volta para o time sediado em Faenza. Uma segunda chance na Red Bull, depois do que fizeram com tantos pilotos, tinha ares de milagre, não fosse terem secado a fonte. Mas ainda precisavam de mais um nome, e só foram encontrá-lo na F-E: Alexander Albon, que também já tinha feito parte do programa de pilotos da Red Bull, mas tinha saído, e já assinado com a equipe e.dams para a disputa da quinta temporada de carros elétricos. Foi preciso negociar para liberar o piloto, que topou a empreitada da F-1. Mas, quem diria que a Red Bull precisaria sair no mercado para preencher seu quadro de pilotos? Se tivessem um pouco de autocrítica, eles poderiam admitir que foram os maiores culpados em ficar sem nomes no seu programa de desenvolvimento de pilotos.
            Lógico que a F-1 nunca foi um ambiente dos mais justos, e a lista de pilotos que tiveram suas carreiras destruídas pelas cobranças e circunstâncias da categoria máxima do automobilismo é imensa. E a Red Bull sempre deixou claro suas cobranças em cima dos pilotos no seu programa de desenvolvimento de pilotos. E, para chegar ao topo, é praticamente matar ou morrer. Ninguém ignora isso, e aceitam os riscos. O problema passou a ser quando, por melhor que o piloto seja, ele acaba vendo que o resultado é morrer ou morrer, só diferindo o momento. Cada vez mais impaciente e crítica, a Red Bull simplesmente não estaria mais dando tempo dos pilotos se desenvolverem. Ou chegam já arrebentando, ou são arrebentados. Antes, os pilotos tinham mais tempo para se adaptarem e mostrarem seu desenvolvimento, ao passo que hoje, já devem “explodir” logo de cara nos resultados, ou serão “explodidos” no primeiro passo em falso. E a Red Bull tanto fez que, no atual momento, não tem praticamente ninguém na lista de opções para a próxima temporada, caso resolvam se desfazer tanto de Gasly quanto de Kvyat, e Albon, se o tailandês também não render o que eles querem que renda.
Alexander Albon (acima) ganha sua grande chance na F-1 ainda em sua temporada de estréia, mas pode ser também mais um a sofrer o calvário de cobranças da Red Bull, que em 2016, sem mais nem menos, descartou o russo Daniil Kvyat (abaixo), quase acabando com a sua carreira de piloto.
           Albon vem tendo bons desempenhos em sua temporada de estréia. Não está comprometendo, embora também não tenha se revelado um piloto excepcional até aqui. Andou melhor que Kvyat em algumas corridas, e atrás em outras. O fato de ter sido escolhido ele, e não o russo, para cumprir o resto da temporada na Red Bull envolve certamente saber qual o seu real potencial em um carro de ponta. Gasly tinha ido muito bem na Toro Rosso no ano passado, um desempenho que acabou superestimado diante da baixa performance de Brendon Hartley, que não se achou na F-1 da mesma maneira como andou na endurance. Mas certamente todos esperavam um desempenho melhor de Gasly com o carro da Red Bull, e algumas performances abaixo do esperado, além de alguns acidentes, acabaram por comprometer a paciência da cúpula do time em relação a ele. Alexander parece ter os requisitos para oferecer melhores resultados, mas tudo isso dependerá de sua capacidade de adaptação ao monoposto da Red Bull, e de como será sua performance no pelotão da frente. É a chance de chegar ao primeiro escalão da F-1. Mas ele precisa tomar cuidado: se acabar errando, suas chances para 2020 podem ser comprometidas. Ou ele anda mais próximo de Verstappen, ou não vai demorar para Christian Horner e Helmut Marko também fazerem a caveira dele. Fica a dúvida do que acontecerá se Albon, surpreendendo a todos, andar não apenas perto de Verstappen, como até a começar a dividir freadas com ele.
            Seria o ideal, para Albon mostrar do que é capaz, mas também pode ter o efeito de incendiar o ambiente na Red Bull. E será que nesse contexto, Verstappen não vai ter chilique? Uma das dificuldades para a Red Bull conseguir superar mais facilmente a Ferrari é que sua dupla, em termos de desempenho e performance, tem tido um nível bem parelho, com vantagem para Charles LeClerc em algumas provas, para Sebastian Vettel em outras. Só que essa paridade de desempenho acabou causando dissabores dentro dos boxes italianos, com a tomada de várias decisões, com ordens de equipe e estratégias furadas que só atrapalharam a Ferrari na temporada, onde poderiam estar muito mais facilmente na vice-liderança do campeonato, e não na alça de mira da Red Bull. Se Albon chegar “chegando” na Red Bull, faria o seu cartaz ao conseguir peitar Verstappen em seu próprio quintal. Resta saber o que o holandês acharia disso, bem como a cúpula da equipe. E aí ficaria totalmente imprevisível o panorama para 2020. A torcida da maioria é para Albon ser bem-sucedido na sua chance na Red Bull, até para melhorar o nível das disputas no primeiro pelotão. Para a cúpula da Red Bull, é sua única esperança, até porque promover de novo Daniil Kvyat, depois da picaretagem que fizeram com ele, seria admitir o fracasso completo de seu programa de pilotos. A menos, claro, que eles percam completamente a falta de vergonha na cara, e busquem pilotos no mercado, como a maioria dos times fazem, só para não darem o braço a torcer.
            E aí, a briga para ver quem ganharia essa vaga na Red Bull em 2020, caso Albon seja a mais nova “vítima” da impaciência e cobrança da cúpula rubrotaurina, seria bem acirrada, com alguns nomes até interessantes numa provável disputa. Mas provavelmente Max Verstappen não goste disso, por estar reinando sozinho no time, sem ter no momento um companheiro que ameace sua posição. E ele já andou demonstrando que não lhe interessa quem será o seu companheiro de equipe, ou se Alexander Albon vai andar bem ou não, e defendeu o rebaixamento de Gasly, justificando que o time tem todo o direito de fazer o que achar melhor para si.
            Para ser sincero, Verstappen não deve mesmo se importar com quem é seu companheiro de equipe. O problema é que, tratado como queridinho pela Red Bull, vamos ver se ele mantém seu autocontrole, caso seja batido por Albon na pista. Quanto a Gasly, ele deveria conhecer bem o histórico da Red Bull quanto a seus pilotos na F-1, e se preparado melhor para tentar evitar o pior. O problema é quando as circunstâncias não ajudam, e infelizmente, quando isso ocorre, por vezes até o melhor piloto pode ser arrastado para o fundo do poço, quando nada parece dar certo para ele, mesmo tendo o maior talento e a maior capacidade. Hoje, vemos que a Red Bull no momento está sendo vista mais como uma destruidora do que formadora de pilotos no automobilismo. Vettels e Verstappens não surgem a todo momento, e o foco excessivo em descobrir novos fenômenos acaba levando-os a ignorarem as chances potenciais de vários pilotos, que não tem o tempo necessário para se desenvolver, e mostrar todo o talento que possuem.
            Que Albon possa escapar da sina que vitimou a grande maioria dos pilotos que passaram pela Red Bull, e não ser apenas mais um na estatística do moedor de carne que os times dos energéticos passaram a serem vistos na F-1...


A Indycar disputa neste domingo sua segunda prova de 500 milhas do calendário, no veloz circuito trioval de Pocono, na Pensilvânia. Com esta, faltam 4 provas para encerrar o calendário da competição em 2019, e Josef Newgarden, o líder, viu sua vantagem na classificação para os rivais cair bastante com o seu incidente na última volta da corrida anterior, em Mid-Ohio, quando tentava um lugar no pódio, saiu da pista em um toque forçando ultrapassagem em Ryan Hunter-Reay, e despencou para 14º na classificação final da corrida. A maior ameaça é Alexander Rossi, que está apenas 16 pontos atrás na pontuação, enquanto Simon Pagenaud e Scott Dixon tentam correr para tentarem se manter firmes na briga pelo título. Mas uma corrida de 500 milhas abre um leque de muitas possibilidades, onde muita coisa pode acontecer na corrida. Entrando na reta final do campeonato, todos os potenciais candidatos ao título precisam partir para a ofensiva, não havendo mais tempo para apenas manter a constância de resultados. Vencer passa a ser tudo, para não ficar na dependência dos resultados do adversário. E veremos se ao fim da temporada, teremos um novo campeão, ou um novo bicampeão. Ou, até mesmo um hexacampeão, se Scott Dixon conseguir virar o jogo como só ele é capaz de conseguir. Ainda mais porque não podemos esquecer que a etapa final, em Laguna Seca, tem pontuação dobrada, por ser o encerramento da competição. E a luta nesta fase final se inicia com tudo neste domingo. Ainda temos muitos pontos em jogo. O canal pago Bandsports mostra a corrida ao vivo neste domingo, a partir das 15:30 Hrs., pelo horário de Brasília.


Depois do bom resultado obtido em Indianápolis, um superspeedway, Tony Kanaan tem esperança de que a Foyt tenha melhores chances em Pocono, outro superoval, em outra prova de 500 milhas. Só que a configuração das duas pistas são bem diferentes, Indianápolis e Pocono, o que não garante que o carro possa ter o mesmo desempenho só por ser um superoval. Com baixos resultados neste ano, a situação da dupla brasileira da Foyt para a próxima temporada segue indefinida até o momento, entre permanecer no time, ou trocar de escuderia.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

ARQUIVO PISTA & BOX – OUTUBRO DE 1998 – 30.10.1998


            E cá estou com mais um antigo texto, este publicado no dia 30 de outubro de 1998, às vésperas do Grande Prêmio do Japão, que definiria o título da temporada de Fórmula 1 daquele ano. Ajudava também ser a corrida de encerramento da temporada, quando era raro a categoria máxima do automobilismo ir para o extremo Oriente, algo que só era repetido para o GP da Austrália, mas desde que a prova havia sido transferida para o início da temporada, em 1996, a prova japonesa ficou solitária no fim do ano durante algumas temporadas. Hoje, é muito difícil o GP do Japão definir um título, visto que ainda há muitas corridas após a etapa nipônica. A chance existe, mas é pequena, exigindo um domínio arrasador por parte de um único piloto e equipe para se alcançar tal façanha, algo bem diferente do que ocorria naqueles tempos nem tão distantes assim. Na época, correu o forte boato de que a Honda pretendia transferir o GP de F-1 para a sua outra pista, em Motegi, que havia estreado muito bem sediando uma corrida da F-CART em seu traçado oval. Felizmente, isso nunca ocorreu, para sorte da F-1, que teria um traçado misto insosso e travado em Motegi, ao contrário do desafiador traçado de Suzuka. Aliás, até a logística teria ficado complicada para se chegar ao novo circuito, enquanto Suzuka, bem ao lado de Nagoya, é uma mão na roda para quem vem do exterior, facilidades que fazem diferença até hoje, especialmente depois de uma cansativa viagem de avião até a Terra do Sol Nascente.
            Nos tópicos, menção à contratação de Ricardo Zonta pela nova equipe BAR, que estrearia no ano seguinte na F-1, e que infelizmente, acabou sendo uma desilusão tanto para a categoria como para Zonta, que ali levou um tombo que comprometeria sua tentativa de marcar posição na categoria máxima do automobilismo, fazendo dele mais um brasileiro que não conseguiu ter a chance de honrar a tradição vitoriosa de nosso país na F-1. Uma boa leitura para todos, e em breve trago mais textos antigos por aqui...


SUZUKA, PARA MAIS UMA DECISÃO

            Chegou a hora. O Mundial de Fórmula 1 de 1998 prepara-se para conhecer o seu vencedor nesta madrugada de domingo, pelo horário de Brasília. Já em Suzuka, mais uma vez palco de uma decisão de F-1, já será o meio da tarde de domingo quando a bandeirada de chegada for dada, encerrando a disputa e mais um campeonato de F-1.
            Ninguém pode reclamar que a categoria anda chata. Pelo terceiro ano consecutivo, a decisão ficou para a última etapa do campeonato. E o Grande Prêmio do Japão, pela 8ª vez, vai ser o palco desta luta decisiva. Realmente, os japoneses, nos últimos anos, têm sido afortunados em presenciar as decisões de títulos da F-1. Das 14 edições do GP do Japão disputadas até agora, serão 8 definições de título, dando um índice de 57% de decisões em todas as provas realizadas. Isso sem contar o GP do Pacífico, disputado em 94 e 95 no circuito japonês de Aida, que também viu uma decisão, em 1995, quando Michael Schumacher ganhou a corrida e o campeonato daquele ano. Ao todo então, temos 9 decisões de título em 16 corridas disputadas em solo nipônico, algo para deixar todos os outros países com inveja, praticamente.
            O Grande Prêmio do Japão entrou para o calendário da Fórmula 1 nos anos 1970. Em 1976 foi disputada a primeira corrida, no antigo circuito de Monte Fuji. E, de cara, a corrida já foi palco de uma decisão de título, ganho por James Hunt. A prova foi marcada por uma chuva torrencial, e Niki Lauda, que disputava o título com o inglês da McLaren, abandonou a corrida por não sentir a segurança necessária para correr. Antes que crucifiquem Lauda por tal atitude, foi o ano de seu pavoroso acidente em Nurburgring, onde quase morreu, e que milagrosamente, poucas semanas depois, estava de novo correndo. Em 1977 houve a última prova em Fuji, e a corrida só retornaria em 1987 ao calendário, agora sob a influência da Honda, que praticamente dominava a categoria com seus motores turbo, e em um novo circuito, Suzuka. Nélson Piquet ficou com a honra de ganhar o primeiro título de pilotos da F-1 para a fábrica japonesa. Ayrton Senna repetiria a façanha nos anos de 1988, 1990, e 1991, conquistando todos estes títulos no “quintal” da Honda, em Suzuka. Ao todo, foram 5 títulos consecutivos de pilotos da Honda. Alain Prost foi o único não-brasileiro a vencer um mundial com a Honda, em 1989, na controvertida decisão com Senna aqui nesta mesma pista.
            Em 1992, a Honda despediria-se oficialmente da F-1, e a pista de Suzuka passaria por um jejum de decisões. Só em 1996 o circuito japonês assistiu a uma nova final de luta pelo título, que foi ganho por Damon Hill, da Williams/Renault, contra seu parceiro de time Jacques Villeneuve. Ano passado, por pouco a pista nipônica não viu outra decisão de título: a Ferrari vinha de azares seguidos e estava perdendo a parada para a Williams. Se tivesse outro resultado ruim em Suzuka, tudo terminava ali, e Jacques Villeneuve ganharia o título em cima de Michael Schumacher. Mas o time italiano conseguiu virar o jogo, e com uma excelente tática de equipe, prorrogou a decisão para a prova seguinte, o Grande Prêmio da Europa, a última etapa. Este ano, mais uma vez, a decisão acabou ficando para a última corrida, mas desta vez a prova final é em Suzuka. Uma situação impensável no início da temporada, quando a McLaren praticamente deixava toda a concorrência para trás chegando ao final das corridas com quase 1 volta de vantagem. Ao longo do campeonato, entretanto, a Ferrari foi recuperando a desvantagem, e cá estamos agora, do outro lado do mundo, para mais uma decisão em pleno Japão, onde parece não haver favoritos na briga.
            Todas as atenções da Europa estão voltadas para Suzuka. O circuito vai estar lotado desde hoje, para o primeiro dia de treinos livres. E os japoneses, que desde o título de Piquet em 1987 são ávidos pela categoria, estão na maior expectativa, mesmo sem a presença imponente da Honda e de Ayrton Senna, seu maior ídolo. Que venha a hora da largada!


Ricardo Zonta é o mais novo integrante brasileiro da F-1. Nosso novo campeão da categoria FIA GT, título conquistado domingo passado em Laguna Seca, na Califórnia, oficializou este semana o seu contrato com a nova equipe BAR para ser o companheiro de equipe de Jacques Villeneuve. E Zonta já pensa longe: se fizer uma boa temporada em 99, tudo indica que deverá ser piloto titular da McLaren no ano 2000, salvo imprevistos no percurso.


Algumas fofocas começaram a circular pelos bastidores de Suzuka e uma delas já não me agradou muito: mudança da sede do GP do Japão. Para o ano que vem, a corrida está garantida no circuito de Suzuka, mas para 2000, e por influência da Honda, a prova de F-1 seria transferida para o complexo de Motegi, o megacomplexo automobilístico construído pela Honda e inaugurado este ano com o GP do Japão de F-CART, disputado na pista oval do complexo. A F-1 usaria o traçado misto presente dentro do enorme complexo. Por mim, seria muito triste e chato: a pista mista de Motegi é muito sem graça. Suzuka, por sua vez, é um dos melhores circuitos do calendário. O seu traçado inclui curvas de baixa, média, e alta velocidades, e tem bons trechos de reta. É um desafio aos pilotos e equipes, e sempre proporciona bons pegas. O acerto dos carros tem de ser meticuloso, pois precisa-se de estabilidade para as inúmeras curvas sem comprometer os trechos de retas que, se não são longos, são importantes para as tentativas de ultrapassagem. Muitos dizem que Suzuka só perde para Spa-Francorchamps no quesito traçado, e eu concordo. Talvez só Interlagos fosse melhor ainda que Suzuka, mas se ainda tivesse o seu traçado original de 7 Km. Espero que os japoneses não cometam mais essa heresia à F-1, que nos últimos tempos só tem usado circuitos sem graça, cheios de curvas ou com traçados sem criatividade, tolhendo em boa parte os desafios de pilotagem, ou os que promovem verdadeiras procissões em alta velocidade. Mas, do jeito que andam as coisas na F-1, é melhor aproveitar e curtir o resto da F-1 em Suzuka, pois com certeza este vai ser um circuito que deixará saudades.


Com 57% de decisões em todos os seus GPs disputados, a corrida do Japão realmente tem uma média impressionante de decisões de título. Mas em toda a história da F-1, uma prova tem um índice histórico de decisão: 100%. É o Grande Prêmio do Marrocos, que foi disputado apenas uma vez, em um circuito montado em Casablanca. Foi nos distantes anos 1950, em 1958, para ser mais exato. Em sua única realização, a prova marroquina viu a decisão do título entre dois pilotos ingleses: Mike Hawthorn, pela Ferrari; e Stirling Moss, pela Cooper/Vanwall. Moss venceu a corrida, mas perdeu o título porque Hawthorn chegou em 2º lugar e faturou o campeonato por apenas 1 ponto: 42 contra 41 de Moss. Este acumulou 49 pontos no campeonato, mas perdeu o título nos descartes de pontos, que era regra na época. Foi mais um golpe do destino contra Moss, que foi 4 vezes vice-campeão de F-1, nunca conseguindo um título na categoria...