quarta-feira, 19 de novembro de 2025

ARQUIVO PISTA & BOX – AGOSTO DE 2000 – 18.08.2000

            Voltando com mais um de meus antigos textos, esta foi uma coluna publicada no dia 18 de agosto de 2.000, e o assunto era o modorrento GP da Hungria de F-1 daquele ano, que foi uma das corridas mais monótonas da temporada, com ninguém praticamente ultrapassando ninguém, tanto que Michael Schumacher perdeu a prova na largada, e nunca mais conseguiu disputar a ponto, porque não conseguia ultrapassar Mika Hakkinen, que havia sido mais efetivo, transformando a corrida húngara praticamente numa prova de arrancada até a primeira curva, para mostrar que problemas com ultrapassagens já não vem de hoje. E a liderança do campeonato mudaria de mãos, passando para o então bicampeão da McLaren, quase causando uma crise interna na Ferrari, que se recuperaria, e ainda levaria o título com o alemão, encerrando finalmente o jejum de títulos de pilotos da escuderia italiana, que já durava mais de duas décadas...

            De quebra, mais alguns tópicos rápidos, com assuntos variados do mundo do esporte a motor naqueles dias. Uma boa leitura a todos, e em breve tem mais textos antigos aqui...

 

MUDANÇA DE LÍDER

 

          A prova da Hungria foi uma das mais sonolentas da atual temporada de F-1. Depois do espetáculo de Hockeinhein, foi difícil aturar a “procissão” de Budapeste. Definitivamente, é preciso repensar os carros da F-1. Ultrapassar sempre foi difícil na Hungria, mas do jeito que as coisas vão, não dá para aturar corridas sem ultrapassagem.

          Michael Schumacher perdeu a prova no arranque da largada, vendo Mika Hakkinen passar por ele e por David Coulthard feito um foguete. O piloto finlandês assumiu a ponta e foi-se embora na frente, enquanto o bicampeão alemão e o escocês ficaram ensaiando um duelo que não resultou em nada praticamente. Pior para Schumacher, que perdeu a liderança do campeonato justo para quem ele mais temia potencialmente, Mika Hakkinen. Depois de algumas corridas meio turvas, o piloto finlandês reassumiu sua velha forma e destronou o piloto da Ferrari da liderança do mundial, onde estava alojado desde a primeira etapa do ano, na Austrália.

          O fato não pegou muito bem na Ferrari, que parece novamente vizinha a uma crise daquelas, especialmente em um ano em que a Ferrari começou da melhor maneira possível, pulverizando a concorrência sem dó nem piedade. Nos últimos anos, a Ferrari sempre começava em desvantagem para depois recuperar terreno na segunda metade do campeonato. Desta vez, está ocorrendo o contrário: foi a McLaren que começou o mundial em desvantagem para o time de Maranello e agora não só está buscando sua recuperação como praticamente volta a ser o time a ser batido na luta pelo título.

          A situação se complica porque nas últimas provas a Ferrari parece ter estagnado em sua evolução, quando a McLaren parece ter reencontrado o caminho de desenvolvimento de seu já excelente chassi. A prova da Hungria foi uma prova cabal disso, onde o time de Ron Dennis só não fez a dobradinha porque Coulthard não conseguiu ultrapassar Schumacher, do contrário, ambas as McLaren tinham sumido à frente do alemão, que estaria impotente para reagir. Muito mal para quem disputa o título, e pior ainda se se levar em consideração que a pista da Hungria era teoricamente a mais favorável ao time italiano das etapas que restam para encerrar o campeonato. Todas as demais etapas ocorrem em pistas de alta velocidade, onde a aerodinâmica mais refinada da McLaren é superior à da Ferrari.

          A torcida italiana não perdoou Michael Schumacher nos últimos dias, chamando-o de dorminhoco e tartaruga, por ter sido tão lento na largada do GP húngaro. Alguns mais radicais sugeriram que o alemão da próxima vez leve um travesseiro, pois assim pode ficar mais confortável dentro de seu cockpit. Até Lucca De Montezemolo, presidente da Ferrari, deu uma pequena alfinetada no alemão. É até compreensível: depois do show de Rubens Barrichello na Alemanha, com uma das vitórias mais espetaculares da F-1 nos últimos anos, Schumacher vai precisar se desdobrar para que os fãs da Ferrari ainda tenham fé nele, e depois de uma atuação burocrática como a de Hungaroring, as cobranças em cima do alemão tendem a ficar ainda mais rigorosas.

          Pelo lado de Rubinho, a coisa é mais sossegada, pois todo mundo sabe que a prioridade da Ferrari, que é fazer Michael Schumacher ser campeão, relega o piloto brasileiro a segundo plano no time, então, a mesma atuação meio apagada de Rubinho na Hungria não tem tanto peso como a prova burocrática de Schumacher, especialmente depois do alemão ter se esmerado na luta pela pole-position. De qualquer maneira, o resultado ainda foi positivo para Barrichello, pois pontuou mais uma vez, mantendo-se como um dos pilotos mais regulares do mundial.

          Mas a disputa pelo título parece que vai mesmo pegar fogo daqui pra frente. Com cinco etapas ainda pela frente, praticamente tudo pode acontecer, e qualquer um dos quatro pilotos à frente na classificação do mundial pode ter chances de ser o campeão. E, se confirmarem as hipóteses de uma luta parelha entre McLaren e Ferrari, tudo indica que devemos ter boas emoções até o encerramento do mundial, em Sepang. Vamos aguardar e ver o que acontece!

 

 

Ricardo Zonta por pouco não ficou a pé para o restante da temporada. O piloto brasileiro, já sem lugar na BAR para 2001, uma vez que o time já assinou com Olivier Panis para o próximo ano, queria colocar o piloto francês no lugar de Zonta já a partir da Bélgica. Mas Ron Dennis emperrou tudo e teve uma conversinha com Craig Pollock, para pôr panos quentes na conversa, segundo alguns. Zonta ainda é piloto da McLaren, e está apenas “emprestado” à BAR, e como Olivier Panis tem contrato de piloto de testes com a McLaren até o fim do ano, o francês não foi liberado para a BAR ainda. Com isso, Zonta continua firme no time até a prova de Sepang, mas seu destino para 2001 é incerto. Na pior das hipóteses, volta a ser piloto de testes da McLaren.

 

 

Mais uma vez, fizemos a festa brasileira na F-CART. O GP de Mid-Ohio, disputado domingo passado, teve pela segunda vez no ano um pódio totalmente brasileiro. A vitória foi de Hélio Castro Neves, da Penske, seguido de seu companheiro de equipe Gil de Ferran. Christian Fittipaldi completou o pódio. Mais do que tudo, foi uma prova dominada pela equipe Penske, que conseguiu sua 4ª vitória na temporada, sendo a 2ª de Helinho, somadas às duas de Gil de Ferran, e é o melhor time da temporada. Gil fez a pole e a Penske monopolizou a primeira fila. Não fosse as bandeiras amarelas no fim da corrida e a concorrência nem teria conseguido ver mais dos carros de Roger Penske, que recuperaram a forma de anos anteriores. Bom para nós, brasileiros, uma vez que a dupla de pilotos da Penske é toda brasileira, e são franco-favoritos ao título, especialmente Gil de Ferran, que depois de penar nos anos anteriores com o pequeno esquema da Walker, agora tem o melhor time da CART por trás de si. E quem conhece Roger Penske sabe que dificilmente seu time irá baixar a guarda na luta pelo campeonato. Mas ainda tem muita corrida pela frente.

 

 

E, falando em corrida, a CART volta às pistas hoje, com os primeiros treinos livres e classificatórios para as 200 Milhas de Road América, em Elkhart Lake, prova disputada no maior circuito misto de todo o calendário. Uma prova onde os pilotos brasileiros têm tudo para repetir o show de Mid-Ohio. Christian Fittipaldi venceu a prova no ano passado, e está disposto a repetir a dose este ano. O problema é que a Penske, que arrasou a concorrência em Lexington, tem outros planos. A disputa promete ser boa...

 

 

A temporada de fofocas está indo a toda nos bastidores da F-CART. O destino de Michael Andretti em 2001 é uma incógnita. Andretti estaria pensando em ir para a IRL, onde correria bem menos e poderia ganhar bem mais do que ganha atualmente. Segundo o piloto americano, a temporada de 2001, com 22 etapas, vai ser desgastante demais e, sendo um dos pilotos mais velhos da categoria, Michael já pensa em começar a largar gradativamente as pistas para dedicar-se a família. Equanto isso, começam a especular-se quem iria para o lugar de Andretti na Newmann-Hass, caso se confirme sua saída da CART. Um dos mais cotados é Cristiano da Matta, que também está sendo cortejado por Chip Ganassi, que vai perder Juan Pablo Montoya para a F-1. Outro que pode dançar em sua atual situação é o americano Jimmy Vasser, que pode não correr mais pela Ganassi em 2001. Algumas certezas no que tange a alguns pilotos da CART: a Penske vai manter sua dupla de pilotos para 2001. Christian continua firme na Newmann-Hass, assim como Moreno é assegurado na Patrick. Maurício Gugelmim fica na PacWest. A Forsythe, por força da Players, seu principal patrocinador, vai manter a dupla Patrick Carpentier e Alexandre Tagliani. A Rahal também vai manter sua dupla de pilotos atual.

 

 

Luciano Burti volta a ser o favorito para ser o companheiro de Eddie Irvinne em 2001 na equipe Jaguar. Dario Franchiti, que fez alguns testes com o carro da equipe de F-1, foi uma decepção total, virando cerca de 2s mais lento que Burti. E pensar que a Mercedes, que patrocinou a entrada de Franchiti na F-CART, já pensou em traze-lo para a F-1 há algum tempo atrás...

 

 

A prova do GP Brasil está na balança nestes últimos dias, especialmente depois que foi aprovada a nova lei de restrição total à publicidade de cigarros em território brasileiro. Com isso, o Brasil praticamente se iguala a países como Inglaterra e Alemanha, onde a publicidade de  cigarros já foi banida há muito tempo. Mas, como somos do “3º Mundo”, Bernie Ecclestone já começou a fazer ameaças veladas de que a prova brasileira da F-1 pode ser rifada do calendário. A Bélgica passou por isso no ano passado e teve de dar um jeitinho para contornar a situação. Eu espero que o Brasil não repita o ato dos belgas. Cigarro é uma droga como qualquer outra e precisa ser combatida com atos firmes e corajosos. A F-1 pode sobreviver sem isso, e é preciso enfrentar o lobby das tabaqueiras. É uma guerra e toda guerra tem seus sacrifícios. Muitos amam a prova de F-1 em Interlagos, eu inclusive, mas atos como a nova restrição de publicidade, apesar de não ajudar muito a diminuir os males do cigarro, já é um começo, e atitudes como essa não podem ser desvirtuadas por interesses mesquinhos e econômicos, mesmo que em nome do esporte.

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