quarta-feira, 12 de novembro de 2025

ARQUIVO PISTA & BOX – AGOSTO DE 2000 – 11.08.2000

            Hora de voltar com um de meus antigos textos, e esta coluna foi publicada no dia 11 de agosto de 2.000, às vésperas do Grande Prêmio da Hungria daquele ano na temporada da F-1. Muito se falava da vitória espetacular de Rubens Barrichello na Alemanha na etapa anterior, mas como a jogar um balde de água fria nas expectativas de todos, Lucca de Montezemolo, então presidente da Ferrari à época, declarou que o brasileiro não disputaria o título, o que seria exclusividade de Michael Schumacher, e coincidência ou não, Barrichello começou a ter problemas que surgiam só com ele, ou o brasileiro não conseguia andar mais perto do então bicampeão alemão, o que geraria, claro, muitas teorias (ou não) de conspirações de que o time italiano desfavorecia Rubinho internamente. É um assunto que até hoje suscita discussões, de qual seria a “verdadeira” diferença entre as capacidades de Michael Schumacher e as de Barrichello, porque, pelo status de favorecimento da Ferrari ao alemão, o que deveria ser natural de Michael ser melhor que Rubens certamente acabou meio exacerbado. Talvez nunca saibamos a verdade do que rolou na política interna a portas fechadas naqueles dias... De resto, alguns tópicos rápidos sobre acontecimentos recentes no mundo da velocidade naquela semana, com alguns comentários. Então, uma boa leitura a todos, e em breve trago mais textos antigos aqui...

DE VOLTA À PISTA

            Chegou a hora do Grande Prêmio da Hungria, uma prova que, geralmente oferece boas emoções na pista do travado circuito de Hungaroring. O pessoal da F-1 chegou a Budapeste, a bela capital húngara ainda com as imagens da espetacular vitória de Rubens Barrichello no GP da Alemanha, há duas semanas atrás. E o assunto continua rendendo muito o que falar, no bom e no mal sentido.

            Para começar, falemos das coisas boas. Rubinho começa a capitalizar com a sua vitória na Alemanha, tanto que a Ferrari, a partir deste GP, estará com dois carros- reserva nos boxes, para atender a seus dois pilotos, e garantir que nenhum deles passe o que Rubens passou no treino de classificação da prova germânica. Este é um tratamento que nem mesmo Eddie Irvinne conseguiu ano passado, mesmo depois de ter sido a única esperança da equipe por quase meia temporada, depois do acidente que tirou Schumacher da corrida ao título. A vitória de Rubinho foi amplamente comemorada por toda a Itália e não há como negar que, para os italianos, é muito mais efusivo torcer para Barrichello, que tem ascendência italiana, do que pelo frio e gélido Schumacher. É aí que as coisas começam a complicar.

            Como que para esfriar os ânimos de todo mundo, Luca de Montezemolo, o presidente da Ferrari, já andou declarando em alto e bom tom que a meta da escuderia é fazer Michael Schumacher chegar ao título, e que seus pilotos, enquanto ele for o presidente da escuderia, não irão disputar nada entre si. Lógico que a vitória de Rubinho, mesmo espetacular, não iria mudar muito o “status quo” da escuderia italiana, mas declarar isso de maneira tão incisiva acabou pegando mal. Muita gente não gostou da atitude de Montezemolo, inclusive boa parte da imprensa especializada, que passou a nutrir, ainda que no íntimo, uma boa parte de antipatia pela equipe italiana, a mais carismática da F-1. Isso, aliado a novas declarações de Schumacher sobre Barrichello não ser tão rápido quanto ele, e à política aberta da McLaren de permitir que seus pilotos lutem o quanto puderem na pista, e até mesmo entre eles, privilegiando mais a esportividade, começam a resultar em uma fama negativa para a Ferrari que a escuderia, com certeza, não merece, mas pelas atitudes que vem tomando, poderia servir para se tomar mais vergonha na cara.

            Há muito tempo eu já dizia que era um erro uma equipe dar privilégio total a um só de seus pilotos. A Benetton fez isso com Schumacher, e depois que o alemão saiu, o time nunca mais foi o mesmo. A Ferrari estava seguindo mesmo caminho, mas depois de se ver privada de seu piloto em metade da temporada do ano passado, tinha que aprender o risco que corria. O time italiano aprendeu, mas ainda escorrega nos velhos hábitos.

            Lógico, Schumacher ainda é o primeiro piloto do time, e a vitória de Rubinho deveria servir para, no mínimo, mostrar à Ferrari que o time pode contar com ele para qualquer eventualidade. E, nas últimas corridas, Rubens tem carregado a Ferrari sozinho praticamente. São 3 corridas consecutivas que Schumacher não pontua, enquanto Rubinho pontuou em todas subindo ao pódio. Se levarmos em conta as últimas 5 corridas, os resultados são ainda mais favoráveis ao piloto brasileiro. Nas últimas 5 corridas Rubinho marcou 30 pontos, contra apenas 10 de Schumacher. É certo o time ainda ter a preferência pelo alemão, pois ele ainda lidera o campeonato e, teoricamente, é o piloto mais forte para enfrentar a concorrência da McLaren, mas denegrir a imagem de Barrichello publicamente como Montezemolo e Schumacher fizeram só complica as coisas. Pelo que Montezemolo disse, ficou a impressão de que Rubinho apenas “cumpriu a obrigação”, o que é pouco comparando-se o que ele fez na Alemanha. Pelo lado de Schumacher, ao se dizer mais rápido do que Rubinho, ele simplesmente rebaixou seu companheiro de equipe. Senna, quando tinha a companhia de Gerhard Berger na McLaren, nunca disse tal coisa, e nem precisava, mas nunca ter dito isso significava ter respeito também por Berger, que se não era como Senna, não podia ser taxado de lento. Com Rubinho e Schumacher é praticamente a mesma coisa. Schumacher é mais piloto que Barrichello, em consenso comum, mas isso não quer dizer que Barrichello não seja tão rápido quanto o alemão, o que o brasileiro já provou em várias vezes nesta temporada, ao pilotar praticamente tão rápido quanto Schumacher em algumas corridas. E, se lhe faltou sorte no início da temporada, Rubinho agora está resgatando o tempo perdido com sua regularidade. Está apenas 10 pontos atrás de seu companheiro de equipe e, depois do que foi feito nestes últimos dias, com certeza o que aumentou de gente torcendo intimamente para Schumacher “se danar” pelas suas declarações arrogantes certamente não pode ser definido nesta coluna. Schumacher não prima pelo bom mocismo entre os pilotos, os quais, aliás, vivem meio às turras com o alemão, como têm provado as recentes declarações de Jacques Villeneuve e David Coulthard à imprensa.

            Por isso, e muito mais, a torcida para que o piloto brasileiro inicie uma nova e vitoriosa fase em sua carreira na F-1 já a partir deste domingo, certamente aumentou exponencialmente. A primeira vitória certamente já ajudou Rubinho a ficar mais relaxado e calmo para fazer o seu trabalho. E o brasileiro sabe que, com paciência, outras oportunidades surgirão. Pode não ser na Hungria que veremos uma nova vitória de Barrichello na F-1, mas com certeza, Rubinho entra na pista hoje com outros olhos, e com sentimentos diferentes dos quais tinha quando entrava para os primeiros treinos oficiais dos GPs de anteriormente.

            É hora de voltar à pista. E que venham novos triunfos. A torcida por Barrichello conseguir mais é grande, e ela não é só brasileira, mas de boa parte da F-1, que precisa de novos ídolos com carisma, coisa que Schumacher até agora não conseguiu ter, pelo menos entre os não-germânicos...

 

 

Começam hoje também os treinos para o Grande Prêmio de Mid-Ohio, em Lexington, Estado de Ohio, nos Estados Unidos. É a volta da categoria aos circuitos mistos, o que pode significar uma nova virada para os pilotos brasileiros na categoria, que costumam se dar bem neste tipo de circuito. Já temos 5 vitórias brasileiras no campeonato e estamos firmes na luta pelo título. Mas a parada ainda é dura, e dificilmente se decidirá antes do final. Faltam nada menos do que 8 corridas para o encerramento do certame, e equilibrado como está, vários pilotos ainda estão tecnicamente na luta pelo título do ano 2000. Emoção é o que não vai faltar.

 

 

A CART divulgou sua prévia de calendário para o ano 2001. Como já era esperado, o mundial do ano que vem terá nada menos do que 22 corridas, um recorde na categoria nos últimos tempos. A maior novidade é que o GP do Brasil praticamente irá abrir a temporada, sem falar que a CART finalmente irá correr no Velho Continente, com etapas em ovais na Inglaterra e na Alemanha. Ainda faltam detalhes para serem decididos, mas tudo indica que a CART segue firme para o que deve ser sua expansão máxima pelo mundo, com uma etapa pelo menos em cada parte do mundo. O México também irá ter uma etapa.

 

 

Enquanto isso, começam a se delinear as feições de uma nova competição automobilística no Velho Continente, nas feições de uma categoria paralela à F-1, que terá o nome de Premier 1 GP, com participação dos times de futebol europeus. Com 12 corridas estimadas, a categoria correria com chassis Dallara de série, com motor Judd V-10 para todos os monopostos, de forma a tornar ainda mais primordial a capacidade do piloto. Melhor ainda é o fato de que esta nova categoria querer utilizar os circuitos “abandonados” pela F-1 atual, pois poderiam ser revitalizados. Muitos saudosistas da velha época da F-1 com certeza gostariam de ver estes circuitos em uso novamente. A lista é grande e tem alguns nomes de peso, como Zandvort, Donnington Park, Estoril, Jerez de La Fronteira, Dijon-Prenois, Zolder, Magny-Cours(a se confirmar o retorno do Grande Prêmio da França para Paul Ricard já em 2001), etc. Os manda-chuvas desta nova categoria dizem que já consultaram a FIA e tudo está OK para a sua efetivação. Mas, conhecendo Bernie Ecclestone, quero ver para crer. De qualquer maneira, os ideais da nova categoria, que privilegiar o talento dos pilotos e não a tecnologia de seus carros(por isso o fato de serem todos basicamente iguais) deve ser um bom começo, embora isso não signifique desempenhos parelhos, pois vai depender da qualidade das equipes também. Mas, de qualquer forma, é uma nova oportunidade de termos mais uma categoria automobilística. Se vai tentar rivalizar com a F-1, só o tempo dirá..

 

 

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