sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

ARQUIVO PISTA & BOX - JULHO DE 1997 - 11.07.1997



            Colocando hoje um de meus antigos textos, trago esta coluna datada de 11 de julho de 1997, onde o assunto discutido era o crescente cerco aos patrocínio de cigarro nas categorias automobilísticas, e minha opinião sobre empresas que fabricam uma droga prejudicial à saúde patrocinar esportes. Bem, o tempo passou, o patrocínio tabagista foi expurgado do mundo das corridas, e estas não acabaram por causa disso. É verdade que hoje em dia o automobilismo passa por uma crise de escassez de patrocinadores, mas é ridículo dizer que isso é culpa de as indústrias tabaqueiras não poderem mais expôr suas marcas nos carros de corrida. O mundo mudou, e para várias empresas que poderiam estar investindo na competição, deixou de ser vantajoso por uma série de outras razões, entre as quais regras bestas e frescuras políticas. Aproveitem o texto, e em breve tem mais...


FORA COM O CIGARRO

            O meio automobilístico vive momentos de certa apreensão nestes últimos dias. O motivo é o atual cerco às indústrias do cigarro, que são os principais patrocinadores de grande parte dos campeonatos do planeta. Não é exagero, pois desconheço categoria automobilística onde não haja sequer um patrocínio de alguma tabaqueira.
            Mas a situação está ficando feia para estas indústrias, pois diversos países estão estabelecendo regras muito rígidas em relação à publicidade do tabaco. Há países onde isso já vigora há muito tempo, como a Inglaterra e a Alemanha, onde é proibido qualquer publicidade de cigarro na TV. Mais recentemente, a França também adotou lei parecida. Agora é a vez da Itália banir a publicidade tabaqueira de sua TV. Até o fim do ano a lei deverá estar em vigor.
            Nos Estados Unidos, a situação não é menos rigorosa. A proibição total da publicidade do cigarro nas TVs americanas deverá vigorar em 1999. Como desgraça pouca é bobagem, o Canadá também estuda a sua lei anti-tabaco. A médio prazo, a situação das indústrias de cigarro tende a ficar crítica no quesito publicidade.
            E é justamente neste quesito que o meio automobilístico vive a ansiedade dos últimos dias. As indústrias tabaqueiras são os maiores patrocinadores de diversos campeonatos, times e pilotos. Na F-1, o investimento feito pelas tabaqueiras mundiais não é inferior a US$ 200 milhões por ano. Todos os times de ponta são bancados principalmente por indústrias do fumo: Williams (Rothmans), McLaren (West), Benetton (Mild Seven), Ferrari (Marlboro), Jordan (Benson & Hedges), e Ligier (Gauloises). Estes times sofrerão um duro golpe se não puderem mais ostentar os logotipos de seus patrocinadores. Só este ano, em 4 corridas as escuderias não poderão ter seus patrocínios de cigarro expostos: França (já realizada), Inglaterra (neste domingo), Alemanha, e o GP de Luxemburgo (a ser disputado em Nurburgring, na Alemanha). Com a entrada em vigor da lei anti-tabaco na Itália, serão 2 provas a mais em 1998 sem poder haver publicidade de cigarro, totalizando 6 corridas de possíveis 18. Isso sem contar o Canadá, o que pode elevar a conta para 7 etapas.
            Nos EUA, a situação pode complicar os campeonatos americanos e os que tem o maior número de suas etapas disputadas em solo estadunidense, como a F-CART e a Indy Lights. Outros campeonatos como a F-Atlantic e a Nascar também irão sofrer um duro golpe se não puderem mais contar com o patrocínio do tabaco.
            No caso da F-CART, diversas equipes tem patrocínios de cigarro, como a Penske (Marlboro), a Tasman (Marlboro), a Green (Kool), a PacWest (Hollywood), entre outras. No caso dos pilotos brasileiros, André Ribeiro, Maurício Gugelmim (F-CART), Hélio Castro Neves e Tony Kanaan (Indy Lights) precisarão correr atrás de novos patrocinadores.
            No meu entender, isso não deverá acarretar problemas insolúveis para as categorias. Basta arranjarem outros patrocinadores. Eu sempre detestei os patrocínios das indústrias do cigarro, pois isso é fazer propaganda de um produto que só faz mal à saúde. O cigarro nada mais é do que uma droga praticamente. A única coisa que a torna diferente das demais é que é uma droga “legalizada”. Do contrário, poderíamos ver até propagandas de cigarro disputando espaço com anúncios de outras drogas como maconha, heroína, crack, etc...
            Sempre achei imoral o patrocínio de eventos esportivos por um produto que faz exatamente o contrário de um dos ideais primários do esporte, que é a saúde física e mental. Demonstrada através da competição entre as pessoas. É fácil dizer que a indústria do cigarro dá empregos em diversos setores, mas prefiro pensar que isso é conseguido às custas da saúde de muita gente, que se envenena diariamente. Muitos têm plena consciência do que fazem, mas não estão nem aí para isso, pois a força do vício por vezes é avassaladora. Triste realidade.
            O automobilismo terá de procurar patrocínios em outras áreas. Bons exemplos de equipes que não dependem de patrocínios de cigarro podem ser encontrados facilmente. Na F-1, basta ver as equipes Sauber e Stewart. Na F-CART, vejam o caso da equipe Ganassi, Patrick, Newmann-Hass, Walker, entre outras. É só uma questão de se adaptar às novas regras.


A F-1 está em Silverstone, onde neste domingo disputa o Grande Prêmio da Inglaterra. Serão 61 voltas no circuito de 5,057 Km, totalizando 308,477 Km de percurso. Ano passado a Williams dominou a classificação com Damon Hill e a corrida com Jacques Villeneuve. Este ano, entretanto, o panorama na equipe Williams é bem diferente. A Ferrari é quem assume o papel de favorita, depois de vencer as últimas corridas, enquanto a Williams terá uma prova na base do vai ou racha: uma nova vitória de Michael Schumacher pode desencadear uma verdadeira crise na escuderia de Frank Williams...


A F-CART disputa no domingo o GP de Cleveland, realizado nas pistas do aeroporto do cidade, o Burke Lakefront Airport. O traçado, de 3,812 Km, tem até 50 metros de largura em vários pontos, facilitando eventuais ultrapassagens. A prova tem 343,128 Km de percurso, divididos em 90 voltas. Como a pista não tem zebras nem guard-rails, e não há praticamente nada além de grama em quase toda a extensão da pista, exceto próximo aos boxes, geralmente os pilotos tendem a ser mais ousados, e abusam um pouco do arrojo neste circuito. Ano passado a vitória foi de Gil de Ferran, que vem subindo de produção nas últimas corridas, terminando sempre no pódio.


Vai mal mesmo a situação da Lola, que já foi a maior fábrica de monopostos do mundo. O fracasso de seu projeto de F-1, adicionado às más performances de seus chassis na F-CART, deixaram um vasto rombo financeiro na companhia. A Lola já teve parte de seu controle acionário leiloado e a fábrica deve ser vendida até o fim do ano, possivelmente para a Reynbard. Eric Broadley, fundador da empresa, foi afastado da direção. Nem a equipe Lótus decaiu tão rápido...


Só para exemplificar o caso da Lola: alguém aí se lembra da March? Pois é...


A Ford estréia em Silverstone a nova especificação 7 do motor Zetec-S em corrida. Tanto Rubens Barrichello quanto Jan Magnussen só esperam conseguir verem a bandeirada de chegada na corrida...


Na tentativa de recuperar o seu GP, o governo de Portugal resolveu adquirir o autódromo do Estoril. O governo português também já se comprometeu a realizar as obras exigidas pela FIA, mas fica na dúvida a possibilidade de o GP ser disputado ainda este ano.

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