sexta-feira, 24 de abril de 2015

ALTOS E BAIXOS


No GP do Bahrein, a Red Bull destacou-se mais pelo impressionante estouro de motor em plena reta de chegada do que por sua performance, longe dos dias em que a equipe dominou a F-1, de 2010 a 2013.

            Lewis Hamilton venceu mais uma corrida, e periga disparar na liderança do campeonato de Fórmula 1 desta temporada, rumando para o provável tricampeonato, após o triunfo na etapa do Bahrein domingo passado. Mas tudo indica que a Ferrari pode complicar um pouco os planos do inglês e do time da Mercedes, que certamente está se sentindo ameaçado pela escuderia italiana, que mesmo sem conseguir bater os carros alemães na performance bruta, podem dar alguns sustos, pois as corridas ainda guardam algumas variáveis que nem sempre podem ser medidas adequadamente. O time vermelho, aliás, promete uma nova evolução de sua unidade de potência, com pelo menos mais 30 Hps a mais, onde espera certamente começar a não apenas incomodar, mas a superar. Claro que a Mercedes não ficará parada, e certamente tem condições de reagir. Como vai se dar esse embate, só as próximas etapas poderão responder.
            Quem já se deu conta de que não tem muito o que fazer este ano é a Red Bull. O time dos energéticos, que foi a sensação da categoria nos últimos anos, já viu que 2015 será um ano perdido. E finalmente parece estar ficando conformado com a realidade, o que deve dar alguma tranquilidade para, com a cabeça fria, tentar acertar o rumo junto com sua fornecedora de motores, a Renault, para que ambos consigam voltar a ser protagonistas do espetáculo, e não coadjuvantes. Mas, semanas atrás, o ambiente na equipe austríaca e com a fábrica francesa estava bem tenso, com direito a várias trocas de acusações de ambos os lados, pelo fracasso que está sendo a atual temporada.
            Depois de anos vivendo sob a égide do politicamente correto, com declarações "limpas", "educadas", e por que não "insossas", é até bom ver estas discussões, para mostrar que dá para ser um pouco menos chato e mais autêntico. De fato, a situação da Red Bull este ano até aqui tem sido um desastre, e para a Renault também não está sendo muito melhor. Mas a vida é feita de altos e baixos, e por mais esforço e competência que se tenha, sempre haverão os momentos de poucos resultados. E a gritaria da Red Bull nas últimas semanas mostrou que eles ficaram mal acostumados com seus anos de sucesso na categoria, esquecendo suas origens e o que é deixar de andar entre os primeiros.
            A escuderia "estreou" em 2005 na F-1, sucedendo a equipe Jaguar, que havia sido vendida pela Ford à organização de Dietrich Mateschitz, dono do império das bebidas energéticas Red Bull, que há anos já patrocinava equipes na categoria. Com uma organização renovada e sem as guerras de egos que inflaram a administração da Jaguar, logo em seu primeiro ano a Red Bull mostrou o que podia fazer com os recursos que a antiga escuderia possuía. Apenas colocando ordem no time, conseguiu em seu ano de estréia marcar 34 pontos, sendo que a Jaguar, de 2000 a 2004, conseguiu somar apenas 49 pontos em 5 temporadas completas. É verdade que os dois anos seguintes foram menos generosos, mas a escuderia estava se reorganizando, descobrindo os caminhos da competição na categoria. E tudo estava sendo feito com cuidado. A contratação de Adrian Newey para comandar a área técnica mostrava que o time não pensava pequeno. E teve a paciência necessária para ver seus esforços darem frutos, o que aconteceria somente a partir de 2009.
            Nesse ano, as condições combinaram para dar à Red Bull a força que eles desejavam ter: a reestruturação de sua área técnica havia sido concluída em 2008, o que deu a Newey plenas condições de, enfim, projetar os carros do time, aproveitando as novas regras técnicas. Calhou também de passarem a contar com o talento de Sebastian Vettel, que já havia mostrado do que era capaz no ano anterior, conseguindo uma magistral vitória no chuvoso GP da Itália daquele ano, conduzindo o carro da Toro Rosso, um carro médio. O time terminou o ano como vice-campeão, com suas primeiras vitórias na categoria, e o vice-campeonato de Vettel. Só não foram campeões devido ao sucesso da Brawn GP, que deixou todos desnorteados. Dali em diante, a Red Bull conheceu a glória na F-1, com nada menos do que 4 títulos de pilotos e construtores consecutivos.
            No ano passado, quando entrou em uso os novos motores híbridos e novas regras técnicas, eis que o time austríaco precisou levar o seu primeiro choque de realidade: não era mais o carro a ser batido. Mesmo assim, a escuderia terminou o ano com méritos: conseguiu vencer 3 corridas, e foi vice-campeã. Um desempenho que não pode ser considerado ruim, especialmente depois do que havíamos visto na pré-temporada de 2014, com os carros do time sofrendo todo tipo de problema não apenas a nível de monoposto, mas também na nova usina de potência turbo da Renault e os avançados sistemas de recuperação de energia. Se imaginava que, este ano, pelo menos a Renault conseguisse reverter parte da desvantagem demonstrada em sua unidade de potência, o que daria ao time chances de enfrentar melhor a nova força dominante, a Mercedes, cujo carro e motores passaram a dar as cartas na F-1.
            Deu tudo errado: não apenas o modelo RB11 é menos competitivo do que se imaginava, como as evoluções feitas pela Renault em sua unidade motriz revelaram-se desastrosas, com os franceses no momento atual estando à frente apenas da Honda, que retornou este ano à categoria. Totalmente inconformados com a situação, a direção da Red Bull chiou da situação atual, atacando praticamente a tudo e a todos, da Renault ao novo regulamento técnico. E, que se a situação não mudasse, poderia até deixar a F-1. Foi o que bastou para o time, que foi sinônimo de frescor no paddock asséptico da categoria na última década, ser taxado de mau perdedor e mimado, e que tinha adquirido, infelizmente, vários dos vícios dos outros times grandes da F-1.
            Mas a Red Bull não tem direito de chiar? Deve se conformar com a situação? Em primeiro lugar, condenar a postura da escuderia não é dizer que não tem o direito de reclamar da atual situação. Só que a chiadeira deles foi até extravagante, manchando sua reputação de competidor. É fácil gostar da competição quando se está ganhando tudo, ou sendo o favorito. Mas é quando a situação é difícil, e as chances são poucas, que se vislumbra o caráter e determinação de um verdadeiro competidor. Em toda corrida sempre haverá apenas um vencedor de fato. Se os demais times demonstrassem o chilique que acometeu a Red Bull e quisessem sair da F-1 apenas porque não estão tendo chances de ganhar, na prática ninguém mais iria competir. Equipes como Sauber, Lotus, Force India, e até mesmo a Williams e McLaren, pulariam fora. Mas não é assim que a coisa funciona.
            Pareceu fácil a Red Bull jogar toda a culpa do insucesso de 2015 na Renault, esquecendo-se que eles são parceiros desde 2007, e apenas nestas duas últimas temporadas os franceses estão devendo. Não foi à toa que a própria Renault, cansada de ser acusada como a única culpada, tenha passado a revidar as críticas públicas, ao afirmar o que todos já sabem: que o modelo 2015 do time dos energéticos também não é nenhuma maravilha. É um bom carro, mas não o suficiente para estar à altura dos monopostos produzidos pela escuderia desde 2009.
            Felizmente, os ânimos exaltados parecem já ter esfriado, e tanto Red Bull quanto Renault cessaram as críticas exacerbadas que trocaram a torto e a direito. Agora, é tentarem achar juntos as soluções para seus problemas. Não vai ser fácil, mas com a cabeça fria, eles podem trabalhar melhor. A Red Bull montou uma estrutura de time de ponta, e é hora de fazer isso valer a pena. Por seu lado, a Renault terá de trabalhar para recuperar-se do vexame que está passando este ano. Na verdade, é a única saída para ambos. Abandonar o barco poderia ser muito mais prejudicial para as marcas do que permanecer, embora isso não seja garantia de que eles permanecerão na categoria.
            Todos os times grandes da F-1 já tiveram seus momentos de altos e baixos. Ninguém consegue ser o melhor e mais bem-sucedido o tempo todo, mesmo que tenha todas as condições para isso. A Mercedes, por exemplo, colhe agora os esforços feitos desde 2010 para se tornar um time efetivamente vencedor, tendo começado a colher seus primeiros frutos a partir de 2013. Antes disso, na década de 1990, como fornecedora de motores, foi preciso aguardar algumas temporadas até conquistar sua primeira vitória. Eles iniciaram com a equipe Sauber em 1993, mas só venceram pela primeira vez em 1997, com a McLaren. A própria McLaren desfrutou de um período de sucesso arrasador na década de 1980, dominando os campeonatos de 1984, 1985, 1988, e 1989, e vencendo ainda o certame de 1986. Nos aos 1990, ainda venceu a competição em 1990 e 1991; em 1992 e 1993, acabou derrotada pela Williams, perdendo seus principais trunfos, os motores da Honda, e o brasileiro Ayrton Senna. Teve então 3 temporadas como coadjuvante, sem vencer uma prova sequer, em 1994, 1995, e 1996. Recentemente, o time também enfrenta uma escassez de vitórias, não conseguindo vencer corridas nas últimas duas temporadas, e iniciando este ano um novo projeto que deverá demorar a dar os resultados pretendidos. A Ferrari, maior desafiante da Mercedes este ano, teve um ano horroroso em 2014, com um carro e motor extremamente problemáticos, e conseguiu efetuar uma grande recuperação para este ano. Mas também houve um grande período de vacas magras para o time de Maranello, que ficou praticamente duas décadas sem ser campeão, entre 1980 e 1999, conseguindo neste período lutar poucas vezes pelo título, e enfrentando temporadas sem obter nenhuma vitória. Os italianos chiaram um bocado no período, mas seguiram em frente.
            É claro que eles também têm todo o direito de ficarem inconformados: a Red Bull despeja um caminhão de dinheiro na categoria, entre suas duas equipes, e quer resultados de todo esse investimento. Só que chiar agora das novas unidades motrizes não é a solução. Todos concordaram com o novo regulamento técnico de motores, anunciado ainda em 2012, sendo que todos os fabricantes tiveram tempo para desenvolver seus projetos. E a própria foi uma das incentivadoras da adoção da nova tecnologia. O que ela tem a fazer é trabalhar para resolver a situação como puder, do mesmo modo que a Red Bull vai tentar evoluir o seu modelo RB11. É um momento complicado, sim, de fato, mas tem de ser suportado, e superado. Basta ver o campeonato da Ferrari em 2014, e o seu momento atual, bem diferente, e bem mais otimista. É muito mais do que muitos esperavam depois da grande reformulação empreendida no ano passado, quando diversos profissionais e até a direção da escuderia foi trocada, imaginando que levariam algum tempo até deixarem tudo funcionando direitinho.
            O problema é que o próprio regulamento técnico complica e dificulta as possibilidades de uma reação bem sucedida. A Renault tem direito a 10 "fichas" para evoluir o seu motor, e se após esgotar estas "fichas", não conseguir resolver seus problemas, estará de fato bem complicada. E ainda tem o problema do limite de unidades disponíveis por piloto durante o ano, que é de "apenas" 4 unidades, um verdadeiro absurdo imposto pela FIA, que deveria ter mantido o limite que vigorava na última temporada dos propulsores atmosféricos, que era de 8 unidades por piloto por ano, número muito mais razoável do que o limite tanto de 2014 quanto de 2015. Daniel Ricciardo mandou pelos ares sua terceira unidade na reta de chegada de Sakhir domingo passado, e agora só tem direito a mais uma unidade. Se tiver de utilizar a quinta, perderá automaticamente 10 posições no grid, o que irá ser mais um problema para as pretensões da Red Bull de se recuperar na competição. E o problema do limite dos motores ronda também os pilotos da Toro Rosso e o companheiro de Ricciardo, Dannil Kvyat. Para o bem da competição, os times tentam negociar voltar pelo menos ao limite de 5 unidades, mas basta apenas uma discordância para tudo ir por água abaixo, e infelizmente, há vozes discordantes neste assunto, em especial de quem usa os motores da Mercedes. Neste ponto, as limitações impostas pelo regulamento na tentativa de conter custos na F-1 vai se mostrar totalmente contra a melhoria da competição, por impedir que os times possam melhorar seus motores com as regras de homologação e congelamento de desenvolvimento das unidades de potência.
            A Red Bull desfrutou bem de seus anos de altos. Agora, deve manter a dignidade e determinação neste período de baixa, confiante de que poderá superar suas dificuldades na competição. Por mais que suas reclamações sejam pertinentes, infelizmente não será assim que eles irão se recuperar. Vai ser preciso paciência e muito trabalho duro, em conjunto com a Renault. Resta saber se ambos terão a determinação necessária para superarem este momento difícil apesar de todas as agruras.


Depois da etapa de Long Beach, a Indy Racing League acelera novamente neste fim de semana, iniciando hoje os treinos para a etapa do Alabama, no circuito de Barber Motorsports Park, mais um autódromo de pista mista. O traçado tem 3,83 Km de extensão, com várias subidas e descidas, e apesar de alguns trechos de retas, é bastante travado, o que torna as disputas de posição complicadas na pista, e fazendo do treino de classificação amanhã um momento importantíssimo para quem tem planos de vencer a corrida, precisando contar também com uma eficiente estratégia nos momentos de reabastecimento. A corrida é disputada em 90 voltas, e no ano passado a vitória foi de Ryan Hunter-Reay, da equipe Andretti Autosports.

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