sexta-feira, 24 de julho de 2015

O PERIGO INERENTE DAS CORRIDAS



Aos 25 anos, Jules Bianchi faleceu após 9 meses em coma, depois de seu violento acidente sofrido na pista de Suzuka em 2014.

            Nesta terça-feira, Jules Bianchi, piloto que defendeu a equipe Marussia no campeonato de Fórmula 1 do ano passado, foi enterrado na cidade de Nice, na França. Jules sofreu um violento acidente durante o Grande Prêmio do Japão do ano passado, disputado debaixo de chuva, e escapou da pista devido ao piso molhado, acertando a parte traseira de um trator que se encontrava naquele local retirando o carro de Adrian Sutil, que havia escapado no mesmo ponto e rodado. Mas, ao contrário de Sutil, que bateu com pouca força, Bianchi escapou em alta velocidade, e o impacto com o trator arrancou a parte de cima de seu bólido, ocasionando uma desaceleração brutal que, segundo a FIA, foi de mais de 250G, ou falando mais claramente, mais de 250 vezes a força da gravidade.
            Apesar de atendido prontamente ainda na pista e levado para o hospital, onde passou por delicada e demorada cirurgia, as sequelas do acidente foram graves, com perspectiva de coma indefinido, com pouquíssimas, para não dizer praticamente inexistentes, chances de recuperação. E, na sexta-feira passada, Bianchi, que há meses havia sido transferido para uma instalação médica na França, encerrou sua luta pela vida, após praticamente 9 meses de sofrimento, tanto para o piloto quanto para sua família, que se manteve bravamente firme desde o ocorrido, mesmo sabendo das mínimas possibilidades de ver seu filho novamente consciente. Vários pilotos estiveram no funeral e no enterro, sentindo um peso que a categoria viu pela última vez em 1994, quando Ayrton Senna morreu. Sim, mais de duas décadas depois do fatídico GP de San Marino de 1994, a F-1 perdeu outro piloto em virtude de um acidente em um GP. E a categoria voltou a enfrentar um assunto que a deixou desnorteada naquele campeonato de 1994.
            Confluência de alguns fatores infelizes, não se pode afirmar que a F-1 é uma categoria insegura. As mortes de Roland Ratzemberger, e principalmente de Senna, durante o fim de semana da corrida de Ímola em 1994, desencadearam uma onda de melhoria de segurança inédita até então na categoria. Não que os carros fossem ruins, mas vários aspectos eram notoriamente negligenciados. Lembro-me de corridas onde os acidentes que haviam recebiam socorro com os demais competidores ainda em alta velocidade ao lado na pista, com a corrida em pleno andamento. De lá para cá, foram feitas diversas mudanças, tanto nos circuitos, como nos carros, e nos procedimentos de segurança.
            Carros e circuitos tornaram-se muito melhores e mais seguros. Os monopostos ficaram ainda mais resistentes e incorporaram diversos itens de proteção que tornaram os pilotos muito menos expostos do que eram anteriormente. Tivemos alguns acidentes feios nestes últimos 21 anos, mas o fato de não ter havido mortes, até o passamento de Bianchi semana passada, mostra que os esforços não foram em vão. A F-1 aprendeu com os acontecimentos de 1994, assim como adotou alguns novos procedimentos deste a prova do Japão de 2014, depois do violento acidente do piloto da Marussia acontecer.
            A morte de Jules é algo triste, mas não se pode ficar procurando culpados a torto e a direito para justificar sua morte. Deve-se aprender com os acontecimentos, e tomar providências para evitar que isso se repita. E também não se pode alegar que a F-1 passou por uma sensação de "falsa segurança" só porque ficou mais de 20 anos sem ver uma morte em seu campeonato. Nessas horas, é preciso lembrar de uma frase básica que resume bem uma das características das corridas: o automobilismo é um esporte perigoso! Nada mais, nada menos.
            Houve, claro, erro crasso da FIA e da FOM em não adiantar o horário da corrida, em virtude da chegada de um tufão que passaria ao largo da costa japonesa, mas tornando o tempo, justamente no horário de disputa da prova, temerário pela força da tempestade que trazia. Há algum tempo, para deixar as provas orientais mais atrativas, Bernie Ecclestone deixou as corridas com início mais para o horário da tarde, e naquele dia, mesmo com todos os indícios de que começar a corrida mais cedo seria garantia de melhor segurança de disputa da prova, o dirigente não cedeu aos apelos de se começar a prova mais cedo. E a FIA tão pouco se mexeu também neste sentido. E o dia, que começou com chuva fraca, foi vendo o tempo piorar a partir da tarde. Nesse ponto, é óbvio que os interesses comerciais se sobrepuseram escandalosamente em relação à segurança. Algo que não deveria acontecer, mas que acontece. E, num esporte que por natureza já é de risco, não se pode ser leviano em decisões deste tipo.
            Quando se anda a alta velocidade, por mais medidas de segurança que estejam implantadas, da segurança do veículo que se conduz, e quaisquer outros detalhes previamente planejados, não há como eliminar todo o risco potencial de uma competição do esporte a motor. Sempre pode acontecer algo inesperado, que foge ao planejamento, algo que surpreende a todos, ou quando todas as circunstâncias do momento se unem para tornar aquele evento um convite ao completo desastre. Ontem, na entrevista no paddock de Hungaroring, questionados sobre a morte de Jules, a maioria dos pilotos mostrava-se claramente pesarosa e triste com o ocorrido, mas ao mesmo tempo, também estavam determinados a não deixar isso afetar sua determinação na hora da competição, mostrando claramente estarem cientes dos riscos que correm em sua profissão, e que é preciso encará-lo, e aceitá-lo, ou então simplesmente mudar de profissão.
            Não há lugar para deixar o medo tomar conta. Desafiar os circuitos é ter de encarar a possibilidade de não ver a próxima curva. Acidentes podem sempre acontecer, e com consequências imprevisíveis. E, pior do que pilotar a mais de 300 Km/h, é fazer isso perturbado pela morte de um colega. Dentro do bólido, é preciso manter a concentração e o foco. É necessário esquecer o medo, ao mesmo tempo em que tem de estar consciente do que pode ocorrer. Todos os pilotos no funeral estavam transtornados com a morte de Jules, mas hoje, quando entrarem na pista, isto tudo terá de ficar para trás. Para os pilotos, entrar na pista, e acelerar fundo, é a melhor maneira de vencer o medo, a dúvida, o receio. A vida continua.
            Alguns dizem que faz-se barulho demais pela morte de um piloto apenas, depois de mais de duas décadas sem nenhum piloto ter morrido nas corridas da categoria. Se lembrarmos de outras épocas, como os anos 1970, onde os acidentes eram muito comuns, com quase todo ano alguém morrendo durante as corridas da temporada, podemos classificar os tempos atuais como extremamente seguros. Nos anos 1970, apesar dos avanços dos carros, a segurança dos mesmos era fraca, a ponto de alguns pilotos classificarem que correr naqueles anos era como se equilibrar em cima de uma banheira de gasolina com um charuto na boca. O menor deslize, ou percalço, e poderia haver um acidente, com consequências gravíssimas. Muita gente boa se perdeu naquele tempo, com vários pilotos morrendo na década.
François Cevert faleceu neste pavoroso acidente durante o fim de semana do GP dos EUA em 1973, na pista de Watkins Glen.
            Alguns dos casos mais conhecidos foram do austríaco Jochen Rindt, morto durante os treinos do GP da Itália de F-1 de 1970, do francês François Cevert, morto num acidente em Watkins Glen, Estados Unidos, em 1973; e do sueco Ronnie Peterson, que se acidentou na largada do GP da Itália, em Monza, em 1978. Mas vários outros pilotos perderam a vida naqueles tempos. Foram mesmo tempos muito ruins neste quesito. Não por acaso, Jackie Stewart, durante sua carreira, sempre foi um ferrenho defensor da melhoria das condições de segurança da F-1, numa época onde os pilotos não pensavam muito sobre o assunto. Daí o fato de, mesmo com tantas mortes em pouco tempo, se comparado com hoje, parecia não atingir tanto os pilotos, que estavam sempre prontos para outra na próxima corrida, fosse quem fosse que tivesse morrido.
            As melhorias de segurança foram evoluindo, e a partir dos anos 1980, as mortes diminuíram sensivelmente. De fato, desde a morte do italiano Ricardo Paletti no GP do Canadá de 1982, a F-1 passou mais de uma década até ver novamente a morte de um piloto em um fim de semana de GP, o que viria acontecer somente em San Marino em 1994. Nesse meio tempo, o italiano Elio de Angelis morreu testando a Brabham em uma sessão privada de testes em Paul Ricard em 1986. Seu carro perdeu a asa traseira, e a perda de pressão aerodinâmica fez com que seu carro acabasse capotando.
Acidentado durante a largada do Grande Prêmio da Itália de 1978, Ronnie Petterson morreria poucos dias depois em virtude das sequelas do acidente.
            Em momentos como esses, todos se perguntam se a F-1 adota realmente todos os procedimentos possíveis para prevenir acidentes que possam ceifar a vida de algum piloto. A categoria não está parada neste quesito, mas impõe-se pensar com clareza. Fala-se de fechar o cockpit dos carros da F-1, mas é inegável que a violência da pancada sofrida por Bianchi em Suzuka não teria sido menor se seu carro fosse totalmente fechado. Há também a questão cultural dos monopostos, que desde sempre nunca teve seu cockpit fechado, com os pilotos enfrentando o ar à sua frente, e encarando as interpéries quando estas surgem. Os próprios pilotos também não curtem este tipo de idéia de se fechar completamente o carro: é o desafio ao risco que os torna especiais. O público os aplaude porque eles fazem o que poucos podem fazer. Blindá-los totalmente tiraria parte da atratividade das corridas.
            O que não quer dizer que eles correm risco de morte a todo momento dentro do carro. As tecnologias de materiais compostos hoje tornam os carros da F-1 tão seguros quanto verdadeiros tanques, e os pilotos sabem que dentro dos cockpits gozam de grande segurança para fazerem o que sabem melhor: acelerar fundo! Mas mesmo toda essa segurança pode nunca ser suficiente também, dependendo do acidente que se sofre, como visto no infeliz caso de Jules.
            Cabe à F-1 e à FIA sempre observarem todos os pontos de um acidente ocorrido, e estudar como podem prevenir futuras ocorrências de novos acidentes. E ambos, em conjunto, já tomaram algumas medidas para impedir que se repita o que ocorreu em Suzuka. É o melhor legado que a morte de Bianchi pode deixar para a categoria. E torcer para que nada pior volte a acontecer. E também, para que a FIA e a FOM tomem e/ou deixem de tomar decisões cruciais em momentos em que elas são necessárias, devido aos imensos interesses comerciais que tanto ditam as regras da categoria nos últimos tempos. Não é pedir demais quando lembramos que durante as corridas, a entidade que comanda o esporte a motor parece exibir uma preocupação quase doentia com a segurança na pista - a ponto de querer punir qualquer toque entre os carros quando estes ocorrem, e depois acabar se omitindo como fez em Suzuka no ano passado. Fez-se muito para melhorar a segurança no automobilismo, é fato, mas além do perigo inerente que as corridas sempre trazem, é completamente dispensável o aumento de riscos que a falta de bom senso daqueles que comandam o esporte proporcionam.
            Jules Bianchi que o diga, infelizmente...


Hoje começam os treinos oficiais para o Grande Prêmio da Hungria de F-1. O circuito de Hungaroring é a pista mais travada do campeonato, depois do de Monte Carlo. Largar na frente aqui é imprescindível para se pensar em vitória, e com raras exceções, em praticamente 30 anos de prova húngara, isso se confirmou. No ano passado tivemos nesta pista uma bela corrida, graças à chuva que caiu antes do início da corrida, que ajudou a embaralhar as estratégias de vários pilotos e equipes, proporcionando a segunda vitória de Daniel Ricciardo na categoria. Mas, além do piloto australiano da Red Bull, quem saiu com a moral em alta da pista húngara mesmo foi Lewis Hamilton. O piloto inglês da Mercedes viu seu carro pegar fogo logo no início do treino de classificação, e precisou largar dos boxes, enquanto via seu único rival, Nico Rosberg, largar na pole e ter tudo para aumentar ainda mais sua vantagem no campeonato. Pois além da chuva, que já tinha acabado por complicar o início de corrida de todos, ainda tivemos o acidente de Marcus Ericsson, que motivou a entrada do Safety Car, e ajudou a revirar de vez o planejamento dos pilotos. Foi também o último pódio de Fernando Alonso, em 2° lugar, com a Ferrari, que claramente estava em um ano desastroso, que culminaria com sua demissão do time italiano. Seria interessante ver outra corrida interessante assim. Mas, mesmo sem chuva, pode haver surpresas: o calor está fortíssimo e isso pode influenciar fortemente no comportamento dos pneus na pista, lembrando que foi graças a este detalhe que Sebastian Vettel e a Ferrari surpreenderam a todos na Malásia, vencendo a corrida e desbancando a Mercedes pela primeira e até o presente momento, única vez no ano. Será que o time italiano terá chance de repetir o feito neste domingo? A conferir...


A Sauber anunciou ontem a manutenção de sua atual dupla de pilotos para a temporada 2016 da F-1. Assim, o time suíço continuará contando com os serviços do brasileiro Felipe Nasr e do sueco Marcus Ericsson. Fica agora a expectativa de que a escuderia consiga contar com um melhor aporte de recursos e efetuar um melhor planejamento técnico que a permita ter melhores desempenhos na próxima temporada. Este ano, devido à falta de recursos, o desenvolvimento do carro foi muito limitado, e o time já perdeu rendimento frente aos concorrentes do bloco intermediário, como Lotus e Force India. E a McLaren, mesmo com todos os seus problemas, também começa a incomodar...

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