sexta-feira, 16 de maio de 2014

MASSACRE PRATEADO


Alguém pode parar a Mercedes? Hamilton venceu pela quarta vez e assumiu a liderança da competição.

            Quem esperava uma reação, ainda que tímida, da concorrência frente ao poderio da equipe Mercedes na expectativa de ver alguma esperança para o campeonato de Fórmula 1 deste ano, saiu com os burros n'água após a bandeirada do Grande Prêmio da Espanha, realizado domingo passado em Barcelona. O domínio dos carros prateados foi ainda maior do que o esperado, e a corrida só não foi totalmente insossa porque houve expectativa de briga pela vitória entre os pilotos do time alemão, além de algumas disputas razoáveis no pelotão do "resto", com direito a uma grande recuperação de Sebastian Vettel, depois de enfrentar problemas a rodo nos treinos livres e de classificação.
            E quem venceu de novo foi Lewis Hamilton, que com sua 4ª vitória consecutiva, passa a liderar o mundial, com 3 pontos de vantagem sobre seu companheiro Nico Rosberg, que mais uma vez foi batido pelo colega inglês. E a cada vez que isso acontece vai dando ares de ficar cada vez mais incomodado. Mas não se pode descartar o alemão tão facilmente. Esta foi a segunda corrida onde Nico, apesar de ter andado sempre atrás de Hamilton, esteve sempre com o parceiro de time na mira, pronto para aproveitar qualquer escorregão do companheiro de equipe. A vantagem do inglês para Nico oscilou, mas nunca ficou muito grande. E, nas voltas finais, estava com mais ação para atacar e brigar pela vitória. Mas, a exemplo do que aconteceu no Bahrein, Hamilton conseguiu rechaçar os ataques, sendo que em Sakhir chegaram até a trocar de posições rapidamente, em um belo duelo que levantou o pessoal não apenas no circuito, mas no mundo inteiro.
            Apontar o inglês como campeão é fácil, mas Lewis não pode errar em nenhum momento. Nico está cada vez mais "mordido" com a incômoda situação de ver o parceiro vencer sempre, e em algum momento, ele pode conseguir o revide. Não vai ser fácil, porém. Hamilton vem guiando muito, e até o momento, mostrou ter mais "braço" para segurar a posição na pista, se bem que estando na frente, há certa vantagem no controle da posição. E em Barcelona, uma pista de difícil ultrapassagens, isso foi um ponto a favor do inglês, que conseguiu manter Rosberg sob controle.
            A disputa entre ambos, aliás, é a única atração do campeonato. Claro, atrás deles, todo mundo anda se batendo uns com os outros, mas é na luta para ser campeão que todo mundo presta atenção. Nico tem a melhor chance de sua carreira de repetir o feito do pai, Keke, que foi campeão em 1982 pela equipe Williams, e se tornar o segundo piloto de F-1 a repetir a façanha do pai sendo campeão na categoria máxima do automobilismo - até o presente, apenas Damon Hill, filho do bicampeão Graham Hill, logrou também a conquista do título na F-1. Uma derrota para Hamilton pode estigmatizar Nico, e iniciar uma descendente em sua carreira. Ou não. Depende dele apenas.
            Cada vez mais afirmam que o campeonato atual guarda similaridades com a temporada de 1988, que foi dominada de forma arrasadora pela McLaren, que venceu 15 das 16 corridas da temporada. E com pilotos que possuem estilos similares. Nico tem mais sobriedade e frieza, ficando com a posição que era de Alain Prost, enquanto Hamilton, pelo seu arrojo, lembra facilmente Ayrton Senna. Já fizeram inclusive menção ao inglês dessa comparação, e Lewis falou com todas as letras que no duelo atual, ele é "Senna", e com orgulho da comparação com o piloto brasileiro. Para Rosberg, a comparação infelizmente também tem um detalhe curioso que bate igualzinho ao momento atual: ele, assim como Prost, praticamente era o nome central do time. Alain estava na McLaren desde 1984, onde já havia sido bicampeão e vice-campeão, quando Ayrton chegou à escuderia. Estava mais do que convencido de que sua capacidade de pilotagem e frieza técnica poderiam dar conta do parceiro brasileiro, que àquela altura, era um talento já mundialmente reconhecido, mas que era apenas arrojado ao extremo. Era uma questão de descobrir os pontos fracos de Ayrton e se valer disso para sobrepujá-lo. Tinha sua lógica, mas Prost viu que o buraco era mais embaixo...
            Do mesmo modo, Nico comandou a Mercedes de 2010 a 2012, sobrepujando ninguém menos do que Michael Schumacher, que a bem da verdade, não se adaptou totalmente à nova F-1 que encontrara. Andava forte, é verdade, mas já não com a mesma genialidade de antes. Subestimado pelo que produzira em seus primeiros anos na F-1, correndo pela Williams, Nico certamente evoluiu na Mercedes. Se ele se superestimou por ter superado Schumacher nas 3 temporadas em que foram companheiros de equipe, já sabia que com Hamilton a parada seria mais dura. E foi o que aconteceu. Apesar de ter vencido 2 corridas, contra apenas 1 de Hamilton, Nico terminou o campeonato de 2013 na 6ª colocação, com 171 pontos. Hamilton, por sua vez, foi o 4° colocado, com 189 pontos. Nico foi pole 3 vezes; Hamilton, 4. O alemão não era mais o galo único do terreiro alemão, como Prost deixou de ser o rei do pedaço na McLaren em 1988.
            Prost era um adversário forte, e mesmo surpreendido com a força de Senna, conseguiu se impôr em vários momentos. Cabe a Nico fazer o mesmo, para evitar virar coadjuvante do companheiro de equipe. O que diferencia a posição de ambos em relação à dupla Senna-Prost é que Hamilton já foi campeão, e Rosberg não. Quando chegou à McLaren, Ayrton ainda buscava seu primeiro título. Currículo por currículo, os papéis são trocados. Mas o que deve incomodar Nico é o que vem depois no histórico: tricampeão em 1989, Prost saiu da McLaren, onde já não tinha mais clima para trabalhar junto com o brasileiro, e só foi ter chance efetiva de ser campeão em mais duas temporadas, 1990 - onde foi vice, e 1993, onde chegou ao 4° e último título. O sucesso de Hamilton irá minar o alemão na Mercedes? Pode acontecer, ou não. Vai depender do que os acontecimentos futuros proporcionarão a ambos. Fala-se na fofoca de a Mercedes trazer Alonso para seu lugar, o que acho difícil, pois o espanhol teria de engolir Hamilton novamente; ou até mesmo na possibilidade de Vettel ir para o time alemão, também no lugar de Nico, o que também acho difícil, pelo menos por enquanto.
            A rigor, no momento a Mercedes não tem porque se queixar de seus pilotos. Se possui um carro superior a todos os outros, impossível ter resultados melhores do que os obtidos até aqui, sendo que só não fizeram dobradinha na Austrália porque o carro de Lewis quebrou, o que não foi culpa do inglês. Mesmo que acabe derrotado por Hamilton, Nico precisa estar sempre atrás do inglês, tão perto quanto possível, para mostrar que o time pode contar com ele para vencer tanto quanto com o inglês. Mas se torna imperativo manter um ambiente fraterno dentro do time, sem rusgas e com disputas limpas na pista. É possível competir a fundo e ainda ser amigo de seu companheiro de equipe? É, mas vai exigir de ambos, e da escuderia, muita força e determinação para evitar maus momentos e especialmente egos inflados. Até o momento, a situação está sob controle.
            Para a concorrência, não há muito a fazer. A Red Bull cresceu bastante, mas enquanto o motor Renault não render tanto, ou até mais do que o motor Mercedes, o time dependerá mais de um abandono dos carros prateados para vencer do que qualquer outra coisa. E a situação só se aprofunda em relação aos outros times. A McLaren parece perdida; a Lotus, ainda que tenha melhorado bastante, é uma sombra do que foi ano passado; a Williams pode ser a 3ª ou a 4ª força, e nada mais; e a Ferrari, pra variar, errou de novo no projeto de seu carro. O consolo é que eles parecem se alternar nas performances, o que sugere que a briga para ver quem vai ser o campeão do "resto" do grid até pode ser interessante, resta saber quanto.
            E, se alguém acha que a prova espanhola viu um massacre da Mercedes só porque deram uma volta no 7° colocado, Kimmi Raikkonem, com a Ferrari, deveria saber que em 1988 houve situações piores. Basta mencionar que o GP de San Marino daquele ano apenas os dois pilotos da McLaren chegaram na mesma volta, com Senna a bater Prost por 2,3s, enquanto o 3° colocado, Nélson Piquet, com a Lotus, ficou a mais de uma volta atrás. E, contando-se apenas as primeiras 5 corridas, nas provas de Mônaco, México e Canadá, apenas os 3 primeiros colocados terminaram na mesma volta do vencedor. Ainda não houve situação parecida este ano, portanto, em 88 o massacre, em certos termos, foi ainda maior, pelo menos no fator performance frente aos rivais da concorrência.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

FLYING LAPS - ABRIL DE 2014



            Sempre acaba ficando algo para trás quando se faz um apanhado das notícias para tentar comentar sobre os acontecimentos do mundo do esporte a motor. Para tentar remediar um pouco isso, eis aqui a nova edição da Flying Laps, trazendo mais alguns acontecimentos de destaque do universo das corridas do mês passado. Uma boa leitura a todos...


A Red Bull acabou perdendo o recurso que impetrou no Tribunal de Apelações da FIA contra a desclassificação de Daniel Ricciardo na etapa inaugural do campeonato de F-1, em Melbourne, motivada pelo uso de um fluxômetro com dados de consumo irregulares. Além do mal humor pela perda do recurso, o time dos energéticos ainda trocou farpas com a Mercedes, que defendia que o time austríaco fosse suspenso por 3 corridas pelo ocorrido, o que deixou os ânimos exaltados. No GP da China, tentando fumar o cachimbo da paz, Niki Lauda tentou apaziguar os ânimos, mas a reação do time dos energéticos não teria sido das mais amigáveis, a ponto de um dos integrantes da Red Bull ter afirmado que eles diriam aos colegas da garagem vizinha onde eles poderiam enfiar aquela estrela de três pontas...


Mike Conway venceu o GP de Long Beach depois de uma bela corrida de recuperação para conseguir o seu 2° triunfo na Indy Racing League. Mas o que marcou mesmo a prova foi o acidente múltiplo causado por Ryan Hunter-Reay na parte final da corrida, quando tentou dividir uma curva com Josef Newgarden, após o piloto fazer sua parada de box e retornar ainda na liderança da corrida. Com os pneus ainda frios, Newgarden lutava para segurar o piloto da Andretti Autosport atrás de si, mas o americano resolveu tentar passar onde não dava, e como resultado, ambos foram parar no muro, dando início a uma reação em cadeia: James Hinchcliffe, que comboiava Ryan, entrou fundo na batida dos dois, espalhando os carros, que fecharam parte da pista e foram atingidos por quem vinha atrás. Entre as vítimas, Takuma Sato, Jack Hawksworht, e Tony Kanaan, que abandonaram no ato com seus carros detonados. Felizmente, ninguém se feriu gravemente nas batidas. Will Power escapou por sorte do rolo e fechou a corrida em 2° lugar, enquanto o colombiano Carlos Muñoz finalizou o pódio em 3° lugar. Hélio Castro Neves teve uma corrida apagada, e finalizou em 11°, após quase se enroscar também na batida iniciada por Hunter-Reay. Depois de ter um desempenho abaixo do esperado em São Petesburgo, Juan Pablo Montoya fez uma apresentação mais convincente em Long Beach, terminando a corrida em 4° lugar.


Os times da IRL anunciam a contratação de reforços para disputar as corridas de Indianápolis: enquanto a KV confirmou o nome de Townsend Bell para assumir o 3° carro da escuderia nas 500 Milhas, o time de Michael Andretti anunciou que terá um 5° carro na prova do GP de Indianápolis, no circuito misto, que será pilotado por Franck Montagny. Para a Indy500, a Andretti terá a participação de Kurt Bush. Outro convidado já anunciado no início do ano para as 500 milhas será o ex-campeão Jacques Villeneuve pela Schmidt Peterson, e Martin Plowman pela equipe de A. J. Foyt.


Ryan Hunter-Reay venceu a corrida do Alabama, 3ª etapa do campeonato 2014 da IRL, e redimiu-se em parte da furada cometida em Long Beach, onde causou um enrosco coletivo na tentativa de assumir a liderança que estava com Josef Newgarden. No circuito misto de Barber, o piloto da Andretti andou sempre entre os primeiros, e contou com um erro primário de Will Power para assumir a liderança, mantendo-se firme na pista molhada do circuito, que acabou vitimando vários pilotos. Alguns conseguiram sobreviver às saídas de pista ocasionadas pelo piso escorregadio, enquanto outros acabaram ficando pelo caminho. A equipe de Michael Andretti, aliás, fez dobradinha no pódio do Barber Motorsport: enquanto Ryan ficou com a vitória, Marco Andretti ficou com o 2° lugar. Scott Dixon sobreviveu às armadilhas da pista e subiu ao pódio na 3ª colocação. A prova, aliás, terminou sob bandeira amarela, devido à batida do novato Mikhail  Aleshin, que rodou a poucas voltas do final, saiu da pista e bateu com violência na barreira de pneus, com o carro voltando parcialmente para a pista junto com parte da proteção de pneus, o que exigiu a intervenção do Pace Car. Felizmente, o jovem russo nada sofreu. Para os brasileiros, a corrida foi complicada: Tony Kanaan largou em último, e passou a prova inteira tentando se recuperar, e acabou em 9° lugar; já Hélio Castro Neves, que largou em 6° e andou entre os primeiros no início, despencou para trás e terminou num ínfimo 19° lugar.


A direção da Indycar teve uma boa notícia neste mês de abril: os organizadores do GP de Long Beach renovaram o contrato para realização da corrida na cidade, que em 1984 estreou na F-Indy, e atualmente segue no calendário da IRL. A corrida estava sob risco de ser cooptada pela F-1, que pensava na possibilidade de voltar a correr na cidade californiana, como fazia até 1983. Seria um baque para a IRL, uma vez que a corrida é a mais badalada do calendário da categoria, depois das 500 Milhas de Indianápolis. Com o novo contrato, Long Beach tem sua corrida garantida no campeonato americano até 2018. O "affair" de Long Beach com a F-1 seria a solução para a categoria máxima do automobilismo fazer 2 corridas nos Estados Unidos, uma vez que a propalada corrida em Nova Jérsey parece cada vez mais longe de se realizar. Com a esnobada em relação à F-1, esta que se contente com a prova no circuito de Austin, no Texas, que pelo menos já mostrou ser um sucesso nas duas edições disputadas até agora.


E o francês Sebastien Ogier continua dando as cartas no Mundial de Rali. O piloto da Volkswagen averbou mais uma vitória na competição ao faturar a etapa de Portugal, sendo esta a sua 4ª vitória na prova lusitana. Mikko Hirvonen ficou em 2° lugar, seguido pelo norueguês Mads Ostberg. Na competição, Ogier lidera o campeonato com 91 pontos; Jari-Matti Latvala ocupa a 2ª colocação, com 62 pontos; e Ostberg é o 3°, com 48 pontos. A próxima etapa do mundial é no segundo final de semana de maio, na Argentina. Ah, e só para mencionar: Robert Kubic se acidentou novamente na competição, mas desta vez com pouca gravidade, tendo como maior prejuízo uma embreagem queimada. O polonês esta ficando "invicto" na competição, sofrendo acidentes em todas as etapas do ano até aqui...


O mês de abriu trouxe uma perda inestimável para o esporte brasileiro: Enquanto viajava para narrar um jogo da abertura do Campeonato Brasileiro de Futebol, em Uberlândia, Minas Gerais, no último dia 19 de abril, o narrador Luciano do Valle passou a se sentir mal no avião onde estava. Socorrido e levado para o hospital tão logo o avião aterrissou, infelizmente o mal súbito calou a voz do maior nome da narração esportiva da história da TV brasileira. A necropsia apontou infarto como causa da morte do locutor. Luciano tinha 66 anos, e estava em plena atividade, em que pese a idade já comprometer um pouco de sua lucidez e percepção ao microfone, confundindo alguns nomes e vez por outra perdendo um lance. Com praticamente 51 anos de carreira, Luciano notabilizou-se não apenas pela narração de eventos esportivos, mas também como empresário e incentivador de projetos esportivos. Quando deixou a TV Globo, no início dos anos 1980, ele migrou para a TV Record, e depois para a Bandeirantes, onde deu início a uma intensa programação esportiva na emissora, e onde estava até seus últimos dias. Para tanto, fez os brasileiros descobrirem o vôlei, e no fim dos anos 1980, trouxe a transmissão da Fórmula Indy para o Brasil, apostando no talento de Émerson Fittipaldi, que fizera sua carreira de piloto renascer na categoria americana. Outros esportes incentivados por Luciano na TV foram o basquete e o boxe, tendo narrado as lutas de Adilson Rodrigues, o Maguila, além das partidas onde vicejava o talento de Hortência e Paula. O Show do Esporte, transmitido aos domingos na Bandeirantes, exibia uma diversidade ímpar, só vista muitos anos depois quando surgiu a TV por assinatura em nosso país, com canais esportivos. E as transmissões esportivas da emissora não ficavam restritas a esse programa: Luciano trouxe também as partidas do futebol europeu, além dos jogos da NBA, a maior liga de basquete do mundo, apresentando os astros da modalidade ao público nacional, além do torneio da Liga do Futebol Americano, a NFL. Luciano narrou praticamente tudo quanto é esporte que se transmitiu neste país, de Olimpíadas a jogos de futebol, passando pela F-1, F-Indy, IRL, hóquei, sinuca, o diabo a quatro, e se hoje temos uma diversidade de eventos mostrados na TV, é em boa parte graças a ele, que abriu espaço para muitas modalidades que eram praticamente ignoradas pelas emissoras e pelos telespectadores. O narrador já tinha sofrido um AVC há 2 anos atrás, o que fez com que se afastasse uns tempos do trabalho. Além de se preparar para transmitir os jogos do Campeonato Brasileiro, ele também se preparava para a Copa do Mundo, em junho, após marcar escala novamente em Indianápolis para transmitir mais uma edição das 500 Milhas, como fizera nas vitórias brasileiras em 1989, 2001, 2002, 2009, e no ano passado. Sua voz se cala, mas a memória de seus feitos na narração e incentivo ao esporte em nosso país serão eternas. Seu velório aconteceu em Campinas, onde nasceu, e onde foi enterrado, no cemitério Parque Flamboyant. Descanse em paz, Luciano.
 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

ALGUÉM PODE REVIDAR?


No ano passado, a Mercedes já monopolizou a primeira fila na Espanha. Alguém é capaz de impedir o time alemão este ano? Façam suas apostas...

            Depois de 3 semanas de intervalo, entramos finalmente na melhor fase do campeonato da Fórmula 1. Estamos na Europa, berço natural da categoria, que possui um charme todo particular, diferente do visto das etapas disputadas do outro lado do mundo. Se dá para ficar encantado com a maneira como os australianos promovem sua corrida, não dá para ter a mesma empatia com as etapas da China e do Bahrein. A Malásia já consegue me cativar um pouco, mas ainda precisa caprichar muito. Não, voltar à Europa, e ver o paddock recheado com os motorhomes de todos os times é um colírio para os olhos. E para as escuderias, mais ainda.
            É aqui na Europa onde estão suas bases. E todas as equipes chegaram a Barcelona cheias de novidades. A ordem é revidar o massacre sofrido pelas hostes alemãs de Sttutgart, que até agora contabilizam 3 triunfos de Lewis Hamilton e 1 de Nico Rosberg. Quem vai conseguir dar o primeiro golpe no revide? Essa é a pergunta. Pela expectativa, a Red Bull é a maior favorita, mas podem haver surpresas...
            Nas primeiras etapas, os rubrotaurinos surpreenderam por conseguirem andar mais do que todos esperavam, ainda mais depois de vermos o time dos energéticos batendo cabeça e ficando pelo caminho em todos os dias de testes da pré-temporada. Resolvidos os problemas de superaquecimento das unidades de potência, o problema agora é a Renault acertar seus programas de gerenciamento e fazer aquilo gerar mais força motriz. No quesito chassi, o modelo RB10 já mostrou suas qualidades, que devem ficar ainda mais evidentes neste circuito. Desde que estreou na categoria em 1991, a pista da Catalunha tem o mérito de colocar à prova as qualidades de qualquer máquina, e também os seus defeitos. O refinamento aerodinâmico do carro de Sebastian Vettel e Daniel Ricciardo deve proporcionar um bom desempenho dos carros nesta pista. O problema vai ser na reta dos boxes, uma das maiores da temporada, e ponto preferencial de ultrapassagens. Se a Renault continuar claudicante em termos de potência bruta, vai ser complicado subir posições na corrida, e nem mesmo o sistema DRS costuma ajudar muito por estas bandas. Com um chassi novo, Vettel quer voltar a ser o astro principal, pelo menos dentro da Red Bull, onde anda visivelmente incomodado com o novo e abusado companheiro de equipe. Depois com a Mercedes na pista ele que se entenda...
            Mas há outros candidatos a querer revanche pelas derrotas sofridas até agora. A Ferrari trouxe também várias mudanças no F14T, e motivada pelo pódio de Fernando Alonso em Shangai, quer recuperar o rumo e se postar como a principal desafiadora da Mercedes. O que se espera é que Kimmi Raikkonen consiga se entender com o carro a tempo integral. Como estamos na Espanha, podem contar com Alonso dando tudo de si e um pouco mais. O asturiano chegou ao circuito sem muita empolgação, e até com certo pessimismo em acreditar que poderá de fato desafiar os favoritos Hamilton e Rosberg, mas também é uma tática de não criar expectativa, e tentar possivelmente surpreender os adversários. Mas Alonso afirma que lutar pelo pódio não está dentro das expectativas do time italiano, pelo menos nesta pista. A se confirmar o mau prognóstico, poderemos ver que o carro do time deste ano realmente vai dar muito trabalho e poucas esperanças. Possibilidade de se esquecer 2014 e mirar 2015? Não é impossível...
            A Williams tinha boas expectativas de voltar a andar entre os primeiros, depois dos bons resultados da pré-temporada, mas até agora não confirmou isso de fato, o que não significa que não tenham um bom carro. Mas eles precisam melhorar para não ficar dependendo de todos os detalhes se encaixarem como se deve. E o desenvolvimento a contento do FW36 é vital para que o time não fique para trás, visto que Red Bull e Force India aparentemente já se encontram à frente da armada de Grove em termos de performance, e a Ferrari pode também deixá-los para trás. E não podemos esquecer da McLaren, que vai tentar dar uma reviravolta na descendente que tomou o rumo da escuderia depois da boa prova de estréia na Austrália.
            É esperado um incremento geral na performance dos carros a partir desta corrida. Com mais dados, e mais certos dos limites dos sistemas de potência, além do aperfeiçoamento de detalhes em todos os carros, a diferença de performance para os tempos do ano passado devem se reduzir bastante, ajudando a calar aqueles que ficam apregoando que a F-1 anda mais lenta do que os outros carros. A proximidade com as sedes também ajuda os times a serem um pouco mais ousados no desenvolvimento, uma vez que o suporte das bases é mais rápido, pra não falar dos seus caminhões-oficina, que sempre podem dar uma ajuda em caso de necessidade.
            Mas o que todo mundo quer ver é quem vai conseguir peitar a Mercedes. Como todo sujeito que leva uma surra e quer revanche, cada time procurou se preparar como pôde para efetuar um contra-ataque. Mas, como quem ganha quer continuar na frente, a preocupação geral de todos é também com o desenvolvimento que a Mercedes pode ter conseguido da China para cá. A tendência mais aceita é que a vantagem dos carros alemães se mantenha. Os mais otimistas esperam que ela se reduza. Já os pessimistas nem é bom falar...
            O problema é que, a grosso modo, até agora não vimos o potencial do modelo W05 exigido a fundo, com exceção da corrida do Bahrein, onde Hamilton e Rosberg duelaram a fundo pela vitória, e onde exigiram mais de seus carros, enquanto nas demais provas isso não pôde ser visto na mesma intensidade. Nas provas de Melbourne, Sepang e Shangai, depois de certo momento da corrida, o que se via era manter a vantagem alcançada, de modo a não forçar o carro e resguardar o equipamento, prevenindo a possibilidade de uma quebra. De fato, no Albert Park, Nico Rosberg não precisou forçar além de certo ponto, até mesmo porque Lewis Hamilton abandonou logo no início. Mas na Malásia e na China, quem se acomodou na liderança foi Hamilton, com Nico aparentemente incapaz de andar todo o tempo no mesmo ritmo. Nestas corridas, a diferença do vencedor para o 2° colocado foi de 26s (Austrália), 17s (Malásia), e 18s (China). No duelo renhido do Bahrein, a diferença foi de 1s, mas se contabilizarmos o 3° colocado, a vantagem foi de 24s, e isso foi obtido em cerca de 10 voltas, o que dá uma idéia mais exata de quão rápido o carro da Mercedes pode ser. Se fizermos uma estimativa radical, com o bólido germânico podendo ser até 2s mais veloz do que a concorrência, dá para assustar mesmo, e reduzir bastante as chances de se eliminar tal desvantagem.
            É bom ver todo mundo com ambições renovadas de querer pelo menos desafiar a hegemonia da Mercedes, mas todo mundo deve ficar preparado para continuar assistindo o domínio dos carros prateados por mais algum tempo. Não vejo ninguém capaz no momento de andar na frente deles, pelo menos não nesta pista. Daqui a duas semanas, em Mônaco, aí já será outra história, mas falo disso daqui a duas semanas, depois de conferir o desempenho de todos neste GP da Espanha.


Pelo menos hoje os brasileiros têm mais um motivo para se animar: Felipe Nasr participa do primeiro treino livre com a Williams. Se contrato prevê a participação em 5 treinos de sexta durante a temporada. Este já vai ser o 3°, e até agora, os mecânicos e engenheiros têm elogiado a performance e o felling da nova esperança brasileira. E isso vai contar na hora de conseguir um lugar como piloto titular.


Começaram ontem os treinos para o GP de Indianápolis, novidade no calendário da Indy Racing League para esta temporada. Será uma prova disputada no circuito misto criado para receber a F-1 no ano 2000, e usado até 2007 pela categoria máxima do automobilismo. Nos últimos anos, o traçado misto do famoso circuito oval recebeu a MotoGP. Vejamos como se saem os carros da IRL. Uma notícia muito legal foi a Penske reviver o layout da Pennzoil que foi muito utilizado por Rick Mears nos seus tempos como piloto da escuderia nos anos 1980 na antiga Fórmula Indy, no carro que Hélio Castro Neves usará na Indy500 deste ano. Gil de Ferran também usou este visual quando correu no time de Jim Hall, durante as temporadas de 1995 e 1996 da Fórmula Indy.
No alto, o Penske de Rick Mears, quando corria na Fórmula Indy nos anos 1980; abaixo, o visual do carro do brasileiro Hélio Castro Neves para as 500 Milhas de Indianápolis deste ano.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

ARQUIVO PISTA & BOX - DEZEMBRO DE 1996 - 13.12.1996



            Voltando a trazer textos antigos na seção Arquivo, trago a penúltima coluna escrita por mim em 1996, falando um pouco do retorno de Nélson Piquet às competições automobilísticas, além de um pouco de suas atividades como empresário no automobilismo. Fora isso, notas rápidas sobre alguns acontecimentos no mundo do esporte a motor. Curtam o texto, e em breve trago mais colunas antigas...


O RETORNO DE PIQUET

            No último fim de semana o torcedor brasileiro sentiu um gosto que já não saboreava há muito tempo. Na primeira etapa da categoria Gran Turismo disputada em nosso país, no Autódromo Internacional de Curitiba, pudemos ver Nélson Piquet brindar novamente o público com o seu talento, pilotagem e velha classe, para delírio de seus fãs, que há tempos não tinham uma oportunidade como esta.
            Depois do seu violento acidente em Indianápolis, em 1992, que chegou a colocar em risco a sua vida, Nélson Piquet deu a volta por cima. Como pessoa e como piloto. Superou os traumas do acidente, recuperou-se, e em 1993, lá estava ele novamente no grid de largada da mais famosa prova do mundo do automobilismo. Uma prova de coragem e de talento.
            A carreira de piloto profissional acabou, infelizmente. Piquet agora só corre para se divertir. E como se diverte! Foi o que fez no último domingo. Correndo em parceria com Johnny Ceccoto, Piquet pegou o carro com uma boa vantagem e apenas a manteve, é verdade, mas a sua pilotagem, se não foi tão rápida quanto nos velhos tempos, pelo menos mostrou a classe que fez dele um tricampeão mundial de F-1 e um dos melhores pilotos de toda a história da categoria. E não deu outra: venceu a corrida, e pela primeira vez desde o GP do Canadá de 1991, na F-1, subiu ao degrau mais alto do pódio em uma corrida.
            Mais do que uma vitória do piloto Piquet, foi também uma vitória do empresário Piquet. Desde que largou a vida profissional de piloto, Nélson tem se empenhado em promover o automobilismo brasileiro. Uma de suas realizações foi a Copa Schincariol de Kart, realizada com patrocínio da cervejaria ituana e com custos bem mais acessíveis do que os demais campeonatos de kart nacionais. E a idéia deu tão certo que outros campeonatos similares foram criados. E com custos menores, permitindo um maior acesso de potenciais pilotos, incentivando a competição e criando novas feras para o futuro.
            Agora, Nélson Piquet atacou de novo, e conseguiu trazer para nosso país duas etapas extra-campeonato da classe Gran Turismo Endurance, uma categoria de prestígio na Europa. Piquet investiu cerca de US$ 1,5 milhão para realizar as duas etapas. A primeira, em Curitiba, foi um sucesso, e a segunda será no autódromo de Brasília, onde se espera um sucesso ainda maior. E com Piquet na pista acelerando também.
            Além da organização das duas etapas, Piquet assumiu a administração de ambos os autódromos citados, e já está trabalhando na organização das próximas 1000 Milhas Brasileiras, a ser realizada no Distrito Federal em 1997. Piquet tem a intenção de resgatar o prestígio e a tradição daquela que já foi a maior prova do automobilismo nacional. E, por tudo que pudemos ver até agora, ele deverá conseguir. Então se preparem, pois Nélson Piquet vem com tudo por aí...


Na última terça-feira, em Londres, Jackie Stewart fez a apresentação do seu carro de F-1, o SF-01, com o qual irá competir em 1997. Estiveram presentes os dois pilotos da escuderia, Jan Magnussen e Rubens Barrichello. O novo carro traz as cores da Texaco, que volta à F-1 depois de uma longa ausência, como fornecedores de combustíveis e lubrificantes, e dos patrocinadores do sudeste asiático. O carro é praticamente branco, decorado com listras idênticas às do capacete usado pelo velho tricampeão em atividade nas décadas de 1960 e 1970. E, antes de estrear, a Stewart já “ganhou” uma corrida: foi a primeira escuderia a mostrar pronto o seu modelo 97...


Nova mudança no calendário da F-1 para 1997: o Grande Prêmio da Europa, a ser disputado em Nurburgring, passa a se chamar Grande Prêmio de Luxemburgo, um pequeno principado situado entre a Bélgica e a Alemanha. Não é a primeira vez que a categoria usa este tipo de artifício: só para exemplificar, o Grande Prêmio de San Marino (um pequeno principado encravado em meio ao território da Itália) é disputado na verdade no circuito de Ímola, que fica em solo italiano, próximo à sede da Ferrari...


Mudanças técnicas nos carros da F-1 a partir da temporada de 1998: os monopostos terão sua largura reduzida de 200 cm para 180 cm. E os pneus lisos estarão proibidos: todos deverão ter ranhuras, o que teoricamente irá aumentar as áreas de frenagem, permitindo maiores chances de ultrapassagem, e diminuir a velocidade dos carros...


A Ferrari enfrenta sua sucessão de atrasos: o carro de 1997, que a escuderia prometia apresentar na próxima segunda-feira, não deverá ficar pronto antes de 16 de janeiro, para fúria da torcida ferrarista, e de Michael Schumacher, que queria começar os testes com o novo carro o quanto antes...


Mais uma mudança: a Lola, que iria disputar o mundial de 97 da F-1 com os motores Ford EC V-8, conseguiu mudar para os Ford Zetec-R V-8, evolução do motor que levou Michael Schumacher ao título de 1994...


E Ingo Hoffman estabeleceu um novo recorde na Stock Car: conquistou na etapa final, em Interlagos, o seu 9º título na categoria. Parabéns, Ingo!


E, para lembrar: Émerson Fittipaldi ainda não disse se vai abandonar as pistas como piloto, ou se continua a correr. Enquanto isso, o suspense continua, deixando fãs e a imprensa arrepiados com as especulações a respeito...


Semana passada, a equipe PacWest convidou vários jornalistas brasileiros para dar algumas voltas com o carro Reynard/Ford utilizado por Maurício Gugelmim nesta temporada, repetindo a dose da brincadeira feita em 1995. Desta vez os repórteres foram mais comportados com o monoposto, sem dar nenhuma rodada. É claro que o pessoal ficou empolgado, mas os tempos deixaram todo mundo meio frustrados. “Bem, pelo menos vocês deixaram o carro inteiro desta vez.”, brincou Gugelmim após uma “entrevista coletiva” com todos os “pilotos”. O teste foi feito em Sebring, na Flórida...


Com o abandono da Elf, a Williams arrumou outro fornecedor de combustíveis para a temporada de 97, a Castrol. A Benetton, outra equipe abastecida pela estatal francesa do petróleo, já acertou contrato com a Agip para a próxima temporada...


sexta-feira, 2 de maio de 2014

AYRTON SENNA, 20 ANOS


A largada do GP de San Marino de 1994. E 20 anos já se passaram...

            Parece até que foi ontem. As lembranças daquele Grande Prêmio de San Marino estão vivas na memória, como se a corrida tivesse sido disputada na semana passada. Mas já se vão 20 anos desde aquele fatídico final de semana, completados ontem, e muita coisa se passou de lá para cá. Foi o dia em que o Brasil, e o mundo, perdeu Ayrton Senna. Ídolo para muitos, rival para alguns, o brasileiro hoje vive na memória dos fãs, e seu legado permanece vivo. Para a Fórmula 1, tudo mudou depois daquele dia. Em muitos aspectos, para melhor. Em alguns, infelizmente, para pior. Mas, no geral, os benefícios superam os malefícios, ainda que, se fossem tomadas certas medidas, os poucos pontos negativos poderiam ser melhor contornados.
            Para lembrar a data, o canal pago SporTV passou a maior parte do dia de ontem reprisando corridas que marcaram a carreira do tricampeão de F-1. Foram exibidas, praticamente na íntegra, as etapas de Mônaco-1984 (primeiro pódio); Portugal-1985 (primeira vitória); Brasil-1986 (vitória de Nélson Piquet com dobradinha de Ayrton Senna em 2°); Espanha-1986 (vitória de Senna com diferença ínfima para Nigel Mansell); Japão-1988 (conquista do 1° título mundial); Japão-1989 (desclassificação após o acidente com Alain Prost); Japão-1990 (conquista do 2° título mundial, e vitória de Nélson Piquet em dobradinha com Roberto Moreno); Brasil-1991 (1ª vitória no Brasil); Donington-1993 (vitória de Senna em um show espetacular numa prova sob chuva intermitente); e Mônaco-1993 (6ª vitória em Monte Carlo, superando o feito de Graham Hill). Foram exibidos também edições especiais de alguns programas, sempre tendo Senna como tema.
            Foi ótima a oportunidade de rever algumas corridas antigas. Dá para lembrar como eram as provas antigamente, as estruturas da época, e como se faziam alguns procedimentos. A Globo deveria reprisar corridas antigas com mais regularidade, faria muito bem à memória dos fãs, e saudosistas. Não precisa ser nenhuma maratona, como foi ontem, mas agradaria a muitos fãs do esporte a motor.
A violenta batida na Tamburello, e o fim de uma das maiores carreiras do esporte a motor: morria Ayrton Senna.
            O GP de San Marino de 1994 foi realmente trágico. Começando pelo acidente de Rubens Barrichello na sexta-feira, com o brasileiro batendo forte, mas saindo praticamente ileso, com poucos ferimentos. Parecia um aquecimento para o que estava por vir. E foi. No sábado, no treino de classificação, morria o primeiro piloto de F-1 em um GP desde Ricardo Paletti, no Canadá em 1982. Já foi o suficiente para deixar o pessoal nervoso. Senna, já aturdido com o acidente de Rubinho, ficou ainda mais tenso. No domingo, sua fisionomia era tensa. A largada já foi complicada, com carros que ficaram parados no grid no arranque e que provocaram batidas por quem não conseguiu se desviar. O Safety Car, novidade naquele ano, entrou em ação, e depois da prova ser reiniciada, veio a batida fatal. Um acidente aparentemente sem muita violência, pois já tínhamos visto alguns mais tenebrosos, que felizmente, nunca tiveram complicações. Ledo engano. O pessoal do resgate chegou e começou um longo período de atendimento. Logo após a batida, Senna havia feito um breve movimento com a cabeça, de modo que todo mundo achava que o brasileiro estava apenas tonto com a violência da pancada, mas que era na verdade apenas a cabeça pendendo levemente. Os ferimentos verificados pela equipe de socorro já não deixavam dúvidas de que Ayrton provavelmente não viveria muito mais.
            Em seguida, tudo ficou confuso e complicado. O brasileiro era levado para Bolonha, onde tentariam, o que só se soube depois, o que já era impossível, salvar sua vida. A corrida foi recomeçada, e para os jornalistas, começou uma maratona sem linha de chegada, iniciando sua caça aos fatos e tendo de transmitir ao mundo o ocorrido. Na TV Globo, Galvão Bueno continuou narrando a prova, e Reginaldo Leme teve de se desdobrar para não apenas comentar, mas também atuar como repórter; Roberto Cabrini havia seguido para Bolonha, para acompanhar o drama de Senna. Na correria para melhorar o acompanhamento dos fatos, Pedro Bial foi chamado às pressas no escritório de Londres para auxiliar na cobertura. Os jornalistas europeus tinham mais facilidades: suas sedes deslocaram repórteres adicionais para dar suporte ao trabalho. Outros jornalistas do resto do mundo tiveram muito mais trabalho para cobrir tudo. Vários deles só puderam correr para o Hospital Maggiore, em Bolonha, somente após terminarem os trabalhos da corrida. Aliás, a Sala de Imprensa do autódromo nunca esteve tão agitada como naquele dia, com alguns profissionais conseguindo sair apenas de madrugada. No hospital, a situação já tinha ficado complicada, com os profissionais dando suas declarações, e os repórteres tendo de driblar as dificuldades de comunicação com seus veículos. Eram tempos pré-internet, lembrem-se. Não tínhamos as facilidades de transmissão de dados de hoje. O fax e o telefone eram os principais meios de comunicação. Os aparelhos passaram a ser disputados como nunca. Para todos que lá estiveram e acompanharam tudo, as memórias continuam frescas como nunca. E pensar que duas décadas se passaram desde então, dá o que pensar.
            Em Ímola, teve início ontem um conjunto de eventos destinados a lembrar dos 20 anos da morte de Senna que durarão até domingo.Só ontem, cerca de 20 mil pessoas estiveram presentes, a maioria torcedores do piloto brasileiro, que vieram de toda a Itália e de diversos locais do mundo. Estiveram presentes também pilotos, ex-pilotos, alguns profissionais e ex-profissionais da F-1, além de inúmeros jornalistas. O circuito passou por grandes reformas em tempos recentes. Ficou mais moderno, mas mesmo assim foi rebaixado pela FIA na sua classificação de pistas, de modo que hoje a F-1 não mais correria por ali. Uma pena. Ímola sempre foi uma pista da qual gostei muito, e sua exclusão da categoria se deu não apenas por questões comerciais, mas também de segurança.
A morte de Roland Ratzenberger chocou a todos, mas ele era apenas um novato, em um time pequeno, daí sua pouca "importância" para alguns...
            Segurança. Esse foi o grande e inestimável legado deixado pela morte de Senna. Se tivesse sido apenas a morte de Roland Ratzenberger, que no dia anterior, havia falecido ao bater violentamente no muro da Curva Villeneuve, provavelmente não teriam feito grande coisa. O austríaco era uma nota de rodapé na categoria, assim como seu time, a Simtek. Foi preciso a morte de um tricampeão, liderando uma corrida, em um time de ponta tradicional da categoria, e ao vivo, para mexer de fato com todos. A categoria então, entrou em uma cruzada para melhorar os padrões de segurança adotados. O resultado é que de lá para cá, ninguém mais morreu na F-1, pelo menos, nenhum piloto. E tivemos alguns acidentes fortes no período, como o de Robert Kubica no Canadá há alguns anos, que mostrou o quanto os F-1 hoje são muito melhores do que os de 1994.
            Os circuitos passaram por várias reformas. Ganharam melhores áreas de escape, curvas foram introduzidas. As exigências ficaram mais rígidas e severas. Houve perdas nessas áreas, contudo. As exigências inviabilizaram corridas em determinados circuitos, pela impossibilidade de se efetuarem reformas no grau exigido. Curvas, como a Tamburello, foram desfiguradas. Melhorar a segurança era necessário, mas acredito que em alguns casos, com um pouco mais de trabalho, poderiam ser mantidas algumas delas com menos traumas.
            Um aspecto negativo é que a preocupação com segurança se tornou em alguns casos, quase uma obsessão. Divididas de rodas dos pilotos, e até toques entre os carros, passaram a render punições e multas. Isso deixou muitas disputas na pista pasteurizadas, ou inibiu muitas delas, pelo receio de ser punido pelos fiscais. Um evidente exagero, que poderia ter sido evitado, e que infelizmente virou praga na categoria, esquecendo-se que o esporte a motor sempre será algo perigoso, e que ninguém que chega lá ignora isso ou pilota de forma irracional ou despreparado. Ninguém ignora o valor da segurança. Apenas não se pode literalmente transformar as corridas em um festival de frescuras de "não me toques".
            Para os brasileiros, a F-1 nunca mais foi a mesma. De fato. Deixávamos de ser protagonistas, para virarmos apenas coadjuvantes. Hoje, se Ayrton parece um mito ainda maior do que há anos atrás, é pela ausência de termos um novo campeão. Tivemos Émerson Fittipaldi, rendido por Nélson Piquet, que depois foi sucedido por Senna. A morte de Ayrton estancou a sucessão. Tínhamos pilotos com potencial, mas não houve tempo para conduzir uma mudança, como havia acontecido com nossos campeões anteriores. E, sem estarem no momento certo, no time certo, não havia como se tornarem protagonistas. E, quando chegaram a um time certo, este já tinha "dono", de modo que não dava para tentar dar as cartas ali. Falar que nossos campeões jamais se deixariam ser "subalternos" é fácil. Eles conquistaram seus lugares com méritos. Mas e se não tivessem conseguido "cavar" seus lugares? Tivemos um trio excepcional, que infelizmente não se repetiu na F-1. Ou que não teve as chances adequadas. As duas hipóteses, talento e oportunidade, são válidas. Em consequência disso, e mais também em virtude das más administrações da CBA, nosso automobilismo nacional hoje é uma sombra do que já foi. Há 20 anos, a pergunta que se fazia era qual de nossos pilotos poderia ser o novo campeão de F-1 quando lá chegasse. Hoje, a pergunta é se algum piloto brasileiro chegará lá.
            A falta de um novo campeão só aumenta ainda mais a perda de Ayrton. Se tivéssemos tido novos campeões, talvez sua mitificação fosse menor. Ainda seria lembrado e cultuado, mas talvez não aos níveis vistos hoje, alimentados por muitos que falam que a F-1 "só era boa no tempo do Senna", porque unicamente ele vencia, o que não acontece com nossos representantes hoje na categoria. Para alguns, o compromisso excessivo com a vitória era um trunfo e um pesar. Ayrton não tolerava perder, e se incomodava muito quando não vencia.
            Demonstração patente disso se viu no segundo semestre de 1992, quando viu suas chances de competição limitadas pelo carro "inferior" da McLaren em relação aos da Williams, já vistas no primeiro semestre, e que piorou quando soube que Alain Prost, contratado do time para 1993, havia vetado seu nome no time. Ele ficou irado, como se já não tivesse feito a mesma coisa com Derek Warwick na Lotus na década anterior. Dizia que correria até de graça, que ele era a única chance de a F-1 ter um campeonato disputado, etc. Chegou a encher o saco. Ficou na McLaren e fez um campeonato impecável em 1993, perdendo para Prost, mas de certa forma saindo como vencedor "moral" do ano, uma vez que ao francês era mera "obrigação" ser campeão com o melhor carro. Mas ele queria mais, e mais. Conseguiu ir para a Williams, enfim, mas como que por um castigo do destino pela ambição talvez desmedida, acabou vendo seu sonho virar um pesadelo, e sofrer um destino trágico.
            A imagem de Senna, cuidadosamente mantida pelo instituto criado por ele antes de sua morte e que leva seu nome, ajuda a alimentar a fama de "mito" cultuada pelo brasileiro. E a saudade de um momento onde Ayrton mostrava ao mundo que um brasileiro podia sim ser o melhor do mundo. O brasileiro é endeusado, como se fosse de fato alguém diferente de todos os outros. Não foi nada disso. Foi uma pessoa como qualquer outra, dotada de um talento fenomenal, que conseguiu deixar suas marca na história do esporte a motor, como um dos maiores campeões de sua história, com virtudes e defeitos como qualquer um. Um pouco mais de sobriedade ajuda também, o que não significa diminuir seus feitos na pista, e o que seu nome promoveu de positivo com seu trágico destino.
            Que Senna possa viver eternamente na memória de seus fãs e do esporte a motor, sem exageros e sem intolerâncias a quem discorda de seus feitos. Não tem nada pior do que ver as discussões irracionais quando alguns de seus "fãs" caem de pau em cima de alguém que não compartilha da adoração de seu nome. O brasileiro precisa aprender a crescer, em vários aspectos. E quem sabe quando isso acontecer, eles possam se espelhar de forma mais positiva no exemplo de determinação e profissionalismo mostrado por Ayrton, que foram determinantes para seu sucesso no automobilismo, e ajudar o Brasil a se tornar de fato um país melhor, sem os picaretas que vemos incrustados em nosso governo, e que só ajudam a desmerecer os esforços daqueles que trabalham honestamente e com ética e caráter...

 Aqui tem a minha coluna de automobilismo escrita na época, na seção ARQUIVO do blog: http://pista-e-box.blogspot.com.br/2011/06/arquivo-pista-box-maio-de-1994-i.html


quarta-feira, 30 de abril de 2014

COTAÇÃO AUTOMOBILÍSTICA - ABRIL DE 2014



            E lá vamos nós com mais uma COTAÇÃO AUTOMOBILÍSTICA, fazendo um balanço do que andou acontecendo neste último mês no mundo da velocidade. Como de costume, vamos às classificações: EM ALTA (caixa na cor verde); NA MESMA (caixa na cor azul); e EM BAIXA (caixa na cor vermelho-claro). Então, boa leitura a todos, e até a cotação do mês que vem, relacionando as primeiras corridas de alguns certames...



EM ALTA:

Equipe Mercedes: O time de Stuttgart continua ditando o ritmo do campeonato de F-1 deste ano. Foram 4 vitórias em 4 corridas, e só não fez a dobradinha em todas elas por que Lewis Hamilton abandonou com problemas mecânicos na Austrália. Nas demais corridas, seus pilotos ocuparam os dois primeiros lugares do pódio, e mesmo quando houve alguma dificuldade, como ocorreu com Nico Rosberg na China, não foi difícil recuperar o terreno e chegar à frente dos demais. Nem a Red Bull em seu melhor ano começou o campeonato de forma tão arrasadora. E a tendência é se manter assim ainda por várias corridas, enquanto a concorrência bate cabeças entre si.

Lewis Hamilton: Pode ser prematuro afirmar isso, mas o campeão de 2008 já pode ir comemorando o bi em 2014. Depois de abandonar a corrida inaugural em Melbourne, o inglês tratou de recuperar o tempo perdido, e ganhou todas as demais corridas, inclusive dando um baile no companheiro de equipe Nico Rosberg, que só deu combate de fato na etapa do Bahrein. No ritmo em que vai, e se nada o distrair em sua concentração, Hamilton assumirá a liderança do campeonato na próxima etapa, na Espanha, se repetir a performance exibida nas últimas corridas. Nico Rosberg que se cuide, pois o inglês está em ponto de bala.

Daniel Ricciardo: O piloto australiano vem se saindo melhor do que a encomenda em seu novo time, a Red Bull. Tão bem que Sebastian Vettel já começa a falar abertamente estar incomodado com as boas atuações do companheiro de equipe, que já chegou 3 vezes à sua frente nas corridas deste ano - incluído o GP da Austrália, onde acabou desclassificado. Nas duas últimas corridas, Daniel tem se sobressaído sobre o atual tetracampeão mundial, que recebeu por duas vezes a incômoda "ordem" do time para dar passagem ao australiano. Vettel ainda está na frente de Ricciardo no campeonato, mas a se persistir a atual situação, não vai demorar para o alemão ser passado para trás. Mark Webber, agora piloto da Porshe na Endurance, certamente deve estar mandando lembranças a Vettel, como votos de boas corridas a seu conterrâneo e sucessor no time da Red Bull...

Pedro Piquet: Mais um Piquet está iniciando sua carreira nos monopostos. O caçula o tricampeão Nélson Piquet, Pedro, está disputando a F-3 Brasileira, e teve um início arrasador na categoria. Competindo pela equipe Cesário Fórmula, e pilotando um carro com uma pintura inspirada na Brabham com a qual o pai foi bicampeão na F-1, Pedro venceu nada menos 3 das 4 primeiras corridas da competição, e foi 2° colocado na 4ª prova. Nem é preciso dizer que Piquet pai está todo orgulhoso com o início vitorioso do filho. Com trabalho e dedicação, e mostrando o talento que tem, certamente uma hora chegará na F-1. Só se espera que tenha mais sorte de cair no lugar certo na hora certa, o que não aconteceu com o irmão Nélson Ângelo...

Marc Márquez: O atual campeão e garoto-prodígio da categoria vai arrasando a concorrência, e conseguiu repetir a sequência de 3 vitórias consecutivas nas 3 primeiras corridas do campeonato, estabelecida há mais de 40 anos por Giácomo Agostini. Márquez até teve um pouco mais de trabalho na prova da Argentina, quando caiu algumas posições na largada, perdendo a vantagem da pole, mas não se intimidou, e foi para cima da concorrência, especialmente de Jorge Lorenzo, que resistiu o quanto pôde, mas não conseguiu resistir ao assédio do campeão, que na tocada atual, parece caminhar rumo ao bicampeonato ainda com mais facilidade do que quando conquistou seu primeiro título. Pelo jeito, a disputa da MotoGP em 2014 vai ser um luta pelo vice-campeonato, porque nem mesmo Dani Pedrosa está conseguindo acompanhar o ritmo de seu companheiro de equipe na Honda, estando em 2° no campeonato, mas a 19 pontos atrás. Valentino Rossi, da Yamaha, e 3° na classificação, está com apenas 41 pontos, bem distante dos 75 já acumulados por Márquez.



NA MESMA:

Pastor Maldonado: Que o piloto venezuelano é rápido, isso é sabido. Mas que ele também é estabanado, é ainda mais conhecido por todos, e Esteban Gutierrez sentiu isso ao vivo e a cores no Bahrein, onde acabou catapultado pelo piloto da Lotus, capotando e felizmente só ficando mesmo é tonto com a reviravolta que deu em pleno ar. Punido com apenas 5 posições a menos no grid da China e com alguns pontos na carteira pelo ocorrido, Pastor ainda conseguiu repetir, no 3° treino livre, a cena protagonizada por Lewis Hamilton em 2007, quando o inglês, estreante no ano, e liderando o campeonato, bateu sozinho na entrada de box do circuito de Shangai. Como foi dito, na época Hamilton era novato, e começava a sentir a pressão da luta pelo título, o que o levou ao erro. Maldonado, entretanto, já não é nenhum novato, e precisa aprender a dosar sua agressividade para evitar de arrumar confusões na pista, o que seria muito útil em um momento onde vem tomando de goleada no time para Romain Grossjean. Pelo menos na corrida chinesa ele se comportou, sem esbarrar em ninguém, depois de largar em último e nem mesmo participar da classificação devido à batida mencionada...

Reforma dos boxes do circuito de Interlagos: Que o palco do Grande Prêmio Brasil de F-1 precisa de melhorias, todos sabem. E como condição essencial para manter a etapa brasileira da categoria máxima do automobilismo, Bernie Ecclestone exigiu reformas no autódromo paulistano. E elas vão acontecer, com vistas a deixar o circuito todo renovado para 2015. Mas felizmente uma coisa não vai mais acontecer: a mudança dos boxes e paddock para a reta oposta. O novo projeto de reforma vai readequar os boxes e toda a estrutura central do paddock e comando da prova no seu atual lugar mesmo, e a idéia de mudar a posição de largada, junto com toda a estrutura, foi deixada de lado. Um ponto de bom senso, pelo menos, pois a atual posição dos boxes e da largada é a melhor possível, e em consulta aos pilotos, a grande maioria era contra a mudança dos boxes e da posição de largada da prova. Com uma estrutura reformada e ampliada, ninguém mais deve reclamar dos boxes apertados. Pelo visto, a experiência de Silverstone, onde mudaram a largada e todo o complexo do paddock há pouco tempo atrás não deve ter sido tão positiva como todos imaginavam...

Equilíbrio no campeonato da IRL: A Indy Racing League pode não ter conseguido ainda recuperar o prestígio e popularidade que sua antecessora Fórmula Indy tinha, mas ninguém pode negar que está apresentando um bom equilíbrio nas disputas. Em 3 corridas disputadas, tivemos 3 vencedores diferentes, e ninguém conseguiu se impôr aos demais até agora. Will Power lidera o campeonato, com 1 vitória, e vem mantendo-se firme graças à regularidade, mesma tática adotada por Ryan Hunter-Reay, que só não está melhor porque fez besteira em Long Beach quando duelava pela vitória. Penske e Ganassi, de quem se esperava o protagonismo da luta pelo campeonato, até agora não conseguiram impor sua força, e ainda estão sendo surpreendidos pela Andretti, e pelo desempenho de times menores, como a Schmidt Peterson, que tem Simon Pagenaud em 3° no campeonato, logo atrás de Power e Hunter-Reay. Pelo menos por enquanto, a disputa da competição segue bem embolada, com as corridas apresentando surpresas nas disputas, o que é ótimo. Esperemos que isso se mantenha firme durante todo o certame, e que vença o melhor.

Tony Kanaan: O piloto brasileiro esperava deixar os dias de incerteza vividos na KV nas últimas temporadas, quando apareceu a chance de ir para a equipe Ganassi, um time de ponta da IRL, onde finalmente poderia voltar a disputar um campeonato, uma vez que o time de Jimmy Vasser e Kevin Kalkhoven tinha muitos altos e baixos, e não conseguiu alcançar a constância necessária para melhorar. Só que o início no time de Chip está sendo mais complicado do que o baiano poderia imaginar, e até agora, Tony tem ficado bem atrás do parceiro de time, o atual campeão Scott Dixon. Em Barber, só para se ter uma idéia, Kanaan largou praticamente em último, enquanto Dixon largava em 5°. Nem mesmo a corrida complicada que foi a prova do Alabama ajudou muito Tony, que apesar da boa recuperação, chegou apenas em 9°. Conhecido por sua capacidade e talento, não é a estréia que Tony esperava no retorno a um time grande, e ele vai precisar trabalhar mais do que pensava para reverter o atual momento.

Duelo Honda X Yamaha na MotoGP: Mais uma temporada, e mais um duelo pelo título na categoria máxima do motociclismo entre os dois gigantes da categoria: os times oficiais da Honda e da Yamaha. As duas equipes tem os melhores equipamentos, e os melhores pilotos. No momento, a Honda conta com o melhor equipamento, o que mostrou na etapa da Argentina, onde a Honda fez a dobradinha com seus dois pilotos, seguidos pela dupla da Yamaha, com Valentino Rossi a ocupar a posição mais baixa do pódio. As duas marcas prometem empenho total na luta pelo título, que no momento tem apenas um favorito ao campeonato, que é Marc Márquez. Fica a expectativa se a Yamaha vai conseguir reagir. E, embora as novas regras dividindo os times em "fábrica" e "aberto" tenha dado uma revigorada aos outros competidores, que andaram complicando as coisas para os favoritos em alguns momentos nas provas iniciais do campeonato, todos concordam que é questão de tempo até Honda e Yamaha dispararem na frente. Ou será que não? O duelo promete ser renhido durante o ano todo.



EM BAIXA:

Equipe Williams: O tradicional time inglês está mostrando este ano que vai ter muitos altos e baixos durante a temporada. O carro exibe potencial para render bons resultados, e a dupla de pilotos de pilotos titulares sabe o que tem de fazer para alcançar bons resultados na pista. Mesmo assim, a escuderia vem enfrentando pequenos percalços em detalhes que acabam reduzindo as chances de se obterem melhores resultados. O modelo FW36 possui algumas deficiências que estão sendo devidamente trabalhadas pelo time, mas que deveria ser mais ágil na sua solução. Isso quando o azar das circunstâncias do momento não jogam a estratégia do time no lixo, como aconteceu com o Safety Car no Bahrein, impossibilitando-os de aproveitarem melhor sua tática de pneus. E enquanto isso, os mecânicos conseguiram arruinar a corrida de Felipe Massa na China, ao inverterem as posições dos pneus traseiros, com isso fazendo o brasileiro perder um tempo precioso no box que não foi possível recuperar na pista. O time está pontuando bem, mas ao mesmo tempo continua no meio do "bolo" na tabela do mundial de construtores, ocupando o 6° lugar, superando apenas a Toro Rosso, Sauber,  Lotus, e as nanicas Marussia e Caterham.

Red Bull: O time sensação da F-1 já teve ares muito mais arejados e descontraídos. O sucesso parece ter feito mal à escuderia, que já aderiu aos "vícios" exibidos pelos outros times de ponta da categoria. Se na pista o time vem recuperando seu ritmo, a ponto de já ser a melhor escuderia do "resto", fora da pista o clima anda exaltado, com críticas à Renault, às novas regras técnicas, e principalmente à perda do recurso contra a desclassificação de Daniel Ricciardo na Austrália por irregularidades no fluxômetro de combustível. Integrantes do time ainda trocaram farpas bem agressivas contra a Mercedes, que inicialmente clamava por uma punição mais dura ao time no caso do fluxômetro. É, Red Bull, que diferença de alguns anos atrás, quando o time era o mais "cuca fresca" de todo o paddock, e mostrava uma desenvoltura e carisma que conquistava a todos. Tinha até um jornalzinho próprio, com matérias legais e umas tiradas fora de série que todo mundo adorava ler, algo que não existe mais hoje, assim como o bom humor que existia por lá em abundância...

Stefano Domenicali: Com a falta de performance do F14T, não seria surpresa nenhuma a Ferrari entrar em crise novamente, e desta vez Luca de Montezemolo começou a tirar satisfações antes do que todos esperavam. E o primeiro a pagar o pato foi Stefano Domenicali, que para muitos já deveria ter sido demitido a tempos, tamanha a quantidade de erros cometidos pela escuderia rossa nos últimos anos. Nem os 23 anos de carreira no time italiano pareceram significar alguma coisa para Montezemolo, que o despediu sumariamente, em que pese a versão oficial de que o italiano "pediu" demissão. Apesar de muitos dizerem que Montezemolo também deveria ir para a rua pelas derrapadas que o time deu nos últimos campeonatos, foi mais fácil demitir Domenicali. É como no futebol, onde se o time vai mal, o técnico é o primeiro a ser mandado embora. Infelizmente, Stefano nunca teve a capacidade administrativa e estratégica de Jean Todt e de Ross Braw, e sua gestão mais "aberta" e flexível em um ambiente onde impera a prepotência e arrogância na cobrança de resultados para ontem a todo instante acabaram sendo fatais para sua permanência no cargo de chefe esportivo da Ferrari, justamente o time mais enrolado quando o assunto é política na F-1.

Equipe McLaren: O time de Woking pretendia deixar a péssima temporada de 2013 para trás, e na etapa da Austrália, até deu motivos para acreditarmos que os dias ruins ficariam mesmo para trás. Mas dali em diante a escuderia só foi decaindo nos resultados, a ponto de ficar praticamente sem conseguir pontuar nas últimas duas corridas: no Bahrein, foi por quebra nos dois carros; na China, por simplesmente não conseguirem chegar dentro da zona de pontuação. Em algum canto escondido, Martin Withmarsh deve estar dando algumas risadas, depois de ter sido destituído do comando do time de F-1 por Ron Dennis, numa clara indicação de ser ele o culpado pela decadência do time observada em 2013. Pelo visto, o buraco é mais embaixo, e como desgraça pouca é bobagem, até o presente momento o time inglês segue praticamente sem patrocinadores fixos nos carros, um indício extremamente ruim para um time de sucesso histórico como o da McLaren.

Equipe Audi na estréia do Mundial 2014 de Endurance: No seu 3° campeonato de disputa, a Endurance acalentava a expectativa de um duelo tríplice entre as grandes escuderias de fábrica na categoria LMP1, Audi, Toyota, e a Porshe. Mas, na etapa inaugural do certame, em Silverstone, quem deu as cartas foi a Toyota. o time japonês conseguiu surpreender a favorita Audi já na classificação, ao roubar a pole-position do time das quatro argolas. Nada para preocupar a Audi, mas no domingo, debaixo de chuva, eis que a escuderia campeã dos primeiros 2 campeonatos amargou ver seus dois carros ficarem pelo caminho, e ver uma dobradinha dos rivais nipônicos, que festejaram como nunca a vitória, e já saem na dianteira do campeonato. Foi o pior momento da Audi na Endurance desde praticamente a criação do campeonato, em 2012. O jeito é esperar melhor sorte na próxima etapa, e se certificar de que os rivais não tenham encomendado nenhuma dança da chuva, o que pode ser meio complicado, quando se sabe que Spa-Francorchamps, local da próxima corrida do WEC, é conhecido pelo seu clima instável durante as corridas de carros. Os times da F-1 que o digam...