
Pascal Wehrlein se tornou o segundo bicampeão da história da Formula-E, repetindo o feito de Jean-Éric Vergne.
A Formula-E encerrou
sua 12ª temporada há duas semanas atrás, coroando um novo bicampeão, mas acima
de tudo, o sucesso da competição de carros monopostos elétricos, que encerrou
com louvores a era dos carros Gen3, e agora prepara-se para uma nova revolução
com os novos carros Gen4, que serão os mais velozes e potentes bólidos de
competição puramente elétrica do planeta, a começar no final do ano. E, como de
costume, muita gente ainda torce o nariz para o certame, mas não há como negar
que, apesar de tudo, a F-E tem conseguido entregar um espetáculo melhor do que
muitas outras categorias, que só ficam à frente diante do nome e fama que
possuem, e não seria exagero dizer que a própria F-1 anda devendo no quesito
show, se comparado ao certame de carros monopostos elétricos, por mais que
muitos retruquem esse tipo de comparação.
Se na F-1 a competição é mais previsível, não se pode dizer o mesmo da F-E. Cada início de campeonato sempre pode ser uma surpresa, no que tange a quem vai dar as cartas na temporada, sendo que mesmo a primeira corrida por se mostrar equivocada na imagem que apresenta. Jake Dennis, da Andretti, por exemplo, venceu a primeira corrida, em São Paulo, mas só foi retomar a briga pelo título na reta final da temporada, depois de alguns percalços onde parecia que o inglês não estaria na briga.
Em termos de competitividade e imprevisibilidade, a competição continua oferecendo muitas surpresas e resultados inesperados. Mesmo que o título tenha ficado com um piloto de um time “grande” (Porsche), a F-E chegou para a rodada final em Londres, no Excel Arena, com nada menos que 4 pilotos aptos a conquistarem efetivamente o título da temporada, ainda que quase o dobro tivesse chances “apenas matemáticas”, o que mostra como a competição poderia ser ainda mais pulverizada. E, na corrida final, três pilotos ainda estavam na briga. E, durante a prova, a situação foi mudando de forma que pelo menos dois deles poderiam ter levado o título, enquanto o outro ainda precisava de uma combinação mais forte de resultados para ser efetivamente campeão.

A Nissan decai neste campeonato, e Oliver Rowland não conseguiu defender seu título como gostaria.
E a temporada, claro,
novamente deixou um ar de equilíbrio geral que ninguém pode reclamar em si,
mesmo que, no cômputo geral, não tenham brigado pelo título. Dos times na
competição, apenas a Envision não subiu ao degrau mais alto do pódio, com todos
os demais times conseguindo saborear o degrau mais alto do pódio durante o ano.
Dos pilotos no campeonato, 11 deles venceram corridas no ano, número impressionante,
pois mais da metade do grid recebeu a bandeirada de chegada em primeiro lugar
em algum momento, o que dá um percentual de 55% de vencedores no ano. Ninguém
pode desprezar tal feito, mesmo que aleguem que a maioria não brigou pelo
título da competição.
A Porsche, claro, foi a marca com o maior número de vitórias no ano: nada menos que 7 triunfos foram averbados pela fábrica alemã, sendo quatro delas com seu time de fábrica. Duas foram com a Andretti, e uma com a Kiro. A Jaguar venceu quatro provas, todas com seu time oficial de fábrica. A Stellantis triunfou em duas provas, dividindo um triunfo para a Citroen, e o outro para a DS Penske, ambas utilizando o trem de força da empresa, dividida em suas marcas. A Mahindra também conquistou dois triunfos, voltando a vencer depois de uma longa ausência, enquanto Nissan e Lola/Yamaha ficaram com apenas uma vitória cada uma. Para a marca nipônica, campeã na temporada anterior com Oliver Rowland, um resultado decepcionante para quem precisava defender o título de pilotos conquistado. Para a Lola e a Yamaha, um feito praticamente histórico em um a categoria de ponta, que não será esquecido tão cedo nos anais do esporte a motor.
Pascal Wehrlein foi o piloto com maior número de vitórias no ano, com três triunfos, o último deles na discutida primeira prova de Londres, diante da estratégia da Porsche de usar Nico Muller para “trancar” todos os adversários atrás de si, e garantir o triunfo do companheiro de equipe. Muller, aliás, parece ter cativado mais o time por sua disposição de ser “apenas” segundo piloto de Wehrlein do que pelos resultados, embora o alemão tenha garantido sua presença no degrau mais alto do pódio em Berlim, quando venceu a primeira prova do final de semana, e tenha pontuado com relativa constância em boa parte do campeonato, mas quase sempre em posições inferiores às de Pascal, mas que certamente deveria ter rendido mais, se levarmos em conta o desempenho que seu antecessor, Antonio Felix da Costa, obtinha na escuderia de Sttutgart. Mas deu para o gasto, especialmente para Wehrlein, que teve um colega de time que não desafiou sua posição na escuderia.

A Jaguar conquistou o título de equipes, mas perdeu o de pilotos, mas andou forte em várias corridas.
A Jaguar teve um
início de temporada meio complicado, com seus pilotos tendo diversos problemas
e percalços, mas recuperou-se e foi à luta, com Mith Evans chegando como único
piloto a não ter sido campeão para a rodada final dupla em Londres, e pronto a
quebrar a escrita. Antonio Felix da Costa teve um ano atribulado, mas brilhou
na Jaguar também, e foi peça central, à sua maneira, na decisão do título na
corrida final, quando também “trancou” parte da concorrência para tentar ajudar
Evans a chegar ao título. Mas o neozelandês já tinha perdido tempo útil
considerável para terminar em posição aquém da necessária para ser campeão.
Restou o consolo do título do campeonato de equipes, superando a Porsche
justamente nesta etapa final de campeonato. Foram duas vitórias de cada um dos
pilotos, consolidando a Jaguar na posição de uma das forças da temporada, e a
única equipe, além da Porsche, a vencer com seus dois pilotos.
Jake Dennis terminou vice-campeão com uma campanha meio irregular a meio da temporada, uma vez que a Andretti teve algumas instabilidades no ano, mas que Dennis soube driblar parcialmente, tendo Felipe Drugovich, o novo contratado, sentido mais estes problemas de performance, em boa parte por seu desempenho ainda como novato na competição, em outros diante dos problemas da escuderia. A Andretti encerrou sua parceria com a Porsche no fornecimento de trens de força, depois de vários atritos com a marca alemã, e por pouco não saiu vitoriosa no duelo de pilotos, visto que Pascal Wehrlein levou o título por meros 5 pontos, e devido a uma batida do próprio Pascal que atingiu o carro de Jake durante a prova final no Excel Arena que deu muito o que falar sobre isso.
E a Mahindra? O time indiano confirmou sua recuperação, e chegou a vencer duas corridas, mas vejam só: os triunfos vieram com Nyck De Vries, recuperando sua imagem de piloto na competição, depois da passagem malfadada pela F-1, e regresso titubeante à F-E, onde havia sido campeão com a Mercedes. Edoardo Mortara, desde o início da temporada, sempre foi o piloto com mais oportunidades criadas na disputa do campeonato, com chances até de brigar pelo título, inclusive com várias poles em diversos ePrix. Mas o suíço nunca conseguiu converter as boas posições de classificação em resultados firmes, e não foram poucos os momentos onde Mortara passou de favorito a azarão, e onde De Vries, de azarão, se viu agraciado por aproveitar melhor as oportunidades e voltar a vencer. Mortara ainda perdeu na última prova a 4º posição no campeonato para Oliver Rowland por justamente não ter uma vitória sequer, contra uma do inglês, mesmo tendo terminado empatados em pontos. A Mahindra já teve oportunidades de brigar pelo título, mas negava fogo na reta final, e parece não ter conseguido se livrar desse carma, depois de cair para o fim do grid e dar duro para voltar a ser competitiva na F-E. A escuderia terminou em 3º lugar na classificação de equipes da categoria, perdendo apenas para Jaguar e Porsche.

Nova esperança brasileira na categoria, Felipe Drugovich teve um ano de altos e baixos, mas conseguiu convencer e seguirá na equipe Andretti na próxima temporada.
A Nissan decaiu em
relação ao campeonato passado, mas a regularidade e capacidade de Oliver Rowland,
o campeão reinante, fez o britânico se manter vivo na disputa pelo título até a
penúltima etapa, tendo inclusive conquistado uma vitória no ano. Norman Nato,
por outro lado, foi novamente uma negação no time, sendo dispensado ao fim
desta temporada. Uma decisão da Nissan que se mostrou totalmente equivocada,
tendo sido influenciada, à época, por um bom resultado de Nato no WEC, fazendo
o time renovar com o francês, e desprezando os esforços de Sérgio Sette Câmara,
que preferiu deixar o posto de reserva do time japonês para tentar buscar
oportunidades melhores para o futuro. Nato foi ainda mais incipiente este ano
do que na temporada passada, e isso já mostrava um panorama nítido de que o
piloto não estava rendendo, e a nova oportunidade foi desperdiçada pela quase
completa falta de resultados demonstrados.
Felipe Drugovich, estreando como piloto titular da Andretti, sofreu o drama de ser novato na competição no princípio como se esperava, inclusive tendo alguns resultados comprometidos por punições decorrentes de infrações das regras, que roubaram alguns momentos de grande desempenho do piloto brasileiro, que além de ter de aprender a gerenciar com mais cuidado os sistemas de energia do carro da categoria, também se viu no confronto com Jake Dennis em grande desvantagem. Felipe, contudo, demonstrou grande crescimento durante o ano, ainda que os resultados não tenham vindo como se esperava. Mas um belo pódio em Mônaco, além de uma pole-position na etapa de Sanya, onde sempre andou entre os primeiros, confirmaram o potencial de Drugovich, com a Andretti vendo nele o talento que tanto os impressionou, a ponto de renovarem o seu contrato para a próxima temporada sem maiores problemas. Pesou contra Drugovich também uma certa irregularidade da equipe Andretti em algumas provas, onde Felipe acabou largando muito atrás, e tendo dificuldade de efetuar provas de recuperação com a desenvoltura necessária, resultando em terminar o ano apenas em 14º lugar, com 65 pontos. Com a estréia dos novos carros Gen4, Felipe entra em igualdade de condições com todos os demais pilotos do grid, podendo desenvolver melhor sua pilotagem na competição.
Mesmo possuindo o eficiente trem de força da Jaguar, a Envision pouco mostrou durante o campeonato, sendo a única escuderia a não vencer nenhuma prova, tendo apenas um 2º lugar de Sébastien Buemi como melhor resultado durante todo o campeonato. Joel Eriksson teve alguns momentos de brilho, mas não o suficiente para se sair melhor do que Buemi. Para um time que chegou a disputar o título recentemente, foi nítido ver como eles não conseguiram se acertar nos últimos anos para seguir como uma das forças do grid da competição. O resultado é que a Envision iniciará a era Gen4 com uma dupla totalmente nova de pilotos, procurando iniciar um novo e diferente momento na história da escuderia, uma das equipes que está presente no grid desde a primeira corrida, sempre presente em todas as corridas, até os dias atuais.
A Kiro venceu uma corrida, mas teve um ano muito irregular. Pepe Marti até que saiu razoavelmente bem para um novato na competição, conseguindo dois pódios no ano, mas Dan Ticktum colecionou problemas e desaires pela maior parte da temporada, arrumando confusões, dando críticas exacerbadas sobre a competição, e o próprio time, e terminando ano sem saber se alinhará no grid da próxima temporada, mesmo tendo conseguido vencer uma prova no ano. Infelizmente o destempero serviu para manchar a imagem do piloto, que continua rápido, mas também mostrou muita velocidade para se enroscar com rivais nas corridas, devido ao excesso de arrojo e agressividade. Isso resultou no inglês terminando na zona de pontos apenas em 4 etapas, o que dá uma dimensão da decepção do time com o comportamento do piloto neste último campeonato, quando a escuderia, melhor alinhada com o trem de força alemão da Porsche, tinha tudo para obter melhores resultados do que na temporada anterior. Como a Kiro seguirá usando o trem de força da Porsche, a escuderia segue bem cotada, esperando ter melhor sorte no próximo ano do que neste que se encerrou. A dupla de pilotos segue incerta.

Jake Dennis: vice-campeão por pouco, e uma bela discussão sobre esportividade com o novo bicampeão que vai dar o que falar...
A Lola/Yamaha, em seu
segundo ano de competição, se manteve como o conjunto mais fraco e deficiente
do grid. Qualquer melhora de performance obtida para o campeonato acabou
anulada pela evolução dos concorrentes, o que tornou a vida de Lucas Di Grassi
e Zane Maloney um verdadeiro calvário durante todo o ano, onde mesmo quando
conseguiam alguma posição mais relevante na largada acabava anulada pelo ritmo
de corrida menos eficiente. Ainda assim, Di Grassi conseguiu operar um
verdadeiro milagre no segundo ePrix de Shanghai, conjugando uma pilotagem
precisa a um senso de oportunidade e estratégia na pista molhada que
surpreendeu a todos de forma magistral, sendo vista como uma das vitórias mais
espetaculares e improváveis do mundo do esporte a motor nos últimos tempos.
Lucas, tendo anunciado sua aposentadoria como piloto, depois de dedicar os
últimos 12 anos à F-E, ao menos teve um momento magistral, mesmo esporádico,
digno do piloto vencedor que foi durante a maior parte da história da
categoria, tendo amargado correr com carros pouco competitivos nos últimos
anos, saindo de cena com a sensação do dever cumprido, justo ele, que foi o
vencedor da primeira corrida da história da categoria de carros monopostos
elétricos, ali mesmo, na China, em fins de 2014.
Em termos de equipes, o grid perdeu um time neste último ano, quando a McLaren resolveu tirar sua equipe de campo para se dedicar a partir de 2027 no Mundial de Endurance. Houve tratativas para se vender a estrutura da escuderia a quem tivesse interesse em entrar na competição, mas as tratativas não chegaram a termo, de modo que houve apenas 10 times e 20 pilotos na competição, marcando a primeira vez em que a F-E foi superada pela F-1 em número de times e pilotos participantes. Para o próximo campeonato, com a entrada do novo time da Opel, pela Stellantis, o número de competidores deve voltar a 11 equipes e 22 pilotos, e com a disposição inicial da Porsche de ter também uma segunda equipe própria, poderemos chegar a 12 times e 24 pilotos na nova era dos carros Gen4. Ou poderíamos, porque a fábrica alemã resolveu rever seus planos, e tudo indica que o segundo time próprio deixou de estar nos planos da Porsche, pelo menos, por hora.
Para a próxima temporada, a Porsche deverá ter apenas um time cliente, a Kiro. A Andretti, depois de vários anos usando o trem de força germânico, passa a usar o powertrain da Nissan, que neste último campeonato contou apenas com seu time próprio, já que a McLaren, que também usava o equipamento nipônico, pulou fora da competição. Isso deixa apenas Mahindra e Lola/Yamaha como únicos fabricantes do grid que equipam apenas a si próprios.
Todos estão com a expectativa em alta para a nova geração de carros. O Gen3 teve seus problemas iniciais de peças e fiabilidade quando começou, mas a remodelação com o Gen3EVO (de “evolução) não apenas corrigiu parte dos problemas iniciais como potencializou os objetivos esperados, terminando sua era na história da F-E com todos os méritos e elogios. Em outras palavras, uma temporada mais do que positiva, sem decepcionar quem já conhece a categoria com intimidade. Que venha a era Gen4!
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| Lucas Di Grassi: depois de 12 temporadas, o primeiro vencedor de um ePrix deixa a competição. encerrando uma era da F-E. |

