
Pascal Wehrlein chegou ao seu segundo título na Formula-E com a Porsche. Vitória na primeira prova de Londres foi essencial, mas os rivais não gostaram da atitude "tranca pista" de Nico Muller.
A Formula-E terminou sua 12ª temporada, encerrando a era dos carros Gen3, e coroando seu novo bicampeão, Pascal Wehrlein, da equipe oficial da Porsche. A decisão se deu na prova final, disputada no centro de convenções do Excel Arena, em Londres, e como não poderia deixar de ser, a corrida de encerramento foi um verdadeiro vendaval de emoções, com disputas a torto e a direito, com vencedores e derrotados na disputa, enquanto outros pilotos procuravam fechar o ano com o pé direito, enquanto outros se preparavam para dar adeus à categoria.
A vitória ficou com Taylor Barnard, que se tornou o mais jovem piloto a vencer uma corrida na F-E. O britânico, revelado pela equipe McLaren, já havia batido na trave em algumas ocasiões, mas desta vez superou a zica, e terminou o ano com o único momento de realce do time da DS Penske na temporada, onde a escuderia esteve longe até mesmo do pódio. E a Mahindra teve seu melhor desempenho coletivo no ano. A vitória escapou, mas Edoardo Mortara e Nyck De Vries fecharam o pódio com a 3ª e 2ª posições, respectivamente. Para Mortara, inclusive, fechou um ano onde o piloto não venceu nenhuma corrida, vendo o companheiro De Vries anotar dois triunfos.
Pascal Wehrlein marcou a pole e venceu a primeira corrida do fim de semana, dando o golpe fatal nas pretensões dos adversários, e conquistou o título, ou melhor, o bicampeonato com a melhor campanha de um piloto no ano, com 3 vitórias. Mas, apesar disso, não foi uma conquista fácil, e muito menos, “limpa” para alguns pilotos, pelo modo como a Porsche fez sua estratégia de corrida na rodada dupla final. Houve muitas críticas a Nico Muller, que atuando como escudeiro de Wehrlein, praticamente “trancou” todo mundo atrás dele, após a largada, quando ambos saíram na primeira fila, tática que se revelou eficiente na primeira corrida do fim de semana em Londres. O piloto, inclusive, não fez a pole de propósito para que Pascar largasse não apenas na primeira posição, mas arrebatasse os pontos da conquista da posição. Assim, na corrida, enquanto Wehrlein ia embora, formava-se uma fila de carros atrás de Muller, que mantinha um ritmo reduzido. Quando Jake Dennis conseguiu enfim se livrar de Nico, não houve tempo suficiente para tentar discutir a fundo a vitória com Wehrlein. Muller, após alguns entreveros com outros pilotos, terminaria a prova em 11º lugar, fora da zona de pontos.
De salientar também que o Excel Arena não é um circuito que permite ultrapassagens muito fácil, com os pilotos tendo que se arriscar muito para superar um adversário. E Muller cumpriu muito bem o trabalho como escudeiro, o que não é proibido pelo regulamento, mas ganhando críticas de vários adversários, não apenas os que disputavam o título, mas de outros pilotos que também se viram prejudicados pelo trabalho de “trancar” a pista para proteger Wehrlein e ajudá-lo a ganhar a corrida, que se tornaria vital para a conquista do título.

Mith Evans bateu na trave uma vez mais, e deixa a Jaguar sem conquistar um título.
Na corrida final, no domingo, a tática foi repetida, mas desta vez, a situação ficou mais complicada porque a dupla da Mahindra saiu na frente, mas os rivais na pista trataram de se livrar de Muller mais rapidamente, e aí, a tática do jogo de equipe também passou a ser feita pela Jaguar, com Antonio Felix da Costa passando à frente e “trancando” o ritmo, o que fez todo mundo grudar em Wehrlein, que perdeu o rebolado, e no meio das disputas, foi parar fora da zona de pontos. Mas o estrago potencial já havia sido feito, porque Mith Evans não conseguiu se livrar do tráfego com a desenvoltura necessária, terminando apenas em 4º lugar, e ficando a 9 pontos do piloto da Porsche.
Wehrlein, aliás, não ficou imune a confusões. Depois da disputa dura com Da Costa por posições na pista, eis que o alemão ainda se estranhou com Jake Dennis, quando o piloto da Andretti estava disputando posições, e acabaram se tocando, o que levou ao abandono de Dennis, que claro, ficou possesso com a atitude do novo bicampeão, pois aquilo praticamente jogou Jake fora da disputa, relegando o inglês ao vice-campeonato por uma diferença de apenas 5 pontos, disparando uma saraivada de críticas ao piloto da Porsche pela atitude.
Mas, como pimenta nos olhos dos outros é refresco, Wehrlein disparou sua metralhadora verbal também contra Antonio Felix da Costa, acusando o português de tentar “arruinar” sua corrida, e tentando justificar que o que a Jaguar fez na corrida de domingo foi muito diferente do que a Porsche fez no dia anterior. Os dois pilotos não se dão bem desde que dividiram a equipe oficial da Porsche, com Pascal e Antonio até se estranhando dentro da pista, sem razão alguma, e agora que estão em times diferentes, quando ambos se encontram na pista, sai faísca entre eles, que não fazem questão nenhuma de contemporizar. Wehrlein chegou a acusar o português de não saber crescer, esquecendo que ambos já eram pilotos campeões na F-E. O fato é que os rolos acabaram fazendo Da Costa terminar a prova final fora dos pontos, mas os resultados do fim de semana garantiram para a Jaguar o título de construtores, derrotando a Porsche pelo menos neste quesito. Mas os enroscos tiveram consequências: tanto Wehrlein quando Da Costa terão punição de 3 posições no grid na primeira corrida da próxima temporada. E nem é preciso dizer que a birra declarada por Wehrlein após conquistar o título passou mais uma má imagem de competidor do que alguém que, apesar de tudo, deveria estar é comemorando mais um título. E se Wehrlein já tem rusgas com Da Costa, parece que Jake Dennis também vai resolver engrossar o coro contra o alemão nas próximas vezes que dividirem a pista, com o britânico tendo sido fechado pelo agora bicampeão, quando a disputa entre ambos caminhava perigosamente na pista para dar Dennis como novo bicampeão. E a inimizade vai também para as equipes: a Andretti resolveu deixar de usar a motorização da Porsche para usar o equipamento da Nissan no próximo campeonato, descontente com o tratamento da marca alemã nos últimos tempos. Isso ainda vai dar o que falar, podem apostar, no que tange a futuras disputas entre Dennis e Da Costa contra Wehrlein na pista...

Jake Dennis quase leva o título, mas foi acertado por Wehrlein na segunda prova, e abandonou. O inglês promete que isso não será esquecido.
Mas o fato é que, por mais contestável esportivamente que possa ter sido a tática e estratégia da dupla da Porsche, faltou aos rivais saberem driblar a dificuldade. Todo mundo já sabia da necessidade de se largar bem no traçado do Excel Arena, portanto, a briga já começava na disputa da pole-position e das primeiras posições do grid, que seriam fundamentais para a estratégia de corrida, e foi aí que a Porsche deu o pulo do gato, colocando seus dois pilotos em posição de partida melhor que lhes deu condições para administrar os resultados, mesmo que isso significasse jogar de forma antidesportiva com Muller bloqueando todo mundo, mas sem ser desleal nas manobras, ficando sempre na posição central, e não dando espaço aos rivais, que não foram capazes de superar Nico como deveriam fazer. Na segunda corrida, Jake Dennis e a Andretti falharam ainda pior na classificação, largando muito atrás, o que exigiu uma corrida de recuperação que dificultou muito as chances do inglês.
Se a tática foi questionável, ambos os lados provaram do próprio veneno, com a Porsche sentindo na pele no domingo o que fizera no sábado com os rivais. E isso, mesmo que por vias meio tortas, transformou a parte final da segunda corrida numa disputa caótica, embolada, e imprevisível, onde Wehrlein, até então firme na zona de pontuação, chegou a despencar horrores diante da disputa frenética dos concorrentes, onde tudo podia acontecer.
Mith Evans não conseguiu superar as adversidades na primeira corrida, e por isso, suas chances ficaram comprometidas na segunda prova, onde o tempo perdido também atrás de Muller e outros pilotos comprometeu suas chances. Já Oliver Rowland, que também ambicionava o bicampeonato, nunca conseguiu apresentar uma performance decente na etapa final, ficando fora de combate da luta ao fim da primeira prova. Dos postulantes ao título, Evans era o único “virgem” na disputa, uma vez que Jake Dennis, Pascal Wehrlein e Oliver Rowland já tinham um título no currículo. E, infelizmente, Evans, que estava com a Jaguar desde que a marca entrou na F-E anos atrás, deixa a escuderia sem o tão almejado título. A Jaguar, aliás, amarga mais um título de pilotos perdido, enquanto a Porsche praticamente deu as cartas na era do Gen3, tendo os dois títulos de Wehrlein e o título de Jake Dennis, uma vez que a Andretti usava powertrain da fábrica alemã. A única exceção foi no ano passado, quando a Nissan foi campeã com Oliver Rowland. A Jaguar bem que tentou, mas sempre bateu na trave, seja por azares, erros próprios, ou problemas dos pilotos. Isso provocou até a saída de Nyck Cassidy do time ao fim da temporada anterior, procurando um lugar para “recomeçar”, na nova equipe Citroen, e agora, Evans repete o gesto, indo para o novo time da Opel, que estréia na próxima temporada.

Pascal Wehrlein não gostou de ser trancado por Antonio Felix da Costa, mas certamente gostou quando Nico Muller trancou todo mundo na corrida para favorecê-lo.
O único consolo é que a era dos carros Gen3, que começou até meio problemática há quatro anos atrás, não apenas se recuperou, como deu passos importantes adiante com a reformulação do modelo Gen3EVO, que sai de cena com a sensação de dever cumprido, abrindo as portas para a nova era dos carros Gen4. Foi também a despedida do Excel Arena do calendário, uma vez que a pista não seria adequada para os novos carros. No próximo ano, a pista de Brands Hatch entra no lugar da etapa de Londres, resolvendo essa questão de forma muito mais satisfatória.
Percalços à parte, a F-E entregou mais um campeonato com muitas disputas e com vários pilotos e equipes vencendo corridas. Tivemos 11 vencedores diferentes no ano, de 9 equipes diferentes, sendo que apenas a Envision saiu sem conquistar nenhuma vitória no ano. Um resultado altamente satisfatório para um campeonato de monopostos, que chegou à etapa final com vários pilotos ainda em condições de levar o título. Que venha a era Gen4, e que o nível de competição continue tão bom ou até melhor.
Lucas Di Grassi não teve a despedida que esperava das pistas. O fim de semana do piloto brasileiro em Londres foi cheio de frustrações, com dois abandonos por problemas no carro que dificultaram qualquer tentativa de um resultado minimamente satisfatório. Na corrida final, inclusive, a troca de componentes no carro levaram Lucas a ter de pagar um drive through no box logo no início da corrida, já arruinando completamente as possibilidades de tentar um resultado razoável, mas o carro ainda quebrou durante a prova, fazendo Di Grassi dar adeus à carreira na competição de uma maneira nem um pouco digna. Felipe Drugovich, já confirmado para permanecer na Andretti no próximo campeonato, não teve sorte muito melhor em Londres, tendo terminado a rodada dupla sem alcançar a zona de pontos. Felipe terminou o ano em 14º lugar, com 65 pontos, enquanto Di Grassi acabou em 17º lugar, com 32 pontos.
Outro campeão que se despede da Formula-E é Sébastien Buemi. O suíço, que foi o segundo campeão da competição, deixa o certame de carros monopostos elétricos para se dedicar à sua carreira no Mundial de Endurance, onde defende o time de fábrica da Toyota na classe Hypercar, e nos últimos anos, acabava ficando ausente de uma ou outra prova da F-E por conflito de datas com WEC. A Envision, inclusive, anunciou que terá uma dupla totalmente nova para a próxima temporada, indicando que Joel Eriksson também não fica no time, que ainda contará com a presença de Buemi fora da pista, ajudando o time a se desenvolver na nova era dos carros Gen4. Quem também não seguirá na competição de carros elétricos é Norman Nato, que já declarou que não segue na Nissan, que já garantiu a renovação com Oliver Rowland, e agora, analisa quem fará dupla com o campeão da temporada do ano passado. Nato acabou mantido no time para esta temporada, o que fez com que Sergio Sette Câmara, que tentava a vaga, deixar a escuderia, onde era piloto reserva e de testes, em busca de novas oportunidades. Sam Bird, atual piloto na função no time japonês, não é visto pela escuderia para assumir a vaga de titular.
A F-1 volta das férias de versão para a disputa do GP da Holanda, em Zandvoort, que faz sua despedida do calendário da categoria máxima do automobilismo. E a Red Bull ocupa parte do noticiário, com o desfalque de Isack Hadjar, que machucou o pulso durante as férias, e não poderá correr neste final de semana. Liam Lawson entra em seu lugar no time principal, enquanto a vaga do neozelandês na Racing Bulls será ocupada por Yuki Tsunoda, que retorna ao grid da competição nesta etapa, já que ocupa o posto de piloto reserva da Red Bull. A torcida, claro, é para Max Verstappen, que tal como no ano passado, está literalmente fora da briga pelo título em 2026, se bem que, nesta altura da temporada, em 2025, nada indicava que a Red Bull e o holandês fariam uma recuperação espetacular nas corridas seguintes, que aliada a erros da equipe McLaren e de seus pilotos, relançou o tetracampeão na disputa, terminando com o vice-campeonato, a apenas dois pontos do campeão Lando Norris. Este ano, contudo, a situação é bem mais complicada, mas não se pode menosprezar a chance de Verstappen conseguir dar show perante sua torcida, uma vez que o holandês vem conseguindo alguns pódios impressionantes na temporada, apesar do carro problemático que o time dos energéticos produziu para este ano.
A Williams, apesar do ano problemático que vem enfrentando na F-1, já anunciou a permanência de sua dupla atual de pilotos para a próxima temporada da competição. Alexander Albon foi o primeiro a ter a renovação divulgada oficialmente pela escuderia de Grove, e Carlos Sainz Jr. também já foi anunciado que seguirá no time. A Williams esperava aproveitar a entrada do novo regulamento técnico para continuar recuperando sua posição de competição no grid, mas o carro de 2026 saiu muito ruim, e com a melhora da Aston Martin prevista para a segunda metade da temporada, a Williams fica à frente apenas da Cadillac no grid, em termos de performance, em que pese a Haas também ter dado uma decaída nas últimas corridas, deixando a parte de trás do grid bem misturada entre estas três escuderias. Com o retorno das férias de verão, vamos ver quem ficará na lanterna do grid, e se Williams e Haas conseguirão promover alguma melhoria no desempenho de seus carros.