
Aprilia venceu tanto a corrida principal quanto a sprint no Texas, com a quinta vitória consecutiva de Marco Bezzecchi contadas as do final da temporada passada.
A MotoGP chega à
Europa para o Grande Prêmio da Espanha, na pista de Jerez de La Frontera, na
região da Andaluzia, e a pergunta que todos fazem é: a Aprilia vai manter a
hegemonia na competição de 2026? Todas as corridas principais tiveram triunfos
de Marco Bezzecchi, que lidera o campeonato com 81 pontos. E o vice-líder, por
coincidência, é Jorge Martin, seu companheiro de equipe, que vem logo atrás,
com 77 pontos. Quem poderia esperar por uma situação dessas?
Ninguém duvidava que, no último ano do atual regulamento técnico, a Ducati parecia vir com mais força do que em 2025, onde Marc Márquez, recém-chegado ao time de Borgo Panigale, literalmente varreu a concorrência na pistas da classe rainha da motovelocidade. A “Formiga Atômica” conquistou o sétimo título na classe rainha com uma facilidade que assustou os rivais. Nem “Pecco” Bagnaia, seu companheiro de equipe, conseguiu impôr resistência ao novo companheiro de time, e um possível e esperado duelo entre os dois nunca chegou a acontecer. Enquanto Bagnaia sofria com a GP25, Márquez parecia deslanchar como nunca, e conquistou o título com várias provas de antecedência, em Motegi.
O que se esperava para este ano era a manutenção do domínio da marca italiana, diante dos bons resultados de performance vistos na pré-temporada. Até Bagnaia parecia mais contente com a nova GP26, dando a indicar que finalmente poderia voltar a ser o velho “Pecco” de sempre, e complicar a situação ainda mais para os rivais, que não teriam apenas Marc Márquez para se preocupar.
Mas é claro também que os testes da pré-temporada indicavam que a Aprilia iria dar trabalho. A dúvida seria quanto trabalho a compatriota italiana, sediada em Noale, poderia se colocar na briga pelas vitórias. Já tínhamos visto a Aprilia surpreender alguns anos atrás, e até se colocar na briga pelo título, mas conforme a temporada avançava, o maior fôlego da Ducati se impôs, e a equipe de Noale despencou, ficando de fora da disputa. Mas, e agora?
Na Tailândia, prova que abria a temporada, depois dos bons testes da pré-temporada, foi uma surpresa vermos as Ducatis terem problemas. É bem verdade que Marc Márquez só não venceu a corrida sprint diante de uma punição polêmica aplicada ao heptacampeão, que numa disputa de posição empurrou Pedro Acosta, da KTM para fora da pista, o que levou a direção de prova a punir o espanhol da Ducati, o que entregou o triunfo para Acosta, deixando Márquez em 2º lugar. Mas Marco Bezzecchi, do time oficial de Noale, que tinha largado na pole, simplesmente caiu, por erro próprio, e portanto, parecia aquele cenário de que a Aprilia tinha potencial, mas precisava aproveitá-lo devidamente. Mas havia um recado velado ali: do 3º ao 5º colocado na prova sprint tailandesa, as posições foram ocupadas todas por motos Aprilia. Raul Fernandez, da equipe satélite Trackhouse, fechou o pódio, seguido por Ai Ogura, sem companheiro de equipe, enquanto Jorge Martin foi o 5º colocado com a Aprilia do time de fábrica.
Mas, na corrida principal, Bezzecchi não cometeu erros, e venceu com categoria. Pedro Acosta ainda foi o 2º colocado, mas Raul Fernandez repetiu o 3º lugar do pódio, com Jorge Martin em 4º, e Ai Ogura, em 5º. As quatro motos da Aprilia terminaram nos cinco primeiros lugares. E a Ducati? O melhor piloto da marca foi Fabio Di Giannantonio, da VR46, que recebeu a bandeirada em 6º lugar. Franco Morbidelli, também da VR46, foi o 8º, enquanto “Pecco” Bagnaia foi um decepcionante 9º colocado, sem conseguir batalhar pelas primeiras colocações. Mas tudo bem, início de temporada, e surpresas sempre são bem-vindas, até para dar mais tempero à competição, e vermos a toda-poderosa favorita Ducati fora de combate era um bônus que todo mundo imaginava seria momentâneo. A Aprilia roubava o show, mas a arquirrival de Noale precisava se preocupar com a virada que o time de Bolonha fatalmente iria aplicar, muito em breve, todos imaginavam.

"Pecco" Baganaia: boa pré-temporada, e de volta aos problemas com a moto tão logo o campeonato começou...
A etapa seguinte, aqui
no Brasil, seria novidade para todo mundo, portanto, novas surpresas
continuariam a ser bem-vindas. Na prova sprint, Marc Márquez confirmou os
temores de todos e garantiu mais uma vitória na prova curta. Giannantonio, em
2º lugar, parecia corroborar com o “retorno” da Ducati à posição de domínio que
todos esperavam, ainda que a dupla da Aprilia oficial estivesse por perto.
Jorge Martin terminou em 3º, logo à frente de Bezzecchi. Ai Ogura, em mais uma
boa prova, terminava em 5º. A Ducati estava de volta, mas a rival compatriota
poderia, sim, complicar um pouco a situação. Só que na corrida, foi a Aprilia
quem riu por último. Marco Bezzecchi averbou mais uma vitória, e agora, por
cima, ainda em dobradinha com Jorge Martin logo em 2º lugar, conquistando a
primeira dobradinha de uma escuderia no 1-2 em corridas na temporada. Fabio di
Giannantonio fechou o pódio com a VR46, logo à frente de Marc Márquez. Ai Ogura
fez outra bela corrida com a Trackhouse, e garantiu 3 motos Aprilia nos cinco
primeiros colocados. Quem poderia imaginar cenário tão interessante assim para
a temporada de 2026? Vice-campeão de 2025, Álex Márquez, da Gresini, teve seu
primeiro resultado positivo no ano, com a 6ª posição, mas em nenhum momento
brigou por posições mais à frente.
Certo, podemos dizer que a pista de Goiânia, novidade para todos os grid atual, pode ter bagunçado um pouco as expectativas, e com isso, vimos a Aprilia deitar e rolar em cima da concorrência. Mas, para todos os efeitos, tudo estava saindo melhor que a encomenda. Quanto mais tempo a Aprilia ficasse no comando, mais difículdades a Ducati teria para retomar o controle do campeonato, o que todo mundo achava que ocorreria mais cedo ou mais tarde. E o próximo palco da competição, o Circuito das Américas, em Austin, Texas, nos Estados Unidos, em tese, seria o palco perfeito para Marc Márquez voltar à baila, já que é o maior vencedor da pista texana. Ou, pelo menos, todo mundo imaginava que o script indicasse a retomada da Ducati ao degrau mais alto do pódio.
Só que, mais uma vez, as coisas não correram como ninguém esperava. Na prova sprint, a vitória foi de Jorge Martin, a sua primeira vitória, sprint ou não, em seu novo time, após deixar a Pramac. Martin reeditou seus duelos com Francesco Bagnaia, que estava surpreendentemente bem em Austin, mas não resistiu à investida do velho rival, e acabou sucumbindo no finalzinho da prova, terminando em 2º lugar, mas marcando uma possível reação do time oficial da Ducati, mas mais importante, dele mesmo na competição. E aqui quem teve azar foi Marco Bezzecchi, com seu segundo abandono em provas sprint no ano. Mas Marc Márquez, outrora “rei” de Austin, não foi muito melhor, tendo recebido a bandeirada apenas em 17º. Álex Márquez marcou presença com a Ducati da Gresini em 4º lugar. E a corrida de domingo seria ainda menos auspeciosa para as Ducatis. E novamente, a Aprilia fez nova dobradinha, com Bezzecchi averbando sua 3º vitória consecutiva no ano, com Jorge Martin logo atrás. Pedro Acosta, da KTM, fechou mais um pódio em 3º. As Ducatis de Giannantonio e Marc Márquez vieram a seguir, em 4º e 5º lugares.

Marc Márquez: o "rei do Texas" desta vez não conseguiu manter o trono na pista onde é o maior vencedor da competição.
Se contamos com as
corridas finais de 2025, já são nada menos que 5 vitórias consecutivas de Marco
Bezzecchi. O italiano fez uma escalada nas provas finais da temporada passada,
finalizando a temporada em 3º lugar, e neste ano, segue impecável, com três
vitórias em três corridas, e todas conquistadas sem “azares” ou percalços dos
rivais propriamente. Não apenas a Aprilia se mostrou melhor, como Bezzecchi
está tendo sua melhor temporada de sempre até aqui, e mostrando que a Aprilia
vai ser muito mais do que uma dor de cabeça momentânea para a Ducati, muito
mais do que todos imaginavam. Quem poderia imaginar que, decorridas três
corridas, seria a Aprilia a dar as cartas, de uma maneira que todos imaginavam
ser possível apenas para a Ducati proporcionar?
Isso só enaltece os esforços da equipe de Noale na preparação para a atual temporada da MotoGP, mesmo no último ano do atual regulamento, focada em ser uma rival à altura para a Ducati. Até porque as outras marcas no grid se mostram incapazes de oferecer resistência à performance das motos italianas. A Yamaha está afundada em seus trabalhos de desenvolver seu novo motor V4, que em tese só deverá apresentar resultados a partir de 2027, com a nova motorização de 850cc, em que pese o problema não ser apenas esse, mas da própria moto em si. A Honda ensaia uma recuperação, mas até o presente momento vive de brilhos ocasionais, e não mantém uma estabilidade de performance mais condizente com quem precisa batalhar pelas primeiras colocações. A KTM poderia oferecer mais desempenho, mas só o fato de ainda estar firme no grid, depois de toda a crise econômica vivida no ano passado, que comprometeu a viabilidade de toda a marca, e não apenas de seus projetos do esporte a motor, ela está fazendo muito, e Pedro Acosta, principalmente, vem dando certo combate nas corridas. A Ducati, mesmo com seus problemas, não está fora do páreo, e pode ressurgir a qualquer momento, não podendo ser subestimada.
Por isso mesmo, o momento agora é de caça à Aprilia, que assume ares momentâneos de claro favoritismo na competição. E a prova em Jerez fica com a questão: Ela manterá sua hegemonia, ou a Ducati dará enfim a resposta na pista? É curioso ver como os testes da pré-temporada mostraram que a Ducati parecia ter em mãos uma moto muito superior à de 2025, e que teria tudo para manter ou até ampliar a hegemonia em 2026, até porque, além do time de fábrica, Fabio Di Giannantonio e Álex Márquez conduzem a mesma GP26 de Marc Márquez e Francesco Bagnaia, ficando Fermin Aldeguer e Franco Morbidelli com a “velha” GP25. Já se esperava uma Aprilia forte pelo que vimos nos testes da pré-temporada, confirmando a rival de Noale como principal desafiante da casa de Bolonha, em um duelo tipicamente italiano, mas não se imaginava que a Aprilia conseguiria desbancar a Ducati com tal capacidade. É cedo para afirmar que a marca de Noale vai exibir essa mesma forma por todo o campeonato, afinal ainda tempos quase toda a temporada ainda pela frente, e Jerez é apenas a 4ª prova na competição. Mas quem poderia imaginar que o poderio teórico da Ducati se esvaneceria dessa maneira, tão logo de cara?
Isso indica que a nova GP26 não saiu perfeita como se esperava, pelos trabalhos desenvolvidos na pré-temporada. Não que não seja uma moto competitiva, mas no presente momento, parece inferior às RS-GP da Aprilia. Mas, também ajuda a colocar em perspectiva que a moto de 2025 já dava indícios de que domínio da Ducati parecia estar balançando. Francesco Bagnaia ter ficado de fora da briga pelo título foi uma situação completamente fora de perspectiva. Mas como Marc Márquez estava dominando a competição, da mesma forma como fazia na Honda, Marc deu a impressão de que a moto era melhor do que realmente é. Mas, apesar de todas as juras de amor e apoio proferidas pelo time a Bagnaia, que até aqui conquistou nada menos do que dois títulos pelo time de Bolonha, a impressão que ficou é que o problema era “unicamente” Bagnaia, e agora, vemos que que a moto também tem seus problemas. E a nova GP26 parece ter “herdado” os problemas do modelo de 2025. Tanto que até Álex Márquez, que agora conta com a mesma GP26, numa recompensa da Ducati à sua bela campanha no ano passado, onde brigou firme pelas primeiras posições na tabela de pilotos e foi vice-campeão, declara que a nova moto tem seus caprichos, e ele não está conseguindo extrair do novo modelo o mesmo que ele extraia da GP24 no ano passado, que foi a moto com a qual Jorge Martin e Francesco Bagnaia duelaram pelo título da classe rainha do motociclismo. Álex diz que está competindo a 80% do potencial de sua nova moto.

Marco Bezzecchi: já renovado com a Aprilia, venceu as três corridas do ano até aqui e lidera a competição, mas não pode deixar passar as oportunidades, caso a Ducati consiga reagir, e se reagir...
Claro que isso apenas
indica que a moto é complicada, mas não quer dizer que não seja competitiva. E
que, com trabalho no desenvolvimento, será possível aparar as arestas da
Desmosédici, e permitir a seus pilotos explorar melhor suas capacidades. Mesmo
assim, fica difícil entender certos aspectos. Bagnaia confessou na
pré-temporada estar se sentindo muito melhor na nova moto do que com a do ano
passado, o que indicava que poderíamos ver o bicampeão de volta à velha forma,
vista poucas vezes em 2025. Mas, iniciada a temporada, estamos vendo “Pecco” de
novo sofrendo com a nova moto, da mesma maneira como ocorreu no ano passado, e
com um desempenho ainda inferior ao de Marc Márquez, que também não conseguiu
impedir os triunfos da Aprilia nas corridas principais, ainda que tenha tido
melhor desempenho nas provas sprints.
Os treinos livres em Jerez nesta sexta-feira mostraram uma reação das Ducatis. No primeiro treino livre houve uma trinca de Desmosédicis na tabela de classificação, e no segundo treino livre, Álex Márquez foi o mais rápido, com Fabio Di Giannantonio em segundo lugar. Mas com Marco Bezzecchi ali perto, em 3º lugar, apesar da diferença de 0s5. Não se pode descartar a Aprilia da briga, contudo, mesmo que as Ducatis estejam esboçando uma reação. E treino e treino, e corrida é corrida, de modo que ainda podemos ver mudanças de panorama para a classificação. A incerteza domina as expectativas, e isso é o que faz o pessoal ficar empolgado. E vamos ver quem dará as cartas na pista da Andaluzia. Temos muito chão pela frente, e se a Aprilia quiser dar o recado de que irá mostrar do que é capaz, terá de mostrar isso na pista. E competição acirrada é o que o torcedor mais quer ver, e se o clima pegar fogo, melhor ainda...
O panorama da MotoGP para 2027 fica curioso, diante das expectativas do momento atual da competição. É verdade que, com o novo regulamento técnico, não dá para apontar qual moto será a mais competitiva no próximo ano, mas à luz do momento atual, é inegável que as peças que estão trocando de lugar apontam para um panorama dos mais interessantes. Em primeiro lugar, a situação de Jorge Martin, que embora ainda não tenha sido anunciada oficialmente, irá para a Yamaha no próximo ano. Jorge resolveu não esperar para conferir o que a Aprilia poderia lhe entregar, e portanto, tratou de se garantir em outro time de fábrica. Pelo sim, pelo não, a Aprilia já garantiu a permanência de Bezzecchi até 2028, afinal o italiano assumiu a liderança do time no ano passado, diante da ausência de Jorge Martin pelos acidentes sofridos, e vem colhendo os merecidos frutos de seu trabalho e engajamento, ao contrário do campeão de 2024, que já tinha arrumado treta com a escuderia no ano passado, e agora, mostra que está partindo para outra, que pode ser tecnicamente menos competitiva do que a da Aprilia. Na Yamaha, claro, que Fabio Quartararo resolveu pular fora da Yamaha, indo para a Honda, que até o presente momento vem apresentando alguma evolução, ao contrário da marca dos três diapasões, que está em parafuso no presente momento. E não vamos esquecer de Francesco Bagnaia, que pode dar a sorte de ir para uma Aprilia em um momento onde a Ducati não tem mais a melhor moto da competição, e onde ele poderá continuar brigando por vitórias, e provavelmente, quem sabe, até o título. A conferir...




