
Uma hora iria acontecer: Andrea Kimi Antonelli e George Russell andaram se estranhando nas corridas do fim de semana do GP do Canadá...
Andrea Kimi Antonelli
segue arrepiando na temporada 2026 da Fórmula 1, e em Montreal, o atrevido
italiano de apenas 19 anos da Mercedes fez história ao conquistar sua quarta
vitória consecutiva, feito inédito para pilotos vencedores na categoria máxima
do automobilismo. Mas, diferente das vitórias anteriores, esta prometia ser
dura e custosa. Não que a vitória em Miami, no início do mês, tenha sido fácil,
mas esta agora teve um componente inédito no ano: o duelo contra o próprio
companheiro de equipe, George Russell, e a disputa prometia ser brava.
O piloto inglês, sem subir ao pódio nas duas últimas corridas, viu Antonelli não apenas assumir a liderança do campeonato, como começar a assumir o favoritismo claro na disputa pelo título da F-1 em 2026, um papel que, em teria, todos imaginavam ser apenas de Russell, tal a dominância da Mercedes no ano, reconquistando seu status de força principal do grid, como vimos na década passada. E George pareceu começar a balançar nesta disputa. Se em Shanghai e no Japão houve fatores alheios a seu controle que ajudaram a impedir que o inglês vencesse como havia feito na Austrália, em Miami Russell pareceu estar fora de ritmo, apenas sendo superado por Andrea com facilidade. Seria isso um efeito de ver o parceiro assumir o protagonismo que deveria ser dele, e que poderia comprometer o seu desempenho?
Já houve ocasiões no passado onde Russell manifestou extremo desconforto quando superado na pista pelos companheiros de equipe. Nos três ano em que dividiu a Mercedes com Lewis Hamilton, nas ocasiões onde o heptacampeão se destacava, era nítida a irritação de George com a situação, e quando houve disputas acirradas entre eles, então, nem se fala… Era compreensível, pois Russell precisava “construir” sua força no time, e impedir ser superado por Hamilton era requisito indispensável. E quando Hamilton partiu para a Ferrari, o inglês herdou por méritos próprios a liderança da Mercedes na pista, ainda mais tendo um novato tão jovem como Antonelli no ano passado. Claro que a teoria se confirmou, e Russell fez uma temporada excelente com o que a Mercedes podia oferecer no ano passado. Mas, nas poucas vezes em que Antonelli o superou em 2025, voltou a aparecer aquele incômodo no inglês por ficar atrás, e agora, pior ainda, ser superado, mesmo que esporadicamente, por um novato, em seu primeiro ano na competição da F-1.
Havia uma atenuante: o
carro da Mercedes, apesar de conseguir vencer corridas, não era um carro capaz
de disputar o título, e mesmo as vitórias eram ocasionais. Mas, e agora em
2026, quando o time alemão voltou a ter o melhor carro, e motor, e até o
presente momento, é a escuderia a ser batida, tendo vencido todas as corridas
da temporada (sprints não contam)? Era óbvio que, em algum momento, ambos
poderiam disputar a vitória numa corrida. Na China e no Japão, as circunstâncias
ajudaram Antonelli a se sobressair, sem questionar os méritos e a esplêndida
performance do jovem italiano. E em Miami, quando a concorrência pareceu em
posição de quebrar a hegemonia alemã, eis que novamente Antonelli conseguiu
manter o domínio da Mercedes. Cheguei a escrever, se Antonelli agora era o
grande favorito ao título. Mas, logicamente, apesar de confirmar isso, também
fiz uma ressalva: ainda era muito cedo para dar isso como certeza, pois ainda
temos a imensa maioria do campeonato a ser disputada, e o panorama poderia
mudar.
O óbvio seria admitir que Russell não ficaria entorpecido em definitivo, a exemplo do que ocorreu em 2025, onde Oscar Piastri bagunçou o favoritismo de Lando Norris na McLaren, e por um bom tempo, dominou o campeonato, e parecia quase inevitável o título do italiano, que no final, se apagou na reta final, e permitiu a reação de Norris, que no fim, foi o campeão. Então, Antonelli que aproveitasse o momento, pois mais dia, menos dia, o clima iria engrossar dentro da Mercedes. E isso já começou em Montreal. George Russell, que venceu ali no ano passado, veio forte, e conquistou tanto a pole-position para a corrida sprint quanto para a prova de domingo. Mas a sprint já mostrava que o inglês vinha com tudo: ele liderou firme a corrida curta, e fechou Antonelli em todas as tentativas de ataque do italiano, que chegou até a sair da pista em suas investidas, e por pouco não exagerou na dose, se acidentando. O resultado foi uma vitória de Russell na sprint, irretocável. As defesas do inglês na pista foram dentro do regulamento, o que não impediu que Antonelli, claro, chiasse, chegando a levar uma reprimenda velada de Toto Wolf de que aquilo não era assunto para discutir no rádio, indicando que o assunto deveria ser tratado a portas fechadas. E Russell deu o recado: se Antonelli quiser ser campeão, deverá passar por ele.
E foi novamente o que vimos na corrida de domingo, onde o italiano foi para cima do companheiro, mas com um pouco mais de cuidado, mas ainda assim agressivo e decidido a brigar firme pela vitória. E ambos chegaram a trocar de posição, até ambos errarem e as posições se reverterem. O duelo prometia ir fundo até a bandeirada, e todos imaginavam como seria o trabalho de box da Mercedes para ambos. Só que o destino resolveu interferir, e George Russell amargou o pior de todos os resultados possíveis: o abandono, e a entrega da vitória a Antonelli. E não por algo errado que ele tenha feito: o carro simplesmente quebrou, e o inglês ficou possesso com o azar que o atingiu, chegando a sair do carro até atirando a proteção do cockpit no meio da pista, tão irritado estava. Mas ruim mesmo foi ver Andrea vencendo de novo, e ver a desvantagem de pontos subir para 43 pontos, algo que, em condições normais, vai demorar para ser revertida, pelo menos 6 corridas, se a Mercedes fizer dobradinhas com a ordem Russell-Antonelli, e isso se nada acontecer, o que certamente, vai ocorrer.
Antonelli pode não ter
sido enfim melhor que George Russell em Montreal, mas acabou bafejado pela sorte,
a sorte que faz campeões, e capitalizou o resultado máximo, vendo o parceiro de
time e maior ameaça, ir a nocaute. Mas que o episódio lhe sirva de lição:
Russell não vai facilitar daqui para a frente, e novos embates virão, com
retomada do controle do inglês, que mostrou que não vai mais aceitar
passivamente o que ocorreu entre Shangai e Miami. E ele tem como fazer isso.
Não havia como confirmar quem sairia vitorioso na disputa da corrida domingo no
Canadá. Ambos estavam muito próximos, e mesmo com uma performance ligeiramente
superior, superar Russell estava sendo difícil para Andrea, com ambos indo aos
limites, e por isso mesmo, cometendo alguns erros na pilotagem, entre
perseguição e defesa de posição.
Outro ponto importante que Antonelli precisa aprender é como se portar no rádio, e também controlar seus impulsos. Ficou nítido que o rapaz se sentiu contrariado com as defesas de posição de Russell na corrida sprint, que sim, foram duras, mas dentro do limite do regulamento. Russell já está mais calejado neste tipo de situação, e justamente aí mora o perigo de uma armadilha que o italiano precisa saber como evitar cair, que é justamente se desestabilizar numa disputa roda a roda com George. Pelo menos no domingo, ele já se mostrou mais cuidadoso, e não se ouviu reclamações pelo rádio quando Russell foi novamente duro na defesa de posição. E nem assim ele aliviou, indo para cima do companheiro de equipe, mais decidido do que nunca. É o que ele precisa fazer. O que deve priorizar é manter a cabeça fria, o foco na pilotagem, e evitar ficar irritado quando os esforços não dão resultado, pois é em cima disso que Russell, muito mais experiente, vai tentar construir sua vantagem sobre o italiano, ainda mais agora na desvantagem em que se encontra na pontuação. E se Antonelli ceder às provocações, ele certamente poderá ceder à pressão que irá sofrer nas disputas, e perder o controle da situação que conseguiu assumir nesta temporada, surpreendendo a todos.
Isso me lembra quando, em 1987, Nélson Piquet, sentindo as sequelas do acidente ocorrido na curva Tamburello, em Ímola, perdeu parte de sua noção de profundidade, e como ele mesmo admitiu, ficou ligeiramente mais lento. Com o time apoiando implicitamente Nigel Mansell na Williams, o brasileiro passou a ser mais estratégico, apostando na constância, e no pouco equilíbrio emocional do inglês, e ambas as estratégias funcionaram, com Mansell a cometer estripulias que o deixaram em desvantagem perante Piquet, que tão logo assumiu a liderança do campeonato, que não largaria mais e o levaria ao título naquele ano, mexeu ainda mais com os brios de Nigel, que começou a cometer mais erros, resultando em sua derrota no campeonato. Russell sentiu o golpe dos triunfos de Antonelli, e precisava reagir, antes que isso o afetasse ainda mais, um risco a ser evitado. Ele vinha fazendo o que era necessário em Montreal, até o carro lhe deixar na mão. Um percalço sem culpa do inglês, que não foi responsável por nenhum comportamento de pilotagem que pudesse desencadear isso. Mas agora, o golpe do abandono apenas amplifica uma situação que ele tentava reverter, dificultando ainda mais o seu trabalho. E, com a imensa maior parte do campeonato ainda por vir, plenamente recuperável, desde que Russell faça o seu trabalho, e consiga escapar dos azares que surgirem pelo caminho.

Depois de se estranhar na corrida sprint no sábado, o duelo se repetiu no domingo, com Antonelli indo para cima de Russell. Uma hora o clima vai azedar entre os dois...
Da mesma maneira,
Antonelli que se prepare para o duelo. Ele deu muita sorte no abandono de
Russell, e não venceu apenas por isso, mas claro que, ficar sem o principal
rival foi de grande ajuda. Talvez ele vencesse mesmo com George na pista, em
disputa direta. O alerta foi ligado: ele pode até ser favorito ao título neste
momento, mas terá de suar o macacão se quiser levantar a taça no final do ano.
O primeiro aviso sério foi minimizado a seu favor, mas sua sorte pode não durar
sempre, e uma hora, ele vai ter azar. Cumpre a ele evitar isso o máximo que
puder, dentro do que ele consiga controlar. E, pelo menos nas declarações, o
jovem italiano parece bem consciente disso, dizendo que é muito cedo para
pensar em título, mesmo com a grande vantagem aberta. Ele prefere manter a
cautela, e se concentrar em uma corrida por vez, e fazer o melhor, e claro,
continuar vencendo. Para a torcida, é a promessa de uma temporada que até
prometia muito, mas está entregando um ano de domínio de apenas um time,
enquanto as disputas se concentram mais atrás. Se a dupla do time prateado se
engalfinhar na briga pelo título, ótimo, pois o torcedor quer ver briga,
disputa, e se o circo “pegar fogo” no meio disso, melhor ainda. Só Toto Wolf
terá uma dor de cabeça daquelas se precisar gerenciar essa situação, como
precisou fazer nos tempos em que Lewis Hamilton e Nico Rosberg disputaram
títulos entre 2014 e 2016.
O melhor de tudo é não saber quem irá vencer de fato, pelo menos, neste momento. Antonelli, ou Russell? Cada um tem suas preferências e suas torcidas. Alguém vai comemorar no fim do ano, enquanto o outro lamentará… Vejamos quem irá definir essa disputa…
A temporada nem chegou na metade e parece que já temos um piloto potencialmente em risco no grid. E acredite, com a saída de Helmut Marko e Christian Horner da Red Bull, não é nenhum dos pilotos das duas escuderias da marca de energéticos que está em perigo, com todos eles, em especial os titulares da Racing Bulls, não precisando mais serem fuzilados publicamente pelo polêmico e irascível dirigente, felizmente. Mas quem está em perigo é Valtteri Bottas, na Cadillac, cujo desempenho até agora está deixando a desejar. Sergio Perez vem sobrepujando o finlandês com relativa facilidade, e até agora, mesmo com todos os percalços da escuderia novata, é o mexicano quem tem mostrado mais resultados. Não que a estratégia de escolher pilotos veteranos tenha sido equivocada: para um time iniciante, contar com nomes de experiência comprovada, com passagens relativamente satisfatórias por escuderias de ponta, era uma maneira de minimizar os problemas potenciais de qualquer escuderia nova na competição. O problema é que Bottas está deixando até demais a desejar, pois a performance de ambos está muito discrepante, e não parelha, como esperavam, na melhor das possibilidades. Bottas teve uma passagem bem satisfatória na maioria das temporadas em que defendeu a Mercedes, mas seu rendimento decaiu em 2021, ficando incapaz de acompanhar o ritmo de Lewis Hamilton, que brigou pelo título até o fim, e perdeu em uma decisão polêmica em Abu Dhabi. O finlandês, que nos tempos em que defendeu a Williams foi considerado até um piloto com potencial de ser campeão, perdeu sua vaga para George Russell na Mercedes, que o realocou na então Alfa Romeo (Sauber), onde Bottas até teve uma temporada razoável em 2022. Porém, nos campeonatos de 2023 e 2024, o desempenho de Valtteri despencou, sendo que no último ano, terminou o ano zerado, com Guanyu Zhou tendo obtido os únicos pontos da escuderia, que para 2025 preferiu renovar sua dupla, contratando Nico Hulkenberg e Gabriel Bortoleto. Bottas ficou como piloto reserva de seu antigo time, a Mercedes, então. E assinou contrato para defender a Cadillac este ano. Com o baixo rendimento, a posição de titular de Bottas está a perigo, e a dúvida é até quando ele fica no time. Para 2027, ninguém tem dúvidas de que Colton Herta, que trocou a Indycar pela F-2, é o nome escolhido pelo time para ocupar uma das vagas, mas o californiano ainda não tem os pontos necessários para a superlicença, que depende de quão boa será a sua posição final na temporada da categoria de acesso logo abaixo da F-1, de modo que, na pior das hipóteses, a Cadillac precisa de um plano B para qualquer eventualidade… Isso pode manter Valtteri por mais algum tempo na escuderia, pelo menos este ano, mas para o ano que vem, certamente não, a menos que ocorra algum imprevisto, ou Bottas consiga virar o jogo a seu favor, recuperando seu desempenho... Mas claro que a Cadillac se manifestou dizendo que estes rumores são completamente infundados, e que o finlandês não está com seu lugar em risco... Pode ser, mas na F-1, onde tem fumaça, costuma ter forço, então, não se pode ignorar as possibilidades de Bottas ser dispensado, mas muito mais provável ao menos para 2027.
A Cadillac, contudo, antes de pensar na possibilidade de rifar Valtteri Bottas, precisa olhar para si mesma. O time, novato na F-1, depois de todos os problemas para aceitar sua inscrição, sempre procurou mostrar ter uma preparação decente para entrar na categoria máxima do automobilismo mundial de forma satisfatória, a exemplo do que sua compatriota, a Haas, fez há dez anos atrás. O carro é o pior do grid, e mesmo com todos os seus problemas, até a Aston Martin começa a apresentar alguma melhoria, ainda que tímida, enquanto o time estadunidense mostra que tem muito a aprender, e a melhorar em seu bólido. Não é isentar Bottas pelo seu desempenho no presente momento estar muito inferior ao de Sergio Perez, apenas ressaltar que a própria escuderia precisa também mostrar serviço, e não já ficar pensando em achar que trocar piloto resolverá todos os problemas. E olhe que em Montreal, Perez até vinha forte, pelo menos, para que o time vinha apresentando, quando sofreu um dano na suspensão, que quebrou sozinha, forçando o abandono do mexicano, o que mostra que a escuderia precisa ter também melhor confiabilidade nos sistemas do carro...
Sergio Perez, aliás, saiu chamuscado da Red Bull, com sua imagem arranhada, diante mais do carro complicado do time dos energéticos do que por falta de performance, e isso ficou patente no ano passado, quando o time “queimou” Liam Lawson com apenas duas corridas, antes de devolvê-lo ao time da Racing Bulls, e depois, também vitimou Yuki Tsunoda, que viu seu sonho de defender a Red Bull, um time de ponta, virar pesadelo por quase todo o restante da temporada... E, pelo menos até o presente momento, o mexicano vem dando mostras de que mantém sua forma, só não indo mais longe mesmo diante das possibilidades pouco competitivas do carro da Cadillac...


