Quando a Mercedes anunciou que usaria a pista de Monza para a troca para a unidade de potência extra e demais sistemas no carro de Andrea Kimi Antonelli, muitos viram como a decisão estratégica perfeita para minimizar danos, em uma altura do campeonato onde isso era plausível. Um circuito de alta velocidade, com longas retas, que teoricamente seria perfeito para uma corrida de recuperação, ainda mais possuindo o melhor carro do grid. Muito lógico e com sentido diante da posição do piloto italiano no campeonato, que liderando até então com 59 pontos de vantagem, podia perfeitamente se dar ao luxo de sacrificar um bom resultado para garantir melhor desempenho nas corridas seguintes com uma unidade de potência.
Mas ninguém esperava que, depois da corrida, uma vitória de Andrea Kimi Antonelli fosse tão categórica e empolgante, a ponto do piloto italiano, o primeiro a liderar um campeonato da F-1 há décadas, fazer Monza vibrar como se tivesse assistido a uma vitória magistral da Ferrari. Não foi só isso: largando da 19ª colocação, Antonelli conquistou a vitória com a segunda melhor recuperação da história da categoria máxima do automobilismo, perdendo apenas para o triunfo de John Watson no GP dos EUA-Oeste, em 1983, em Long Beach, Califórnia, quando largou da 22ª posição para vencer a prova. Com isso, a espetacular vitória de Rubens Barrichello no GP da Alemanha de 2000 cai para a terceira posição neste ranking, onde o brasileiro chegou a seu primeiro triunfo na F-1 largando da 18ª posição.
O resultado foi um baque para George Russell, que imaginava ter a chance perfeita de vencer, e pelo menos, descontar alguns pontos da imensa vantagem de Antonelli na liderança do campeonato, onde a moral e confiança do piloto inglês da Mercedes não andam exatamente em estado de graça. Mas deu errado, e Russell sofreu uma derrota categórica para Antonelli, mesmo tendo largado da primeira fila do grid. Agora, com 66 pontos de desvantagem, George vai ter de operar um milagre para reequilibrar a briga, que mesmo ainda tendo 10 GPs em teoria pela frente, ainda pode permitir qualquer coisa acontecer, mas que na prática, parece cada vez mais improvável de ocorrer.
Muitos acusam que a Mercedes prejudicou Russell ao não fazer o inglês ter parado no Safety Car virtual ocorrido para a retirada do carro de Lance Stroll, enquanto Antonelli foi aos boxes para a troca. O italiano, porém, tinha dois jogos de pneus médios novos, e tendo começado a corrida com duros, e tendo podido trocá-los após a bandeira vermelha, devido ao forte acidente de Charles Le Clerc na curva Parabólica, Andrea poderia usar os dois compostos de médios no restante da corrida. Largando mais atrás, era a opção correta para tentar escalar o pelotão, e assim o fez. Quando teria de parar de novo, em tese, ele teria de recuperar o tempo perdido, enquanto Russell, com compostos duros, iria até o fim. Na teoria, George deveria ter a vantagem, até porque não tinha compostos macios novos para a corrida, tendo aproveitado para se desfazer dos seus na bandeira vermelha. Só que Antonelli, em apenas duas voltas, já tinha conseguido sair do 19º lugar para o 12º, muito melhor do que o esperado, e claro que ele não perdeu tempo, indo para cima dos adversários à sua frente, com um ritmo muito melhor, e claro, também o melhor carro na pista.

Pierre Gasly assustou ao conquistar a pole-position, mas a Alpine não sustentou a aposta na corrida.
Portanto,
enquanto o italiano podia mandar ver, Russell tinha que conservar seus pneus. A
vantagem ainda lhe favorecia, mas o safety car virtual surgiu em um momento
onde Antonelli pode parar gastando muito menos tempo do que em regime normal de
corrida, e com pneus novos, Andrea, que já tinha conseguido até chegar à
liderança antes da parada, voltou muito mais perto de Russell, e novamente, com
pneus novos para pulverizar o ritmo na pista, enquanto Russell só poderia
confiar que sua margem era suficiente para se manter na liderança até a
bandeirada. Mas não foi o que se viu: o inglês não conseguiu resistir à
investida fulminante de Antonelli, que não apenas recuperou o tempo perdido na
parada, como alcançou Russell a tempo de poder disputar a liderança. Mesmo
assim, fica a dúvida se George, se tivesse parado para colocar pneus médios,
mesmo usados, não teria ritmo melhor. Pelos treinos, havia uma diferença
pequena a favor do inglês, mas isso se repetiria na corrida? Poderia se
repetir, ou não. Não se pode deixar de imaginar que, sim, a Mercedes, diante
das circunstâncias do momento, poderia ter feito Russell parar de novo, mesmo
que fosse para colocar outro jogo de duros, que mais novos, lhe proporcionariam
mais ritmo.
E, desse modo, chegamos à situação atual, onde o título de Andrea Kimi Antonelli parece cada vez mais inevitável, mesmo faltando ainda tantas provas para o final. A McLaren, que venceu as duas corridas anteriores com Lando Norris, e que poderia entrar no jogo e bagunçar a relação de forças até o final da temporada, não conseguiu se impôr em Monza como se esperava. E mesmo Max Verstappen, que foi o único a discutir a vitória, mesmo que momentaneamente, está muito atrás, e com uma Red Bull que, no presente momento, não tem a mesma capacidade de reação demonstrada no ano passado, de modo que uma reação do holandês até pode acontecer, mas sem o mesmo impacto do visto em 2025, perigando mais complicar a situação dos demais rivais do que da própria Mercedes, que pelo menos em Monza, voltou a mostrar a força dominante das primeiras corridas do ano. E mesmo a McLaren, contando com o motor Mercedes, não conseguiu brigar pela vitória como era esperado. O time de Woking pode até voltar para a briga nas próximas corridas, mas a perspectiva de embolar a competição, mesmo que apenas em parte, perde um pouco de força.
E a Ferrari? Estreando o novo motor com o segundo ADUO, o time de Maranello, que sempre se prepara de forma especial para a corrida “de casa”, saiu com um gosto amargo de derrota que não se esperava. Se os treinos até deram alguma esperança, até porque eles imaginavam que o ritmo de corrida poderia ser melhor do que o de classificação, o caldo na verdade azedou logo na largada, quando, na chicane do fim da reta dos boxes, Charles Le Clerc, mais interessando em não se deixar ser superado por Lewis Hamilton, chegou a espremer o companheiro de equipe, que saiu levemente da pista e caiu para a 10ª posição. A manobra já suscitou discussões, e se é verdade que Le Clerc exagerou levemente na defesa de posição, muitos viram apenas um incidente de corrida, o que não deixa de ser verdade, exceto que, para muitos, por serem companheiros de equipe, ainda era cedo para vermos aquilo, e a situação de Charles, que parece mentalmente abalado por se ver atrás de Hamilton na classificação do campeonato, poderia ser um complicador para o time.

Depois de duas vitórias consecutivas, a McLaren ficou longe de brigar pela vitória, e até do pódio.
Dito
e feito, mas não da maneira esperada. Logo depois, o monegasco saiu da pista na
Parabólica, acertando a proteção de pneus a mais de 220 Km/h, e causando uma
bandeira vermelha. Terminava ali um GP que iria dar o que falar entre
torcedores, e mídia especializada. Mas o time se complicou sozinho quando não
aproveitou o safety car virtual para a retirada do carro de Lance Stroll, obrigando
Lewis Hamilton a ir até o final da corrida com pneus que se desgastaram nas
voltas finais, e o impediram de ir além do 6º posto, muito pouco para aplacar a
sede dos fãs italianos, que viram mais uma burrada do time do que o piloto, que
com pneus novos, poderia ter brigado pelo menos pela 4ª posição, diminuindo o
vexame ferrarista em Monza. Não adianta dizer que o novo ADUO, o segundo e
último a ser permitido este ano para o time de Maranello, ainda não foi
suficiente para reduzir significativamente o déficit de potência dos
propulsores italianos.
A Ferrari até criou condições de sonharmos que, mesmo em parte, Hamilton e Le Clerc poderiam vir para a briga, e pelo menos, duelar pela vitória em algumas corridas, mas parece que o modelo SF-26 perde fôlego mais do que o esperado, fora o time perder alguns resultados ligeiramente melhores, devido à rusga potencial de Le Clerc e Hamilton. O monegasco parece querer evitar a qualquer custo virar “escudeiro” de Hamilton, e diante da impossibilidade real de tirar o título de Antonelli, não precisa mesmo escolher um preferido para o restante da temporada, mas precisa impôr algum controle para que ambos não entrem em atrito desnecessário dentro da pista.
Diante disso, Antonelli conseguiu levantar o público como poucos pilotos fizeram nos últimos tempos, já que pela primeira vez desde os anos 1950, a Itália está em vista de ter novamente um campeão mundial. Durante estas décadas, vários italianos passaram pela categoria máxima do automobilismo mundial, mas sem conseguir engajar a torcida, seja por falta de talento para ser campeão, ou de equipamento para conseguir tal feito. Diante disso, os italianos passaram a torcer mais pela Ferrari do que pelos pilotos, ao ponto de tornar a equipe italiana uma verdadeira instituição nacional, chegando a comemorar mais vitórias do time de Maranello do que de um piloto italiano propriamente.
Parece que este ano a história será reescrita, e com Andrea Kimi Antonelli a fazer história como o mais jovem campeão da história da F-1, e com todos os méritos, pelo que o jovem vem fazendo nas pistas este ano, e não é apenas ter o melhor carro da competição… Mesmo que nada esteja garantido, diante do número de provas ainda por serem realizadas, parece algo cada vez mais inevitável...
Entre tapas e beijos, a Honda reafirmou seu compromisso de se recuperar na F-1, depois do início catastrófico da temporada de 2026. Os japoneses chegaram inclusive a encher de elogios Fernando Alonso, alegando que tem uma “dívida” de honra com o espanhol, pelos desaires que a parceria entre ambos enfrentou, lembrando os percalços vividos na época da McLaren, entre 2015 e 2017. Fernando chegou a elogiar a nova unidade de potência, muito mais eficiente do que a que iniciou a temporada, mas lembrando que ainda há muito, muito trabalho a ser feito, até que o propulsor seja de fato competitivo, e em Monza, vimos como a situação da Aston Martin ainda é débil, em uma pista onde potência era fundamental, e por isso mesmo, uma unidade de potência que mereça o nome, se fazia imprescindível. Mas, segundo algumas línguas, a Aston Martin não estaria com muita paciência para esperar os japoneses evoluírem seu equipamento, de modo que, se o propulsor não apresentar evolução notável em 2027, a escuderia inglesa estaria já pensando em rescindir o contrato, e voltar a usar unidades da Mercedes em 2028. Em outras palavras, a Honda tem prazo de validade para mostrar serviço, o que já complica uma posição que deixa dúvidas na empreitada nipônica na F-1: com a força para aprovar a volta dos motores V-8 a partir de 2031, os japoneses já pensariam novamente em desistir da F-1, não concordando com as novas diretrizes técnicas que seriam adotadas. Outra opção para a Aston Martin poderia ser o fornecimento de unidades da Ford/RBPT, que atualmente abastecem apenas a própria Red Bull e a Racing Bulls, no caso da Mercedes não aceitar novos times clientes, ou um dos atuais times clientes, como Alpine ou Williams, perder esse fornecimento, e precisarem buscar um novo fornecedor. Ao mesmo tempo, a escuderia de Silverstone anunciou que, após a prova do Azerbaijão, deve se concentrar no carro de 2027, deixando de fazer atualizações no modelo AMR26. Isso deve limitar a capacidade de reação da escuderia na parte final da temporada.
A F-1 chegou a Madri para o novo GP da temporada, e a história da nova pista madrilhena, que volta a sediar um GP desde os anos 1970 já começou com um fato inusitado: ladrões roubaram boa parte da fiação das instalações da pista, ocasionando um belo prejuízo, e a necessidade de recuperar toda a estrutura afetada, a fim de não prejudicar as atividades da corrida. Mas embora esse problema tenha sido sanado, o que causa preocupação é a natureza da pista, que todos especulam que pode ser problemática com os carros, além de enfrentar críticas e protestos de moradores locais, incomodados com o barulho potencial dos carros.
O novo circuito de Madri, conhecido como Madring, tem 5,47 km de extensão, com um total de 22 curvas e foi construído no entorno do centro de exposições Ifema, combinando trechos dentro do complexo com vias da região de Valdebebas. A intenção da Fórmula 1 é repetir, em escala menor, o sucesso do GP de Las Vegas, nos Estados Unidos. A confiança no sucesso da empreitada fez com que fosse assinado contrato para tornar Madri a nova sede do GP da Espanha, começando este ano, e indo atpe 2035. Só que a prova começa a sofrer protestos e pressão de moradores dos bairros próximos ao traçado. A plataforma Stop F1 Madrid, formada por associações e residentes da região, sustenta que o projeto prejudica a qualidade de vida local principalmente por causa do ruído, das obras, da mobilidade e dos impactos ambientais, problemas que também resultaram em dificuldades iniciais na etapa de Las Vegas. O barulho se tornou a principal preocupação depois dos primeiros testes realizados no circuito, em agosto, com sessões com carros de F3, que foram utilizadas para verificar o traçado antes da homologação final do circuito, mas também serviram para que moradores medissem o impacto acústico dos carros de competição. Segundo dados divulgados pela plataforma, um dos testes registrou média de 102,7 dBA e pico de 107,7 dBA, com outra medição chegando a 109,1 dBA. A associação informa que não é contra a corrida em si, mas ao modo como a pista foi construída, e com os impactos que ela causa na estrutura local da cidade durante a realização do GP. E, claro, Stefano Domenicalli fala, com orgulho, que a nova pista não repetirá os erros que culminaram no fracasso da prova de Valência, realizada há pouco mais de uma década e meia, que começou bem, mas foi definhando com o passar dos anos. Será mesmo que a FIA e a FOM aprendem com seus erros? Pode até ser verdade, mas parece que a única coisa que eles não perdem é a arrogância, isso, sim...

