O automobilismo, desde
seus primórdios, nunca foi um esporte barato. Guardadas as devidas proporções,
sempre foi difícil seguir carreira no automobilismo, e se formos falar em
automobilismo internacional, então, o buraco é bem mais embaixo. Por isso, algo
que sempre despertou polêmica no meio é a questão dos pilotos “pagantes”, um
termo pejorativo para designar pilotos com pouco talento, mas recheados de
patrocinadores que, aparentemente, não ligam muito para isso, e garantem que
tais pilotos ocupem o lugar que deveria ser de competidores muito mais
talentosos. Não é bem assim, mas, em termos gerais, é o que se pensa a
respeito, esquecendo-se que, por vezes, pilotos que já foram campeões mundiais
também utilizaram deste recurso para chegar ao aonde chegaram.
O tema vem à baila na questão da permanência não apenas de Caio Collet, que fez sua temporada de estréia na Indycar, mas na contratação pela Foyt, para substituir o brasileiro, do piloto Josh Pierson, com um contrato para os próximos dois anos na categoria, pelo simples fato de trazer cerca de US$ 25 milhões ao time neste período, contra um aporte estimado de apenas US$ 6 milhões do piloto brasileiro por apenas um ano. Em outras palavras, apesar do currículo muito mais modesto de Pierson, o fato de ele trazer mais que o dobro de verba de Collet, este é o fator que define sua contratação. Pelo mesmo motivo, sem fazer comparação exata de cifras, Mick Schumacher garantiu um lugar na Meyer Shank para 2027, onde Hélio Castro Neves, sócio minoritário da escuderia, garantiu com todas as letras que o fator financeiro pesou muito mais do que o talento, infelizmente. Mas, na Meyer Shank, ainda houve disputa com um piloto que já competiu na F-1, e no WEC, ou podemos dizer, Mick já tinha uma passagem por categorias mais tarimbadas quando chegou à Indycar tentando refazer sua carreira de piloto em monopostos. Por outro lado, Josh Pierson, com exceção de uma única vitória nos últimos dois anos competindo na Indy NXT, não possui resultados relevantes de competição.
Isso motivou a direção da Indycar a reforçar os critérios de contratação de pilotos para a competição, tentando fazer o currículo pregresso valer mais do que aporte financeiro, o que de cara, inviabiliza a contratação de Pierson pela Foyt. Ou quase. De acordo com os novos critérios, que foram implantados no início deste mês, e impactaram mais especificamente o piloto visado pela Foyt, no caso de pilotos vindos da Indy NXT, as regras passaram a ser as seguintes:
Competitivamente qualificados: pilotos que terminaram o campeonato campeões, ou no TOP-3, ou conquistaram pelo menos 2 vitórias nos últimos 24 meses de competições. Embora a emissão da licença ainda exija aprovação nos exames médicos, físicos e administrativos da IndyCar, eles estão dispensados de testes probatórios de pilotagem. Mas na prática, estão automaticamente aprovados. Elegíveis para avaliação: pilotos que conquistaram apenas uma vitória na Indy NXT. Neste caso, o piloto será avaliado caso a caso, e é obrigatório passar por um teste oficial de avaliação em pista. A aprovação não é garantida e vai depender do julgamento dos comissários, e do resultado de avaliação de pista. Revisão de Currículo Obrigatória: Pilotos que competiram na Indy NXT, mas nunca venceram nenhuma corrida. competiram na Indy NXT, mas nunca venceram uma corrida. O histórico recente do piloto será integralmente analisado pela comissão avaliadora da IndyCar apenas para autorizar ou não a realização de um teste privado.
Passar na avaliação, contudo, não é o único critério que passa a ser adotado a partir de agora. O piloto ficará sob “avaliação”, pois a autorização de competição terá validade de 24 meses. Se durante este período, não obtiver resultados condizentes com os critérios impostos, a licença poderá ser revogada, e consequentemente, o piloto não poderá prosseguir na categoria.
Para pilotos de outras categorias, como por exemplo, a Fórmula 1, Fórmula 2, Super Fórmula, WEC ou IMSA, entre outros certames, a IndyCar fará uma análise individualizada. Estar em uma categoria de ponta, como a F-1, por exemplo, não garantirá mais aprovação automática. E quando o piloto for enviado para o chamado “Teste Oficial de Avaliação”, ele não precisa apenas registrar uma volta rápida. Os comissários e técnicos da categoria avaliarão rigorosamente sete princípios fundamentais de desempenho, como ritmo, consistência, controle do carro, postura em corrida, gerenciamento de tráfego, competência processual, e comunicação com a engenharia. O piloto será avaliado em todos estes conceitos, de modo amplo e geral, além de que o currículo nos certames por onde esteve competindo também será cuidadosamente analisado e avaliado. Mas a grande novidade das novas regras é a possibilidade de revogação da licença de competição, além da autoridade da direção da Indycar de barrar ou revogar acordos com pilotos que acabem se mostrando terem sido efetuados somente pelo critério financeiro, e não pelo talento. Em outras palavras, a Indycar pretende efetuar uma espécie de “pente-fino” contra os pilotos pagantes, reservando-se o direito de bloquear inscrições se identificar que a contratação de um estreante foi motivada estritamente por aporte financeiro em detrimento do desempenho esportivo. Mas, ainda assim, será adotado uma espécie de “Gatilho de Desempenho e Segurança”, que na prática, mesmo que um piloto obtenha a licença inicial, se ele demonstrar falta de competitividade crônica (como andar excessivamente lento ou causar perigo em treinos e corridas), a IndyCar poderá reavaliar a elegibilidade e revogar a licença, mesmo no meio da temporada para proteger a integridade do grid.

Patrocínios diferentes para os carros de uma mesma equipe ajudam a viabilizar melhor o suporte financeiro, mas até times grandes como a Penske também usam o esquema, que atualmente é proibido na F-1.
Como uma categoria que
se considera TOP nas Américas, acho justo que a Indycar imponha critérios de
seletividade para os pilotos que compõem o grid da competição. Há muito tempo a
F-1 adota a chamada “Superlicença”, o documento que habilita pilotos a
competirem no certame da categoria máxima do automobilismo. É verdade que nem
sempre isso impediu que a competição evitasse a presença de pilotos sem
condições ideais para figurar no grid da categoria, mas é inegável que isso
dificulta e muito a presença de pilotos “braço-duros” no certame, que
teoricamente deve reunir “os melhores” pilotos do planeta. Exigir critérios
mínimos não é errado. Chegar a disputar a F-1, o certame mais famoso do
automobilismo mundial, é algo a ser conquistado, e não apenas um estágio de
carreira. Se qualquer um pudesse chegar lá, qual o prestígio que a categoria
possui, afinal?
O problema é que, como mencionei, o termo “piloto pagante” virou sinônimo de competidores sem talento que, ao contrário destes, possuem carteiras recheadas, próprias ou alheias, que bancam suas carreiras, garantindo suas contratações contra pilotos mais capacitados, mas não tão bem servidos em apoios financeiros. Só que isso não é algo definitivo. Não que pilotos sem condições se enquadrem nestes critérios, mas muitos pilotos de talento também recorrem a patrocinadores pessoais para garantirem os melhores lugares e contratos, e quando isso acontece, é o melhor dos mundos, pois a escuderia não apenas garante um aporte financeiro bem-vindo, como garante a posição e os serviços de um piloto de comprovada capacidade. E, infelizmente, muitas escuderias precisam de aportes financeiros externos para financiarem suas atividades. Claro que as necessidades são relativas: há escuderias que aceitam o risco de terem resultados ruins contando com pilotos menos capacitados, visando mais a sobrevivência financeira do que os resultados potenciais que podem obter. Já outros times podem combinar os dois requisitos, exigir aporte financeiro, mas também exigir que o piloto tenha capacidades mais do que comprovadas.
O problema é que isso evidencia um problema crônico do mundo do automobilismo: nem todas as escuderias conseguem arregimentar patrocínios para bancar integralmente suas atividades de competição, e ainda pagar salário a seus pilotos. Muitas vezes, contar com pilotos pagantes é a única maneira de sobreviver no meio, e por isso, o termo “leilão de cockpits” já foi muitas vezes usado para definir este tipo de contratação, como um verdadeiro leilão da vaga onde quem oferecer mais leva, mesmo que seja o pior piloto na disputa. E aí, diante dos custos de competição, torna-se uma medida necessária de vida ou morte, profissionalmente falando.
No caso da Indycar, a categoria tem uma flexibilidade que muitos já apontaram que seria interessante a F-1 oferecer, que é a possibilidade de carros de um mesmo time terem patrocinadores diferentes. Já houve isso na F-1 em tempos idos da competição, mas depois, estabeleceu-se que os carros de uma mesma escuderia deveriam portar layouyts iguais, com poucas exceções. Curiosamente, isso foi feito para “expurgar” times pequenos do grid, numa jogada para “dourar” a F-1, numa época onde a FIA e a FOM estabeleceram como meta tornar a F-1 o suprassumo do automobilismo, onde todos pagariam fortunas para participar do grid, e não lhes interessava mais terem times pequenos no grid, algo que a permissão de patrocinadores diferentes para os carros tornaria mais viável a participação destes esquemas menos milionários.

Mick Schumacher garantiu um lugar mais competitivo para correr em 2027 na Indycar graças a patrocinadores mais robutos e ganhou a briga com Caio Collet pela Meyer Shank.
Mas, se o esquema da
Indycar, mesmo assim, ainda não faz com que os times prescindam de pilotos que
literalmente “comprem cockpits”, garantindo vaga no lugar de pilotos mais
capacitados, isso evidencia um problema que sempre existiu, e que infelizmente
ainda persiste nos dias de hoje, mesmo quando o automobilismo parece atrair
cada vez mais atenção de torcedores do esporte, e contratos milionários de
patrocínio. A categoria perdeu recentemente a Prema, que adentrou a competição
no ano passado sem um esquema firme de suporte financeiro, e praticamente não
conseguiu participar da competição este ano. Penske, Andretti, McLaren e
Ganassi são os únicos times com aporte financeiro firme e garantido na categoria,
e isso já representa metade do grid, praticamente, com a outra metade dividida
entre aportes dos próprios times que conseguem, às duras penas, garantir sua
sobrevivência, ao mesmo tempo em que precisam completar seus orçamentos de
competição com quem chegar com verba suficiente para pagar as contas. E, com os
gastos que serão despendidos com os novos chassis que a Indycar passará a usar
a partir de 2028, mais do que nunca é necessário garantir condições financeiras
de suportar este custo, que parece indicar que o equilíbrio financeiro da própria
Indycar segue na berlinda, apesar dos esforços da direção da competição para
tentar revitalizar a categoria em termos de atração comercial. Mas, na época
áurea da F-Indy original, ainda assim tínhamos vários times que eram sustentados
por pilotos pagantes (A Dick Simon, que em algumas edições das 500 Milhas de
Indianápolis chegava a ser apelidada de rent-a-car competition, por alinhar até
sete carros para a corrida no esquema piloto com verba-carro garantido, é um
exemplo disso), não parece ser agora que o problema vai desaparecer.
Há um agravante de que a atual Indycar, nascida em 1996 como Indy Racing League, pela birra de Tony George em querer maior poder de mando na antiga F-Indy, causou um prejuízo de imagem considerável, fazendo com que os patrocinadores migrassem para a Nascar, e deixando as categorias Indy perderem importância no mercado publicitário, e por tabela, tornando-o menos atrativo para muitos patrocinadores potenciais. Se não é de hoje que muitos times de competição enfrentam problemas para viabilizar seu orçamento financeiro, não será fácil evitar que muitas escuderias mudem seus critérios de contratação de pilotos.
A própria Foyt defende sua contratação de Josh Pierson, definindo-o como um piloto de “muito potencial”, mostrando claramente que não concorda com as novas regras de restrição de acesso. É seu direito legítimo de defender seus próprios interesses, o que não quer dizer que Pierson seja de fato um piloto merecedor de tal avaliação. A falta de resultados relevantes do mesmo nestes dois últimos anos na Indy NXT, onde nunca se destacou, com exceção de uma vitória recente, expõe isso claramente. Por outro lado, é bem verdade que muitos pilotos de talento muitas vezes nunca tiveram chances reais em suas carreiras, quando ficaram relegados a competirem em esquemas fracos ou deficientes que não lhes permitiram mostrar suas performances a pleno. É uma equação complicada de se equilibrar, de ambos os lados. O interesse dos times por pilotos que tragam aportes é legítima, e mais do que tudo, muitas vezes necessária e imprescindível. Mas, o desejo da direção da Indycar de promover o acesso com critérios mais merecidos de talento e desempenho, visando elevar o nível do grid da categoria é mais do que legítimo também. Só que os times também revelam fragilidades financeiras patentes ao não conseguirem, por si sós, angariarem patrocínios próprios que sustentem suas atividades. A Foyt alega que está reformulando seu departamento comercial com vistas a tornar mais efetiva e eficaz a obtenção de patrocinadores para sanar suas debilidades financeiras, mas será que o time, que já tem décadas de existência, ainda não tem know-how mais do que adequado para desempenhar efetivamente este tipo de trabalho? Larry Foyt, chefe do time, revela que o ideal seria eles terem patrocínios próprios, mas que a realidade do esporte é muito diferente da ideal que todos gostariam que fosse. Sua visão não está errada, nesta perspectiva, que já não é de hoje, como mencionei, mas ao mesmo tempo, tem de ser melhor equalizada. O problema é que as circunstâncias muitas vezes não ajudam. E isso nunca foi exclusividade dos dias atuais.

Nos anos 1990, na antiga F-Indy, Hiro Matsushita conseguiu disputar mais de 120 corridas devido ao bom patrocínio do império da Panasonic, porque os resultados do piloto, por si sós...
A Indycar, desde que
foi adquirida pela Penske Entertainment, até hoje ainda não conseguiu efetivar
uma recuperação em termos de importância estratégica no mercado publicitário,
apesar dos esforços efetuados neste sentido. O desafio de encontrar um terceiro
fornecedor de motores, por exemplo, mostra como o certame deixou de representar
atratividade para muitos fabricantes, e recentemente, a própria Honda
repercutiu a possibilidade de abandonar a Indycar, por considerar os resultados
insatisfatórios de sua participação como fornecedora. E o fato das equipes
discutirem até os gastos de aquisição dos novos carros que serão adotados a
partir de 2028 evidencia uma fragilidade financeira delicada para vários times,
que em tese não deveria ser tão impactante assim. Os novos acordos televisivos
firmados com a Fox, que se tornou sócia da competição, estão melhorando os
índices de audiência, o que deve levar a um fortalecimento da atração comercial
para novos patrocinadores, algo que, infelizmente, ainda não apresentaram
resultados imediatos, mas que, se viabilizados, podem diminuir a dependência
dos esquemas de patrocínios particulares trazidos por pilotos, e reduzir, se
não eliminar, a necessidade de contratação de nomes mais pelo aspecto
financeiro do que pelo talento, como deveria ser.
Desse modo, equilibrar o mérito e a necessidade se tornariam mais fáceis de administrar, com os times tendo melhores condições de contar efetivamente com os melhores pilotos disponíveis, ao invés dos melhores aportes financeiros. As regras novas não são exatamente ruins, mas exigirão maior critério na escolha de pilotos que tragam patrocínio, incentivando escolhas que consigam ao menos preservar a qualidade, impedindo que o dinheiro seja o fator preponderante. Vamos ver se conseguem atingir os objetivos pretendidos.


