Decorridas três etapas
da temporada 2026 da Fórmula 1, podemos constatar duas verdades: a primeira, e
óbvia, é de que a Mercedes é o time a ser batido na competição, tendo vencido
as três provas (sprint da China inclusa), e mesmo que os concorrentes pareçam
ensaiar uma reação, vai ser difícil brecar os carros prateados. A segunda,
escancarada em Suzuka, é de que o regulamento técnico novo, pelo menos no que
tange às novas unidades de potência, precisa de uma revisão urgente. E, a bem
ou mal, o fato de abril ter ficado sem as provas do Bahrein e da Arábia Saudita
vem a calhar para que a categoria faça as devidas reuniões, e acertos para
corrigir os detalhes necessários, e possíveis, e evitar problemas mais sérios à
frente, que possam vir a surgir. E, pelo que vimos no Japão, irão surgir mesmo,
e não convém ficar confiando na sorte para se impedir o pior.
Antes que se discuta o mérito, é preciso dizer que o problema em questão não é ser um sistema de motorização híbrido. Desde que foi introduzido em 2014, as novas unidades de potência da F-1 foram um acréscimo polêmico, é verdade, tendo tornado muito complexo os sistemas dos propulsores da categoria máxima do automobilismo, antes restrito a unidades motrizes mais simples, que cumpriram sem papel com todos os méritos. O novo regulamento, introduzido este ano, veio tentar simplificar parcialmente o conceito, eliminando o sistema de regeneração térmica de energia, que de fato, pouca utilidade teria em carros de passeio, e concentrando-se em ampliar o sistema regenerador de energia cinética. Até aí, nada de errado. Tanto que o conceito atraiu novas marcas para a F-1, como a Audi e a Cadillac, além do retorno de duas marcas, Ford, e a manutenção da atenção da Honda na competição, com a baixa apenas da Renault. O problema foi o novo sistema de gerenciamento de energia, que com a proporção de 50/50, ficou muito dependente de um deles, em especial, do sistema de carga elétrica, que não se mostra plenamente viável de carregamento total em apenas uma volta. Não que isso já não fizesse diferença antes, mas o desnível era menor, uma vez que o motor V6 turbo era responsável pela maior parte da potência, ficando o sistema elétrico como algo “complementar”, importante, sim, e que já estava com um sistema de tecnologia aprovado e conhecido por todos no grid.
Se por um lado, a eliminação do MGU-H foi bem-vinda, a “turbinada” do MGU-K, porém, foi exagerada, sem que se pudesse fazer uma evolução mais gradual dos sistemas, que agora, são mais dependentes do que nunca foram, diante de cada um responder por metade de toda a potência disponível. Isso significa que a propulsão do bólido depende de dois sistemas combinados que, se um deles falhar, o carro perde praticamente metade da potência. E esta queda de potência, quando acontece, com o esgotamento das baterias, antes da regeneração de energia entrar em ação, literalmente “derruba” a velocidade dos carros da competição, e isso periga acontecer antes de se chegar ao fim do trecho de reta. Em Suzuka isso ficou ainda mais aparente, ao vermos os carros perderem velocidade na aproximação da curva 130R, a mais veloz do circuito, mesmo com os pilotos pisando fundo no acelerador. A carga da bateria, mesmo com o sistema de regeneração, se esgota antes do fim do trecho de reta, em subida, e como consequência, a velocidade regride, muitas vezes repentinamente, e até abruptamente, dependendo do sistema de cada carro. E essa “queda” de velocidade, do modo como está acontecendo, pode ser extremamente perigosa, se o piloto está em disputa de posição com outros competidores. E, por vezes, nem é preciso chegar na reta para vermos isso. E, em Suzuka, vimos quando Oliver Bearman chegou demasiado rápido em Franco Colapinto, e para evitar de abalroar o carro do argentino, ao desviar, Bearman perdeu o controle do carro violentamente, escapando e indo bater forte na barreira de pneus da área externa curva Spoon, atingindo os pneus a uma carga de 50Gs, e deixando muita gente assustada. Era um trecho de alta velocidade, sim, mas não extremo como o das retas, e aí é que está o problema: em teoria, Colapinto não deveria ter sofrido essa “queda de potência” naquele trecho, até porque boa parte do circuito percorrido é cheia de curvas, o que deveria favorecer em parte a regeneração de força do sistema, tanto que, logo antes, tem uma das curvas mais fechadas do circuito, o Hairpin, portanto, foi uma desaceleração motivada pelo sistema de energia que pegou ambos os pilotos de surpresa. Colapinto, na condução de sua Alpine, e Bearman, que chegou no argentino muito mais rápido do que ele próprio esperaria, diante da perda de velocidade da Alpine.
O acidente sofrido pelo piloto da Haas é um indicativo claro de que o sistema de recuperação de energia, tal como foi estipulado nas regras, ficou muito superdimensionado, e pior, apresenta riscos potenciais claros como foi visto. Não se trata de reclamar gratuitamente. Ficou nítido nas grandes retas de Suzuka, até mais do que se pode ver em Shangai, como os pilotos, mesmo com o acelerador no fundo, quando a bateria “descarregava”, o carro literalmente despencava na velocidade, como se o piloto tivesse pisado no freio, ainda que levemente. Não se consegue chegar no topo de velocidade que o carro pode alcançar, porque a bateria acaba antes do fim da reta. Mas, naquele momento, em Suzuka, Colapinto nem na reta estava, em aproximação da curva Spoon, e onde o argentino admitiu depois que não fez nada especificamente para andar lento ali naquele instante, o sistema simplesmente esgotou a potência elétrica, e o carro despencou em velocidade, pegando Bearman de surpresa na aproximação e obrigando à tentativa de evitar colidir com o argentino, que acabou resultando no acidente do piloto da Haas nas barreiras externas de pneus.
O próprio sistema de energia parece ter suas “surpresas” inesperadas. E, a grosso modo, já vimos acidentes ou problemas em todas as corridas até aqui. Na Austrália, Oscar Piastri nem participou da corrida porque, quando ia para o grid, uma entrada de potência súbita fez o australiano perder o controle do carro e bater no muro, deixando-o de fora da prova. Antes disso, no treino de classificação, Max Verstappen foi vítima de algo similar, quando seu carro deu um tranco de força quando o holandês se aproximava da freada da primeira curva, perdeu o controle do carro, e foi parar na barreira de pneus. E agora, em um trecho de aceleração, ainda que não total, Franco Colapinto ficou “sem potência” antes mesmo de chegar na freada da curva Spoon, o que fez seu carro reduzir subitamente a velocidade, obrigando a manobra de Bearman para evitar atingir a Alpine do argentino. A perda de velocidade do carro do argentino foi de cerca de 45/50 Km/h, e Bearman, que vinha “cheio”, não teve outra alternativa a não ser desviar para evitar um acidente que poderia ser ainda pior, se atingisse em cheio a Alpine do argentino, que praticamente também acabou surpreendido pela falta de potência do próprio bólido. Na pior das hipóteses, uma colisão seria catastrófica para ambos, com tanto Bearman quanto Colapinto podendo sofrer sérios ferimentos, a depender de como a pancada se daria, mesmo com toda a resistência dos bólidos atuais da categoria máxima do automobilismo.
E o fato dos times estarem enfrentando problemas potenciais com seus novos sistemas de energia, falhando como foi visto, é preocupante. Não pela falha em si, mas pelo modo como algumas falhas ocorreram. Antigamente, tínhamos uma F-1 com problemas de fiabilidade. Os carros quebravam com alguma frequência, e isso, a grosso modo, ajudava a alternar um pouco os resultados. Recentemente, com regras exigindo resistência e durabilidade extremas para vários componentes, sob pena de punição, em tentativa de redução de gastos, os carros foram ficando cada vez mais “inquebráveis”, com abandonos nas corridas se tornando mais raros.
Mas o problema, como mencionei, não é a falta de fiabilidade. O problema é quando carros pifam antes mesmo de começarem a corrida, como ocorreu em provas deste início do campeonato. Não teria problema de vermos um abandono duplo da McLaren, desde que isso ocorresse em corrida, motivado por um componente defeituoso, ou uma peça que perdeu a confiabilidade, vida útil, ou que foi exigida além do limite aceitável. Mas, quando vimos os dois carros laranjas incapazes de serem ligados e irem para o grid, do nada, nos boxes do autódromo chinês, é um problema completamente diferente. Na Austrália e na China, a Audi só conseguiu largar com um carro. No Albert Park, Nico Hulkenberg ficou de fora da corrida porque seu carro teve problemas, de modo que só Gabriel Bortoleto largou. Em Shangai, ocorreu o contrário: o brasileiro foi a nocaute antes mesmo da largada, enquanto Nico Hulkenberg largou.
Em tempos recentes, a FIA tem causado enorme irritação por sua preocupação com “segurança” em corridas sob chuva, chegando a quase se imaginar “proibir” corridas na chuva, tamanha a prudência aplicada, obrigando voltas atrás do safety car, adiando largadas ou fazendo largadas em movimento atrás do carro de segurança, com regras esdrúxulas proibindo mudanças de set up dos carros quando isso acontece, tal como era feito antigamente, quando eram disputadas corridas sob chuva que faria a entidade hoje literalmente cancelar a corrida, tamanho o pavor de ver alguma batida, esquecendo que os carros atuais são muito mais seguros e fortes do que antigamente. É verdade que parte deste problema também tem a ver com os pneus de chuva da Pirelli, que não são eficientes como deveriam, mas não vemos também empenho determinante da FIA para solucionar esta questão como se poderia ser feito, como tentar programar testes específicos para situações de chuva, ou pelo menos, algo mais simples, permitindo aos times mudar os ajustes dos carros para pista molhada, o que poderia oferecer muito mais segurança aos pilotos na condução dos bólidos.

A McLaren não conseguiu nem largar no GP da China, com problemas inesperados no sistema elétrico.
E agora, com a
possibilidade de acidentes fortes, com argumentos muito mais coerentes e lógicos,
FIA e FOM vinham batendo na tecla de que as reclamações dos pilotos eram apenas
“chiadeira” e “má vontade” por parte dos competidores. As reclamações começaram
nos testes da pré-temporada, mas claro que as direções de FIA e FOM preferiam
afirmar que isso era consequência de precisarem se adequar ao novo regulamento,
e que o papel dos testes era justamente propiciar este esta chance de todos se
ajustarem aos novos sistemas. Mas ficou claro, ainda nos testes, que estes
ajustes demandariam muito mais do que apenas tempo para se aclimatarem ao novo
regulamento. E como são quem justamente colocam a cara a tapa, conduzindo os bólidos
a alta velocidade, são justamente os pilotos que podem dizer quando sentem que
algo não está certo, e pior, até potencialmente perigoso, e que não seria
apenas o caso de se “acostumarem” com as novas reações dos bólidos diante das
novas regras aplicadas.
As reclamações tinham aparentemente sensibilizado FIA e FOM, depois dos percalços do Albert Park, de que seria preciso dar uma calibrada no regulamento, a fim de evitar estes incidentes. Mas, após uma corrida aparentemente tranquila na China, em que pese termos tido quatro abandonos de carros antes mesmo da largada por problemas técnicos dos novos sistemas elétricos, as entidades começaram a cantar outra história: de que as corridas estavam melhores, e que os ajustes não seriam necessários como se aventou tanto. Na prática, bastou uma corrida sem enguiços aparentes, para tentarem passar o pano na situação, e voltarem à narrativa de que as reclamações dos pilotos eram exageradas e que as coisas não estão tão ruins assim. Mas faltou combinar com a corrida seguinte. Se nada de anormal tivesse ocorrido em Suzuka, as possibilidades de os pilotos serem completamente ignorados em suas reclamações aumentaria consideravelmente, com as entidades dirigentes teclando firme no assunto de “chiadeira” sem justificativas dos pilotos. Mas, quando Oliver Bearman acertou a barreira de pneus na área externa da Spoon, a narrativa deles simplesmente foi atropelada junto com os pneus.
Gostem ou não, o
acidente de Bearman foi “útil” para voltarmos com o problema à baila, de forma
a não se poder ignorar a situação, como FIA e FOM estavam tentadas a fazer. E,
felizmente, Oliver não se machucou seriamente, graças às condições de segurança
tanto dos carros atuais, como do ponto da pista de Suzuka onde ele se
acidentou, o que evitou consequências mais sérias e trágicas, mas que poderiam
ter ocorrido em outro ponto, ou outra pista. Mas mesmo se nada demais tivesse
acontecido, as possibilidades das entidades dirigentes “empurrarem o assunto
com a barriga” seriam muito maiores, e as possibilidades de vermos, enfim, um
acidente sério, com consequências dramáticas, também aumentaria muito. E aí,
medidas teriam que ser tomadas, e muito provavelmente, a ferro e fogo, sob
escrutínio e críticas implacáveis de fãs e media especializada, além de times e
pilotos, mostrando que tinham toda a razão e foram solenemente ignorados.
E, pior, isso não é história nova. Em 1994, a F-1 iniciou um novo regulamento, tirando várias ajudas eletrônicas dos carros, com o intuito de equilibrar a competição, dominada pela Williams. O resultado foi conseguido: o time de Frank perdeu boa parte de sua força, mas os carros, sem os sistemas avançados usados até o ano anterior, ficaram instáveis, muito mais difíceis de serem pilotados, e em alguns momentos, até potencialmente perigosos. Mas os avisos foram ignorados. Pilotos e times não eram ouvidos. Tivemos as corridas do Brasil e do Pacífico, em Aida, Japão, sem maiores celeumas. Mas aí, veio Ímola, na etapa de San Marino, e não preciso lembrar ninguém do que aconteceu naquele fim de semana, que foi o mais negro de toda a história da F-1. E aí, diante da tragédia, FIA e FOCA tomaram medidas para tentar conter “os estragos”, com novas regras sendo baixadas a torto e a direito que até conseguiram mitigar os danos, mas não a postura intransigente inicial dos dirigentes, nem o modo amador e totalmente perdido com que as regras foram sendo implantadas. Em uma época onde não havia controle orçamentário, e a disparidade entre as escuderias de ponta e o resto do pelotão eram enormes, as novas regras cambalearam os times médios e pequenos, que diante das alterações que precisaram fazer em seus carros, perderam competitividade sem terem recursos para recuperá-la, enquanto os times grandes conseguiram mitigar estes problemas diante dos grandes recursos técnicos e financeiros que podiam dispender.
Agora, vemos um panorama similar em perigos potenciais que os pilotos já adiantaram muito bem. E, abem ou mal, os dirigentes ganharam tempo hábil para discutir as mudanças e implantá-las mais adequadamente, com a próxima corrida ocorrendo apenas em maio. Se as reuniões forem bem sucedidas e se chegarem a consenso rapidamente sobre o que podem, e devem, fazer a respeito para mitigar os riscos, ou eliminá-los, dentro das possibilidades de alteração nos sistemas e/ou adaptações que sejam necessárias para evitar isso, haverá tempo útil para se minimizar os efeitos negativos de tais adaptações, se não todos, de parte relevante, ajudando a tornar a competição mais segura, e com menos riscos. E reorganizar a evolução dos sistemas elétricos dentro de condições de evolução mais aceitáveis e coerentes, promovendo o desenvolvimento da tecnologia sem comprometer fiabilidade e segurança dos competidores. E sem a necessidade de uma tragédia ocorrer, diante de circunstâncias desfavoráveis e inesperadas, para que isso tudo tivesse sido obrigado a ser feito. Vejamos o que eles decidirão, e se decidirão bem, o que precisa ser feito...



