quarta-feira, 3 de junho de 2026

FLYING LAPS – MAIO DE 2026

            E já chegamos ao mês de junho, chegando perto de fecharmos a primeira metade do ano de 2026. Logo partiremos para o segundo semestre de 2026, e parece que o ano começou estes dias mesmo. O mundo da velocidade segue firme e decidido, não desacelerando, com, seus vários campeonatos ao redor do mundo. E todo início de mês é hora de mais uma coluna Flying Laps, mencionando algumas ocorrências e fatos de campeonatos do mundo do esporte a motor ocorridos neste último mês de maio, com destaque para a Formula-E, e um pouco sobre as 500 Milhas de Indianápolis, sempre com notas rápidas e alguns comentários a respeito de cada assunto. Uma boa leitura a todos, portanto, e até a próxima sessão Flying Laps do mês que vem, com certeza de trazer muitos relatos de fatos deste novo mês de junho...

Pascal Wehrlein não vai guardar boas lembranças deste último mês de maio na temporada atual da Formula-E. O piloto alemão da equipe de fábrica da Porsche teve apenas um momento positivo nas quatro corridas disputadas no mês, mais especificamente na segunda corrida de Berlim, disputada no circuito montado na antiga pista do aeroporto de Tempelhoff, onde subiu ao pódio com um 3º lugar. Apesar do bom resultado, mesmo assim o piloto saiu insatisfeito, já que tinha largado na pole-position, e claro, era a vitória que ele mirava, ainda mais por estar correndo na terra não apenas dele, mas de seu time, a Porsche. Mas claro que, de certa forma, não dava para reclamar propriamente, porque na primeira corrida da rodada dupla, disputada no dia anterior, o resultado foi um desastre: apesar de largar na primeira fila, Pascal teve um pneu furado ao se envolver em uma disputa de posição com Jake Dennis, da Andretti, e o resultado foi ter de fazer um pit stop para resolver o problema, o que jogou o alemão lá para o fundo do pelotão, comprometendo completamente o resultado da sua corrida, terminando apenas em 19º lugar. Para a equipe, o resultado só não foi pior porque Nico Muller, companheiro de Pascal na Porsche, venceu a prova, resguardando a honra do time da casa, e claro, justificando sua contratação pela escuderia, depois de um início de campeonato mediano. O resultado mantinha Wehrlein na dianteira do campeonato, mas Mith Evans, com o triunfo na segunda corrida de Berlim, vinha chegando muito rápido na vice-liderança da competição, estando apenas 3 pontos atrás, indicando que a pressão na luta pelo bicampeonato seria pesada nas etapas seguintes.

 

 

Mas se o alemão teve problemas em Berlim, em Mônaco, palco da rodada dupla seguinte, o desastre seria completo, com Wehrlein saindo de Monte Carlo praticamente zerado na pontuação. Na primeira corrida, a Porsche teve um desempenho satisfatório, largando com sua dupla na terceira fila do grid, com Pascal à frente de Muller. As disputas nas apertadas ruas monegascas, contudo, são diferentes na F-E, ao contrário da F-1, e logo o clima pegou fogo entre vários pilotos, e numa destas disputas, eis que Nico Muller, sim, o próprio companheiro de Pascal Wherlein na Porsche, o acertou na curva da Rascasse, e com isso, arruinou a corrida de ambos. Muller perdeu o bico do carro, e Wehrlein, vejam só, teve mais um pneu furado. Fantasmas da primeira corrida em Berlim voltaram à cena, e não sem justificativa: Pascal foi apenas o 18º e último colocado na pista. Como desgraça pouca era bobagem, Mith Evans, com o 2º lugar, ali mesmo já roubava do alemão a liderança do campeonato, deixando o clima mais azedo na boca do alemão. E o azar seguiu no domingo, na segunda corrida: dessa vez, as coisas complicaram já na classificação, com Pascal saindo apenas em 14º, o que não é exatamente uma tragédia em Monte Carlo, em se tratando da F-E, mas claro que também não ajuda muito a ficar entusiasmado. Bem que ele tentou, mas as confusões na pista complicaram as estratégias do piloto e da equipe, e Wehrlein finalizou apenas em 11º lugar, fora da zona de pontuação. Com mais um 4º lugar de Mith Evans, a vitória de Oliver Rowland, e um 3º e 5º lugares de Edoardo Mortara, Pascal terminou maio despencando da liderança para a 4ª posição no campeonato de pilotos da F-E. Nico Muller foi o único alento da Porsche, com um 6º lugar na segunda corrida no Principado, fora o 2º lugar de Felipe Drugovich com a Andretti, time cliente da marca alemã no trem de força.

 

 

Semanas atrás, Pascal Wehrlein deu uma alfinetada em Antonio Félix da Costa, louvando o novo companheiro de equipe Nico Muller, ao afirmar que a Porsche “voltava a ser um time de verdade”, dando a entender que o piloto português, atualmente na Jaguar, não ajudava o time como deveria. Claro que isso se deveu também ao fato de Wehrlein e Da Costa terem se desentendido na pista algumas vezes, chegando até a terem se tocado em treinos livres, o que certamente não contribuiu para Pascal aceitar que Antonio também tinha direito de disputar na pista. Mas em Mônaco, eis que Muller acabou acertando justamente Pascal numa dividida na Curva da Rascasse, o que arruinou a corrida de ambos. E foi de forma similar que o ambiente entre Pascal e Antonio entornou o caldo. Será que depois dessa, os elogios de Wehrlein a Muller seguirão, ou o destino poderá ser igual muito em breve, caso aconteça um novo entrevero entre ambos, mesmo que involuntário…?

 

 

Mônaco enfim entregou um fim de semana mais positivo para os brasileiros na temporada atual da F-E. Felipe Drugovich, depois de conquistar os primeiros pontos válidos do ano, com o 9º lugar na segunda corrida de Berlim, mostrou as garras em Monte Carlo, e pontuou nas duas corridas do fim de semana monegasco. Felipe terminou a primeira corrida em 5º lugar, mas aproveitando-se de punição a Dan Ticktum, foi classificado em 4º lugar, seu melhor resultado na competição. Na segunda corrida, Drugovich foi ainda melhor, mantendo-se sempre com o pódio ao alcance, e novamente, contou com punição de uma piloto para maximizar o resultado, tendo terminado em 3º lugar, mas sendo classificado em 2º, obtendo seu primeiro pódio na competição, e confirmando seu potencial como piloto para a escuderia norte-americana. Lucas Di Grassi também teve uma excelente performance em Mônaco, diante da fraca competitividade da Lola Yamaha, e também conseguindo se manter longe das confusões e problemas que sempre aparecem em Monte Carlo. Lucas terminou a primeira prova em 8º lugar, e foi o 9º colocado na segunda corrida, marcando enfim seus primeiros pontos na temporada de despedida de sua carreira de piloto, conforme o piloto anunciou em abril.

 

 

A Andretti confirmou em Mônaco o fim de sua parceria com a Porsche no fornecimento de trens de força para a nova era dos carros Gen4. O relacionamento entre as partes já vinha estremecendo desde a temporada passada, mas o contrato para este ano foi mantido, porém o time norte-americano já vem desenvolvendo negociações desde o ano passado. O nome não foi divulgado, mas tudo indica que deve ser a Nissan o novo fornecedor de powertrains para a escuderia. Com a saída da McLaren da competição de carros elétricos, a Nissan perdeu seu time cliente, sendo atualmente a única equipe desfrutando de seu próprio trem de força, o que viabiliza perfeitamente o fornecimento do equipamento para um segundo time. A Porsche, por outro lado, deve manter três escuderias no grid, incluso seu próprio time de fábrica. A marca alemã fornece seus trens de força para a Kiro, e deverá ter um segundo time próprio na competição no próximo campeonato, o que deve elevar o número de carros no grid para 24. Confirmada a parceria com a Nissan, seria a quarta marca de powertrain a ser usada pela Andretti desde o início da F-E. Na era Gen1, a equipe usou o trem de força padrão fornecido pela Spark, sendo substituído pelos powertrains da BMW na era Gen2. Com a saída da marca da Bavária, a Andretti migrou para a também alemã Porsche, cuja parceria agora se encerra ao fim da atual temporada da competição.

 

 

Quem também deve mudar de powertrain na F-E é a Penske. A Stellantis, com a aquisição da Maserati, e sua transformação na atual equipe Citroen, e a estréia de uma segunda escuderia no grid usando a marca Opel, motivou a saída da marca DS, e de sua atual parceria com o time de Jay Penske. Mas o time norte-americano não está parado em relação a isso. Eles declararam que estão em desenvolvimento de seu próprio trem de força, que está ocorrendo há mais de um ano e meio, visando voltar a ter independência no grid. Equipe presente no grid desde o início da F-E, tal com o a Andretti, a Penske, chamada de Dragon nos primeiros anos, também competiu com o trem de força da Spark, tendo partido posteriormente para a adoção de um trem de força próprio, desenvolvido pela Penske Automotive, mas que foi ficando pouco competitivo, diante da evolução dos equipamentos rivais, o que motivou sua adoção pelo trem de força da DS, após o fim da equipe Techeetah, usado desde então. Agora, a escuderia pode voltar a usar um equipamento próprio na competição, mas já avisa que também trabalha em uma estratégia alternativa: usar um powertrain de terceiros, até seu equipamento estar devidamente pronto e competitivo para uso. O time segue trabalhando em seu equipamento, e, caso seja necessário usar um trem de força externo, a Mahindra, que também equipa apenas seu próprio time, é uma das opções que poderão ser acionadas caso necessário.

 

 

Os brasileiros não tiveram o que comemora nas 500 Milhas de Indianápolis deste ano. Caio Collet e Hélio Castro Neves fizeram testes e treinos promissores, mas infelizmente a classificação para o grid começou logo a apagar parte do entusiasmo. Caio chegou à 10ª posição no grid de largada, um feito comemorado pelo piloto, mas que foi jogado no lixo devido a um erro técnico da equipe Foyt, que resultou na desclassificação do brasileiro, obrigando-o a largar da última fila, em 32º lugar. Hélio Castro Neves, que buscava a 5ª vitória na Indy500, e se tornar o recordista absoluto de triunfos, tinha as melhores expectativas desde 2021, o ano em que conquistou sua 4ª e última vitória. Mas na classificação as coisas não correram exatamente como se esperava, e Hélio ficou classificado em 15º lugar, largando em 14º devido à punição do compatriota. Na corrida, apostando em táticas alternativas, Collet chegou inclusive a liderar a corrida, uma situação irreal, claro, mas que com o andamento da corrida, poderia vir a se converter em um resultado final positivo. Infelizmente, na parte final da corrida, Caio acabou acertando o muro, e com isso, deu adeus às expectativas de um bom resultado em sua estréia na Indy500. Helinho vinha tentando andar forte, mas a manutenção de uma estratégia conservadora acabou prejudicando o brasileiro, que perdeu contato com os primeiros colocados. A cerca de seis voltas para o final, ele ainda amargou o abandono, com problemas mecânicos. O jeito é apostar em melhores dias em 2027…

 

 

Um exemplo de como Hélio não conseguiu capitalizar a melhor sorte foi que seu time, a Meyer Shank, acabou vencendo a corrida com o sueco Felix Rosenqvist, que apostou em uma estratégia diferente dos líderes, e se colocou em posição de discutir a vitória, em que pese Felix ter andado muito forte a corrida inteira. Mas a volta final do piloto foi magistral, sendo superado por David Malukas e Patricio O’Ward, e conseguindo superá-los no giro final, inclusive ultrapassando o piloto da Penske na linha de chegada, por meros 0s023, na chegada mais apertada em 110 corridas das 500 Milhas de Indianápolis até hoje. A Indy500 foi um grande sucesso este ano, com uma corrida bem mais movimentada e agitada do que no ano passado. O único senão, segundo os organizadores, foi não ter havido o Bump Day, uma vez que só houve 33 carros inscritos, o número exato de vagas para a largada na corrida. Na verdade, tem sido meio raro haver mais que 33 inscritos em tempos recentes...

sexta-feira, 29 de maio de 2026

DUELO ACIRRADO À VISTA?

Uma hora iria acontecer: Andrea Kimi Antonelli e George Russell andaram se estranhando nas corridas do fim de semana do GP do Canadá...

            Andrea Kimi Antonelli segue arrepiando na temporada 2026 da Fórmula 1, e em Montreal, o atrevido italiano de apenas 19 anos da Mercedes fez história ao conquistar sua quarta vitória consecutiva, feito inédito para pilotos vencedores na categoria máxima do automobilismo. Mas, diferente das vitórias anteriores, esta prometia ser dura e custosa. Não que a vitória em Miami, no início do mês, tenha sido fácil, mas esta agora teve um componente inédito no ano: o duelo contra o próprio companheiro de equipe, George Russell, e a disputa prometia ser brava.

            O piloto inglês, sem subir ao pódio nas duas últimas corridas, viu Antonelli não apenas assumir a liderança do campeonato, como começar a assumir o favoritismo claro na disputa pelo título da F-1 em 2026, um papel que, em teria, todos imaginavam ser apenas de Russell, tal a dominância da Mercedes no ano, reconquistando seu status de força principal do grid, como vimos na década passada. E George pareceu começar a balançar nesta disputa. Se em Shanghai e no Japão houve fatores alheios a seu controle que ajudaram a impedir que o inglês vencesse como havia feito na Austrália, em Miami Russell pareceu estar fora de ritmo, apenas sendo superado por Andrea com facilidade. Seria isso um efeito de ver o parceiro assumir o protagonismo que deveria ser dele, e que poderia comprometer o seu desempenho?

            Já houve ocasiões no passado onde Russell manifestou extremo desconforto quando superado na pista pelos companheiros de equipe. Nos três ano em que dividiu a Mercedes com Lewis Hamilton, nas ocasiões onde o heptacampeão se destacava, era nítida a irritação de George com a situação, e quando houve disputas acirradas entre eles, então, nem se fala… Era compreensível, pois Russell precisava “construir” sua força no time, e impedir ser superado por Hamilton era requisito indispensável. E quando Hamilton partiu para a Ferrari, o inglês herdou por méritos próprios a liderança da Mercedes na pista, ainda mais tendo um novato tão jovem como Antonelli no ano passado. Claro que a teoria se confirmou, e Russell fez uma temporada excelente com o que a Mercedes podia oferecer no ano passado. Mas, nas poucas vezes em que Antonelli o superou em 2025, voltou a aparecer aquele incômodo no inglês por ficar atrás, e agora, pior ainda, ser superado, mesmo que esporadicamente, por um novato, em seu primeiro ano na competição da F-1.

George Russell tratou de mostrar quem manda na Mercedes e fez a pole para as duas corridas do fim de semana em Montreal. Foi duro com Antonelli e venceu a corrida sprint, mas no domingo, as coisas não saíram como o inglês esperava...

            Havia uma atenuante: o carro da Mercedes, apesar de conseguir vencer corridas, não era um carro capaz de disputar o título, e mesmo as vitórias eram ocasionais. Mas, e agora em 2026, quando o time alemão voltou a ter o melhor carro, e motor, e até o presente momento, é a escuderia a ser batida, tendo vencido todas as corridas da temporada (sprints não contam)? Era óbvio que, em algum momento, ambos poderiam disputar a vitória numa corrida. Na China e no Japão, as circunstâncias ajudaram Antonelli a se sobressair, sem questionar os méritos e a esplêndida performance do jovem italiano. E em Miami, quando a concorrência pareceu em posição de quebrar a hegemonia alemã, eis que novamente Antonelli conseguiu manter o domínio da Mercedes. Cheguei a escrever, se Antonelli agora era o grande favorito ao título. Mas, logicamente, apesar de confirmar isso, também fiz uma ressalva: ainda era muito cedo para dar isso como certeza, pois ainda temos a imensa maioria do campeonato a ser disputada, e o panorama poderia mudar.

            O óbvio seria admitir que Russell não ficaria entorpecido em definitivo, a exemplo do que ocorreu em 2025, onde Oscar Piastri bagunçou o favoritismo de Lando Norris na McLaren, e por um bom tempo, dominou o campeonato, e parecia quase inevitável o título do italiano, que no final, se apagou na reta final, e permitiu a reação de Norris, que no fim, foi o campeão. Então, Antonelli que aproveitasse o momento, pois mais dia, menos dia, o clima iria engrossar dentro da Mercedes. E isso já começou em Montreal. George Russell, que venceu ali no ano passado, veio forte, e conquistou tanto a pole-position para a corrida sprint quanto para a prova de domingo. Mas a sprint já mostrava que o inglês vinha com tudo: ele liderou firme a corrida curta, e fechou Antonelli em todas as tentativas de ataque do italiano, que chegou até a sair da pista em suas investidas, e por pouco não exagerou na dose, se acidentando. O resultado foi uma vitória de Russell na sprint, irretocável. As defesas do inglês na pista foram dentro do regulamento, o que não impediu que Antonelli, claro, chiasse, chegando a levar uma reprimenda velada de Toto Wolf de que aquilo não era assunto para discutir no rádio, indicando que o assunto deveria ser tratado a portas fechadas. E Russell deu o recado: se Antonelli quiser ser campeão, deverá passar por ele.

            E foi novamente o que vimos na corrida de domingo, onde o italiano foi para cima do companheiro, mas com um pouco mais de cuidado, mas ainda assim agressivo e decidido a brigar firme pela vitória. E ambos chegaram a trocar de posição, até ambos errarem e as posições se reverterem. O duelo prometia ir fundo até a bandeirada, e todos imaginavam como seria o trabalho de box da Mercedes para ambos. Só que o destino resolveu interferir, e George Russell amargou o pior de todos os resultados possíveis: o abandono, e a entrega da vitória a Antonelli. E não por algo errado que ele tenha feito: o carro simplesmente quebrou, e o inglês ficou possesso com o azar que o atingiu, chegando a sair do carro até atirando a proteção do cockpit no meio da pista, tão irritado estava. Mas ruim mesmo foi ver Andrea vencendo de novo, e ver a desvantagem de pontos subir para 43 pontos, algo que, em condições normais, vai demorar para ser revertida, pelo menos 6 corridas, se a Mercedes fizer dobradinhas com a ordem Russell-Antonelli, e isso se nada acontecer, o que certamente, vai ocorrer.

Andrea Kimi Antonelli pilotou forte, e saiu na sorte na corrida de domingo, conquistando a 4ª vitória consecutiva, e que fique preparado: se quiser o título, terá de passar por cima de George Russell, com ou sem sorte...

            Antonelli pode não ter sido enfim melhor que George Russell em Montreal, mas acabou bafejado pela sorte, a sorte que faz campeões, e capitalizou o resultado máximo, vendo o parceiro de time e maior ameaça, ir a nocaute. Mas que o episódio lhe sirva de lição: Russell não vai facilitar daqui para a frente, e novos embates virão, com retomada do controle do inglês, que mostrou que não vai mais aceitar passivamente o que ocorreu entre Shangai e Miami. E ele tem como fazer isso. Não havia como confirmar quem sairia vitorioso na disputa da corrida domingo no Canadá. Ambos estavam muito próximos, e mesmo com uma performance ligeiramente superior, superar Russell estava sendo difícil para Andrea, com ambos indo aos limites, e por isso mesmo, cometendo alguns erros na pilotagem, entre perseguição e defesa de posição.

            Outro ponto importante que Antonelli precisa aprender é como se portar no rádio, e também controlar seus impulsos. Ficou nítido que o rapaz se sentiu contrariado com as defesas de posição de Russell na corrida sprint, que sim, foram duras, mas dentro do limite do regulamento. Russell já está mais calejado neste tipo de situação, e justamente aí mora o perigo de uma armadilha que o italiano precisa saber como evitar cair, que é justamente se desestabilizar numa disputa roda a roda com George. Pelo menos no domingo, ele já se mostrou mais cuidadoso, e não se ouviu reclamações pelo rádio quando Russell foi novamente duro na defesa de posição. E nem assim ele aliviou, indo para cima do companheiro de equipe, mais decidido do que nunca. É o que ele precisa fazer. O que deve priorizar é manter a cabeça fria, o foco na pilotagem, e evitar ficar irritado quando os esforços não dão resultado, pois é em cima disso que Russell, muito mais experiente, vai tentar construir sua vantagem sobre o italiano, ainda mais agora na desvantagem em que se encontra na pontuação. E se Antonelli ceder às provocações, ele certamente poderá ceder à pressão que irá sofrer nas disputas, e perder o controle da situação que conseguiu assumir nesta temporada, surpreendendo a todos.

            Isso me lembra quando, em 1987, Nélson Piquet, sentindo as sequelas do acidente ocorrido na curva Tamburello, em Ímola, perdeu parte de sua noção de profundidade, e como ele mesmo admitiu, ficou ligeiramente mais lento. Com o time apoiando implicitamente Nigel Mansell na Williams, o brasileiro passou a ser mais estratégico, apostando na constância, e no pouco equilíbrio emocional do inglês, e ambas as estratégias funcionaram, com Mansell a cometer estripulias que o deixaram em desvantagem perante Piquet, que tão logo assumiu a liderança do campeonato, que não largaria mais e o levaria ao título naquele ano, mexeu ainda mais com os brios de Nigel, que começou a cometer mais erros, resultando em sua derrota no campeonato. Russell sentiu o golpe dos triunfos de Antonelli, e precisava reagir, antes que isso o afetasse ainda mais, um risco a ser evitado. Ele vinha fazendo o que era necessário em Montreal, até o carro lhe deixar na mão. Um percalço sem culpa do inglês, que não foi responsável por nenhum comportamento de pilotagem que pudesse desencadear isso. Mas agora, o golpe do abandono apenas amplifica uma situação que ele tentava reverter, dificultando ainda mais o seu trabalho. E, com a imensa maior parte do campeonato ainda por vir, plenamente recuperável, desde que Russell faça o seu trabalho, e consiga escapar dos azares que surgirem pelo caminho.

Depois de se estranhar na corrida sprint no sábado, o duelo se repetiu no domingo, com Antonelli indo para cima de Russell. Uma hora o clima vai azedar entre os dois...

            Da mesma maneira, Antonelli que se prepare para o duelo. Ele deu muita sorte no abandono de Russell, e não venceu apenas por isso, mas claro que, ficar sem o principal rival foi de grande ajuda. Talvez ele vencesse mesmo com George na pista, em disputa direta. O alerta foi ligado: ele pode até ser favorito ao título neste momento, mas terá de suar o macacão se quiser levantar a taça no final do ano. O primeiro aviso sério foi minimizado a seu favor, mas sua sorte pode não durar sempre, e uma hora, ele vai ter azar. Cumpre a ele evitar isso o máximo que puder, dentro do que ele consiga controlar. E, pelo menos nas declarações, o jovem italiano parece bem consciente disso, dizendo que é muito cedo para pensar em título, mesmo com a grande vantagem aberta. Ele prefere manter a cautela, e se concentrar em uma corrida por vez, e fazer o melhor, e claro, continuar vencendo. Para a torcida, é a promessa de uma temporada que até prometia muito, mas está entregando um ano de domínio de apenas um time, enquanto as disputas se concentram mais atrás. Se a dupla do time prateado se engalfinhar na briga pelo título, ótimo, pois o torcedor quer ver briga, disputa, e se o circo “pegar fogo” no meio disso, melhor ainda. Só Toto Wolf terá uma dor de cabeça daquelas se precisar gerenciar essa situação, como precisou fazer nos tempos em que Lewis Hamilton e Nico Rosberg disputaram títulos entre 2014 e 2016.

            O melhor de tudo é não saber quem irá vencer de fato, pelo menos, neste momento. Antonelli, ou Russell? Cada um tem suas preferências e suas torcidas. Alguém vai comemorar no fim do ano, enquanto o outro lamentará… Vejamos quem irá definir essa disputa…

 

 

A temporada nem chegou na metade e parece que já temos um piloto potencialmente em risco no grid. E acredite, com a saída de Helmut Marko e Christian Horner da Red Bull, não é nenhum dos pilotos das duas escuderias da marca de energéticos que está em perigo, com todos eles, em especial os titulares da Racing Bulls, não precisando mais serem fuzilados publicamente pelo polêmico e irascível dirigente, felizmente. Mas quem está em perigo é Valtteri Bottas, na Cadillac, cujo desempenho até agora está deixando a desejar. Sergio Perez vem sobrepujando o finlandês com relativa facilidade, e até agora, mesmo com todos os percalços da escuderia novata, é o mexicano quem tem mostrado mais resultados. Não que a estratégia de escolher pilotos veteranos tenha sido equivocada: para um time iniciante, contar com nomes de experiência comprovada, com passagens relativamente satisfatórias por escuderias de ponta, era uma maneira de minimizar os problemas potenciais de qualquer escuderia nova na competição. O problema é que Bottas está deixando até demais a desejar, pois a performance de ambos está muito discrepante, e não parelha, como esperavam, na melhor das possibilidades. Bottas teve uma passagem bem satisfatória na maioria das temporadas em que defendeu a Mercedes, mas seu rendimento decaiu em 2021, ficando incapaz de acompanhar o ritmo de Lewis Hamilton, que brigou pelo título até o fim, e perdeu em uma decisão polêmica em Abu Dhabi. O finlandês, que nos tempos em que defendeu a Williams foi considerado até um piloto com potencial de ser campeão, perdeu sua vaga para George Russell na Mercedes, que o realocou na então Alfa Romeo (Sauber), onde Bottas até teve uma temporada razoável em 2022. Porém, nos campeonatos de 2023 e 2024, o desempenho de Valtteri despencou, sendo que no último ano, terminou o ano zerado, com Guanyu Zhou tendo obtido os únicos pontos da escuderia, que para 2025 preferiu renovar sua dupla, contratando Nico Hulkenberg e Gabriel Bortoleto. Bottas ficou como piloto reserva de seu antigo time, a Mercedes, então. E assinou contrato para defender a Cadillac este ano. Com o baixo rendimento, a posição de titular de Bottas está a perigo, e a dúvida é até quando ele fica no time. Para 2027, ninguém tem dúvidas de que Colton Herta, que trocou a Indycar pela F-2, é o nome escolhido pelo time para ocupar uma das vagas, mas o californiano ainda não tem os pontos necessários para a superlicença, que depende de quão boa será a sua posição final na temporada da categoria de acesso logo abaixo da F-1, de modo que, na pior das hipóteses, a Cadillac precisa de um plano B para qualquer eventualidade… Isso pode manter Valtteri por mais algum tempo na escuderia, pelo menos este ano, mas para o ano que vem, certamente não, a menos que ocorra algum imprevisto, ou Bottas consiga virar o jogo a seu favor, recuperando seu desempenho... Mas claro que a Cadillac se manifestou dizendo que estes rumores são completamente infundados, e que o finlandês não está com seu lugar em risco... Pode ser, mas na F-1, onde tem fumaça, costuma ter forço, então, não se pode ignorar as possibilidades de Bottas ser dispensado, mas muito mais provável ao menos para 2027.

 

 

A Cadillac, contudo, antes de pensar na possibilidade de rifar Valtteri Bottas, precisa olhar para si mesma. O time, novato na F-1, depois de todos os problemas para aceitar sua inscrição, sempre procurou mostrar ter uma preparação decente para entrar na categoria máxima do automobilismo mundial de forma satisfatória, a exemplo do que sua compatriota, a Haas, fez há dez anos atrás. O carro é o pior do grid, e mesmo com todos os seus problemas, até a Aston Martin começa a apresentar alguma melhoria, ainda que tímida, enquanto o time estadunidense mostra que tem muito a aprender, e a melhorar em seu bólido. Não é isentar Bottas pelo seu desempenho no presente momento estar muito inferior ao de Sergio Perez, apenas ressaltar que a própria escuderia precisa também mostrar serviço, e não já ficar pensando em achar que trocar piloto resolverá todos os problemas. E olhe que em Montreal, Perez até vinha forte, pelo menos, para que o time vinha apresentando, quando sofreu um dano na suspensão, que quebrou sozinha, forçando o abandono do mexicano, o que mostra que a escuderia precisa ter também melhor confiabilidade nos sistemas do carro...

 

 

Sergio Perez, aliás, saiu chamuscado da Red Bull, com sua imagem arranhada, diante mais do carro complicado do time dos energéticos do que por falta de performance, e isso ficou patente no ano passado, quando o time “queimou” Liam Lawson com apenas duas corridas, antes de devolvê-lo ao time da Racing Bulls, e depois, também vitimou Yuki Tsunoda, que viu seu sonho de defender a Red Bull, um time de ponta, virar pesadelo por quase todo o restante da temporada... E, pelo menos até o presente momento, o mexicano vem dando mostras de que mantém sua forma, só não indo mais longe mesmo diante das possibilidades pouco competitivas do carro da Cadillac...