Em meio às discussões sobre novas
regras para os motores da Fórmula 1, que já começam pelas possíveis mudanças
e/ou ajustes, eis que um dos times da competição pode vir a enfrentar um
problema crucial para se manter na categoria. A Mercedes, dona do atual melhor
propulsor do grid, anunciou que a partir de 2031, muito coincidentemente com a
possível nova entrada do regulamento de unidades de potência, declarou que só
irá manter fornecimento para mais dois times. Muitos dão como certa estes nomes
serem das equipes Williams e Alpine. Atualmente, a marca alemã fornece também
propulsores para a McLaren.
A McLaren ficará sem motor, então? Pode ser uma possibilidade... A Mercedes tem apresentado certo incômodo de ver estar sendo superada por um time cliente. Isso aconteceu nas duas últimas temporadas, sendo que o time de Woking inclusive conquistou os títulos de construtores das temporadas de 2024 e 2025, além do título de pilotos no ano passado. O time de fábrica da Mercedes não conquistou os mesmos resultados no mesmo período. E este ano, o time da McLaren, ainda que esteja atrás da Mercedes na temporada, surge como a ameaça mais provável à nova hegemonia do time alemão na competição. Isso daria certa razão para Toto Wolf alegar as mais variadas razões para não “armar” o inimigo, após o encerramento do atual contrato de fornecimento de unidades de potência.
E isso é permitido? Sim. São contratos de fornecimento que são firmados entre escuderias e fabricantes. Vale lembrar que a Mercedes não está falando em rescindir contratos de fornecimento, apenas de se reservar de não reservar um de seus atuais contratos de fornecimento, que no presente momento, abastece os times da McLaren, Williams, e Alpine. E o lance de querer “alijar” um concorrente não é algo novo. Já houve ocasiões onde fabricantes encerraram contratos ou se negaram a fornecer propulsores por motivos similares. Na década passada, por exemplo, quando do início da era híbrida turbo na F-1, a Mercedes recusou fornecer seus propulsores para a Red Bull.
A marca alemã, que dominava a categoria, preferiu não firmar contrato de fornecimento de suas unidades de potência para o time dos energéticos, que na época estava insatisfeita com o rendimento dos propulsores da Renault, do qual era o time oficial. O motivo, embora oficialmente não declarado, era óbvio: a Mercedes não queria ajudar um concorrente potencial que poderia superá-los, se pudessem desfrutar de suas unidades de potência, as melhores do grid. Então, agora a Mercedes estaria com o mesmo argumento, mas com o intuito de não renovar o contrato de fornecimento, possivelmente com a McLaren, que é o time com maior potencial para destronar a própria Mercedes na competição.
Caso isso aconteça, o que pode acontecer com o time de Woking? A opção mais óbvia seria contratar outro fornecedor, mas dois deles potencialmente são inviáveis por questões da mesma política de “não armar” o inimigo: Ford/Red Bull, e Ferrari. A Ferrari nunca iria fornecer seus propulsores a outra escuderia de ponta. Imagine se o time vermelho, que conquistou o último título de pilotos em 2007, fornecesse para a McLaren, e o time inglês fosse campeão com as unidades de potência italianas, superando o próprio time oficial de Maranello? Como ficaria a honra da Ferrari como equipe?
A Red Bull, pelo mesmo motivo, não teria o menor desejo de também “armar” um rival poderoso, ainda mais depois de sofrer preterimento da Mercedes na década passada. Isso motivou os investimentos da equipe austríaca em criar e produzir seus próprios propulsores, primeiro adquirindo os projetos da unidade de potência da Honda, e atualmente, produzindo seus próprios motores em associação com a Ford. A Red Bull então, só fornece propulsores para a Racing Bulls, seu time B na competição, e a si mesma. Outros times não estão na lista de possíveis clientes a serem contemplados com as unidades de potência Ford/RBPT.
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| A Williams também usa motores Mercedes, mas não ameaça o time oficial de fábrica na pista, assim como a Alpine. |
A McLaren, talvez já sentindo que os ares da Mercedes parecem indicar que a parceria de fornecimento poderá vir a ter fim em alguns anos, já chegou a manifestar interesse em desenvolver seus próprios motores, a exemplo do que a Red Bull realizou. Mas claro que isso depende do próximo regulamento, e do montante de recursos que será necessário para projetar e desenvolver seus próprios propulsores. A Red Bull “comprou” os direitos dos motores Honda que usava, e a partir de 2022, embora a Honda ainda fosse a responsável pela fabricação dos motores, foi sendo criada a Red Bull Powertrains, usando o projeto adquirido junto aos japoneses para implementar o seu plano de ser sua própria fornecedora de unidades de potência, com o desenvolvimento e aprimoramento passando a ser feito em Milton Keynes, na nova empresa, sobre as unidades japonesas, que continuaram a utilizar o logo da Honda, que manteve-se de forma semioficial na equipe. A parceria chegou ao fim no ano passado, com a Red Bull Powertrains agora concebendo e construindo seus próprios motores, em parceria com a Ford, em um nível quase completamente independente, com a marca americana tendo participação mínima na produção e manutenção das unidades, sendo mais responsável pelo empréstimo da marca à RBPT.
Neste ponto, a McLaren não poderia fazer o mesmo que a Red Bull. O time dos energéticos conseguiu “comprar” os direitos intelectuais dos propulsores nipônicos porque a Honda resolveu sair da F-1, e portanto, a compra dos direitos de projeto e construção pela Red Bull foi um bônus para os japoneses. Com o título conquistado por Max Verstappen em 2021, a Honda voltou parcialmente atrás na sua decisão de saída, e se manteve como parceria firme, ainda que agora o desenvolvimento das unidades, entre 2022 e 2025, ficasse a cargo da RBPT. A Mercedes, com participação firme na F-1, claro que não aceitaria fazer um acordo semelhante com a McLaren, de modo que o time inglês teria de começar seu desenvolvimento de propulsores praticamente do zero, o que nmão só aumentaria os custos, como não teria garantias de sucesso a curto prazo. Se a FIA conseguir mudar o regulamento para adoção de motores V-8, como quer o presidente da entidade, chegando a prometer que a F-1 “voltará a usar” motores mais simples e econômicos, a McLaren pode ter melhores chances de conceber e produzir estes motores por si só. As atuais unidades de potência são sistemas complexos, que demandam um grande investimento para criação, projeto, construção, e claro, desenvolvimento. E, no curto prazo, sem garantias de performance, o time também não teria clientes que pudessem dividir a conta deste desenvolvimento, o que torna o projeto mais arriscado. Mas, com o regulamento indefinido ainda sobre como serão os novos motores da categoria máxima do automobilismo a partir de 2031, não há como tomar a decisão ainda de se criar tal projeto, e definir como ele irá operar e que tipo de motor será produzido. Não é impossível a McLaren desenvolver tal projeto e unidades, mas será difícil, e irá custar bem caro.
E que outras opções poderíamos ter então? Sobram duas marcas no grid atual que poderiam até topar este fornecimento para o time de Woking, não fosse um problema crucial: estas marcas no presente momento são os piores propulsores do grid, precisando de muito esforço e desenvolvimento para se tornarem competitivos: a Audi e a Honda.
Nem precisamos mencionar que a Honda, que desmantelou seu departamento de motores para a F-1, após repassar tudo à RBPT, teve que literalmente “recriar” todo o seu departamento de competição para produção das unidades de potência, uma vez que os motores que ela produziu até 2021 ainda continuavam saindo do Japão, mas com todo o desenvolvimento e manutenção sendo feitos em maior parte pela nova empresa da Red Bull. O novo propulsor desenvolvido pelos nipônicos é o mais problemático do grid, sem mencionar que o carro também não anda ajudando em nada, e que a Honda já estaria até recebendo autorização dav FIA para reprojetar completamente seu propulsor para 2027, como forma de manter a marca ativa na F-1, com receio de os japoneses pularem fora diante dos mais resultados e dificuldades gritantes que enfrentam.
A situação da Audi não é muito melhor, em que pese o propulsor de Ingolstadt não estar tendo um desempenho tão ruim quanto os japoneses. Mesmo assim, o equipamento ainda não conseguiu mostrar confiabilidade, e a potência também não é das melhores. Claro que ambas as marcas muito provavelmente adorariam poder equipar um time de ponta como a McLaren, porque possuir dois times ajuda a desenvolver e coletar muito mais dados do equipamento, maximizando os dados, e ajudando os engenheiros e técnicos e encontrarem respostas e evoluções para os propulsores. E temos também a chegada da Cadillac, prevista para 2029, mas com um motor totalmente virgem que não se sabe neste momento se terá a competitividade aceitável.
No caso da Honda, a última parceria entre a McLaren e os japoneses foi um verdadeiro desastre. Tencionando reviver os tempos áureos de 1988 a 1992, McLaren e Honda firmaram parceria que durou as temporadas de 2015, 2016, e 2017, mas os resultados foram catastróficos. Além dos carros produzidos pela McLaren no período não terem sido competitivos, os propulsores japoneses não tinham potência, desempenho, performance, e nem fiabilidade, sofrendo várias quebras, e fazendo os pilotos da McLaren batalharem, quando muito, pelas últimas posições de pontuação nas corridas. Fernando Alonso, em plena Suzuka, sem potência do motor de seu carro, classificou o equipamento de “motor de GP2”, numa situação vexaminosa para a Honda. O desaire foi tão contundente que o contrato foi rescindido para 2018, quando a McLaren passou a usar propulsores da Renault. A Honda só não abandonou a F-1 porque foi para a Toro Rosso, passando a serem utilizados posteriormente pela Red Bull, quando foram devidamente desenvolvidos, e alcançaram sucesso com o time dos energéticos.

Tendo o melhor motor do grid, a Mercedes também foi responsável por parte do sucesso da McLaren nos últimos dois anos, deixando o time oficial de fãbrica para trás nos últimos dois anos.
É bem verdade que os tempos são
outros. Na época da década passada, Ron Dennis ainda comandava a McLaren,
enquanto atualmente, Zak Brown dá as cartas na escuderia, e as relações da
Honda também não diferentes, com a Honda tendo criado uma divisão esportiva
unicamente para cuidar de assuntos de competição do esporte a motor, a HRC –
Honda Racing Competition. Um time do porte da McLaren, que atualmente voltou a
apresentar excelência técnica de engenharia e desenvolvimento aerodinâmico após
a época de vacas magras que coincidiu também com a última parceria com os
japoneses poderia ser benéfico para a Honda se manter competitiva e firme na
F-1, ainda que isso valesse somente a partir de 2031.
Como essa situação irá se desenrolar? Tudo ainda caminha na base das especulações. A fala da Mercedes seria séria para valer? E se a McLaren continuar sendo abastecida pela Mercedes, e Williams ou Alpine é que irão perder, uma delas, os propulsores? Tudo pode acontecer, ou até mesmo nada pode acontecer de fato. Já temos conversas e problemas demais no presente momento a respeito das unidades de potência já para o ano que vem, imagine então para 2031, com a FIA querendo impor na marra a volta dos motores V-8, prometendo com isso o “retorno” de uma nova era na F-1, entre outras promessas, e vermos quem ficará ou não com os motores apenas ajuda a complicar ainda mais a situação, ainda que, neste caso, a bomba vá estourar em um dos times mais tradicionais e vitoriosos do grid, com parte deste sucesso sendo justamente devido aos excelentes motores que usa atualmente, e já usou em sua história na competição.
E acredito que ainda teremos muito mais histórias a respeito disso nos próximos tempos. Resta saber se para melhor, ou pior...
A F-1 resolveu “inventar” particularidades novamente para tentar dar uma “agitada” na corrida de Mônaco: não haverá o modo “ultrapassagem” e modo “reta” em Monte Carlo. A justificativa é pela segurança: como os modos potencializam a velocidade dos carros, e com a pista estreita, e os muros dos dois lados da pista, fora a falta de zonas de escapa dignas do nome, a FIA resolveu que os modos não serão disponibilizados no Principado. Com isso, a corrida monegasca será à “moda antiga”, onde os pilotos precisarão fazer as ultrapassagens “no braço”. O discurso da segurança pode até fazer sentido. Resta saber se isso vai promover uma corrida melhor, se lembrarmos que se até mesmo com o DRS os carros dificilmente conseguiam ultrapassar, pelo espaço curto da zona de ativação, até o ano passado. Os carros ficaram ligeiramente menores a partir deste ano, mas isso não deve facilitar muito as possibilidades de ultrapassagens no circuito monegasco, já que mesmo antigamente, com carros mais curtos e sem asas móveis, a prova de Mônaco já não era das mais empolgantes…
Para quem dispõe apenas de TV aberta, o GP de Mônaco marca a “volta” da F-1 à grade da TV Globo em sinal aberto, depois de mais dois meses transmitindo corridas apenas para os assinantes do Globoplay e do SporTV. Nem preciso dizer o que os fãs estão achando dessa palhaçada monumental da emissora para com os fãs do esporte a motor e da categoria máxima do automobilismo mundial...


