sexta-feira, 23 de outubro de 2026

ADEUS A PHILLIP ISLAND

Depois de sediar 30 edições do Grande Prêmio da Austrália, o circuito de Phillip Island se despede do calendário da MotoGP neste domingo.

 

A MotoGP está na Austrália para mais uma etapa do campeonato de 2026, e a disputa direta entre Jorge Martin, da Aprilia, e Marc Márquez, da Ducati, é o grande foco das atenções na pista, mas paralelamente, há outro fator importante a ser considerado neste final de semana: Phillip Island, palco tradicional do GP, está se despedindo da classe rainha do motociclismo. A partir de 2027, a corrida será disputada na nova pista de Adelaide, que foi a primeira sede da F-1 no país da Oceania. O circuito citadino, contudo, terá mudanças na área do parque junto às ruas que formam a parte maior do circuito, de modo que não será exatamente a mesma pista que já recebeu a F-1, e agora receberá pela primeira vez a MotoGP.

Só isso já faz a corrida deste final de semana ser especial para muitos pilotos e equipes. Com a prova deste ano, terão sido 30 corridas da MotoGP em Phillip Island, desde a primeira corrida disputada lá, em 1989, até este ano. Não foram todos os anos que o autódromo participou do campeonato. Ainda na era da Motovelocidade, a primeira corrida foi em 1989, e teve nova edição em 1990. Mas, somente em 1997 a pista voltaria ao campeonato, e a partir daí, marcando presença em todas as temporadas da classe rainha do motociclismo, pelo menos, até 2019. Em 2020 e 2021, devido à pandemia da Covid-19, a Austrália não fez parte do campeonato, diante das dificuldades e protocolos de segurança sanitários para controlar o coronavírus. A Austrália voltaria ao certame em 2022, permanecendo então até este ano.

            Localizado próximo da cidade de Ventnor, no Estado de Victoria, cerca de 140 Km ao sul da cidade de Melbourne, o Phillip Island Grand Prix Circuit possui uma extensão oficial da MotoGP de 4,488 Km de extensão, com 12 curvas, sendo 7 à esquerda e 5 à direita, e possui sentido anti-horário. Sua combinação de curvas muito rápidas, mudanças de elevação, vento marítimo e proximidade do oceano transformou a pista em um dos cenários mais reconhecíveis e admirados do motociclismo mundial.

A história automobilística de Phillip Island começou ainda em 1928, quando estradas públicas da ilha foram fechadas para a realização da prova de 100 milhas posteriormente reconhecida como o primeiro Grande Prêmio da Austrália de automóveis. O traçado original era um grande circuito retangular de terra e cascalho, com quatro curvas principais, muito diferente da instalação permanente atual. Esse circuito rodoviário recebeu esse “GP” australiano até meados da década de 1930, com as corridas continuando a serem disputadas de forma irregular até 1940, quando a Segunda Guerra Mundial encerrou aquela primeira fase do automobilismo na distante ilha. 

Provas em Phillip Island nos anos 1950.

Mais de uma década depois, em 1951, empresários locais se reuniram com a intenção de recuperar o automobilismo em Phillip Island. No ano seguinte surgiu o Phillip Island Auto Racing Club, o PIARC, cujo objetivo declarado era construir o primeiro circuito australiano com padrão internacional para a realização de Grandes Prêmios. O terreno do atual autódromo foi adquirido em 1952, e milhares de subscrições populares ajudaram a financiar as obras, que enfrentaram diversas dificuldades financeiras e de engenharia. Embora algumas referências considerem 1952 como o início da pista moderna, a inauguração de fato ocorreu em dezembro de 1956, com um traçado de aproximadamente três milhas, cerca de 4,8 km.

No começo da década de 1960, Phillip Island recebeu as primeiras edições do Armstrong 500, importante corrida australiana de carros de turismo. O evento acabaria transferido para Bathurst, onde evoluiu para a célebre Bathurst 1000. A transferência ocorreu porque o asfalto de Phillip Island se deteriorava rapidamente sob o esforço das provas longas. Isso provocou o fechamento da pista, e o circuito foi adquirido pelo empresário e piloto Len Lukey, que promoveu uma recuperação e permitiu a reabertura do autódromo em meados daquela década de 1960, mas os problemas estruturais retornaram durante os anos 1970. Depois da morte de Lukey, em 1978, o autódromo praticamente deixou de funcionar e parte da propriedade passou a ter uso rural. Parecia que a história de corridas da pista tinha se encerrado por ali.

Na década de 1980, um grupo local adquiriu a propriedade com a intenção de recuperar o circuito e o autódromo. O engenheiro e promotor Bob Barnard teve papel decisivo na reconstrução da pista e na negociação para receber uma etapa do Mundial de Motovelocidade. O autódromo restaurado foi oficialmente reaberto em 4 de dezembro de 1988. E não poderia haver momento melhor para o retorno do autódromo às competições esportivas. Wayne Gardner havia conquistado o Mundial de 500 cc de 1987 do Mundial de Motovelocidade, e proporcionava ao público australiano um ídolo capaz de enfrentar em casa nomes renomados como Eddie Lawson, Wayne Rainey, Kevin Schwantz e Randy Mamola.

Assim, em 9 de abril de 1989, Phillip Island recebeu o primeiro Grande Prêmio da Austrália de Motovelocidade válido pelo Mundial. Para completar a festa, foi justamente Gardner que venceu a prova australiana de estréia das 500cc diante de sua torcida, após uma corrida que ajudou imediatamente a estabelecer o prestígio internacional do evento.

Wayner Gardner, australiano, venceu a primeira prova da Austrália pelo Mundial de Motovelocidade, em 1989, em Phillip Island.

A pista recebeu novamente o Mundial em 1990, mas o GP australiano foi transferido então para a pista de Eastern Creek, próxima de Sydney, entre as temporadas de 1991 e 1996. Phillip Island continuou ligada ao motociclismo internacional, especialmente pelo Campeonato Mundial de Superbike, realizado ali pela primeira vez em 1990. Mas em 1997, a Motovelocidade retornou a Phillip Island em definitivo, sendo palco da prova australiana até hoje, quando fará sua despedida do campeonato neste domingo.

Casey Stoner: vitória na etapa de 2011, no dia do seu aniversário,e conquista do título mundial daquele ano.

Foi nesse período iniciado em 1997 que Phillip Island adquiriu plenamente sua condição de “templo” da MotoGP na Austrália. Ali ocorreram corridas marcantes nas eras das 500cc de dois tempos e das MotoGP de quatro tempos, com disputas decididas frequentemente por diferenças mínimas graças ao traçado largo, rápido e favorável a ultrapassagens.

Entre seus pontos mais conhecidos estão a Doohan Corner, a rapidíssima Curva 1, batizada em homenagem a Michael Doohan; a Southern Loop, uma longa curva à esquerda que permite diferentes trajetórias; a Stoner Corner, a veloz Curva 3, batizada a Casey Stoner; a Siberia, outra grande curva à esquerda, próxima à extremidade do circuito; a Lukey Heights, onde as motos chegam ao alto de uma elevação e mudam rapidamente de direção; a MG, forte ponto de frenagem depois da descida; além das curvas finais 11 e 12, percorridas em alta velocidade e decisivas para a aceleração rumo à reta principal.

            O circuito recompensa fluidez, coragem e precisão mais do que apenas pura aceleração. O vento pode mudar de intensidade ou direção durante uma sessão, enquanto as temperaturas baixas da região tornam delicado o aquecimento dos pneus. Isso ajuda a explicar por que pilotos tecnicamente refinados e confiantes em curvas rápidas costumam se destacar ali. Phillip Island oferece ainda algo cada vez mais raro nos dias atuais: um circuito veloz que segue a topografia natural do terreno. Em vez de uma sucessão de retas e freadas fechadas, ele exige que o piloto conecte uma curva à seguinte, preservando velocidade e escolhendo cuidadosamente a trajetória. O próprio cenário em volta também é parte de sua identidade. A pista fica entre campos abertos e o litoral do estreito de Bass; do circuito, é possível observar o oceano. Essa exposição, entretanto, cobra seu preço: chuva, frio e ventos fortes podem aparecer rapidamente e já provocaram alterações inesperadas de programação, como a antecipação da corrida principal de 2023 do domingo para o sábado, de modo que a corrida sprint acabou não sendo realizada.

Em resumo, Phillip Island não se tornou lendária apenas pela idade. Sua reputação veio da combinação entre história, velocidade, imprevisibilidade climática, beleza natural e corridas excepcionalmente disputadas, coroada por momentos decisivos das carreiras de nomes lendários do motociclismo como Wayne Gardner, Michael Doohan, Valentino Rossi, e Casey Stoner.

Isso não significa o desaparecimento do autódromo: Phillip Island permanece ativo, continua ligado ao Mundial de Superbike e a categorias australianas, além de conservar enorme importância histórica. Mas, para a MotoGP, a mudança representa o fim de uma das associações mais tradicionais entre uma pista, uma paisagem e a identidade motociclística de um país.

 

 

A despedida da MotoGP de Phillip Island terá uma homenagem particularmente simbólica: quatro campeões da antiga classe de 500cc da Motovelocidade e MotoGP participarão de uma “Volta de Lendas”, que será uma volta cerimonial a ser realizada antes da corrida principal neste domingo. Os pilotos serão Wayne Gardner, campeão mundial das 500cc em 1987; Kevin Schwantz, campeão mundial das 500cc em 1993; Michael Doohan, pentacampeão mundial das 500cc entre 1994 e 1998; e Casey Stoner, campeão da MotoGP em 2007 e 2011. A apresentação ocorrerá domingo, uma hora antes da largada da prova principal do fim de semana. Os três australianos citados representam praticamente toda a tradição do país na categoria principal. Wayne Gardner venceu as duas primeiras corridas da classe rainha do motociclismo que foram realizadas em Phillip Island, em 1989 e 1990. Portanto, foi ele quem inaugurou a ligação entre a pista e os grandes campeões australianos. Seu retrospecto no circuito é perfeito: duas participações e duas vitórias. Michael Doohan, por sua vez, representa a era de domínio australiano nas 500cc durante a década de 1990. Em Phillip Island, conquistou seu quinto título mundial consecutivo em 1998. Como parte das homenagens, uma motocicleta de sua temporada de 1998 ficará exposta na área do evento na sexta-feira e no sábado. Já Casey Stoner é o piloto mais fortemente associado à pista na era atual da MotoGP. Ele obteve seis vitórias consecutivas entre 2007 e 2012, recorde impressionante de domínio no GP australiano. Em 2011, venceu no dia de seu 26º aniversário e assegurou ali o segundo título mundial de sua carreira. Kevin Schwantz, embora seja norte-americano, foi um dos pilotos mais populares da era de ouro das 500cc. Campeão mundial em 1993, conquistou 25 vitórias na categoria principal e ficou conhecido pelo estilo agressivo, pelas grandes recuperações e pela rivalidade histórica com Wayne Rainey. Suas estripulias nas pistas o levaram a ser chamado de “Nigel Mansell da Motovelocidade”, na comparação com as estripulias do piloto inglês da F-1. Sua participação dá à cerimônia uma dimensão internacional, indo além da simples celebração dos campeões australianos na competição.

 

 

Será a primeira ocasião em que Wayne Gardner, Michael Doohan e Casey Stoner andarão juntos na pista de Phillip Island, junto a Kevin Schwantz. Somados, os três campeões australianos conquistaram nada menos que 8 títulos mundiais na classe rainha do motociclismo; e especificamente em relação a esta pista, 8 vitórias da classe principal em Phillip Island; 2 vitórias de Gardner; seis de Stoner, e as duas de Gardner. A homenagem funciona quase como uma passagem pela história do motociclismo australiano: Gardner representando a chegada do Mundial de Motovelocidade a Phillip Island; Schwantz personificando a espetacular geração das 500cc; Doohan simbolizando o domínio australiano nos anos 1990; e Stoner representando a consagração da pista na era MotoGP. Vale lembrar de Stoner por outro detalhe: todas as suas seis vitórias no circuito vieram consecutivas, entre 2007 e 2012. Em 2011, aliás, ele ganhou a corrida que foi realizada justo no dia de seu 26º aniversário e confirmou em casa seu segundo título mundial; a Curva 3 foi depois rebatizada como Stoner Corner posteriormente.

 

 

A Honda enfim confirmou: Diogo Moreira, que fez sua estréia na MotoGP este ano, defendendo o time satélite da LCR, subirá para o time de fábrica em 2027. Era a opção mais lógica: o brasileiro faz uma temporada de estréia relativamente boa, mesmo com alguns erros, normais de um novato na competição na classe rainha do motociclismo. E David Alonso ocupará seu lugar na LCR, ao lado do veterano Johaan Zarco, que segue no time. Moreira terá Fabio Quartararo como companheiro de equipe. A dúvida em tese nem deveria existir, porque Moreira subiu para a MotoGP como contratado direto da HRC, a divisão de competições da Honda. Alonso também chega à classe rainha em 2027 sob o mesmo esquema, mas durante várias semanas, especulou-se se não seria o colombiano a ir direto para o time oficial de fábrica, ao invés do brasileiro. Mas Diogo, com uma temporada de experiência na categoria, é e sempre foi a escolha mais racional, do que colocar um novato logo no time de fábrica da marca, ao invés de aportar pela LCR, um time menor, mas onde sofreria menos pressão. Mas Diogo teve performances que o credenciaram legitimamente a ocupar essa vaga, enquanto Alonso, apesar de talentoso, não vem fazendo exatamente uma campanha muito vistosa na Moto2 este ano. Diogo também impressionou no teste realizado na Áustria com as novas motos de 850cc, que serão o novo equipamento a ser utilizado em 2027, quando obteve o melhor tempo no teste.

 

 

A F-1 chegou a Austin para o GP dos Estados Unidos. Max Verstappen vem de duas vitórias consecutivas, em Sepang e Singapura. Mas a expectativa é se Andrea Kimi Antonelli poderá encerrar no circuito texano a conquista do título mundial de 2026. A F-1 ainda teima em dizer que irá correr em Losail e Abu Dhabi, mas recentes ataques dos Houthis à Riad, a capital da Arábia Saudita, voltou a colocar lenha na fogueira da segurança das corridas no Oriente Médio, enquanto a MotoGP também ainda faz planos de correr lá em algumas semanas. Cogita-se que, caso a F-1 tenha de cancelar de fato as duas últimas corridas do campeonato, a pista de Ímola, na Itália, será acionada para fechar a temporada, com o campeonato tendo pelo menos 22 provas então...

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