
Software de gerenciamento de energia das unidades de potência sofreu pane geral nas condições incomuns do início da prova em Sepang. Vexame homérico para a FIA e a F-1.
Não é de hoje que
critico a postura da FIA e da Formula 1 em corridas sob chuva, que recentemente
parecem ter virado um problema digno de proporções bíblicas, quando antigamente
os pilotos iam para a pista, e disputavam um GP sem problemas, enquanto hoje,
basta cair qualquer chuva para todo mundo se encolher dentro dos boxes, como se
o mundo fosse acabar por causa da água. E domingo passado, em Sepang, eis que
categoria “máxima” do automobilismo deu mais um vexame, embora nem tanto pelos
momentos vivenciados na chuva depois que a prova efetivamente começou, mas
antes dela…
Como é de costume, o clima malaio, equatorial, afinal, não esqueçamos que o país está na linha do Equador, o que para nós, brasileiros, seria como se estivessem em Manaus, se fez presente no domingo, despejando aquela água na pista, que mesmo contando com um sistema de drenagem exemplar, teve trabalho para manter a pista em condições que a F-1 atual consideraria adequadas para competir. Certo, de início, poderia ser água demais mesmo, mas dali a esperar todo o tempo, são outros quinhentos. E aqui entra minha crítica feroz, mas com razão, a respeito da imbecilidade das regras atuais da competição que, nestes casos, se mostra inflexível quando deveria abordar a excepcionalidade do momento, como era praxe antigamente.
E, para quem não lembra, ou não conheceu aqueles tempos, quando a corrida era disputada com chuva, e o restante do final de semana tivesse sido seco, ou nem todo molhado, havia, além do tradicional treino do warm-up nas manhãs do dia da corrida, mais um treino extra, de 15 minutos, dedicado a times e pilotos mudarem completamente o set up dos carros para a pista molhada, reduzindo tanto quanto possível as inadequações dos ajustes dos carros para enfrentar uma corrida sob chuva. Isso evitava parte dos perigos da pista molhada, o que não quer dizer que, em alguns momentos, as provas não eram adiadas por questões de segurança. Só que isso acontecia quando de fato havia água demais. Hoje em dia, chuvas moderadas já causam isso, e o problema é a extrema cautela da FIA e da F-1 com segurança, além de uma rigidez na regra que não permite que os carros tenham seus ajustes modificados para o piso molhado, caso ajustados para pista seca, ou precisando mesmo de ajustes mais vigorosos para piso molhado. Eles falam que a questão de segurança é prevalecente, mas o discurso, apesar de justificado, é apenas falatório, porque, se o lance da segurança prevalece, porque não permitir novamente o reajuste completo dos set ups para adequar os carros para pista molhada, o que permitiria muito mais segurança para os pilotos terem controle dos bólidos do que os ajustes de compromisso que são obrigados a adotar atualmente. Fora que os carros são muito mais seguros atualmente do que há décadas, o que não significa que estamos menosprezando as chances de acidentes, obviamente, mas carros ajustados adequadamente para o piso molhado, mesmo quando os treinos foram assim, mas precisando de reajustes quando a chuva no domingo é mais considerável tornariam a situação menos perigosa.
Outro problema diz respeito à Pirelli, que não consegue produzir pneus de chuva forte adequados porque não conta com colaboração mais efetiva da própria FIA e das equipes, quando este tipo de situação precisa ser encarada com seriedade. Se os pneus de chuva forte não são bons, é preciso união de todos para desenvolver compostos melhores para este tipo de situação, mas quando um dos lados não colabora devidamente, não dá para jogar toda a responsabilidade nas mãos da fornecedora de pneus, que tem que trabalhar com o que tem nas mãos.
Mas o problema na Malásia poderia passar, fosse apenas isso, mas aconteceu algo mais bizarro, e constrangedor: o sistema do software que gerencia a entrega de potência das novas unidades híbridas simplesmente entrou em parafuso diante das circunstâncias incomuns vivenciadas pelos carros, como baixa rotação, velocidade baixa, até mesmo nos trechos de grandes retas de Sepang, o que fizeram o programa simplesmente dar pane em vários carros. Alguns ficaram completamente parados, outros perderam quase toda a potência, se arrastando pela pista. E como o software é gerenciado pela FIA, para padronização do sistema, foi preciso baixar uma atualização, instalar nos carros e praticamente resetar os sistemas, como em um computador convencionar. Básico, mas eficaz. O problema é ter demorado todo aquele tempo, com os carros de competição tecnologicamente mais avançados do planeta, que de um instante para o outro, viraram reféns de um sistema que não soube identificar as anormalidades provocadas pela chuva, e apenas deu “tilt”. E, como a F-1 praticamente não tinha vivenciado uma situação de chuva assim, basicamente não havia como saber exatamente o que aconteceria… Se bem que, se tivéssemos uma pré-temporada digna do nome, talvez fosse possível simular este tipo de acontecimento com os times, mas com cada temporada recente tendo pré-temporadas que mais parecem um shakedown gigante dos carros do que testes propriamente ditos, se comparados com o que tínhamos antigamente, podemos ver que, mais uma vez, FIA e F-1 cavaram a própria desgraça, sendo que o único ponto positivo é que isso foi mais danoso à imagem e credibilidade da categoria do que se tivesse ocorrido algo realmente grave, como um acidente, se bem que estivemos perto de uma tragédia potencial, como já foi discutido sobre o acidente de Oliver no GP do Japão, quando o piloto tentou evitar de atingir o carro de Franco Colapinto, onde o sistema de potência dos carros estava díspare, onde a Alpine do argentino estava anormalmente carros lentos demais para o padrão de um F-1, em um trecho de aceleração, porque o sistema de carregamento simplesmente era fraco demais para prover a energia necessária. Bearman, com mais “carga”, precisou desviar abruptamente, perdendo o controle do carro e batendo com força, mas felizmente não se feriu.

Max Verstappen de volta com tudo: holandês largou na pole em Sepang e venceu a corrida quase de ponta a ponta.
Isso porque o novo
sistema de gerenciamento de energia foi um furada total, com a FIA tendo que
efetuar “remendos” no sistema a fim de prevenir situações similares, o que tem
conseguido disfarçar parte do dilema. Só que, em Sepang, o problema foi outro,
e tão constrangedor e ridículo quanto. E, como mencionei, o único ponto
positivo foi não termos tido nenhum acidente, mas os pilotos soltaram o verbo
sobre a situação, impensável para a excelência tecnológica de F-1 que, se não
precisa parecer perfeita, lamentavelmente deixa a arrogância e a prepotência
acharem que conseguem dar conta de tudo, ou resolver tudo, mesmo quando os
defeitos de uma medida saltam aos olhos.
A corrida em si nem foi tão ruim, com alguns bons duelos, boas recuperações, e disputas animadas. Mas, claro, o que marcou o evento, que já era incomum porque era o GP do Bahrein “realizado na Malásia”, diante de outra manobra mirabolante da FIA para não ter um GP cancelado (a queda de braço financeira que mencionei na semana passada), e poderia passar sem essa.
Agora, é ver qual será a próxima baianada que a FIA e a F-1 vão aprontar, e do jeito que a coisa anda, pode muito bem ocorrer a qualquer momento… E que já aconteceu hoje mesmo, durante o treino de classificação da corrida sprint, destava vez com dois erros que deixaram equipes e pilotos tremendamente irritados, com a Aston Martin prometendo até protestar contra o resultado do treino de classificação. Das duas falhas registradas, uma foi por erro humano.
O primeiro erro foi revelado pela FIA ainda durante a classificação, com um problema do software de cronometragem, fazendo com que algumas voltas rápidas não fossem computadas no momento certo. Isso afetou Gabriel Bortoleto, que chegou a ser eliminado no SQ1 sendo classificado em 18º antes de o problema ser corrigido, e assim, subir para 11º, avançando para o SQ2. Ao menos aqui, o erro foi menor, ainda que inadmissível para um órgão como a FIA, no cumprimento de suas obrigações. Já o segundo erro foi revelado apenas depois do fim da classificação, onde após a bandeira vermelha causada pelos detritos da Cadillac de Sergio Pérez, que bateu no muro, um erro humano na central de controle da direção de prova fez com que o modo ultrapassagem, o aumento de potência normalmente ativo durante a classificação, não fosse reativado. Um oficial da direção de prova reativou o modo por 27 segundos antes de desativá-lo novamente, e como resultado, o SQ1 foi gravemente afetado, pois alguns carros haviam marcado sua melhor volta quando estavam usando o modo ultrapassagem normalmente, enquanto, após a interrupção, outros carros não conseguiram melhorar seus tempos sem a potência extra, ficando fora do corte dos 16 primeiros. Nesta, os maiores prejudicados acabaram sendo os pilotos Arvid Lindblad, Lance Stroll e a dupla da Williams, todos eliminados no SQ1. Realmente, os times mais do que tem razão para reclamarem de tal confusão. E esperar que isso tenha acabado por aqui, mas… Bem, vejamos o que Marina Bay poderá nos oferecer ainda mais neste final de semana...
Uma no cravo, outra na ferradura, diz o ditado popular. George Russell que o diga: depois da bela vitória em Baku, no Azerbaijão, o piloto inglês, que esperava dar início a uma recuperação no campeonato, e não deixar Andrea Kimi Antonelli ser campeão tão antecipadamente como vem sendo cogitado, sofreu outro baque considerável em Sepang, quando sofreu um problema na unidade de potência que o fez abandonar a corrida, entregando a 3ª posição do pódio para Lewis Hamilton, que embora em forte recuperação, teria dificuldades de assumir a posição no final da corrida. Russell já terminaria atrás de Antonelli, mas a diferença aumentaria apenas 3 pontos, mas com o abandono, agora a desvantagem do inglês para o companheiro de equipe chegou a 84 pontos, com 7 corridas em tese para fechar a temporada. Como desgraça pouca é bobagem, a quebra da unidade de potência do carro de Russell obrigou a Mercedes a ter de trocar para uma nova unidade para a corrida deste final de semana, em Singapura, o que foi confirmado pelo time alemão, o que jogará George para largar no fim do grid, pelas penalizações das trocas de equipamento necessárias. E, claro, como todo circuito de rua, a pista de Marina Bay não é lá um paraíso para se fazer ultrapassagens, o que indica que as possibilidades normais de Russell ter um resultado positivo desabaram completamente, com a perspectiva de Antonelli disparar ainda mais na dianteira do campeonato. Como a punição é para a corrida principal, Russell poderá correr sem este problema na prova Sprint, neste sábado, só que isso não alivia muito a situação do piloto inglês.
Muitos críticos disseram que a Ferrari jogou fora uma potencial chance de vencer na Malásia, diante da decisão esdrúxula de partir com pneus de pista seca, quando o circuito ainda estava muito molhado. Isso fez Lewis Hamilton e Charles LeClerc despencarem lá para trás, chegando a ocupar quase a rabeira da classificação, e tudo parecia mais perdido que cego em tiroteio. O Safety Car, no final da prova, ajudou, é verdade, mas ali mesmo, também mostrou que a Ferrari, mesmo que tivesse largado igual a todo mundo, não ficou assim tão prejudicada. Max Verstappen, na liderança desde a parte inicial da corrida, se manteve firme em primeiro, e voltou a abrir vantagem, enquanto Hamilton não conseguiu pressionar Andrea Kimi Antonelli propriamente na briga pelo 2º lugar, o que mostra que, mesmo que a Ferrari não tivesse perdido tempo na prova em condições normais de estratégia, não teria levado, já que o carro de segurança anulou parte da desvantagem, e renivelou o grid na parte final da prova. Além disso, é bom lembrar que McLaren também se equivocou com os pneus, tal como o time de Maranello, e sua dupla teve resultados piores que os ferraristas. Então, neste ponto, é coerente a crítica que a Ferrari faz das críticas recebidas, muitas delas contundentes e exageradas, sendo que a McLaren fez a mesma manobra errada, mas isso não parece ter rendido uma saraivada de críticas tão avassaladora quanto o time italiano. Claro, Ferrari é Ferrari, tem aquela mítica toda do time que é sinônimo da F-1, mas essa fama e charme também costuma, muitas vezes, ter um charme bem negativo…
Max Verstappen, depois de arrepiar e vencer a etapa em Sepang, pode voltar a fazer graça novamente neste final de semana. O piloto da Red Bull marcou a pole-position para a corrida Sprint em Singapura, e sendo uma pista de rua onde as ultrapassagens são complicadas, tem tudo para vencer, pelo menos a prova curta. Ainda será preciso comprovar a força do holandês para a corrida principal, no domingo. Enquanto isso, George Russell terá a chance de pelo menos começar bem o fim de semana, largando na primeira fila da corrida curta, enquanto Andrea Kimi Antonelli sai apenas em 7º. Aliás, o triunfo de Verstappen na Malásia marcou também a primeira pole-position do tetracampeão no ano, e foi a primeira vitória da nova parceira Ford/RBPT, e o primeiro triunfo do motor Ford deste o GP do Brasil de 2003, que ficou com Giancarlo Fisichella, da Jordan/Ford, obtido na confusão das voltas finais, quando Fernando Alonso bateu forte na Curva do Café, e bagunçou as posições dos pilotos, com a vitória sendo considerada inicialmente de Kimi Raikkonen, da McLaren, inclusive com o pódio sendo realizado com o finlandês como vencedor, fato que foi posteriormente corrigido, com o troféu de vencedor recebido por Kimi sendo entregue então a Fisichella na etapa seguinte, em Ímola, naquele ano. Já a última vez que um carro com motor Ford largou na pole-position em uma prova de F-1 havia ocorrido em 1999, no GP da França, quando o brasileiro Rubens Barrichello, então na Stewart, equipe oficial da Ford na competição, marcou o melhor tempo na classificação para a etapa francesa, na pista de Magny-Cours. Naquele mesmo ano, a Stewart venceria sua primeira e única corrida na categoria máxima do automobilismo, no GP da Europa, com Johnny Herbert, que seria a penúltima vitória da Ford na competição, até o triunfo inusitado de Fisichella no Brasil em 2003. E vale lembrar que essa vitória com a Stewart é basicamente da mesma equipe que hoje é a Red Bull, uma vez que a Stewart, comprada pela Ford, virou Jaguar, competindo de 2000 a 2004, quando a Ford abandonou a F-1, e o time foi comprado pela Red Bull, que é a escuderia atual, pela qual Verstappen fez a Ford voltar a largar na frente e a vencer novamente na F-1, no domingo passado.



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