sexta-feira, 11 de agosto de 2017

FORMULA-E GANHANDO ATENÇÃO


Campeã com Lucas Di Grassi, a Audi será time oficial de fábrica na próxima temporada da F-E. E terá novas companhias muito em breve...

            A Formula-E finalizou a sua terceira temporada com a cotação em alta. De um simples projeto de categoria de competição de carros monopostos totalmente elétricos que começou a ser esboçada em 2012, os carros foram entrar definitivamente na pista no segundo semestre de 2014, tendo seu primeiro campeonato realizado com a disputa de 11 provas pelo mundo inteiro. Muitos apostavam que a F-E seria apenas mais uma aventura no mundo do esporte a motor, como já foram tantas outras, mas felizmente, as previsões mais pessimistas não se concretizaram, muito pelo contrário. A categoria segue em franco crescimento, e com boas perspectivas a médio prazo.
            O que era visto como algo excêntrico agora está atraindo a atenção de várias montadoras de veículos, que estão preparando sua entrada na competição, para fazer companhia a quem já está lá ou planeja engrossar sua participação. O mundo do esporte a motor acompanhou a decisão de BMW, e mais recentemente, da própria Porsche e da Mercedes de adentrarem o certame nas próximas temporadas. Nem mesmo a F-1 está conseguindo atrair tanta atenção assim dos fabricantes.
            E o motivo é puramente comercial: a Alemanha baixou leis que promoverão o fim da fabricação dos carros movidos a combustíveis fósseis a partir de 2030, e outros países do continente devem seguir o caminho. Portanto, o negócio é desenvolver desde já esta tecnologia, que já avançou muito desde seus primeiros protótipos, mas ainda tem um bom caminho a percorrer para desenvolver-se ainda mais. E a F-E acaba se tornando o laboratório ideal para desenvolver os novos motores que impulsionarão esta nova geração de veículos ecologicamente menos poluentes do que os atuais. Com entradas programadas para a temporada 2019/2020, alguns fabricantes terão uma década na competição para evoluir suas tecnologias, na disputa para oferecer os melhores e mais econômicos veículos de propulsão elétrica na disputa pelos consumidores. E ninguém vai querer ficar para trás. Portanto, mãos à obra, e projetos na mesa.
            Esse oba-oba sobre a F-E, contudo, não vai fazer a categoria bombar a ponto de se tornar a mais importante do mundo. A Fórmula 1 e outros certames ainda vão garantir suas posições e atenções por muito, muito tempo. Mas que a categoria dos carros elétricos vem crescendo, isso é patente. O calendário aos poucos vem ganhando mais etapas, e com a entrada de mais fabricantes, o grid também será ampliado, e a dinâmica das corridas vai evoluindo. Calcula-se que na quinta temporada, por exemplo, os pilotos não necessitarão mais trocar de carro durante as corridas, com as novas baterias a fornecerem carga suficiente para toda a prova, por exemplo, ao contrário do que ocorre hoje. Para a próxima temporada, que se iniciará em dezembro, já está sendo planejado um aumento de 10 Kw na potência que os pilotos poderão utilizar durante a corrida, hoje limitada a 170 Kw, e a 200 Kw nos treinos de classificação.
            A evolução da categoria em termos de performance obedece a certos princípios que evitam uma escalada de custos e performance. E, o mais importante, os chassis são todos iguais, assim como o sistema de baterias, com fornecedor padrão, que atualmente é feito pelo departamento de tecnologia da Williams, mas que em breve será substituído por um sistema fornecido pela McLaren, nas temporadas 2018/2019 e 2019/2020. Com cargas de energia iguais para todos, em um sistema de armazenamento padronizado, resta aos fabricantes desenvolverem sua tecnologia nos powertrains, os “trens de força”, que na prática, são os motores, com seus sistemas de câmbio particulares, que dependendo do fabricante, podem incorporar várias, ou poucas, ou até mesmo uma única marcha, dependendo do modo como é feita a impulsão do sistema. Com a evolução dos carros limitada mais a estes “corações elétricos” de seus monopostos, a idéia é evitar que os fabricantes invistam de forma descontrolada no aumento de performance dos bólidos, até porque os incrementos de desempenho são controlados. Ganhará quem souber desenvolver seu sistema de forma que ele seja mais eficiente no uso da energia disponível, e esse é um procedimento que pode ser realizado também com a ajuda do piloto, se ele souber manter sua velocidade sem desgastar seu equipamento.
A Renault já está estabelecida na categoria, através da e.dams, e teve o melhor equipamento nos últimos dois campeonatos.
            E saber gerenciar a energia disponível, melhorando sua autonomia sem comprometer a performance, é o grande desafio que os times presentes na categoria enfrentam. Na primeira temporada, com equipamentos 100% iguais para todos, os times foram encontrando suas janelas de desempenho aos poucos. Na segunda temporada, foram admitidos o ingresso dos powertrains dos fabricantes, que podiam ser usados pelos times que a eles se associaram, enquanto quem não o fizesse ainda poderia apelarão equipamento padrão do ano anterior. A carga de potência das baterias sofreu um incremento de potência, mas para contrabalançar isso, e manter o desafio de economizar a energia nas corridas, estas ficaram um pouco mais longas. Nesta última temporada, flexibilizaram as regras de consumo da energia disponível, de modo a oferecer a times, fabricantes e pilotos, novos desafios de competição. Ao mesmo tempo em que as corridas ficaram também um pouco mais compridas, vimos variáveis de estratégias que nas primeiras provas seriam praticamente suicidas, como por exemplo na etapa da Cidade do México, onde Lucas Di Grassi fez um stint com seu segundo carro que todo mundo imaginou que não daria para chegar ao final da corrida, uma vez que o brasileiro fizera a troca do carro várias voltas antes do necessário. Mas, pilotando com maestria, e sabendo atacar no momento certo, o brasileiro foi para a liderança, e com alguma dose de sorte, também, venceu a etapa.
            Não por acaso, para estarem na vanguarda da tecnologia dos carros elétricos, diversos fabricantes já entraram firme na F-E, todos interessados em desenvolver estes sistemas, que constituirão o conhecimento nos quais serão desenvolvidos toda a nova geração de carros elétricos que em pouco mais de uma década serão os únicos a serem fabricados na Europa. Não duvido que o resto do mundo fique indiferente a essa evolução, ainda que as fábricas dos Estados Unidos e no Japão e Coréia ainda estejam inertes nesse sentido de apostarem na categoria de competição dos carros elétricos. Dos fabricantes atuais, a Renault é quem dispõe do melhor powertrain da F-E, tendo já conquistado oficialmente o título de equipes com a escuderia e.dams nos dois últimos anos. Não apenas a excelência do equipamento justifica estes resultados, mas também a eficiência da escuderia, e principalmente de seu piloto Sébastien Buemi, duas vezes vice-campeão da competição, e campeão da segunda temporada. A escuderia Techeetah, ao usar o powertrain da Renault, desde a primeira corrida obteve uma performance notável pela qualidade do sistema francês, mesmo sendo um time novato na área. Só não foi mais longe justamente porque, por ser exatamente um time novo, enfrentou vários percalços durante a temporada.
            Mas ninguém quer ficar para trás. A Audi, que competia oficialmente em associação ao time da ABT, assumirá oficialmente a posição como time de fábrica na próxima temporada, dando à escuderia o mesmo status que a e.dams desfruta em relação à Renault. Desde que anunciou sua saída do Mundial de Endurance no ano passado, já era essa a intenção da marca alemã, que com o título conquistado por Lucas Di Grassi, só tem mais motivos para fortalecer ainda mais sua presença. E os demais fabricantes já presentes pretendem fazer o mesmo. A Citroen, que havia feito seu ingresso na segunda temporada, associada à equipe Virgin, retrabalhou seu powertrain para o terceiro ano, incrementando a performance da escuderia, que terminou o ano na 4ª colocação, e só não foi a 3ª colocada porque acabou surpreendida com uma escalada de performance da indiana Mahindra, outra fabricante de carros que enxergou na categoria sua oportunidade de marcar área na tecnologia dos veículos elétricos. E fabricantes que já se concentram unicamente em veículos elétricos também estão presentes, como a Faraday, e a NexTev, ansiosos em desenvolverem cada vez mais esta tecnologia.
A BMW fará da Andretti seu time oficial na competição de carros elétricos.
            E, mostrando que não basta ter poderio financeiro, a Jaguar, em seu primeiro ano no certame, marcou passo, entendendo os desafios que a competição proporciona, e adquirindo conhecimento sobre como e onde precisa evoluir seu equipamento. A escuderia britânica foi a última colocada na competição, em 10º lugar. A expectativa é de evolução para a próxima temporada, mas até entrarem na pista, fica apenas a expectativa. Cito o exemplo da NexTev, que teve uma péssima segunda temporada, ficando em último lugar, e neste terceiro ano, até mostrou evolução, mas ainda deixou a desejar em várias ocasiões em termos de performance, finalizando em 6º lugar. Dinheiro não foi exatamente o problema, mas as regras da categoria dificultam que o desenvolvimento dos sistemas sejam feitos de forma desenfreada.
            O duelo entre os fabricantes tem tudo para ser interessante. A BMW ficará associada à equipe Andretti, enquanto Porsche e Mercedes virão para serem times oficiais, e muito provavelmente veremos 26 carros no grid da competição. Muitos afirmam que com todas estas montadoras, os custos poderão explodir, e o que é uma categoria atualmente de custos de competição bem acessíveis e próxima ao público torcedor pode acabar descambando para os mesmos vícios que assolam competições como a F-1, com custos demasiado altos e competição nem sempre atrativa para o público. Diria que é um risco possível, e espero que a direção do certame, da FIA e de Alejandro Agag, saiba evitar que isso aconteça.
A Jaguar estreou na competição na última temporada, e ainda tem muito chão pela frente: acabou terminando em último lugar.
            Em termos esportivos e organizacionais, a F-E ainda tem muito o que evoluir. Se é verdade que várias corridas foram muito disputadas, e apresentaram duelos empolgantes e até certa imprevisibilidade de vencedores, as pistas ainda precisam ser melhor concebidas. O traçado montado em Montreal, no Canadá, foi um dos melhores da competição já criados, enquanto outros circuitos, como o de Paris, e Nova Iorque, foram truncados, e extremamente difíceis de proporcionarem chances de ultrapassagens, resultado em corridas que não trouxeram as disputas esperadas. As regras de punições também precisam ser aplicadas com maior afinidade e coerência, a fim de se evitar situações que podem levar acerto descrédito por parte do público torcedor.
            O público em geral tem sido bom nas corridas, e a proximidade dos fãs com a categoria tem de ser mantida e incentivada sempre, garantindo um diferencial que não se vê em outros certames mais abastados. O fanboost, por exemplo, já serviu de inspiração para a Stock Car nacional desenvolver uma interação similar com o torcedor da categoria, o “Hero Push”, e isso é algo muito legal. É fácil falar que a F-E não tem o alcance de uma F-1, uma Nascar, ou até mesmo da Indycar, mas é um campeonato jovem, e que tem tudo para crescer se continuar a ser bem gerido, especialmente agora com tantos fabricantes de renome desembarcando em seu quintal. Que a F-E saiba se manter em seu rumo, com um crescimento firme, e constante, sem se desvirtuar com a guerra desenfreada que as grandes montadoras travam, e assim possa oferecer boas e melhores corridas, em lugares e traçados muito mais bem concebidos mundo afora.
            A tecnologia de propulsão elétrica tem ainda muitos desafios a serem vencidos, e mesmo sendo muito mais limpa que a dos veículos a combustão, ainda tem uma série de percalços e problemas que precisam ser resolvidos. Mas é justamente para isso que a F-E servirá como mola propulsora, e desempenhar de forma decisiva o papel de laboratório das fábricas, que poderão desenvolver seus sistemas, e quem sabe, solucionar os entraves e dificuldades que este tipo de tecnologia ainda tem que resolver para ser completamente limpa e ecologicamente correta.
            O futuro realmente será elétrico, mas ainda teremos muito chão pela frente até chegar a ele. Mas a F-E certamente poderá ajudar a dar uma mão para que ele surja antes do que todos imaginavam...


Encerrada a terceira temporada da F-E, os carros da categoria de monopostos elétricos já tem data para acelerarem novamente. A quarta temporada da competição começará no primeiro final de semana de dezembro deste ano, em Hong Kong, que desta vez será uma rodada dupla, com provas que serão realizadas nos dias 2 e 3 de dezembro. Marrakech, no Marrocos, será novamente o segundo palco da competição, mas agora no dia 13 de janeiro de 2018. Uma novidade no calendário é a etapa de Santiago, capital do Chile, com uma corrida marcada para o dia 3 de fevereiro de 2018. A Cidade do México vem a seguir, com sua etapa ocorrendo no dia 3 de março. E logo depois, será a vez dos carros elétricos finalmente aportarem em terras tupiniquins, com o eprix de São Paulo tendo como data o dia 17 de março. Quem também fará sua estréia no calendário é Roma, com a cidade eterna sediando sua corrida no dia 14 de abril. Paris é a próxima parada do calendário, no dia 28 de abril. As duas etapas seguintes do calendário ainda precisam ser definidas: No dia 19 de maio, será a vez da Alemanha sediar a competição, com uma prova em local ainda a ser escolhido, que pode ser em Berlim, ou talvez em Munique. Zurique, na Suíça, também deve entrar na parada, com uma etapa marcada para 9 de junho, mas podendo ser substituída por Moscou. As etapas finais, em Nova Iorque e Montreal, já estão com datas e locais certos, e a exemplo do que aconteceu nesta última temporada, continuarão sendo rodadas duplas. A Big Apple terá suas corridas nos dias 7 e 8 de julho, enquanto a metrópole canadense mais uma vez encerrará a temporada nos dias 28 e 29 de julho. O calendário terá um acréscimo de 2 provas, com um total de 14 corridas, frente às 12 provas disputadas na terceira temporada. Emoção não deverá faltar nas pistas na disputa entre os carros monopostos elétricos. Que venha a próxima temporada!
A indiana Mahindra desbancou a Virgin (leia-se Citroen), e foi a 3ª colocada no encerramento da temporada 2016/2017 da F-E.

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