quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

ARQUIVO PISTA & BOX - ABRIL DE 1997 - 18.04.1997



            Voltando com os antigos textos na seção Arquivo, trago hoje a coluna do dia 18 de abril de 1997, tendo como assunto os azares e percalços enfrentados por nossos representantes no campeonato da F-Indy original naquela temporada, onde todos eles estavam tendo uma zica atrás da outra, e Christian Fittipaldi tinha sofrido um violento acidente na prova da Austrália que praticamente arruinaria seu campeonato, tirando-o de várias corridas. Quem deu sorte nessa foi Roberto Moreno, que ganhou a chance de substituir o conterrâneo no time da Newmann-Hass, e fez um trabalho tão bom que ganhou o apelido de "supersub", de supersubstituto, graças ao seu grande talento e performances substituindo pilotos titulares na categoria. Mas não eram apenas os brasileiros a terem azar nas corridas iniciais daquele campeonato. Mesmo assim, uma temporada que prometia muito para nossos pilotos ficou mais uma vez apenas na promessa, com o italiano Alessandro Zanardi a arrasar a concorrência e faturar seu primeiro campeonato na categoria, sem dar chance a ninguém. Uma boa leitura, e em breve tem mais textos antigos...


SORTE, AZAR,...E ERROS!

            Fazendo um balanço do campeonato da F-CART em relação aos pilotos brasileiros, não há como traçar um panorama muito animador para eles neste mundial de 1997, apesar das boas perspectivas apresentadas desde o início da temporada. Mas não são apenas os pilotos brasileiros que estão enfrentando problemas além da conta. Vários nomes de peso da concorrência também têm tido diversos percalços.
            Começando pelos brasileiros, Christian Fittipaldi é quem enfrenta a pior situação. Desde que passou a correr na Newmann-Hass, um dos melhores times da categoria, Christian parece ter tido muito mais azar do que sorte, ao contrário de seu colega de equipe Michael Andretti, que já venceu 6 corridas desde que começou a ter o jovem Fittipaldi como colega de time. Em Surfer’s Paradise, então, foi o caos. Um forte acidente, 4 fraturas na perna e pelo menos 3 meses de recuperação praticamente tiram da jogada o melhor piloto brasileiro no campeonato da F-CART em 1996.
            Raul Boesel parece que conseguiu se desvencilhar dos problemas mecânicos que vinha sofrendo em seu carro mas, em Long Beach, foi a vez da equipe arruinar a corrida do piloto brasileiro com uma parada desastrosa nos boxes. Enquanto Raul tenta superar as dificuldades, seu companheiro de equipe Scott Pruett lidera o campeonato da F-CART. Sorte de uns, azar de outros. Infelizmente, sempre vai ser assim.
            Já Gil de Ferran atravessa um momento delicado. Com nada menos do que 7 batidas nas últimas 7 corridas, descontadas as batidas nos treinos livres das etapas, Gil tenta recuperar o ânimo, especialmente depois de ter sido ele próprio o culpado de seu abandono em Long Beach, onde errou em uma curva e quebrou a suspensão dianteira de seu Reynard/Honda. Além dos seus próprios erros como piloto, Gil ainda amarga azares como o de Homestead, quando um retardatário simplesmente lhe fechou a porta e o mandou para o muro. Em Long Beach, teve ainda a infelicidade de sua equipe ter lhe feito perder tempo no Box, com pit stops mais lentos que a concorrência, o que derrubou parte de seu esforço na pista.
            Roberto Moreno, por sua vez, levou uma rasteira de seu patrocinador, que resolveu cortar a verba e direcioná-la para outros fins. Mas Roberto agora teve a sorte de ter sido escolhido para substituir Christian na Newmann-Hass enquanto seu conterrâneo se recupera do forte acidente de Surfer’s Paradise. Nos treinos em Long Beach, Moreno assombrou os proprietários da escuderia, Carl Hass e Paul Newmann, conseguindo se classificar imediatamente atrás de Michael Andretti no grid de largada. De salientar que Michael tem anos de experiência com a escuderia e Moreno praticamente conheceu a todos no fim de semana no balneário californiano. Na corrida, infelizmente o azar voltou a atacar, e não só o brasileiro: Michael Andretti, só para dizer que Moreno não foi o único a sofrer, teve dois pneus furados exatamente no mesmo ponto da pista, na reta dos boxes, logo depois de passar pela entrada dos boxes. Justo no pior lugar, o que o obrigou a dar, por duas vezes, uma volta completa pela pista em velocidade reduzida para chegar aos pits e efetuar a troca de pneu. Moreno também teve um pneu furado, perdendo o mesmo tempo que Andretti, mas cometeu um erro em uma curva e bateu de traseira no muro. Balanço final: ambos os pilotos da Newmann-Hass fora da corrida. De positivo, apenas a constatação de que Moreno vinha em ritmo tão rápido quanto os líderes, Gil de Ferran e Alessandro Zanardi, e andando mais rápido que o filho de Mario Andretti...
            Alessandro Zanardi, aliás, só não lidera o campeonato com folga por culpa de algumas estripulias de sua equipe e da concorrência, conseqüências essas que o fizeram perder as possibilidades de vencer tanto em Miami quanto em Surfer’s Paradise.
            Guálter Salles, por sua vez, carrega o fardo de ser um estreante na categoria. Só que para piorar, sua equipe, a Davis, não consegue repetir o desempenho de 1996, quando era a equipe de Jim Hall. Maurício Gugelmim, até o momento, parece ser o único que não enfrenta grandes problemas, mas não esteve imune a percalços, como a atabalhoada ultrapassagem a Jimmy Vasser em Surfer’s Paradise, que o fez perder todas as chances de pontuar. O pódio de Long Beach serviu para reerguer o ânimo do curitibano.
            Erros, acertos, sorte, e azar; tudo isso faz parte da vida de um piloto. Para o lado dos brasileiros, entretanto, do jeito que a coisa anda nos últimos tempos, parece que o ingrediente sorte é o que mais faz falta. Fica no ar a dúvida de até quanto isso vai durar...


Na prova preliminar do GP de Long Beach, na Indy Lights, a sorte não faltou para nossos pilotos, que demonstraram todo o seu talento sem enfrentar problemas como seus conterrâneos da F-CART. Hélio Castro Neves venceu a corrida praticamente de ponta a ponta. E teve dobradinha brasileira no pódio, com o 2º lugar de Cristiano da Matta. E, só para a festa não ficar só entre eles, Tony Kanaan assegurou o 5º lugar, enquanto Airton Daré faturou a 6ª posição...


Pela segunda corrida consecutiva, Jacques Villeneuve venceu uma corrida graças a Rubens Barrichello. Se em Interlagos o carro parado de Rubinho motivou nova largada, em Buenos Aires domingo passado o piloto brasileiro se enroscou com Michael Schumacher. No toque provocado pelo bicampeão alemão, a Ferrari ficou fora da prova. Eddie Irvinne, com a outra Ferrari, deu um sufoco tremendo no canadense da Williams nas voltas finais e por pouco não venceu a corrida. Como é consenso geral de que Michael Schumacher é 0s5 mais rápido por volta que o irlandês, fica a dúvida do que teria acontecido se fosse Schumacher a pressionar Villeneuve nas voltas finais do GP da Argentina de F-1...


As equipes Prost e Stewart foram as sensações da qualificação em Bueno Aires. Enquanto Rubens Barrichello conquistou a 5ª posição no grid, Olivier Panis garantiu a 3ª colocação, largando na segunda fila. Rubinho, depois de uma recuperação prodigiosa de último para 10º, ficou sem acelerador e deu adeus à prova; já Panis estava pressionando Villeneuve pela liderança da corrida, e apesar de uma escapada do canadense, continuava aparecendo no retrovisor da Williams, até que o motor Mugen-Honda de seu carro apresentou problemas e ele foi forçado a abandonar a corrida. Melhor sorte na próxima vez, eles esperam, e a torcida também...


Enquanto Eddie Irvinne conseguiu dar uma certa volta por cima na F-1, já que sua cotação na equipe Ferrari andava em baixa nas últimas provas, Jean Alesi continua na corda bamba: o piloto francês conseguiu largar à frente de seu companheiro Gerhard Berger no grid, mas na corrida o austríaco conseguiu se recuperar, e apesar do pífio 6º lugar, conseguiu fazer a melhor volta da prova. Já Heinz-Harald Frentzen só não ficou com a cotação pior do que já estava porque desta vez seu carro quebrou sozinho e ele não teve culpa nenhuma...
 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

QUEIMANDO O FILME...


E a prova da IRL no Brasil este ano dançou...

            Semana passada, o assunto mais discutido nos meios automobilísticos nacionais foi a notícia do cancelamento da etapa brasileira da Indy Racing League, que deveria abrir o campeonato de 2015, e seria realizado no dia 8 de março, no autódromo Nélson Piquet, em Brasília, no Distrito Federal. Cancelado de forma unilateral pela Terracap, empresa do governo do Distrito Federal, após denúncias do Ministério Público do Distrito Federal, das irregularidades do "contrato" firmado pelo governador Agnelo Queiroz no ano passado com a Rede Bandeirantes, a situação pegou muita gente de surpresa, uma vez que, mesmo com as denúncias que já haviam surgido em novembro do ano passado, e que tinham provocado até a suspensão da licitação, as obras no circuito continuaram com a promessa de sanar as pendências da licitação, os ingressos começaram a ser vendidos, e a Bandeirantes começou a mostrar quase que diariamente em seus telejornais matérias do campeonato, sempre lembrando que no início de março a Indy aterrissaria no Brasil.
            Aos trancos e barrancos, tudo indicava que a corrida seria mesmo realizada. As obras, em que pese serem apenas parciais, com a entrega apenas das estruturas necessárias para a realização da corrida, como recapeamento do traçado e construção das áreas de escape, entre alguns outros detalhes, seguiam relativamente firme, e quando da suspensão dos trabalhos, pelo cancelamento informado pela Terracap, cerca de 60% das obras estavam concluídas. O resto da reforma do autódromo ficaria para depois. E, além da promoção que a Bandeirantes fazia do evento, a cervejaria Petrópolis, dona da marca Itaipava, havia acabado de assinar contrato para ser a patrocinadora master da corrida. Foi tudo para o brejo.
Até Vitor Meira se empenhou na promoção da corrida em Brasília, mas as irregularidades cometidas colocaram tudo a perder...
            Pegos de surpresa, Bandeirantes e a Indycar tentaram buscar soluções. Enquanto a emissora paulista batia cabeça sobre o episódio, a direção da categoria americana chegou a sondar a pista de Goiânia para receber a etapa, mas o governo do Estado não topou a empreitada, o que motivou a direção da IRL a cancelar em definitivo a corrida, depois de cogitar transformar a etapa inicial em São Petesburgo em rodada dupla, ou até realizar mais uma prova no Estado do Texas, no Circuito das Américas, em Austin. E o Brasil, de novo, fica com o filme queimado com esta situação, mostrando que realmente não é um país sério, como afirmou um grande estadista inglês que até hoje é venerado como um dos chefes de Estado mais competentes e íntegros dos tempos modernos.
            Erros e impropérios vieram de todas as partes envolvidas no acordo para a realização da corrida brasileira da Indy Racing League. A começar pela TV Bandeirantes, que no segundo semestre de 2013, teria resolvido, segundo conversas internas, desistir de transmitir a competição de monopostos dos Estados Unidos. Claro que isso nunca foi falado oficialmente, mas a emissora estava mesmo a fim de pular fora, alegando prejuízos com a operação da Indy em nosso país, que envolvia também a etapa brasileira da competição, realizada em São Paulo, em um circuito urbano montado ao redor do Sambódromo, na região do Anhembi. Mas havia contratos a serem respeitados, que obrigavam a emissora a manter a transmissão do campeonato, bem como a realização da etapa brasileira até o fim da década. E contratos firmes e bem feitos. E os americanos gostam de ver seus contratos serem cumpridos. A emissora paulista bem que tentou dar o "jeitinho brasileiro" para se safar, mas a direção da Indycar prometeu jogar pesado, e levar o caso à justiça americana, onde a Bandeirantes certamente se daria mal. A emissora teve de voltar atrás: continuou transmitindo a competição, mas até que isso se acertasse, a etapa brasileira já tinha ido para o brejo. Era preciso arrumar uma corrida em outro lugar, mesmo que para 2015. E depois de algumas opções estudadas, eis que surgiu Brasília.
            Teoricamente, nada contra. Uma prova na capital do Brasil, em um circuito que, devidamente reformado, teria todas as condições de sediar a corrida, e fazer nosso país ficar bem na fita novamente. Até aí, vá lá, desde que tudo fosse feito corretamente. Mas, estamos no Brasil, lembram? Aqui parece que fazer tudo fora dos eixos parece ser a norma, especialmente no trato com governos e autoridades públicas. Agnelo Queiroz, governador do Distrito Federal, logo abraçou a idéia, prometendo mundos e fundos para a realização da corrida. Só esqueceu de avisar que na prática, não haviam nem mundos e muito menos fundos para isso: a administração Queiroz no DF literalmente quebrou as finanças públicas, e só para se ter uma idéia do caos financeiro, a grande maioria dos servidores públicos de Brasília está sem receber salários, e muitos serviços essenciais estão funcionando muito mal ou simplesmente parados. Embora essa situação caótica tenha ficado muito mais visível agora, Brasília já andava mal das pernas quando o anúncio da corrida foi feito. Com sua administração levando o DF à bancarrota, e com a popularidade em baixa, certamente Agnelo Queiroz tencionava capitalizar politicamente com a corrida da Indy na capital, uma vez que ele tentava a reeleição, nem que fosse preciso terminar de quebrar o que ainda estivesse de pé. Uma irresponsabilidade total. Mas, do jeito que nossos políticos se comportam ultimamente, qual a novidade nisso? Temos um governo federal que, se não quebrou o país, certamente o conduziu à estagnação e recessão econômica, além de produzir o maior escândalo de um país democrático em todos os tempos em uma companhia de petróleo que deveria ser o orgulho nacional...
            Para piorar tudo, no Termo de Compromisso inicial entre o governo do DF e a Bandeirantes, conforme levantado pelo Ministério Público do Distrito Federal, descobriu-se que o acordo assinado não obedecia a uma série de requisitos legais imprescindíveis. Não havia data de publicação, assinatura de testemunhas, nem publicação em Diário Oficial, como manda o figurino. E depois, quando surgiu finalmente o contrato, havia até cláusulas aberrantes nele, como sobre a possibilidade de rescisão do contrato, admitida "até" 365 dias antes da realização da corrida, ou seja, um ano antes, só que em um contrato firmado SEIS meses antes da realização da corrida, em setembro de 2014, ou seja, meio ano antes da prova. Entre outras esquisitices, também constava uma outra cláusula onde não se prevê multa nenhuma à Terracap ou ao DF, no caso de cancelamento da corrida. E olhem só: a Bandeirantes, segundo também informa o parecer do Ministério Público, foi quem se comprometeu com a direção da Indycar a ter de pagar uma multa de cerca de 80 milhões de reais no caso da não realização da prova.
            Fosse um contrato devidamente firmado, com todos os requisitos e formalidades legais necessárias, poderia ser classificado de uma atitude leviana e sem noção dos envolvidos, mas com tamanhas atrocidades no texto, chega a ser de uma irresponsabilidade atroz a Bandeirantes ter firmado um contrato nestas condições. Será que ninguém na emissora se preocupou com a possibilidade de tudo ir pelo ralo, ou foram tomados de assalto por um otimismo exacerbado, a ponto de ignorarem a realidade das coisas? A situação no DF, já extremamente complicada à época, deveria ser mais um sinal de que estavam embarcando em uma canoa cheia de furos. Se sabiam de tudo o que acontecia, resolveram pagar para ver, e agora realmente poderão se arrepender da decisão tomada. As credenciais de Queiroz não lhe davam credibilidade nenhuma. Ou foi uma burrice tremenda, ou uma tentativa de ganhar uma boa bolada por fora, e faturar com mais uma obra "a toque de caixa" da corrupção que permeia construções deste tipo.
            Aliás, qual não foi a surpresa quando se viu também que o custo das obras de reforma do autódromo, previstas em cerca de R$ 98 milhões, de repente "saltaram" para a casa dos mais de R$ 310 milhões. A explicação "oficial" é de que as obras precisaram ser "redimensionadas". Tá, finjo que acredito nisso, porque se for verdade, só quer dizer que outra irregularidade foi cometida: iniciaram uma obra sem um projeto a ser seguido, o que vai contra todos os ditames do bom senso de quem deve zelar pelo uso correto dos recursos disponíveis, ainda mais públicos, além de ser crime. Imagino que é assim mesmo nas várias outras obras em andamento pelo nosso pobre país, em especial das refinarias da Petrobrás, cujos custos multiplicaram-se exponencialmente devido a "ajustes" e outros termos técnicos que costumam surgir como justificativas nestes momentos tentando explicar o que não tem explicação.
            O novo governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, a princípio teria mantido todo o apoio do governo à realização da corrida. Mas isso teria sido antes de tomar conhecimento das reais condições legais do contrato, se não estava realmente a par da situação, ou somente após receber a notificação do Ministério Público, recomendando o cancelamento do mesmo e das obras, sob ameaça de serem tomadas as medidas cabíveis para isso em nível judicial, o que poderia tornar a situação do novo governador mais complicada do que já está. Nem é preciso dizer que, em novembro e dezembro, mais precisamente após a eleição que Rollemberg ganhou para ser o novo governador, a situação do DF piorou a olhos vistos. Comenta-se que, frustrado por não ter conseguido se reeleger, Agnelo Queiroz teria terminado de afundar Brasília ainda mais do que já estava, numa retaliação mesquinha e atroz contra toda a população, a fim de se vingar daqueles que não o reelegeram. Verdade ou não, o fato é que o Ministério Público do DF está movendo ação de improbidade contra o ex-governador, a fim de responsabilizá-lo pela crise orçamentária que o Distrito Federal atravessa. E este contrato da corrida da Indy é apenas mais um dos inúmeros atos irregulares praticados em sua gestão.
            Tendo ou não mudado de idéia por conveniência política, Rollemberg tomou a atitude mais correta: cancelou as obras, e com isso, a corrida se foi. Claro, ajudou o fato das cláusulas darem chance da Terracap e do Distrito Federal poderem cancelar tudo sem sofrerem consequências por isso também, mas com as finanças públicas arrasadas, há prioridades muito maiores do que a realização da corrida, e com as irregularidades do contrato firmado, foi fácil também se livrar da encrenca. O que ainda seria gasto para viabilizar a corrida agora poderá ser utilizado para tentar sanar a grave crise financeira que o setor público da capital federal enfrenta. O buraco deixado por Queiroz, contudo, é tão grande e amplo que mesmo essa economia advinda do cancelamento da corrida não significará muita coisa. Mas é um começo.
            Infelizmente ficaram as sequelas deste imbroglio: a imagem de nosso país novamente vai a pique no exterior, e nem é preciso dizer que a direção da Indycar ficou extremamente chateada com esta situação. Uma chateação que vai render muita dor de cabeça para a Bandeirantes, que já está tentando chegar a um acordo para se livrar da enorme multa pelo cancelamento da corrida, que cai justamente em seu colo, para não falar da devolução do dinheiro dos ingressos já vendidos, que prometeu para breve. Muitos afirmam que, depois deste episódio, dificilmente nosso país voltará a sediar uma corrida da Indy Racing League. Será? Convenhamos, a direção da Indycar, depois do rolo com a Bandeirantes querendo largar tudo em 2013 e início de 2014, devia ter mantido um acompanhamento muito mais estrito e severo sobre o desenrolar destas negociações para se achar uma nova sede para a etapa brasileira, ou foram também muito ingênuos e otimistas com relação a tudo o que se passou. Só que, se lembrarmos que, nos últimos anos, a direção da Indycar também vem metendo os pés pelas mãos em vários assuntos, tomando decisões meio a torto e a direito, creio que não deveria sentir tanta surpresa com a falta de tato e excesso de confiança demonstrados nesta situação. E ainda temos, além da questão da devolução dos ingressos, o cancelamento de viagens e estadias de todos que já haviam se programado para isso, fossem torcedores, fossem profissionais que viriam para acompanhar e/ou trabalhar na corrida, para não falar dos transportes de todos os times da categoria, com vários materiais já sendo encaminhados para cá. Desfazer tudo agora deve dar uma tremenda satisfação de ter entrado num grande conto do vigário...
            O pior de tudo agora é como fica o autódromo da capital federal. A estrutura já existente foi demolida para as reformas, de modo que agora só restou a pista. Será preciso reconstruir tudo. Só que isso vai custar dinheiro, e o governo do DF no momento não tem idéia praticamente do que fazer primeiro para sanar a situação caótica das finanças. As etapas planejadas da Fórmula Truck e da Stock Car certamente também serão canceladas. Uma saída seria fazer uma parceria com a iniciativa privada para recuperarem o autódromo, e em troca, dar a concessão de explorar o local por um determinado período. Mas precisaria ser uma concessão com total transparência, dando a quem investir na recuperação e manutenção do local todas as garantias para bem desempenhar seus afazeres. Só que isso também pode levar tempo, e isso quer dizer que, pelos próximos meses, podemos esquecer o autódromo de Brasília.
            Resta esperar que uma solução se apresente, e permita a restauração, reforma e reabertura do circuito. O problema é que o histórico brasileiro nesse sentido já não é dos melhores. Temos a Confederação Brasileira de Automobilismo que praticamente nada faz para ajudar a manter e/ou preservar as pistas nacionais, e se formos lembrar o que aconteceu com a pista de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, podemos muito bem começar a rezar para que o mesmo destino não aconteça com a pista de Brasília. Aliás, perder os dois autódromos teria uma coincidência bizarra: ambas as pistas tinham/tem o nome do tricampeão de Fórmula 1 Nélson Piquet. Seria macumba de algum desafeto de nosso primeiro tricampeão?
            Teria sido muito mais produtivo se a Bandeirantes tivesse continuado firme com os compromissos da Indy. Muito provavelmente a corrida em São Paulo continuaria firme (estava melhorando a cada ano, e não apenas em estrutura, mas em público e negócios firmados), e a emissora não precisaria estar nessa saia justa agora, mesmo tendo se metido nela por livre e espontânea vontade. E depois ainda tem gente que questiona a FIM e a Dorna por terem riscado o Brasil do mapa do calendário da MotoGP quando lhes propuseram sediar novamente uma corrida. Os europeus resolveram não cair na conversa de nossas autoridades, no que fizeram muito bem...
            Depois dessa, não dá para reclamar de enfrentar o descrédito que nosso país tem no exterior. Merecemos isso. Estamos queimando o filme mesmo, e com muita categoria... Algo que infelizmente não dá nenhum prazer...
            E a julgar pelos resultados das últimas eleições, parece que dificilmente o brasileiro irá aprender a lição para não se queimar de novo...

Como deveria ficar o autódromo reformado.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

FLYING LAPS - JANEIRO DE 2015



            E o ano de 2015 mal começou, e janeiro já foi embora. Nestas horas, o tempo parece andar mais rápido do que um carro de corridas. E como é de praxe em todo início de mês, eis aqui a mais nova edição da Flying Laps, com algumas notas rápidas de alguns acontecimentos do mundo da velocidade neste início de ano que não puderam ser analisados nas colunas regulares. Uma boa leitura a todos, e até a próxima edição da Flying Laps do mês que vem...


A Fórmula-E disputou no último dia 10 de janeiro sua 4ª etapa, nas ruas de Buenos Aires, e assim como havia mostrado na etapa anterior, em Punta del Este, no Uruguai, foi uma corrida e tanto, com várias surpresas e disputas entre os pilotos até a bandeirada. E, pela 4ª vez consecutiva, o certame apresentou um vencedor diferente. Desta vez, foi o português António Félix da Costa, da equipe Amlin Aguri. O pódio foi completado por Nicolas Prost, da E.Dams, na 2ª colocação, e com Nelsinho Piquet, da China Racing em 3° lugar. A etapa argentina da competição não foi muito boa para Lucas Di Grassi e Sébastien Buemi. Ambos acabaram abandonando depois de enfrentarem quebras nas suspensões de seus carros. Buemi, que largara na pole na etapa, vinha se mantendo na liderança da corrida, e já vinha com o piloto brasileiro em seu calcanhar, quando atacou demais uma zebra e danificou sua suspensão, indo parar no muro, e dando adeus às chances de se aproximar de Lucas na classificação. Só que Di Grassi não pôde comemorar por muito tempo: quando tinha tudo para vencer pela segunda vez no campeonato, o brasileiro da equipe Audi Abt também acabou tendo uma quebra de suspensão, e tendo o seu primeiro abandono no certame. Vencedor da segunda corrida, na Malásia, Sam Bird também teve uma corrida complicada em virtude de ter recebido uma punição de drive through por ter feito sua parada para troca de carros abaixo do tempo mínimo estipulado, e com isso, perdendo as chances de vitória, terminando apenas em 7° lugar. Mas o que deixou a platéia alucinada foram as disputas de posição nas voltas finais, com vários pilotos partindo para o tudo ou nada uns contra os outros, com várias ultrapassagens entre eles, algumas bem-sucedidas, outras nem tanto. Houve quem passasse, alguns escaparam da linha ideal e ao invés de passarem, acabaram sendo passados. Com os pilotos centrados na disputa, vários nem sabiam em que posição estavam na bandeirada de chegada. O público aplaudiu os competidores, e a F-E mostra que conforme avança seu campeonato, vai melhorando cada vez mais. A próxima corrida será no dia 14 de março, em Miami, nos Estados Unidos.


Depois de três etapas subindo ao pódio, com uma vitória, um segundo e um terceiro lugares, o brasileiro Lucas Di Grassi não gostou do abandono que sofreu na etapa da Argentina da F-E. Lucas chamou atenção para o fato da suspensão de seu carro e do indiano Karun Chandhok terem quebrado sem terem sido forçadas demais, cobrando maior atenção quanto à durabilidade dos componentes dos chassis, que são fabricados pela Dallara, em nome da segurança. Largando na 5ª colocação, Lucas foi para cima dos adversários, e era o 2° colocado quando a pressão em cima do líder Sébastien Buemi deu resultado, com o suíço passando em cima de uma zebra e comprometendo sua suspensão dianteira. Diante do azar do abandono algumas voltas depois pelo defeito que comprometeu a suspensão de seu carro, o brasileiro ainda saiu de Buenos Aires no lucro, uma vez que nenhum de seus perseguidores diretos no campeonato teve bom desempenho na etapa argentina da competição. Com isso, Lucas ainda lidera o certame, com 58 pontos. Sam Bird, da Virgin, assumiu a vice-liderança, com 48 pontos; Sébastien Buemi vem a seguir, com 43 pontos. Com o 2° lugar em Buenos Aires, Nicolas Prost assumiu a 4ª posição, com 42 pontos. O pódio em Buenos Aires alçou Nelsinho Piquet à 5ª posição, com 37 pontos. Com o triunfo na Argentina, António Félix da Costa foi a 29 pontos, assumindo a 6ª colocação.


Depois de passar em branco nas duas primeiras etapas, Bruno Senna vem se recuperando no certame da F-E. Bruno marcou seus primeiros pontos em Punta Del Este, com um 5° lugar, e em Buenos Aires, foi o 4° colocado, marcando mais 10 pontos, e ocupando no momento a 11ª posição, com 18 pontos, empatado com seu colega de equipe, o indiano Karun Chandhok. Mas tanto no Uruguai quanto na Argentina, Senna teve de largar das última colocações para fazer corridas de recuperação, e vem demonstrando grande capacidade neste procedimento. A hora em que tiver condições de largar mais à frente, sem enfrentar problemas, poderá ser um dos candidatos à vitória. E a categoria mostra que tem bom equilíbrio entre seus participantes, portanto, novos vencedores poderão surgir nas etapas seguintes da competição.


A crise econômica também anda rondando o continente americano. A Chip Ganassi, um dos maiores times da Indy Racing League, precisou apertar o cinto neste primeiro mês de 2015. Foram cerca de 10 funcionários demitidos, e embora possa parecer pouco, a dispensa destes profissionais indica que a escuderia deve disputar o certame deste ano apenas com 3 carros, ao contrário dos 4 com os quais competiu nos últimos anos. Um sinal claro da redução de verba está no fato de que este ano a Target, parceira da escuderia desde a sua estréia na Fórmula Indy original, no início da década de 1990, só manterá seu patrocínio para o carro de Scott Dixon. Tony Kanaan, que no ano passado também correu com as cores da Target, terá seu bólido este ano patrocinado pela NTT Data, que em 2014 apoiou o 4° carro do time, conduzido por Ryan Briscoe, que não teve o contrato renovado para esta temporada. Charlie Kimball, que corre com apoio de empresas do setor farmacêutico (o piloto é diabético), está garantido na temporada 2015 na escuderia. Não deixa de ser um sinal preocupante das dificuldades financeiras que o mundo do esporte a motor passa, quando uma escuderia de ponta de uma categoria precisa apertar o cinto diante de uma falta de patrocinadores...


O Mundial de Rali de 2015 já disputou sua primeira etapa, e o vencedor foi, de novo, Sébastien Ogier, que inicia o ano mostrando aos concorrentes que vai lutar pelo tricampeonato. A etapa de Monte Carlo, que abre o campeonato de off-road, aliás, viu o triunfo por completo da equipe da Volkswagen. Jari-Matti Latvala e Andreas Mikkelsen, companheiros de Ogier na equipe alemã, ficaram em 2° e 3° lugares na competição. Latvala finalizou as 15 etapas com cerca de 58 minutos de desvantagem para o atual bicampeão. Mikkelsen, por sua vez, fechou a prova com mais de 2 horas de desvantagem para o vencedor. Um dos destaques da prova foi o retorno de Sébastien Loeb, que iniciou a competição exibindo a velha forma, terminando o primeiro dia da competição na liderança, e certamente assustando o time de Ogier, ainda que por uma vantagem mínima sobre o atual campeão da categoria. Mas no segundo dia de competição, Loeb teve problemas, e ao acertar uma pedra, danificou seu carro e perdeu muitas posições, caindo para 15°, e tornando impossível uma recuperação na competição a ponto de disputar a vitória: acabou em 8° lugar, com mais de 8 horas de desvantagem para Ogier, que certamente agradeceu pelo providencial azar ao rival.


Quem também começou o ano de forma atribulada no Mundial de Rali foi Robert Kubica. O polonês mostrou grande velocidade com seu carro, mas problemas elétricos comprometeram as chances de obter um bom resultado na classificação final. E, no último dia, talvez para não perder o hábito, como estão dizendo os piadistas, Robert ainda se acidentou com o carro, mas felizmente sem sofrer maiores danos além de amassar toda a lateral direita do veículo, mas saindo tanto ele quanto seu navegador sem um arranhão sequer...


A equipe oficial da Yamaha apresentou no último dia 28 em Madri, na Espanha, o seu modelo 2015 que será conduzido por Valentino Rossi e Jorge Lorenzo na temporada deste ano da MotoGP. O objetivo é destronar o atual bicampeão da categoria, Marc Márquez. Rossi e Lorenzo, bem como todo o time da Yamaha, estão empolgados e decididos, mas falta combinar com o piloto da Honda, que certamente tem outras idéias na cabeça...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

HORA DE ACELERAR NA PISTA


Circuito de Jerez de La Fronteira, na Andaluzia, dá a largada na pré-temporada da F-1 neste domingo.

            Acabou-se a espera. Neste domingo, começa a pré-temporada da Fórmula 1 de 2015. É hora de conferir os novos carros e as novas associações firmadas para a nova temporada. E os torcedores espanhóis terão o privilégio de monopolizar todos os testes de preparação para o campeonato. A pista de Jerez de La Fronteira, na Andaluzia, sedia a primeira sessão coletiva, que começa neste domingo, 1° de fevereiro, e vai até o dia 4. Depois, teremos uma pausa de duas semanas, e então os times voltam ao batente desta vez na Catalunha, no autódromo de Barcelona, nos dias 19 a 22 de fevereiro, e que também sediará a última sessão coletiva, nos dias 26 de fevereiro a 1° de março. Depois, é empacotar tudo e rumar para a primeira corrida da temporada, em Melbourne, na Austrália, no dia 15 de março.
            É uma pena que a FIA continue ignorando os demais países como opções de locais de testes da pré-temporada da F-1. O belo circuito de Portimão continua sem ter o gosto de ver um carro de F-1 até hoje, assim como os portugueses há quase 20 anos não tem este prazer em uma pista de seu país. E até Ímola, na Itália, que poderia sediar uma sessão de testes, continua esquecido, tendo visto pela última vez um bólido de F-1 na temporada de 2006. Se Jerez é um circuito que está de fora do campeonato, Barcelona já virou lugar comum, sediando sempre os testes. Poderiam experimentar a pista de Valência, não o circuito urbano que sediou o GP da Europa há pouco tempo atrás, mas o autódromo Ricardo Tormo, que já sedia a MotoGP. Uma variada faria bem à categoria, e sair um pouco de Barcelona também ajudaria a tornar a prova espanhola menos tediosa, uma vez que todos os times já conhecem tão bem a pista pela maioria dos testes que as surpresas tem sido sempre mínimas, e as corridas, enfadonhas, nos últimos anos.
            Além da expectativa normal que todo início de testes de pré-temporada causa, o panorama geral já começa bem alvoroçado. Em primeiro lugar, teremos um desfalque: a Force India anunciou esta semana que não estará em Jerez. Com o carro de 2015 ainda por finalizar, a escuderia argumentou que os testes com o modelo do ano passado, mesmo com adaptações dos novos sistemas que virão com o novo monoposto não dariam os resultados esperados pela escuderia. Pode até ser, mas com apenas 12 dias disponíveis na pré-temporada, perder praticamente 1/3 do tempo de pista pode ser um grande prejuízo na preparação para o campeonato, e que pode não ser recuperado mais adiante.
            Mas seria o menor problema do time de Vijay Malliya, que mesmo com o incremento de novos patrocinadores no México, estaria com a situação financeira tão complicada que uma publicação alemã até já noticiou que o próprio time estaria à venda. Não posso negar que, a se confirmar tal posição, fiquei até um pouco surpreso, pois tudo dava a entender que a escuderia pelo menos conseguiria manter-se firme na competição, sem maiores percalços financeiros. Não que o time tenha dinheiro sobrando, mas nas últimas temporadas, em que pese a situação financeira complicada de seus proprietários, a escuderia de F-1 sempre teve as finanças relativamente em ordem, evitando contrair dívidas que a complicassem sobremaneira na competição. Isso se demonstrava também pelo fato de geralmente começar bem o ano, e depois ir perdendo o fôlego frente aos concorrentes, às vezes mais, às vezes menos, durante o campeonato, evidência do escasseamento dos recursos, que eram reduzidos e gerenciados de forma a garantir que o time terminasse o ano pelo menos de pé, o que parece que agora está muito mais difícil de se garantir, com o time talvez iniciando o ano em sua pior forma desde que Malliya assumiu o comando da escuderia na década passada. Uma pena. A Force India pelo menos sempre se garantia no bloco intermediário, com algumas boas performances aqui e ali.
            Red Bull e Sauber, por outro lado, enfrentam uma correria desenfreada para colocar seus novos modelos na pista neste domingo, para darem início a seus testes. Enquanto a escuderia suíça anda com as finanças combalidas, ao ponto de ter atrasado até a construção do carro, a Red Bull tenta finalizar o seu novo RB11, que até o fechamento desta coluna, ainda não teria sido aprovada no "crash test" da FIA. Os modelos de ambos os times despertam a curiosidade de todos, torcedores e imprensa especializada. No time dos energéticos, o RB11 deverá ser o último carro de F-1 "puro sangue" de Adrian Newey, que a partir desta temporada assumirá a função de "consultor" na Red Bull, dedicando-se a outros projetos. O carro do time para 2016, o futuro RB12, já deverá ser concebido pelo corpo técnico do time, que terá apenas a "supervisão" de Newey. O "engessamento" das regras técnicas da F-1 tiraram o entusiasmo do projetista, que preferiu buscar novos desafios fora da categoria. E ao manter o inglês como consultor, a Red Bull também garantiu que outros times não o contratassem. Como o motor Renault turbo e seus sistemas de recuperação de energia devem render melhor este ano com as evoluções permitidas pelo regulamento, todo mundo quer ver do que a última criação de Adrian será capaz na pista, conduzida pelo australiano Daniel Ricciardo, e pelo russo Daniil Kvyat.
            Na Sauber, a expectativa é ver como o time conseguirá se portar este ano, depois de sua pior temporada na história, tendo ficado sem pontuar em 2014, e ficando quase sem recursos e muitas dívidas. Um acordo de patrocínio e cooperação tecnológica com a gigante tecnológica Hewlett-Packard firmado esta semana deve aliviar a penúria do time, e permitir um desenvolvimento mais acurado do potencial que o novo C34 porventura tenha. Felizmente o time suíço deverá estar com seu monoposto pronto para entrar na pista no domingo, depois de deixar seus fãs preocupados com as notícias de que o carro muito provavelmente não estaria pronto para a primeira sessão de testes coletivos. Espero que a escuderia tenha um ano melhor, pois Peter Sauber é de uma raça quase extinta na F-1 hoje em dia, a dos garagistas, que montaram seus times pela paixão da velocidade. Além do suíço, restam apenas Frank Williams, e Ron Dennis, como representantes desta estirpe que um dia já foi a grande maioria dos competidores da F-1.
            A primeira semana de testes, como de costume, pode não gerar indícios muito precisos de como será a relação de forças da categoria nesta temporada. Mas teremos alguns parâmetros interessantes para se observar. O primeiro deles deverá ser a evolução de potência dos motores: a introdução das novas unidades de força híbridas em 2014 foi feita de forma bem conservadora, com nenhuma das marcas a utilizar todo o limite de rotações permitido pela FIA, a fim de garantir a fiabilidade das unidades e evitar quebras. Com um ano de experiência de pista, e com os desenvolvimentos permitidos pelo regulamento para várias áreas dos propulsores, as versões novas, em que pese ainda sejam os mesmos conjuntos, deverão se mostrar bem mais fortes do que no ano passado. Renault e Ferrari, que ficaram à sombra da Mercedes neste campo em 2014, terão uma nova chance de recuperarem o terreno perdido para os alemães. O problema é que estes também não ficaram parados, e as más línguas falam que houve um incremento de pelo menos 50 cavalos a mais na unidade de força germânica, o que pode significar uma ducha de água fria para os concorrentes, ainda mais se o novo modelo W06 for tão competitivo como o do ano passado.
            Para aqueles que chiaram a torto e a direito que as novas regras tinham deixado a F-1 "mais lenta", as perspectivas são boas: os novos carros deverão ser bem mais velozes este ano. Em parte pelo incremento de potência que todas as unidades deverão fornecer, em parte pela evolução dos projetos dos carros. Aliás, estes críticos que falavam que os carros tinham se tornado muito mais lentos pareciam se esquecer completamente que eles haviam "engordado" cerca de 50 Kg em relação a 2013, além de perderem bastante downforce com as novas regras. Pois bem, os novos carros deverão recuperar parte deste apoio aerodinâmico perdido em 2014, e a Pirelli também dará uma boa contribuição para o incremento de performance dos bólidos 2015. No ano passado, sem maiores informações de como se comportariam as novas unidades híbridas de força, com reações diferentes dos antigos motores V-8 aspirados, a fabricante italiana optou pela prudência na confecção dos compostos de pneus que as escuderias utilizariam, para evitar situações como as ocorridas durante meados da temporada de 2013. Agora, já conhecendo bem melhor os novos propulsores, a Pirelli promete pneus mais velozes, e também menos duráveis dependendo do tipo de composto, a fim de provocar as tradicionais variáveis de estratégias desejadas pela FIA, que viraram norma nos últimos anos. As escuderias terão de descobrir como usar da melhor maneira estes compostos, e quem souber interpretar os dados da pré-temporada poderá surpreender os rivais nas primeiras provas. Calcula-se que os carros, numa estimativa otimista, possam ser até 3s mais rápidos do que os de 2014.
            Todo mundo também está na expectativa de rever a parceria McLaren/Honda na pista. Até o fechamento desta coluna, o novo MP4/30 ainda não tinha sido apresentado, o que iria ocorrer ontem. É de se esperar grandes dificuldades no retorno dos nipônicos à categoria, mas todos esperam que eles consigam superar as dificuldades o quanto antes e ajudar a McLaren a voltar às primeiras colocações, de onde andam ausentes nos últimos dois anos. O problema é que não apenas os japoneses precisam caprichar, mas a própria McLaren: se o novo carro não for competitivo, o novo propulsor japonês não fará milagres, e se o carro for bom, também não conseguirá compensar um motor problemático. Mas, se no ano passado a Red Bull e a Renault conseguiram fazer um bom campeonato, levando-se em conta que mal conseguiram andar direito na pré-temporada, dá para ficarmos esperançosos em uma recuperação do time de Woking mais à frente no caso de uma pré-temporada desastrosa, pelo menos sabendo que há possibilidade de se recuperar durante o ano.
            E as atenções também estarão voltadas para a Ferrari, que entra em 2015 praticamente toda renovada, com direção e comando totalmente novos, além de ter sofrido grandes mudanças na área técnica. E por contar agora com o tetracampeão Sebastian Vettel. O time rosso teve em 2014 sua pior temporada em mais de duas décadas, então, apresentar um desempenho melhor não deve ser difícil. Resta esperar que a nova direção da escuderia saiba manter a cabeça fria e evitar perder o controle se 2015 se mostrar outro ano de resultados magros na pista. E Vettel chegou ao time mais famoso da F-1 disposto a calar seus críticos de vez, mostrando ser um verdadeiro talento e não apenas um sortudo de ter pego os melhores carros dos últimos anos. Ah, e ele quer apagar também a péssima imagem deixada no ano passado, quando acabou superado por Ricciardo na própria Red Bull... Por isso e outros motivos, todo mundo vai querer saber até onde a Ferrari poderá ir este ano, e se a nova direção do time vai redimi-lo, ou talvez afundá-lo ainda mais.
            Tanto McLaren quanto Ferrari tem muito o que provar em 2015, e num ponto ambas estão idênticas: são os únicos times cujas duplas de pilotos são campeões. Na escuderia inglesa, temos o bicampeão Fernando Alonso e Jenson Button, campeão de 2009; já no time italiano, Kimmi Raikkonem foi o último a conquistar um título pela Ferrari, em 2007, e Vettel praticamente deitou e rolou de 2010 a 2013 em cima dos concorrentes. Se seus carros corresponderem, eles certamente mostrarão do que são capazes na pista.
            Mercedes e Williams terminaram 2014 com os melhores carros da competição. Se todos esperam que o time alemão continue mantendo seu domínio nesta nova temporada, não será menos esperada ver como se dará o duelo entre sua dupla de pilotos este ano. Bicampeão, Lewis Hamilton é o favorito para conquistar o tricampeonato, mas terá em seu companheiro Nico Rosberg novamente um adversário duríssimo a ser batido. Fica a dúvida apenas de quão dominante o time será em 2015, com uma oposição teoricamente mais bem preparada, como é o caso da Williams, que renasceu das cinzas no ano passado, e só faltou mesmo vencer, o que não foi demérito, dada a supremacia da Mercedes na competição. Se o time mantiver sua ascendência, eles certamente terão todas as chances de voltar ao degrau mais alto do pódio nesta temporada. Valtteri Bottas e Felipe Massa tem todas as razões para se animarem.
            A Lotus teve um ano horroroso em 2014 e tenta reencontrar o seu caminho. Trocaram o motor Renault pelo Mercedes, mas ainda precisam provar que podem retomar a forma exibida entre 2012 e 2013. Pelo seu lado, a Toro Rosso terá o mais novo piloto do grid, Max Verstappen, que promete causar sensação na pista.
            Depois de praticamente dois meses sem nenhuma atividade fora das fábricas, está na hora de todo mundo entrar novamente na pista e pisar fundo no acelerador. E especialmente conferir os novos carros, e ver como cada escuderia achou as melhores soluções para as restrições do regulamento técnico. Depois da chiadeira dos fãs, a FIA impôs regras para deixar os bicos dos carros teoricamente mais elegantes e "bonitos", então podemos esperar visuais esteticamente mais belos do que alguns projetos vistos nos últimos anos. Até o fechamento desta coluna, só vi o novo modelo da Williams em foto, enquanto os demais carros foram mostrados apenas em desenho de computador ou especulação de fãs. Se conseguirem deixar os carros com um visual mais elegante e simples, será um bom caminho para a categoria voltar a cativar os seus fãs, embora ainda haja muito a ser feito neste sentido.
            Aguardemos então para ver do que a F-1 2015 é capaz na pista de Jerez nestes primeiros 4 dias, e tentar entender melhor o que poderemos esperar das equipes e pilotos para mais um campeonato mundial. É hora de acelerar na pista novamente...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

HAVOC SERIES - ROBERT KUBICA



            Trazendo mais uma postagem da sessão Havoc Series, hoje enfoco o polonês Robert Kubica. Nascido em Cracóvia, em 7 de dezembro de 1984, Robert iniciou sua carreira nos monopostos em 2001, na Fórmula Renault 2000 Européia e Italiana. Depois, ele passaria por alguns campeonatos, até ser campeão da World Series By Renault em 2005, e estreou na F-1 na temporada de 2006, substituindo o canadense Jacques Villeneuve na equipe Sauber, à época sob controle da BMW. Dono de grande talento, não demorou para o polonês encantar os torcedores e ser apontado como futuro campeão da categoria, ainda mais pelo fato de que a BMW tinha planos de investir pesado em seu time na F-1, após adquirir a Sauber. E de fato Robert confirmou que tinha tudo para se tornar uma das estrelas da categoria máxima do automobilismo. Em 2008, ele chegou à sua primeira vitória na categoria, ao vencer o Grande Prêmio do Canadá daquele ano, comandando uma dobradinha da escuderia suíço-germânica. Mas no ano anterior, ele tinha deixado todo mundo arrepiado com seu violento acidente na curva do Hairpin, onde seu carro praticamente ficou destruído por completo. Robert felizmente saiu praticamente ileso do forte acidente, tendo perdido apenas o GP seguinte, nos Estados Unidos, para se recuperar devidamente, mas voltando na etapa seguinte. Confiram a violência do acidente, onde o carro chega até a decolar depois de um toque com Jarno Trulli, saindo da pista e batendo forte no muro de proteção. O vídeo, postado no You Tube, é da usuária Sofea Shariffah, e tem todo o acidente em câmera lenta:


https://www.youtube.com/watch?v=eP1_POQPJVw

            Uma das paixões de Robert era o rali, e volta e meia, ele disputava algumas provas nos intervalos da F-1. E foi numa destas provas, o Rali de Andorra, que Kubica acabou se estrepando feio: pilotando um modelo Skoda Fabia, o polonês perdeu o controle em uma curva e colidiu contra a proteção lateral da pista, que enganchou na frente do veículo, atravessando-o completamente, varando o motor e o cockpit, atingindo o piloto. Kubica sofreu traumatismos múltiplos em seu braço direito, perna e mão, ao passo que seu co-piloto, Jakub Gerber, conseguiu escapar com poucos ferimentos. Kubica precisou passar por diversas cirurgias, e na prática, embora tenha conseguido se recuperar do acidente, as sequelas praticamente acabaram com sua carreira na F-1. O vídeo abaixo, postado no You Tube pelo usuário Dawaczek, começa com o violento acidente da F-1 no Canadá em 2007, mas em seguida traz uma reconstituição por computador do seu acidente nesta prova de rali, mostrando como o guard-rail atravessou o carro, com imagens do mesmo após o acidente, dando uma boa dimensão da violência do ocorrido, e de como Robert deu sorte de escapar com vida:


https://www.youtube.com/watch?v=JQ255xievhE

            Impossibilitado de voltar a competir em monopostos pelas sequelas remanescentes em seu braço direito, Kubica conseguiu dar continuidade à sua carreira nos ralis, a partir de 2012, onde as exigências físicas de condução de um veículo são mais flexíveis do que as da F-1. E ele mostrou que seu talento continua grande, tendo até vencido etapas nas provas que disputou desde então. Passando a competir no Mundial de Rali em 2013, na segunda divisão da competição, passando no ano passado a disputar a categoria principal. Robert mostra que continua veloz como sempre, mas na categoria off-road andou dando umas belas cacetadas com seu carro, que chegaram até a ficarem frequentes. Felizmente, na grande maioria delas, os estragos ficaram apenas no veículo. Confiram abaixo alguns destes percalços nas provas de rali onde o polonês andou voando mais do que baixo com seu carro...

Este aqui é o último "acidente" de Robert, ocorrido este mês no Rali de Monte Carlo. Ele sai na curva, acerta a placa e sai da pista, sem maiores estragos, até ir "estacionar" lá para baixo, e felizmente, sem sofrer nenhum ferimento, tanto ele quanto seu navegador. O vídeo foi postado pelo usuário Florian Praz no You Tube:


https://www.youtube.com/watch?v=B5bHoiq3Ztk

Aliás, Kubica não se estranhou no Rali de Monte Carlo apenas este ano. No ano passado, ele apenas errou a posição de uma ponte e acabou acontecendo isso aqui. Novamente, sem danos para os ocupantes do veículo. Vídeo postado pelo usuário RKthefastest no You Tube:


https://www.youtube.com/watch?v=Ruxq1Fzm_mk

Neste outro vídeo, também postado pelo usuário RKthefastest, Kubica está em ação no Rali da Grã-Bretanha de 2013, até errar em uma curva e, bem, os danos foram apenas no carro felizmente. E ainda dá para fazer piada na cena onde o polonês fala ao celular ("Manda um guincho aqui para a curva..."):


https://www.youtube.com/watch?v=kSJsqQzDk8s

Finalizando esta sessão, este último vídeo, curtinho, do usuário Alex Ilczuk, mostra Kubica novamente acelerando fundo, agora na Finlândia, em 2013. Robert faz a curva aberto demais e depois de um pequeno trecho fora da pista, ele segue firme e determinado no rali, mas não sem deixar os ambientalistas putos com o que vêem no seu retorno à pista:


https://www.youtube.com/watch?v=LhTVjMBdad8

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

CINTOS APERTADOS...


Pior temporada da Sauber, em 2014, minou as finanças da escuderia, que não conseguiu patrocinadores de peso para bancar suas operações. Os recursos escassearam ao ponto de a construção do carro deste ano ter sofrido até paralisação em sua confecção por falta de materiais e dinheiro.

          Há pouco mais de uma semana para o início da pré-temporada do campeonato da Fórmula 1 deste ano, o panorama econômico da categoria já prenuncia um ano complicado no campo financeiro, e que pode ficar ainda pior se não forem tomadas medidas preventivas a respeito.
           Não é segredo para ninguém que o certame de 2014 terminou com dois times falidos. Marussia e Caterham sucumbiram aos elevados custos necessários para se competir na categoria máxima do automobilismo. Tony Fernandes, depois de gastar muito dinheiro e seu tempo tentando fazer seu time crescer desde sua estréia na competição, em 2010, resolveu largar a F-1 e ir cuidar de outros interesses menos infrutíferos. Os novos donos da Caterham não demoraram para ver a fria em que se meteram, e quiseram pular fora também. Chegaram ao cúmulo de disputar a etapa final, em Abu Dhabi, graças a uma vaquinha virtual. A Marussia nem isso conseguiu, e já vendeu boa parte de seus pertences, inclusive o prédio de sua sede, na Inglaterra, que servirá de base européia para o time de Gene Hass, que pretende estrear na categoria em 2016. Porém, o mais incrível é ouvir conversas de que ambos os times estarão - ou pelo menos tentarão, alinhar no grid na Austrália, iniciando a disputa da competição. Como eles farão isso, não faço idéia. Qualquer um teria de ser maluco para colocar um time em condições de competição na F-1 do jeito que as coisas se encontram.
            E temos pelo menos mais 3 times na corda bamba em termos financeiros: Lotus, Sauber, e Force India. A escuderia de Vijay Malliya já não anda bem das pernas nas últimas temporadas, mas o empresário indiano tem conseguido manter o time de F-1 relativamente estável na categoria. Só que, com seus negócios na Índia indo mal, a escuderia foi buscar verbas adicionais no México, em boa parte graças a Sérgio Pérez, que conta com aporte das empresas do empresário Carlos Slim, e que graças ao retorno do país ao calendário nesta temporada, arregimentou também mais alguns patrocínios para garantir o orçamento da competição nesta temporada. Só que isso não poupou o time de ter de apertar o cinto: os testes da pré-temporada começarão com o carro do ano passado modificado com as inovações que estarão presentes no modelo 2015, de modo que o novo chassi só estreará mesmo na segunda bateria de testes, no dia 19 de fevereiro, na pista de Barcelona. De positivo sobre a situação, apenas o fato de que a escuderia deve manter relativamente sua estabilidade financeira, sem lucros, mas também sem dívidas propriamente, o que não é pouco.
            No ano passado, a Lotus também só mostrou seu carro novo na segunda sessão de testes, devido à falta de recursos, inclusive faltando à primeira sessão coletiva. Seu argumento, para inglês ver, claro, de que estavam finalizando melhor seu carro 2014, foi por água abaixo quando se viu que o time quase nada conseguiu no ano passado, depois de ter sido sensação nos anos de 2012 e 2013. E o time inglês, novamente, tem de apertar o cinto mais do que nunca, pois a verba encolheu significativamente nesta temporada. Se conseguiu manter o patrocínio da PDVSA, num momento em que a economia da Venezuela enfrenta uma crise monumental, por outro lado perdeu alguns patrocínios importantes, como da Rexona, que se mudou de mala e cuia para a Williams. Para complicar a situação, Pastor Maldonado andou arrumando algumas confusões no ano passado, que só ajudaram a debilitar ainda mais as finanças. O time conseguiu mudar para os motores da Mercedes nesta temporada, o que em tese deverá ser um problema a menos em termos de performance, mas ninguém garante que com os recursos ainda mais limitados do que já estavam, o corpo técnico de Enstone consiga apresentar um monoposto com uma performance muito superior ao de 2014, ou pelo menos que permita ao time se posicionar melhor entre os concorrentes. Na busca por mais patrocínio, fala-se que até mesmo o nome do time pode mudar, bem como o visual preto e dourado. Vale lembrar que o grupo Lotus não injeta nenhum recurso no time, ao contrário do que aconteceu há alguns anos, quando a escuderia mudou o nome de Renault (que já não pertencia mais à Renault) para Lotus, com aval da marca de carros. A escuderia pôde manter o nome Lotus, mas sem ter vantagens financeiras por isso, a adoção de uma nova denominação, que poderia advir da entrada de um novo sócio e/ou patrocinador, é algo mais do que desejável. E ainda tem uma longa lista de dívidas dos últimos anos a serem quitadas, que só ajudam a tornar o balancete mais negro do que a pintura que os carros usaram nos últimos anos...
            E se tem um time que irá precisar operar com toda a precisão de um relógio suíço, é justamente a Sauber. A escuderia terminou 2014 com inúmeras dívidas a quitar, e precisou contratar dois pilotos pagantes para resolver a situação. Mas o buraco era tão embaixo que, segundo se noticiou estes dias, toda a verba trazida pela nova dupla de pilotos já teria sido utilizada no pagamento das dívidas da escuderia, e os poucos recursos que sobraram não permitiram ao time nem mesmo construir o novo carro, que pode até ter de estrear na última sessão coletiva de testes, segundo algumas fontes, afirmando que a construção do novo carro está pra lá de atrasada, devido à penúria de recursos. Em outras palavras, a construção do carro de 2015 teve de ser parada por não haver material e recursos para se trabalhar. Como desgraça pouca é bobagem, o time de Peter Sauber teve em 2014 sua pior temporada na F-1, sem conseguir marcar um ponto sequer, e sem conseguir levantar até mesmo a presença de um patrocinador principal, tendo sua maior fonte de receitas vindo dos patrocínios mexicanos trazidos por Esteban Gutiérrez, que foi dispensado este ano, e por tabela, também os patrocínios. A má temporada também se refletiu na premiação recebida da FIA de acordo com o campeonato de construtores, e terminando lá atrás, a grana recebida da FOM foi bem menor do que a do ano anterior, ajudando a deixar o time em situação ainda mais delicada financeiramente. A menos que consigam novas fontes de renda - leia-se mais patrocinadores, a Sauber pode até começar o ano, mas terminá-lo será complicado, e mesmo que tenha meios para ir até o fim do campeonato, o desempenho da escuderia tende a ser o pior do grid, pela ausência de recursos para desenvolver o carro 2015.
            Se Force India parece pelo menos ter maiores condições de manter seu nível, Lotus e Sauber estão mais debilitadas do que nunca, a ponto de se especular que podem até sumir do grid durante a temporada, se não conseguirem arrumar novos patrocinadores que ajudem a estancar a escassez de recursos que terão de administrar. Isso seria desastroso para a F-1, que se veria com apenas 7 times e 14 carros no grid, fazendo retornar a discussão sobre a obrigatoriedade de alinhar 3 carros por escuderia para "encher" a competição. E isso, conforme já discorri em outra coluna, não é exatamente a solução para a crise que afeta a categoria, apenas um sintoma dos problemas que ela teima em não enfrentar com a seriedade necessária.
            Aliás, se acontecer o pior, e Lotus e Sauber fecharem as portas, nem mesmo obrigar os demais times a competir com 3 carros vai aliviar a barra da F-1. A Force India muito provavelmente não conseguiria aguentar o tranco, e a categoria poderia ficar então somente com 6 times - Mercedes, Red Bull, Williams, Ferrari, McLaren, e Toro Rosso, sendo que esta última só aguentaria a parada por pertencer à Red Bull, que garante pelo menos as condições para o time disputar a competição (o que não quer dizer que tenham o mesmo orçamento polpudo da escuderia matriz). Mas mesmo assim, teríamos apenas 18 carros com 6 times alinhando 3 monopostos, e empataríamos com o panorama atual, que fará da temporada de 2015 um dos grids mais enxutos da F-1 em sua história. E isso se todos estes 6 times colocassem cada um 3 carros. Apesar de todos eles no momento não terem problemas com relação a seus orçamentos, isso não significa que tenham fundos a perder de vista; a Williams, por exemplo, apesar de seu "renascimento" em 2014, e do reforço de seu orçamento para esta temporada, já admitiu que seus recursos disponíveis não são tão amplos como os dos demais times de ponta. Urge encontrar novos interessados em investir nas escuderias.
Apesar de ter mantido alguns patrocínios em 2014, o carro da McLaren correu na maioria das corridas quase "virgem", sem ostentar patrocinadores principais. E se até um time como a McLaren teve problemas em arrumar patrocínio...
            E conseguir patrocinador anda sendo uma tarefa bem complicada. Se times pequenos e de meio do grid sempre tiveram dificuldades em obter patrocínios, em maior ou menor grau, o que dizer quando até mesmo um time grande, a McLaren, ficou praticamente com o carro "virgem" no ano passado? Pois é, o time de Woking disputou o campeonato de 2014 sem quase nenhum patrocinador no carro, ostentando a carenagem praticamente limpa em quase toda a sua totalidade. Para este ano, até o presente momento, o time inglês ainda não conseguiu firmar nenhum contrato com um nome de peso para figurar como "sponsor" principal da escuderia, como acontecia nos tempos em que tinha a Malboro, West, e Vodafone. Ron Dennis afirmou que não vai aceitar patrocínios "baratos" na McLaren, o que indica que no ano passado o time só não correu com o apoio de mais marcas porque o dirigente não quis aceitar receber valores baixos por isso. Pelo histórico da escuderia, sua argumentação é de que só nomes de peso - leia-se grana vultosa, seriam aceitos, e que se aceitasse qualquer marca por qualquer valor, iria desprestigiar o nome McLaren. Dennis chegou a afirmar que não precisaria de patrocínio para correr. Exagero? Talvez. O grande trunfo de Dennis foi ter transformado o que era apenas um time de F-1 em um grande centro tecnológico, colocando a grande capacidade de engenharia disponível para produzir outros sistemas e produtos, ajudando a tornar isso uma grande fonte de renda, e assim, minimizando a dependência dos patrocinadores necessários para bancar a escuderia. O time de Woking anunciou há pouco a entrada da CNN como um de seus patrocinadores para a temporada, mas a emissora de TV americana não será o apoio principal da escuderia para a temporada de 2015.
            Mas, se a McLaren pode se dar ao luxo de ignorar alguns patrocinadores, situação que deve ser facilitada ainda mais com a parceria com a Honda a partir deste ano, com o aporte financeiro dos japoneses, o fato de não ter aparecido um grupo de peso disposto a patrocinar a escuderia, uma das mais vitoriosas da história da F-1, é um sintoma perigoso de que a fonte de recursos anda bem escassa. Os patrocinadores não vão desaparecer, mas a imensa maioria deles certamente não vai aceitar bancar os valores absurdamente elevados necessários para um time competir de maneira decente no campeonato nos moldes atuais. E a Europa, um dos principais mercados publicitários da categoria, ainda está em crise econômica, e embora o pior tenha passado, muitas empresas estão bem mais exigentes com a relação custo/benefício de suas verbas de publicidade, e para a grande maioria, a categoria máxima do automobilismo não é atrativa com seus custos atuais.
            Para piorar a situação, na grande maioria dos novos países que passaram a sediar corridas nos últimos anos, não surgiu em nenhum deles um grande apelo da categoria para angariar patrocinadores de peso. Os indianos não ficaram seduzidos pela F-1, apesar dos esforços de Vijay Malliya com a Force India, e Karun Chandhok, que competiu na categoria, não conseguiu despertar um clamor nacional no meio empresarial além de seus apoios pessoais. Da mesma maneira, os sul-coreanos também não abraçaram a categoria, a exemplo do que os japoneses fizeram no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, quando o sucesso da Honda desencadeou uma fúria patrocinadora entre várias empresas nipônicas para entrar na F-1. Os turcos não entrariam nessa para perder dinheiro, e já perderam até seu GP. Os chineses também não se empolgaram, e os americanos já tem seus próprios campeonatos automobilísticos que lhe rendem muito mais do que a "sisuda" F-1. Os russos até que poderiam embarcar nessa, mas as últimas confusões arrumadas por Vladimir Putin em relação à Ucrânia azedaram o clima.
            Na verdade, enquanto os governos destes novos países aceitarem pagar as taxas exorbitantes cobradas por Bernie Ecclestone, tanto faz se o povo do país em questão vai se empolgar ou não. Como os GPs são realizados mais como forma de se autopromover, mesmo que deem prejuízo deverão continuar bancando a brincadeira. E acreditem, ainda tem gente na fila querendo fazer parte desta festa. Só que nem todo mundo que já está dentro está se divertindo como se imagina. Nurburgring que o diga: o autódromo alemão deveria sediar o GP da Alemanha desta temporada, em um revezamento que faz com a pista de Hockenhein, para minimizar os gastos. Só que o grupo que administra o circuito, atolado em dívidas, não tem como bancar as taxas da FOM, e sem pagamento, nada de corrida. Bernie, por sua vez, já teria "jogado" a corrida para Hockenhein, só que os administradores do circuito próximo a Heidelberg já avisaram que não dispõem dos recursos para organizar a corrida este ano. Trocando em miúdos: a Alemanha pode ficar sem seu GP na temporada.
            A situação só fica ainda mais complicada quando lembro de ter visto lances de arquibancadas praticamente vazios em Hockenhein ano passado, um panorama desolador que pode decretar o fim da corrida, pela falta de interesse dos alemães, que no momento tem outras categorias mais atrativas para se divertirem, como o DTM. Os altos preços podem levar à perda da corrida alemã, algo catastrófico se levarmos em consideração que o time campeão do mundo é alemão, e eles têm o atual vice-campeão do mundo, (Nico Rosberg) e um tetracampeão correndo pela Ferrari este ano (Sebastian Vettel).
Com dívidas acumuladas, circuito de Nurburgring não tem dinheiro para pagar as altas taxas da FOM para realizar o GP da Alemanha este ano. A prova pode acabar fora do calendário, já que Hockenhein também está com caixa baixo.
            Para piorar o que já anda ruim, tanto Bernie Ecclestone como a FIA parecem ignorar os sinais crescentes da crise financeira que ameaça tragar a F-1, ou pelo menos ficam insinuando que o problema não é com eles. Muito pelo contrário. Ecclestone enfiou várias corridas a mais no calendário, muitas delas longe da Europa, onde consegue arrancar mais dinheiro das taxas de realização de corridas. Só que isso implica em mais despesas para as escuderias, que tem de deslocar seus equipamentos por via aérea, e mesmo com a franquia de transporte da FOM para os times neste procedimento, as escuderias ainda gastam bastante para estarem presentes às corridas. E o chefão da FOM continua com sua mentalidade retrógrada, ignorando recursos de potencial ampliação da penetração da F-1 em novos estratos e mercados através das redes sociais e da internet, apenas pelo fato de isso não render dividendos diretos para ele, podendo cobrar seus preços. Isso afasta a categoria de um público alvo que teria muito a oferecer, em especial na renovação dos fãs da categoria, que cada ano vão ficando mais velhos, e que poderá implodir a audiência do certame em futuro bem próximo.
            Ignorando a internet e as redes sociais, a F-1 joga fora uma opção potencial de grande apelo, que poderia se traduzir em vários apoios publicitários que ajudariam a aliviar ou até a solucionar a crise de patrocínios tradicionais da categoria. Mas, ao mesmo tempo, a própria F-1 não se mexe para adotar medidas que poderiam diminuir os custos de competição que continuam extremamente elevados. Nunca tantos tiveram de apertar o cinto na categoria, e o pior de tudo é que o cinto está ficando cada vez mais apertado. Uma hora, contudo, não será possível apertar mais sem causar um estrangulamento fatal. E nessa hora, a F-1 poderá não conseguir manter sua capacidade de sobrevivência como vem fazendo em todos os seus anos.
            Sinais de crise aparecem por todos os lados, e não apenas na categoria máxima. Na Indy, a Ganassi, um dos maiores times da categoria norte-americana, demitiu recentemente vário funcionários e deverá alinhar apenas 3 carros, ao invés de 4, por falta de recursos, e olhe que é um certame com gastos bem menos vultosos do que a F-1. E, no pior dos cenários, a F-3 inglesa, o mais respeitado certame do mundo na modalidade, acabou no ano passado, não sendo mais disputado este ano, panorama similar ao da F-Renault inglesa, pela falta de times e patrocínios que ajudassem a manter as competições.
            É só questão de tempo até tudo isso causar impacto na F-1. O problema é que, pelo seu gigantismo, quando a crise bater com tudo, o estrago será igualmente gigante. Resta esperar que os dirigentes criem juízo e tomem as atitudes necessárias para tentar pelo menos achar uma solução para o problema. Ou os cintos chegarão ao seus limites...
Caterham (acima) e Marussia fecharam as portas, mas ainda tem planos de disputar o campeonato deste ano. Mas quem vai bancar a brincadeira? Preços da F-1 estão irreais para a grande maioria dos interessados...