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| Laurent Mekies conseguiu estrear com o pé direito como novo chefe da Red Bull no ano passado, e entra em 2026 decidido a dar nova mentalidade ao time dos energéticos. |
Com as apresentações
dos novos carros para a temporada 2026 da Fórmula 1, uma das maiores
expectativas do novo campeonato é sobre o novo pacote de regras técnicas, além
dos carros, e também das novas unidades de potência, um pouco mais simples, mas
com sistemas elétricos muito mais potentes. Desafios com o objetivo de
reenergizar a disputa da competição, claro, mas que impõem muitos desafios
técnicos a todos os times e competidores presentes.
Claro, um dos times
com maior expectativa é a Red Bull. A escuderia vem de dois anos turbulentos em
matéria de ambiente interno, e só agora parece que o time está assentando a
poeira e acalmando-se de fato. Em 2024, a queda de competitividade da escuderia
após a saída de Adrian Newey só não foi mais problemática porque Max Verstappen
segurou as pontas, aproveitando também dos azares e incompetência dos
adversários para chegar ao tetracampeonato. Mas o time não ficou em polvorosa
apenas pela saída do “mago” das pranchetas. Isso foi consequência de problemas
vivenciados com Christian Horner antes da temporada começar, com o dirigente
tendo tido “comportamento impróprio” com uma funcionária, que quase causou sua
demissão à época, mas deixou o clima interno do time bem agitado, o que
contribuiu na saída de Newey, hoje na Aston Martin.
No ano passado, com um
carro ainda mais problemático, o time se viu momentaneamente fora de brigar
pelo título até, ante a supremacia da McLaren, e podendo ser superado por
Mercedes, e até uma claudicante Ferrari. E a meio do ano, Christian Horner,
dirigente da escuderia desde sua estréia na F-1, em 2005, foi demitido, pura e
simplesmente. Laurent Mekies, que comandava o time B, a Racing Bulls, assumiu o
comando. O clima, certamente, não era dos melhores. E, há pouco, tivemos
declarações fortes de Sergio Pérez, ex-piloto da escuderia dos energéticos, que
está de volta ao grid da categoria máxima do automobilismo como piloto da nova
equipe Cadillac, expondo alguns “podres” de como era tratado no time
rubrotaurino.
Demitido pela Red Bull
quando ainda tinha tido o contrato renovado, o piloto mexicano ficou de fora da
temporada 2025 da F-1, mas está fazendo o seu retorno à competição agora como
titular da Cadillac, ao lado do finlandês Valtteri Bottas, que também acabou
ficando de fora da disputa na temporada do ano passado. Sergio Perez se sentiu
no direito de escancarar algumas “verdades” incômodas sobre o modo como foi
tratado na Red Bull, confirmando o que muitos já sabiam. Que o tratamento entre
ele e Verstappen nunca foi igual dentro do time. Até aí, nada novo. Mas, claro
que o buraco sempre foi mais embaixo, embora explique certos detalhes
compreensíveis.
Ele está certo em
reclamar? Até certo ponto, sim. Por mais que Christian Horner tenha dito na
cara dura que o mexicano era só para “completar” o time, ele aceitou as
condições impostas. Tudo era priorizado para Max Verstappen, a estrela do time.
Até aí, nada demais. O holandês é de fato um fenômeno, e não tem nada de errado
em aceitar isso. Muitos times fazem esse tipo de escolha. Mas o modo extremo de
como escantearam o segundo piloto é que faz a coisa desandar. Ao exigirem
resultados, sabendo que tudo era feito sob medida para Verstappen, ou que pelo
menos o holandês ainda conseguia dar conta de um carro arisco e complicado,
sabendo conscientemente que o outro piloto não conseguiria dar conta do recado
é hipocrisia. A demissão, por falta e resultados, quando eles próprios criaram
essa situação, chega a ser de fato injusta. Se Perez também teve parcela de
culpa em erros cometidos, é bem verdade que, em alguns momentos, ele também
teve muito azar, mas talvez, o pior de tudo, foi a direção do time começando a
jogar tudo em cima do piloto como se a culpa fosse unicamente dele, como se
eles não tivessem culpa nenhuma na origem do problema.
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| Helmut Marko (acima) não deixará saudades nos pilotos do programa de formação da Red Bull. E Christian Horner (abaixo), apesar de comandar a equipe com muitos momentos de glória, acabou rifado após erros que deixaram o clima interno mais agitado do que deveria ser. |
Pérez até tentou
solicitar um “desenvolvimento paralelo” para o carro ele, ou que ele pudesse
usar acertos que privilegiassem a sua pilotagem, de modo a produzir mais, o que
claro, seria benéfico ao piloto, e ao time, principalmente. Isso acabou negado.
O curioso é que, tecnicamente, isso não influiria no carro de Verstappen, mas
ao negar a chance de Pérez poder pilotar um carro mais a seu gosto, o time
simplesmente o podou sem necessidade, e depois, ainda cobrar ainda mais
resultados. Pérez nunca foi um gênio da velocidade, mas está longe de ser um
braço duro também. Por mais que tenha cometido erros, isto acabou sendo
potencializado pelo time, que na ânsia de priorizar somente Verstappen, deu de
ombros para
problema principal do
segundo piloto, que merecia um pouco mais de consideração, apenas isso. O lance
de “isso é problema do piloto, ele tem que se virar”, dito por muita gente, é
válido até certo ponto, mas quando um time não quer deixar um dos pilotos tentar
provar que pode render mais com um acerto de carro diferente, que não afetaria
o piloto principal, esse time revela incompetência técnica em proceder com tal
ação. A insistência na estratégia, compreensível por um lado, não se justifica
quando até Verstappen começou a reclamar do carro. Ele conseguiu dar conta, mas
Pérez naufragou, e quando o mexicano foi dispensado, ele falou o que todo mundo
sabia: a culpa era mais do carro do que do piloto.
Sobre ser substituído
por “não apresentar mais resultados”, Pérez falou direito no talo a respeito de
seu substituto: “e se Lawson não resolver?”. E o neozelandês não resolveu. Foi
substituído em tempo recordo na Red Bull, com apenas dois GPs disputados. Yuki
Tsunoda assumiu o lugar, e não fez muito melhor. O problema estava de fato em
outro lugar, e principalmente, na mentalidade da direção da escuderia. Eles só
não substituíram Tsunoda porque não tinham quem colocar no lugar de forma a
salvar a cara deles propriamente. Isack Hadjar já tinha sido defenestrado por Helmut
Marko após rodar na Austrália, e ainda ser consolado “pelo inimigo” (no caso,
Anthony Hamilton, pai de Lewis Hamilton), e outros nomes possíveis apenas
poderiam exibir descaradamente o estilo “roleta-russa” de pilotos tanto de
Horner quanto principalmente de Marko.
Obviamente, Helmut
Marko defendeu o lado dele, o que inclui, claro, apontar o mexicano como
“frustrado”, e até “incompetente”, citando sua demissão da Force India, time
que ajudou a salvar, como se fosse nada além de ele não ser “alguém relevante,
ou competente”, como se tivesse sido despedido justamente por não ser bom
piloto. Uma atitude nada de nova em se tratando de Helmut Marko, se lembrarmos
que o ex-dirigente já discriminou abertamente o piloto, e claro que não iria
lhe dar razão sobre as críticas, que sim, podem parecer choro, de que ele sabia
onde estava se metendo, o que não deixa de ser verdade, exceto pelo fato do
time tomar uma atitude hipócrita de cobrança desmedida em relação ao assunto.
Para alguém que massacrou, muitas vezes além da conta, vários talentos em
potencial que acreditaram na chance de serem promovidos pela Red Bull e foram
“queimados” de forma injusta no processo, Marko já foi tarde da Red Bull
também, tendo saído do time, e consequentemente, também do programa de formação
de pilotos da marca, que em vários momentos passou até a ser evitado por muitos
pilotos em formação, conscientes de que o dirigente era mais uma ameaça às suas
carreiras do que uma ajuda, o que dá a entender como ele deixou de ser visto
como um ativo, mesmo que tenha revelado pilotos como Sebastian Vettel e Max
Verstappen.
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| Em parceria com a Ford, a Red Bull terá o batismo de fogo de sua primeira unidade de potência concebida pela nova Red Bull Powertrains. |
Com isso, a Red Bull
entrou em 2026 “livre” da toxidade e impropérios de Marko, e também das
práticas de comando nocivas de Christian Horner. Um clima mais ameno, menos
massacrante, onde o time pode redescobrir sua capacidade real, e seu espírito
mais aberto e cordial, como era a escuderia nos primeiros anos da sua
existência na F-1, quando era o time mais alegre do paddock, e por isso mesmo,
o mais admirado e valorizado, características que foi perdendo completamente
quando passou a ser vencedor. Mas dá para se manter a atmosfera aberta, e
continuar sendo vencedor. Por isso mesmo, a grande expectativa em torno do que
a equipe poderá mostrar em 2026.
Agora, com Mekies, a
Red Bull pode assumir de fato uma nova mentalidade de direção da escuderia. Não
há como negar que Laurent assumiu um pavio bem curto quando assumiu a chefia do
time principal no ano passado, após a demissão de Christian Horner. Mas ele se
saiu bem, muito melhor do que todos esperavam. Acalmou o ambiente, deu coesão ao
setor técnico, e principalmente, passou a ouvir os pilotos, ou pelo menos, OS
DOIS pilotos. O carro melhorou, e Max Verstappen se lançou à disputa do título.
E quase ganhou mais um título. Mesmo que a McLaren e sua dupla de pilotos
tenham cometido erros que possibilitaram tal reação, não há como negar que a
melhora do modelo RB21 foi notável. Até Tsunoda começou a ter alguns resultados
de nota, não com a frequência desejada, mas conseguiu progressos. E tudo isso
se deve à nova mentalidade de Mekies na direção do time.
Para este ano,
inclusive sem a interferência de Helmut Marko, o desafio é proporcionar um
ambiente de “respeito” e “harmonia”. Não é deixar de cobrar resultados, mas
apenas de não sair fazendo “caça às bruxas” e promover chiliques de cobranças
desmedidas e humilhações internas ao pessoal no ofício de suas funções. Um
ambiente mais saudável e respeitoso, segundo ele, é mais produtivo. Ele
menciona a forma traumática que foi o rebaixamento de Liam Lawson para a Racing
Bulls ano passado, após apenas as duas provas defendendo a Red Bull, e de como
isso afetou o rendimento do piloto, que só foi voltar a andar bem na segunda
metade da temporada. Impôr regras de conduta, e minimamente, manter o respeito
por cada um, independentemente de suas funções, é a base para um time render
mais. Não é “desmantelar” alguém cada vez que é cobrado, é fazer isso de forma
mais civilizada, de encontrar soluções para os problemas, ao invés de
simplesmente “jogar” na cara de alguém que as coisas estão ruins e que ele é o
culpado.
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| Sucesso da Red Bull este ano certamente influenciará decisão de Max Verstappen de permanecer ou não na escuderia. |
E ele não está errado.
A Red Bull foi o time que mais trocou pilotos nos últimos tempos entre os times
de ponta, e claro que isso não se traduziria em estabilidade de rendimento na
pista, nem mesmo no time B, que em tese seria uma equipe “escola” para os
novatos do seu programa de pilotos, mas que passou a ser visto como um
verdadeiro calvário em determinados momentos. Com uma postura menos
“demolidora” e mais compreensiva, a Red Bull adentra 2026 com várias pressões e
desafios, claro, mas deixar os pilotos, ou melhor, o segundo piloto mais livre
para produzir o que é capaz, certamente vai ajudar. Hadjar conseguiu dar a
volta por cima, mas foi linchado de início por Marko, e poderia ter desandado
ali mesmo. Se o deixarem à vontade, e o carro foi compreensível, ele mostrará a
que veio, e isso é o mais importante. Haverá cobranças, como em qualquer time,
mas não mais linchamentos públicos por parte da direção do time, que não
ajudava em nada e só deixavam os pilotos mais nervosos do que já estavam ficando.
Isso também deve se estendem à Racing Bulls, que também ficava à mercê dos
humores de Horner, e especialmente, de Marko.
Os desafios, claro,
não são poucos. O novo modelo RB22 é de fato o primeiro carro “pós-Newey” da
Red Bull, uma vez que o RB21 do ano passado ainda guardava as marcas herdadas
do RB20. Mas agora, com o novo regulamento técnico, o conceito dos carros
mudou, exigindo um projeto completamente novo, e o departamento técnico de Milton
Keynes tem a missão de mostrar que, sob o novo comando de Mekies, pode de fato
brilhar sem se contaminar pelos vícios dos últimos projetos. O resultado de
2025 foi encorajador, mostrando que a Red Bull tem sim, um corpo técnico capaz
de manter a competitividade da escuderia, que claro, não podia ficar na dependência
total de Adrian Newey. Resta saber se estará à altura, e mais do que tudo,
saber desenvolver o projeto do novo bólido. Se conseguir produzir uma boa base,
tem tudo para obter sucesso. Bons carros, mesmo quando não nascem tão
perfeitos, podem ser adequadamente desenvolvidos, mas quando a base é ruim, não
tem desenvolvimento que dê jeito.
E temos também o
desafio da unidade de potência, agora quase integralmente a cargo da Red Bull
Powertrains, depois de competir nos últimos anos com as unidades da Honda,
mesmo sendo desenvolvidas na nova empresa, mas ainda contando com suporte dos
japoneses. Agora é a Ford que assume a parceria, mas mais com o nome do que com
o empenho técnico. Será um batismo de fogo para a nova companhia, e que poderá
ditar, ao lado do novo carro, se a Red Bull manterá sua força, ou despencará no
grid. Toda a expertise acumulada nestes últimos anos, quando comprou os
direitos intelectuais das unidades de potência da Honda agora precisam ser
conferidas. E disso tudo depende a permanência ou não do maior triunfo da
escuderia, o tetracampeão Max Verstappen, vice-campeão de 2025, mesmo com tudo
o que aconteceu, na pista e fora dela.
Max Verstappen, acima
de tudo, continua a ser o norte do time dos energéticos na pista, o que não é errado.
Mas o time tem de pensar na possibilidade de sua saída, e por isso mesmo, a
concepção de um carro “acessível” a todos os pilotos do time é imperativo, pois
o holandês já afirmou que não pensa em ficar muito tempo na F-1, a exemplo de
Fernando Alonso e Lewis Hamilton , dando a entender que ele fica até 2028,
talvez de fato, na Red Bull, mas não garante nada além disso. Uma temporada
fraca este ano, contudo, pode desencadear uma possível troca de time por parte
do holandês, que já anda sendo cortejado pela Mercedes, mas preferiu,
logicamente, permanecer onde estava, lembrando que os boatos colocaram até
mesmo Max na Mercedes para este ano. Mas Verstappen permaneceu basicamente
também porque Helmut Marko estava na Red Bull, quem sempre o apoiou e protegeu,
mesmo quando o holandês batia a torto e a direito, não sabendo dosar sua
agressividade e impulsividade. Mas agora, sem o ex-dirigente por lá, uma
eventual saída pode ser mais fácil ainda.
A Red Bull se
consolidou na última década e meia como o mais novo time de ponta da história d
F-1. Após as saídas do trio que levou a escuderia ao seu imenso sucesso,
Christian Horner, Helmut Marko, e Adrian Newey, 2026 marca uma nova era para a
escuderia dos energéticos, que irá mostrar se eles continuarão entre os primeiros,
ou não…
O IMSA WeatherTech Sportscars,
o campeonato de endurance dos Estados Unidos, dá a largada neste final de
semana, com a mais tradicional corrida do certame: as 24 Horas de Daytona. Com
60 carros no grid, o Brasil terá seis representantes no grid, sendo principal
deles Felipe Nasr, com o carro Nº 7 da Penske/Porsche, que tentará a 3ª vitória
consecutiva na prova. Nasr será nosso único representante na classe principal,
a GTP. Na LMP2, teremos a presença de Pietro e Enzo Fittipaldi, no carro Nº da
equipe Pratt Miller. Já na classe GTD Pro, teremos Daniel Serra com a Ferrari
Nº 62 da equipe Risi Competizione. Na classe GTD teremos Dudu Barrichello no
carro Aston Martin Nº 27 da Heart of Racing; e também Felipe Fraga defendendo a
equipeMyers Riley, ao volante do Ford Mustang Nº 16. A largada prova está
marcada para amanhã, às 15:30 Hrs., pelo horário de Brasília, com transmissão
oficial pela GPTV do site Grande Prêmio.