sexta-feira, 26 de julho de 2024

WEHRLEIN CAMPEÃO NA F-E

Com uma atuação decidida e firme, Pascal Wehrlein superou os adversários na reta final da temporada da Formula-E e conquistou o título da temporada 2024.

            E a Formula-E tem seu novo campeão: o alemão Pascal Wehrlein, que deu à Porsche o seu primeiro título de pilotos com sua equipe oficial, e o segundo título da marca na competição, já que o campeão da temporada passada, Jake Dennis, da equipe Andretti, conquistou o título usando o trem de força da marca alemã. Foi uma conquista para lavar a alma de Wehrlein, justamente por ter visto um rival no grid ser campeão com o mesmo trem de força que o dele, e para a própria Porsche, que se viu superada por um time cliente que mostrou ser mais competente do que ela.

            Mas lições importantes foram aprendidas com a temporada de 2023, e a Porsche, mais do que o próprio Wehrlein, é quem precisava ser mais eficiente nas corridas, a exemplo do que a Andretti havia conseguido com Dennis. E parece que as lições foram aprendidas com êxito, o que foi mais do que necessário, frente a uma equipe Jaguar que se mostrou o time mais forte do grid em quase toda a temporada, e que tinha tudo para finalmente conquistar o título na competição.

            Com uma preparação melhor do seu carro, a Porsche conseguiu proporcionar a seus pilotos um equipamento mais competitivo e regular durante toda a temporada, algo que ficou falho em 2023, quando a Porsche até saiu na frente, mas conforme a temporada avançava, os concorrentes não apenas alcançaram o time alemão, como até o superaram, especialmente em classificação, o que obrigava seus pilotos a partirem várias posições atrás e terem de fazer provas de recuperação durante as corridas. Não que o trem de força tivesse perdido a competitividade, mas o ajuste fino do carro passou a ser mais essencial, e neste quesito, a Andretti conseguiu se manter mais competitiva do que o time de fábrica, especialmente nas classificações, proporcionando melhores condições de Dennis largar mais à frente, sem se desgastar tanto nas disputas de posição, enquanto a dupla da Porsche, além das posições de largada piores, viu seu rendimento nas corridas decair, arrastando Wehrlein junto, com o piloto não conseguindo superar essa deficiência, às vezes por culpa própria, outras, sem ter o que fazer a respeito. E assim, de favorito inicial ao título, acabou terminando apenas em 3º lugar.

Nick Cassidy: de grande favorito ao maior derrotado na reta final da temporada.

            Este ano, contudo, a Porsche soube trabalhar melhor os ajustes de seus carros, uma vez que seu trem de força continuou muito competitivo, fazendo frente e às vezes sendo mais eficiente do que o da rival Jaguar, eu reforçou seu quadro ao trazer Nick Cassidy para formar dupla com Mith Evans, para formar o que foi considerada a dupla mais forte do grid. Um reforço que mostrou a que veio, já que Cassidy, até a etapa de Portland, mostrava-se como franco favorito ao título da temporada, podendo encerrar a disputa ali mesmo na pista da capital do Oregon, com os demais competidores tendo de correr atrás, e ainda torcer para um azar do neozelandês.

            E a torcida pelo azar funcionou: Cassidy saiu zerado de Portland, e os rivais chegaram para a briga na rodada dupla final em Londres, no Excel Arena, onde tudo poderia acontecer, dado o histórico de provas da F-E, como pela natureza peculiar do circuito montado no pavilhão de exposições da capital britânica.

            Com uma temporada mais constante que a de 2023, onde falhou em pontuar apenas em duas provas, e tendo como pior resultado um 10º lugar apenas, Pascal parecia repetir o destino do ano passado, chegando para a briga meio que como azarão ao invés de favorito. Mas, o fim de semana ruim de Cassidy em Portland, bem como uma punição esdrúxula de Evans relançaram a disputa, trazendo Wehrlein e até Antonio Felix da Costa, que numa recuperação fulminante a partir de Misano, veio atropelando todo mundo e chegando a vencer quatro corridas em cinco provas. O duelo no Excel Arena prometia fortes emoções. E a expectativa se confirmou.

A Jaguar começou a corrida final na frente, mas acabou se complicando sozinha nas estratégias, complicando a prova de seus pilotos.

            Seguindo o ditado de “a melhor defesa é o ataque”, Pascal e seu time foram bem na classificação da primeira corrida, e traçaram uma estratégia que foi seguida à risca na prova, com Wehrlein indo para cima, ao mesmo tempo economizando energia, para no momento certo, assumir a liderança, e despachar os rivais, mesmo com a ativação necessária do Modo Ataque. Tão logo assumiu a ponta, o alemão tratou de abrir vantagem, a fim de não perder a posição quando ativasse a potência extra, já que as ultrapassagens eram bem limitadas na pista do pavilhão de exposições inglês. E ele conseguiu o objetivo, e carimbar a vitória na primeira corrida do fim de semana. Mith Evans manteve firme as chances com o 2º lugar, enquanto Nick Cassidy, ainda sentindo os azares de Portland, acabou numa pífia 7ª posição, ficando em desvantagem na briga com Evans e Wehrlein. Antonio Felix da Costa, com um acidente que o levou ao abandono, perdeu também as poucas chances matemáticas de tentar o título, assim como Oliver Rowland, o que já era esperado. Mesmo assim, a disputa entre o trio de pilotos já era garantia de mais emoções para a prova de domingo.

            Uma disputa onde quem chegasse na frente levava o título, e portanto, não se poderia cometer erros. Mas, como a primeira corrida já havia evidenciado, querer era uma coisa; conseguir era outra. Alguém iria errar, por mais que se preparasse para não fazer isso. A dúvida era quem iria capitular no momento crucial.

            E acabou sendo justamente a Jaguar a meter os pés pelas mãos. Com uma boa performance na classificação, onde a dupla do time inglês sairia à frente de Wehrlein, era questão de controlar o piloto da Porsche para resolverem entre eles quem iria ficar com o caneco, até porque, em termos de jogo de equipe, Pascal teria problemas para contar com Antonio Felix da Costa, que teria de largar bem mais atrás e precisaria escalar o pelotão para se colocar em posição de auxiliar o colega de time. A surpresa da falha do time britânico é maior se levarmos em conta que, em Mônaco, o time garantiu uma dobradinha com a estratégia de seus pilotos se ajudarem durante a corrida, mas em Londres, o esquema não funcionou, ou pelo menos, parcialmente.

            Nick Cassidy, na liderança, contou com a ajuda de Mith Evans para ativar o Modo Ataque, e voltar na liderança ainda. Mas, logo a seguir, Cassidy ativou o Modo Ataque pela segunda vez, e caiu para 3º, diferente do combinado, ficando atrás de Wehrlein, que não conseguia superar Evans até aquele momento. Só que, a partir dali, Mith não abriu vantagem sobre o piloto da Porsche, de modo que quando ativasse o Modo Ataque, cairia para trás de Cassidy. A estratégia de segurar o ritmo era que a Jaguar reassumiria a ponta quando Wehrlein também tivesse que usar o recurso, e isso o faria perder posições, caindo para trás da dupla da escuderia britânica, que em tese, a partir de então, duelariam entre si para ver quem levaria a taça do título.

            Mas Evans e Wehrlein foram postergando suas ativações do Modo Ataque, e embora isso fosse deixando o título cair nas mãos de Cassidy, que fez suas duas ativações de forma seguida, teve o problema de deixar os concorrentes chegarem para a briga, tal era a contenção do ritmo feito por Evans, que estava consumindo muita energia com isso, enquanto Wehrlein economizava sua bateria. E três destes pilotos eram Oliver Rowland, da Nissan, Maximilan Gunther, da Maserati, e Antonio Felix da Costa, da Porsche, que vinha para a briga, e partia para o ataque contra Cassidy. A chegada destes pilotos também obrigou Cassidy a ter que se defender, também gastando mais energia. E foi aí as coisas começaram a dar tudo errado, porque na disputa entre Da Costa e Gunther, este acabou acertando a traseira de Cassidy, que teve um pneu furado, e precisou ir ao box trocar, arruinando suas chances de chegar ao título. Com o toque, o bico do piloto da Maserati caiu na pista, danificando o carro, e forçando a intervenção do Safety Car, e deixando a briga ficar somente entre Evans e Wehrlein. E com a corrida chegando às suas voltas finais, deixando a situação de ambos dramática pela necessidade de os dois ainda terem de usar o Modo Ataque, de acordo com as regras. Mas Evans se sentiu jogado aos leões pela mudança de tática, como se a Jaguar tivesse deixado ele de lado na disputa, preferindo Cassidy para ser campeão, pelo que ocorreu na prova até então.

Apesar do visual, a pista montada dentro do Excel Arena já não se mostra adequada para as provas da F-E.

            Nessa disputa, ambos efetuaram sua primeira ativação, o que deixou Rowland na liderança da corrida, com Evans em segundo e Wehrlein caindo para quinto, mas logo voltando a ocupar o terceiro posto, voltando ao ataque. Mas ambos ainda precisavam fazer mais uma ativação, e aí, Evans não conseguiu ativar ao mesmo tempo em Wehrlein, precisando fazer uma nova tentativa de ativação, e assim Pascal ficou à frente. Como desgraça pouca é bobagem, Mith nem pôde ir para cima de Wehrlein tentar disputar a posição porque corria o risco de receber a bandeirada antes de terminar o tempo do Modo Ataque, algo que lhe renderia punição e perda de posição. Então, precisou ir diminuindo o ritmo, até conseguir cruzar a linha de chegada com o Modo Ataque expirado. E deu nisso: Pascal, com o segundo lugar, chegou ao título. E a Jaguar, pelo segundo ano consecutivo, sofreu a derrota para a rival alemã, agora talvez de forma mais dolorosa, já que o embate, que em 2023 foi feito através de seus times clientes, desta vez se deu com os times de fábrica. E Pascal, depois do drama vivido no ano passado, finalmente desencanou, e conquistou o título tão sonhado por ele.

            Méritos para a Porsche, que conseguiu se manter firme na disputa, e de Pascal, que teve a necessária atitude de campeão no momento decisivo, indo para cima dos adversários, e sendo firme na disputa na pista, não permitindo que os rivais conseguissem executar sua estratégia de corrida, e explorando seus erros. Para a Jaguar, o time foi errar no momento mais crucial, e mesmo diante da excelente campanha durante toda a temporada, derrapou quando não poderia, e entregou o que poderia ter sido um triunfo fácil para a concorrência. Ter conquistado o troféu de equipes é uma magra consolação, diante de ter perdido o título de pilotos. Claro que a conquista foi comemorada, ainda que seus pilotos tenham sentido a dor e frustração da derrota na pista.

Com o título, Pascar garantiu a conquista do time oficial da Porsche, e exorcizou os fantasmas da derrota da temporada passada.

            Mas, mais uma vez, a disputa do título da categoria de carros elétricos foi eletrizante, para dizer o óbvio. O suspense foi até o fim da corrida final, onde qualquer um poderia ter saído campeão, sem que se conseguisse apontar um favorito, já que a posição trocava de piloto a cada momento da corrida. E emoção é que os fãs desejam ver. Nem sempre se poderá agradar a todos, e sempre haverá um vencedor, e também um perdedor. Pascal saiu derrotado no ano passado, e venceu desta vez. Cassidy e Evans perderam em 2023, e também perderam agora. Quem sabe no próximo campeonato?

            E ele vem mais cedo desta vez, já que a próxima temporada começa ainda este ano, em dezembro, no Brasil, em São Paulo, mais uma vez, prometendo muitas disputas e emoções. Para uma categoria que muitos achavam que seria apenas mais uma iniciativa excêntrica e de curta duração, a F-E encerrou seu 10º campeonato mostrando que ainda tem muito para mostrar, em uma evolução que vem sendo cada vez mais evidente, e que dará novo salto com os novos carros Gen4, daqui a dois anos. E viva a competição, seja ela de qual forma for...

 

 

Como não poderia deixar de ser, a Formula-E ainda meteu os pés pelas mãos na corrida final de Londres, ao aplicar uma punição a Antonio Felix da Costa, colocando-o como responsável pelo abandono de Nick Cassidy, quando na verdade quem acertou o piloto da Jaguar acabou sendo Maximilian Gunther, da Maserati, que no toque também acabou com sua corrida. Punido, o português caiu para a 13ª posição, perdendo os pontos conquistados, e diante disso, ficou em 6º no campeonato de pilotos, e fazendo a Porsche perder o campeonato de fabricantes, com o troféu indo para a rival Jaguar, que já tinha conquistado o título de equipes. A categoria precisa tomar providências para corrigir esse excesso de punições, muitas duvidosas e outras completamente ridículas, se quiser ter uma melhor imagem perante o público. Mas, se eles ficam se complicando na F-1, como tomariam jeito em relação a um certame menor, como a F-E? Difícil...

 

 

A Haas confirmou a contratação de Esteban Ocón como companheiro de Oliver Bearman para formar sua dupla titular para a temporada de 2025. Kevin Magnussen, trazido de volta em 2022, após o time dispensar Nikita Mazepin devido aos problemas ocasionados pela invasão russa à Ucrânia, perdeu de forma nítida o duelo com Nico Hulkenberg, tanto no ano passado quanto nesta temporada. Magnussen foi o piloto mais longevo da história do time norte-americano na F-1, tendo defendido a escuderia por sete temporadas. Bearman entra no time pelo apoio da Ferrari, que renovou contrato de participação técnica até 2028, e Ocón, depois do imbróglio na Alpine pelo incidente de Mônaco, já estava de aviso prévio do time francês. E Hulkenberg, por sua vez, assume o carro da Sauber, futura Audi, em 2025.

 

 

A F-1 chegou a Spa-Francorchamps, para a última prova da temporada antes das férias de verão, e a previsão para a prova belga, para surpresa de ninguém, é de tempo instável no fim de semana, com temperaturas mais amenas que na Hungria, e com a chuva dando o ar da graça, o que pode dar um tempero adicional ao GP, como já vimos em várias ocasiões. E quem pode ter complicações adicionais aqui na região das Ardenhas é Max Verstappen, que já anda de cabeça quente depois dos percalços de Hungaroring, e aqui na Bélgica deve utilizar uma nova unidade de potência, o que o fará perder posições no grid de largada, por estar utilizando a primeira unidade além do limite regulamentar. Mas trata-se de uma jogada tática do time rubrotaurino, uma vez que o circuito belga tem bons trechos onde se pode ultrapassar, o que deve facilitar ao tricampeão holandês conseguir se recuperar na corrida. Foi assim que ele ganhou nos últimos dois anos, mesmo partindo lá de trás. A jogada se explica pelo fato de que, nas próximas etapas, após as férias, os próximos circuitos são bem mais complicados para se fazer provas de recuperação, o que pode comprometer de forma mais decisiva o resultado das corridas, possibilidades estas que são menores em Spa. Mas, nos últimos dois anos, a Red Bull tinha o melhor carro do grid, com ampla vantagem, o que facilitou a tarefa de Verstappen em recuperar posições e alcançar a liderança, e este ano, pelo que vimos nas últimas provas, a tarefa será mais complicada, e as possibilidades de um resultado adverso, maiores. A McLaren vem em alta, e tem tudo para ser o carro a ser batido na pista belga, mostrando grande versatilidade nos mais variados tipos de pista. E as temperaturas mais amenas devem permitir que a Mercedes também tente colocar-se na briga, a exemplo do que vimos em Silverstone, complicando a situação. Verstappen já está há três corridas sem vencer, desde a prova da Espanha, e desde então viu os concorrentes não apenas crescerem no seu retrovisor, como passarem à sua frente. No Canadá e na Espanha ele conseguiu driblar as adversidades e vencer, mostrando que ainda é dono indiscutível do campeonato, onde ainda conserva uma vantagem considerável na classificação, de 76 pontos. Mas mesmo com toda essa distância de folga, o holandês parece estar sentindo a pressão de ver os rivais melhores, e na Hungria, ele perdeu a cabeça em vários momentos da prova, exibindo um descontrole que não se via há tempos, sem necessidade para tanto. Mas um cenário adverso em Spa pode fazer Verstappen repetir o cenário da Hungria na semana passada, e oferecer mais uma chance dos adversários se darem melhor? Pode ser o pior pesadelo para o holandês, se ele não souber colocar a cabeça no lugar...

O belíssimo circuito de Spa-Francorchamps está pronto para receber mais uma vez o Grande Prêmio da Bélgica de F-1.

quarta-feira, 24 de julho de 2024

ARQUIVO PISTA & BOX – MAIO DE 2000 – 19.05.2000

            De volta aos meus antigos textos, trago hoje a coluna publicada no dia 19 de maio de 2.000, cujo tema principal era a decepcionante estréia da Jaguar na F-1. Oriunda da Stewart Racing, o time, agora de propriedade da Ford, ostentava recursos financeiros de um verdadeiro time de ponta, mas a exemplo do que acontecera com a BAR no ano anterior, estava ficando pelo caminho, sem conseguir apresentar resultados condizentes com os investimentos realizados. De fato, a Fórmula 1 nunca foi uma categoria fácil, e sem recursos, uma equipe não evolui, isso sempre foi um fato inquestionável. Porém, o reverso não é verdadeiro: por mais recursos que um time possua, apenas isso não é garantia de sucesso, e a Jaguar seria apenas mais um exemplo contundente dessa verdade, o que a levaria, alguns anos depois, a desistir da competição e vender a escuderia para a Red Bull, que soube muito bem como conduzir a equipe, como podemos ver na história recente da F-1 desde então. Curtam o texto, e boa leitura a todos...

MUITOS RECURSOS, NENHUM RESULTADO...

          Hoje começam os treinos para o Grande Prêmio da Europa, no tradicional circuito de Nurburgring, na Alemanha, e no paddock todos se perguntam se a reação iniciada pela McLaren há duas corridas, na Inglaterra, vai se manter, ou se a Ferrari vai voltar a manter a posição de domínio que está conseguindo impôr desde o começo da temporada, com Michael Schumacher. A prova deve ser agitada, até porque há previsão de chuva para o domingo, e nestas condições, o bicampeão alemão da Ferrari é sempre um adversário quase imbatível no piso molhado, o que pode ajudar a brecar o avanço dos carros prateados.

          Mas tem outra conversa no pit lane que anda suscitando debates entre a imprensa especializada: como a Jaguar está se portando? O mais novo time oficial da categoria, agora de propriedade inteiramente da Ford, está deixando a desejar neste início de ano, ainda mais se levarmos em conta a bela performance exibida pela Stewart Racing no ano passado, onde chegou a vencer, ainda que devido às circunstâncias do momento, uma corrida, aqui mesmo neste circuito, ao lado da bela vila de Nurburg. No ano passado, a corrida também teve a chuva como componente desestabilizador, e no final, venceu quem errou menos, ou deu mais sorte que os demais, no caso, o inglês Johnny Herbert, que estava no lugar certo na hora certa.

          Foi um dia inesquecível para Jackie Stewart: além da vitória de Herbert, Rubens Barrichello ainda foi 3° colocado. Por mais que a instabilidade das condições climáticas tenha tornado a prova uma loteria, a performance exibida pelo time durante o ano, principalmente com Barrichello, já credenciava a escuderia a vôos maiores, senão em 1999, provavelmente neste ano. Após 3 temporadas, o time mostrava que estava evoluindo em sua maneira de trabalhar, aparando as arestas e conseguindo conjugar de maneira positiva seus recursos técnicos. Havia limitações, claro, mas quando houve o comunicado de que a Ford assumiria o time, com vistas a entrar de maneira mais contundente na F-1, a exemplo do que outras grandes fábricas mundiais fizeram nos últimos tempos, se não era para esperar disputar o título, pelo menos devia-se esperar que o time frequentasse os pontos com regularidade.

          Só que nem isso está acontecendo: até agora a Jaguar, nova denominação da antiga Stewart, está zerada no campeonato de construtores, e tanto Eddie Irvinne quanto Johnny Herbert têm tido mais dificuldades do que satisfações com o modelo R01 desta temporada. Nas classificações, o piloto irlandês tem conseguido arrancar boas posições de largada, até compatíveis com o que o time estava habitualmente acostumado a conseguir até o ano passado. Mas Herbert quase que invariavelmente larga sempre entre os últimos, dando a entender que o novo modelo, se era uma evolução natural do bem-comportado SF-03 de 1999, que permitiu até a Rubens Barrichello liderar o GP do Brasil por várias voltas, definitivamente deu um passo atrás na sua performance.

          Com 5 provas disputadas, o melhor resultado obtido até agora foi em San Marino, onde Irvinne chegou na 7ª colocação, e Herbert foi 10°, mas ambos terminando com mais de uma volta de atraso para o vencedor, Michael Schumacher. Irvinne não conseguiu evoluir na corrida, tendo largado da mesma 7ª posição, e ainda teve o lance de Ralf Schumacher ter ficado pelo caminho, uma vez que a Williams tem tido muito mais desempenho do que a Jaguar. Em outras palavras, Eddie teria terminado em 8° lugar se "little" Schumy não tivesse abandonado, o que denota a falta de ritmo do modelo R-01. Por outro lado, Herbert, que largou em 17°, conseguiu avançar até a 10ª colocação, mas empacou por aí, sem conseguir subir mais na prova.

          Se levarmos em conta o desempenho em Silverstone, uma pista de alta velocidade, a performance dos carros verdes fica ainda pior: Irvinne conseguiu largar em 9°, mas terminou em 13°, ao passo que Herbert largou em 14°, e foi apenas o 12°. Na pista, ambos os carros tiveram como melhores voltas apenas os 10° e 11° tempos, o que mostra que infelizmente a performance decaiu em relação a 1999. Em Barcelona, o resultado foi ainda pior, com Irvinne e Herbert a terem trabalho até para se manterem perto dos 10 primeiros colocados.

          O resultado de Barcelona é incisivo em mostrar que o carro não possui boa aerodinâmica, o que pode estar na raiz dos problemas que o novo modelo vem enfrentando. Este já era um problema do SF-03, mas a escuderia trabalhava para minimizar os problemas nesta área. Agora, com os vastos recursos da Ford, que chegaram a tempo de auxiliar no desenvolvimento final do modelo 2000, era de se esperar que tivessem feito progressos nesta área. Pelo visto, o bom entrosamento obtido na área técnica no ano passado se perdeu na transição da Stewart para a Jaguar. Será que a Jaguar viverá este ano o mesmo panorama vivido pela BAR no ano passado?

          Em 1999, o novo time, formado da antiga Tyrrel, também chegou à F-1 prometendo mundos e fundos. Havia dinheiro em abundância, bons pilotos, e condições técnicas dignas de um time de ponta. O que se viu, contudo, foi a escuderia funcionar de maneira desconexa durante toda a temporada, sem conseguir conquistar um único ponto, apesar dos recursos, tanto financeiros quanto técnicos e de estrutura que possuía. Menos farol e mais trabalho foi a receita para este ano, no que a BAR parece estar finalmente encontrando seu caminho para melhorar na F-1, em que pese ainda terem muito a aprender.

          Desde que estreou na F-1 nos anos 1960, a Ford sempre se valeu dos préstimos de terceiros. Foi a Cosworth a projetar o mais famoso motor da história da categoria, sem desmerecer o financiamento fornecido pela fábrica americana. Mas, durante todos estes anos, a Ford só obteve elogios pelas qualidades de seu motor, que foi sendo evoluído progressivamente pela Cosworth, em que pese nos últimos tempos eles não brilharem mais como antes. Com o novo envolvimento com a Stewart, esperava-se que a Ford voltasse a resgatar o brilho de excelência que seus motores já tiveram, mas a fábrica americana nunca gerenciou um time na F-1, e está vendo que a tarefa não é tão simples como imaginava.

          A transformação da Stewart na Jaguar visava tornar a escuderia um novo time de ponta da categoria. De fato, a estrutura e recursos financeiros agora parecem não ser mais problema. A dificuldade agora é conseguir coordenar todos os talentos e potencial disponível para fazer o time evoluir, e isso não é apenas melhorar o motor, o que tem sido feito, mas toda a equipe como um todo.

          Há potencial, seus pilotos são satisfatórios, e dinheiro não falta. Assim que conseguirem acertar estas arestas, a Jaguar deve finalmente mostrar a que veio. Mas, enquanto não consegue isso, precisa tentar melhorar da maneira como puder, e isso não vai ser fácil, porque todos os outros times também estão a melhorar, pois ninguém quer ficar para trás.

          Sem recursos, ninguém consegue resultados na F-1, mas recursos em abundância não significam resultados. Veremos se a Jaguar conseguirá acertar o seu rumo e mostrar a todos que ela não vai ser uma nova BAR de 1999...

 

 

Ainda não foi desta vez que a Honda conseguiu vencer em sua própria pista no GP do Japão da F-CART. A prova deste ano, assim como já tinha acontecido nos dois anos anteriores, acabou vencida por um carro equipado pelo motor Ford, que parece estar se especializando em estragar a festa da Honda nas provas realizadas em Motegi. Se nos dois anos anteriores foi o mexicano Adrian Fernandez a roubar os louros da vitória, este ano a primazia coube a Michael Andretti, da Newmann-Hass. De consolo para a Honda, sobrou o 2° lugar na corrida, que ficou com o escocês Dario Franchitti, da equipe Green, time que usa os motores nipônicos. Mas a Ford fez a maioria no pódio: na terceira posição, ficou Roberto Moreno, da Patrick, equipe que também usa os motores americanos. Moreno, aliás, foi um dos destaques da corrida, juntamente com Cristiano da Matta, que assim como já havia feito no Rio de Janeiro, andou muito forte na pista japonesa, obtendo mais um significativo 4° lugar, no que foi o melhor resultado da Toyota na pista da rival Honda. Mas a Toyota chegou a dar um susto na classificação, quando Juan Pablo Montoya, da Ganassi, conquistou a pole-position, equipado com o motor Toyota. Mas o piloto colombiano teve uma prova mais complicada do que esperava, e terminou apenas em 7° lugar, a quase uma volta do vencedor Michael Andretti.