sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

DAKAR 2021

O Dakar 2021 mais uma vez foi disputado unicamente na Arábia Saudita, a exemplo do ano passado.

             Os loucos do deserto aceleraram novamente em mais uma edição do Dakar, o maior rali do mundo, que abriu as atividades do mundo do esporte a motor neste ano de 2021. Uma edição que já começou mais complicada do que nunca, já que o mundo continua vivendo sob a ameaça da pandemia da Covid-19, o que impactou na participação de muitos competidores, além de provocar medidas de restrição por parte dos organizadores, e do governo da Arábia Saudita, onde a prova foi realizada pelo segundo ano consecutivo. Havia a expectativa de incluir os países vizinhos no percurso do rali, mas a pandemia em curso obrigou a manter a prova exclusivamente em território saudita. Só chegar ao país árabe já foi um desafio para muitos competidores, diante das restrições de viagens internacionais, e dos protocolos de segurança obrigatórios, como testes frequentes, além de quarentena mínima de 48 horas ao chegar a solo saudita. Foi implantada também uma verdadeira operação de guerra, com cerca de 18 aviões fretados pela organização da competição, com autorizações especiais dadas pelos árabes para garantir que os competidores e equipes chegassem ao país e pudessem entrar, diante das restrições de viagem e fechamento geral das fronteiras por causa da pandemia.

            Foram 12 etapas, disputadas entre os dias 3 a 15 de janeiro, com parada para descanso no dia 9, em um percurso total de 7.646 quilômetros, dos quais 4.767 quilômetros nos trechos cronometrados. Inicialmente, a prova contaria com nada menos do que 321 veículos participantes, mas parte deles não conseguiu passar pela vistoria técnica antes da prova, o que resultou na baixa de nada menos 35 deles, que acabaram ficando de fora da competição antes mesmo da largada. Tivemos então 286 veículos, divididos em 61 UTVs e protótipos leves, 64 carros, 101 motos, 16 quadriciclos e 44 caminhões. E lá foram os dakaristas para a largada, e muitos percalços e areia pela frente, em etapas onde todos foram colocados à prova mais uma vez. Os “loucos do deserto”, como foram apelidados por muitos, trataram de pisar fundo novamente na competição do mais famoso rali do mundo.

Tabela dos percursos do Dakar 2021.

            Uma prova onde só de terminar já se pode considerar uma vitória, pois sobreviver às interpéries da natureza, bem como aos terrenos costumeiros que fazem parte das rotas são uma caixa de surpresas, onde tanto pilotos novatos como veteranos da competição estão sujeitos a todo tipo de situação, e mesmo a experiência pode não evitar de sofrerem percalços e ficarem fora de combate de um momento para o outro. E não se pode baixar a guarda neste tipo de competição. Tanto na parte humana, e também na técnica, pois mesmo com a melhor tecnologia de competição disponível, provas off-roads nunca serão completamente previsíveis, e nem mesmo os equipamentos conseguem dar conta da situação se surgirem encrencas ao longo do caminho. Dos 286 veículos que largaram no dia três de janeiro na cidade de Jedá, apenas 193 deles, ou 67% dos competidores, haviam “sobrevivido” aos 7.646km percorridos nos doze dias de competição. Dos 61 UTVs e protótipos, por exemplo, 41 deles receberam a bandeirada de chegada na mesma cidade de Jedá, no dia 15 de janeiro. Nos carros, entre os 64 iniciais, 15 deles ficaram pelo meio da competição, com apenas 49 chegando ao final. Entre as 101 motos participantes, 63 competidores chegaram ao final. Na turma dos pesos pesados, os caminhões, 29 de um total de 44 chegou ao final. Já os quadriciclos, a menor turma de competidores, com apenas 16 veículos, viu 11 deles receber a bandeirada de chegada.

            E na disputa dos carros, os nomes de sempre deram o ar da graça, e com Stéphane Peterhansel, com um Mini, a fazer história novamente no Dakar, ao vencer a edição deste ano, e somar o seu 14º título na competição, um marco na história do rali. Afinal, neste ano Peterhansel comemorava nada menos do que 30 anos de sua primeira vitória no Dakar: foi em 1991, quando ele competia nas motos, e vencia a competição aos 25 anos, com a Yamaha. E hoje, aos 55 anos, ele ainda está no topo, e mantendo-se entre os melhores da história do rali. Foram nada menos do que 6 triunfos competindo na categoria motos, nas edições de 1991, 1992, 1993, 1995, 1997, e 1998, sempre com a marca dos três diapasões. O piloto depois passou a competir na categoria dos carros, a partir de 1999, e conseguiu ser ainda mais impressionante do que quando competia nas duas rodas. Se o número de títulos nas quatro rodas não é tão maior assim do que quando corria nas duas rodas, a longevidade e competitividade surpreendem. O primeiro título do francês nos carros veio em 2004, com a Mitsubishi, seguidos depois por vitórias nas edições de 2005, 2007 (ambos com Mitsubishi), 2012, 2013 (com Mini), 2016, 2017 (com Peugeot), e agora em 2021 (novamente com Mini). São 32 participações no Dakar, desde a estréia, em 1988, tendo faltado apenas na edição de 1994, quando não participou da competição. O que se pode dizer de seus feitos na história do Dakar? Stéphane ainda foi 2º colocado duas vezes, e 3º outras duas vezes, o que dá uma presença de 17 vezes no pódio da competição off-road. E com o triunfo na edição 2021, Peterhansel também se torna o primeiro piloto da história a vencer provas nos três continentes onde o Dakar já foi realizado: na África, na América do Sul, e na Ásia, onde está o Oriente Médio, palco atual da competição.

"Monsieur Dakar" ataca novamente. Stéphane Peterhansell conquistou sua 14ª vitória no rali (acima), ampliando o seu já notável recorde de conquistas. Já Kevin Benavides (abaixo) chegou ao seu primeiro triunfo na competição pelas motos.


            O catariano Nasser Al-Attiyah, da Toyota, terminou em 2º lugar a edição 2021 do Dakar. E o espanhol Carlos Sainz, ao volante de outro Mini, que foi vencedor nos carros na edição do ano passado, ficou com o terceiro posto. Ambos são tricampeões do rali Dakar. No cômputo geral, Al-Attiyah terminou o rali 13min51s atrás de Peterhansel, que acumulou uma vantagem de 1hr00min57s para Sainz, seu companheiro de equipe na X-Raid.

            Nas motos, a Honda derrotou novamente a KTM, com o argentino Kevin Benavides conquistando a vitória com uma vantagem de 4min56s sobre seu companheiro de equipe, o estadunidense Ricky Brabec. A marca austríaca fechou o pódio com a 3ª posição de Sam Sunderland. Já nos caminhões, a Kamaz praticamente monopolizou o pódio, conquistando as 3 primeiras colocações na prova, com a trinca Dmitry Sotnikov/Ruslan Akhmadeev/Ilgiz Akhmetzianov chegando em primeiro lugar. Nos quadriciclos, a vitória ficou com o argentino Manuel Andujar, seguido pelo chileno Giovanni Enrico, e pelo estadunidense Pablo Copetti. Já nos UTVs, a dupla chilena Francisco Lopez Contardo/Juan Pablo Latrach Vinagre foi a vencedora nesta edição. Na segunda posição, ficou o estadunidense Austin Jones e o brasileiro Gustavo Gugelmin. Os brasileiros Reinaldo Varela e Maykel Justo terminaram a competição em 5º lugar.

            Na edição deste ano, aliás, tivemos a participação de sete brasileiros, com nossos compatriotas se destacando na classe dos UTVs. Como mencionado acima, Gustavo Gugelmin ficou em 2º lugar, enquanto Reinaldo Varella e Maykel Justo finalizaram em 5º lugar. Além deles, competiram também Guilherme Spinelli e Youssef Haddad na classe dos carros, terminando a competição em 17º lugar na classificação geral. Já a dupla Marcelo Gastaldi e Lourival Roldan, também disputando na classe dos carros, terminou o rali em 29º. Para Guilherme Spinelli, apesar da 17ª posição final, a sensação foi de vitória, pois há praticamente 10 anos ele não conseguia terminar a prova, sempre ficando pelo meio do caminho, gerando uma grande frustração. Nos UTVs, satisfação para Varella e Justo por vencerem a 12ª e última etapa, depois de baterem na trave várias vezes durante as demais etapas do rali. Eles terminaram a competição com 1h27min05s de atraso em relação aos campeões da categoria. Todos os brasileiros conseguiram chegar ao final da prova este ano, e isso deve ser comemorado pelo fato de terem conseguido sobreviver às agruras do deserto, que costumam ser implacáveis com muita gente. Claro que vencer sempre é melhor, mas há momentos em que é preciso se contentar com o que se alcança, e na competição do Dakar, é preciso reconhecer os limites que a natureza impõe aos pilotos e seus equipamentos.

Guilherme Spinelli e Youssef Haddad (acima) competiram nos carros. Reinaldo Varella e Maykel Justo mais uma vez se destacaram competindo nos UTVs (abaixo).


            Infelizmente, o Dakar voltou a apresentar uma nova morte em sua edição 2021. Desta vez a infeliz notícia foi do falecimento do francês Pierre Cherpin, de 52 anos, que competia na categoria motos, no último dia 15. O piloto sofreu um violento acidente na disputa da sétima etapa, no dia 10. Pierre sofreu traumatismo craniano, além de colapso pulmonar e uma fratura de costela, e havia sido levado a um hospital na cidade de Sakaka, onde se encontrava em coma. O piloto, que estava em sua 4ª participação no rali, passou por intervenção cirúrgica por conta dos ferimentos na cabeça, e estava sendo mantido em coma induzido para aliviar sua condição. Ele estava sendo transferido para a França, mas não resistiu aos ferimentos, vindo a falecer durante o transporte. Cherpin torna-se o 31º competidor a falecer no rali, em um total de 75 mortes já registradas nas edições do Dakar, e a 3ª morte registrada nas duas edições da prova disputadas na Arábia Saudita.

            Se tivemos essa má notícia, houve ao menos uma mais alentadora: no mesmo dia, o indiano Chunchunguppe Shivashankar Santosh, que também competia na categoria motos, despertou do coma induzido em que se encontrava desde o dia 6 de janeiro, quando também caiu durante a disputa da quarta etapa da competição. Ele havia sofrido um trauma na cabeça, e tido um ombro deslocado, além de ter tido uma parada cardiorrespiratória, que felizmente foi revertida graças à ajuda de outro competidor, que localizou o indiano ferido e acionou o socorro médico da prova. Santosh foi transferido para um hospital na Índia, onde recobrou a consciência, e pelo menos, não sofreu lesões no cérebro.

            Apesar das dificuldades impostas pela pandemia, o Dakar 2021 saiu-se satisfatoriamente bem, e seus competidores já começam a traçar planos para a edição do próximo ano, onde esperamos estar com um panorama mais próximo do normal, e com a praga da Covid-19, se não extinta, sob controle. E podem apostar que os pilotos estarão novamente prontos para acelerar nas areias do deserto, mais uma vez desafiando seus limites, e encarando as adversidades da natureza para chegarem à frente dos outros concorrentes.

 

 

Durante a realização da edição 2021 do Dakar, tivemos a notícia da perda de um importante participante da história da competição. No 7º dia de disputas, foi divulgado o falecimento do francês Hubert Auriol, aos 68 anos de idade. Uma das maiores lendas da história do rali, Auriol foi o primeiro piloto a vencer a competição tanto nas motos (nas edições de 1981 e 1983) quanto nos carros (em 1992). Ele faleceu vítima de um ataque cardíaco em Paris, onde estava internado há mais de um mês, em decorrência da Covid-19. Conhecido como “O Africano”, Hubert nasceu na Etiópia, apesar de ter vivido na França, e além de piloto, também foi diretor de prova do rali Dakar, entre 1995 e 2004. Auriol participou das edições do Dakar de 1979 a 1994, quando pendurou o capacete. O ex-piloto passou por uma perda trágica no mês de dezembro, quando sua esposa Caroline faleceu de mal súbito enquanto treinava de bicicleta em Paris, na França.

 

 

Principal rival de Stéphane Peterhansel na edição deste ano do Dakar, Nasser Al-Attiyah ficou inconformado com a derrota para o “Monsieur Dakar”, e prometeu não voltar a disputar o rali se as regras técnicas da competição não forem modificadas. Na opinião do piloto do Qatar, o fato de Peterhansel competir com um tipo de buggy lhe deu vantagem injusta aos demais competidores da categoria dos carros, uma vez que os veículos “normais” sofrem com detalhes técnicos naturais de seus projetos, como o uso de pneus e suspensões menos largos do que os que podem ser utilizados pelo tipo de veículo utilizado pelo piloto francês. Ele também enfatizou que, enquanto seu modelo de veículo pode ser encontrado para venda, o de Peterhansel é praticamente “exclusivo” de competição, não podendo ser comprado como o seu Toyota, e mencionando que o buggy do adversário nem é produzido por uma montadora de veículos. Peterhansel não deixou barato, e respondeu às críticas de Al-Attiyah afirmando que ele tem “problemas de ego”, e que “quando não ganhamos, não choramos”. O francês ainda declarou que Al-Attiyah foi o próprio culpado de sua derrota, quando fez questão de vencer a etapa prólogo do rali, que lhe dava o direito de largar na frente dos adversários na primeira etapa, estreando o percurso. Só que, saindo na frente, o catariano também foi o primeiro a sofrer percalços no terreno, tendo um pneu furado, e perdendo ali praticamente 12 minutos em relação ao rival francês, que chegou pouco mais de 13 minutos à frente e venceu a competição ao fim do rali. Nos ralis, sair na frente geralmente é desvantajoso, pois é o primeiro a “desbravar” o terreno, e com isso, cair em alguma armadilha no percurso. Quem vem atrás acaba vendo onde o outro piloto teve problemas, e geralmente evita cair no mesmo percalço. Uma pena este tipo de atitude por parte de Al-Attiyah, que já venceu por três vezes a competição, e seria um nome importante a desfalcar a prova em edições futuras por causa deste tipo de picuinha. Seja como for, a ASO, entidade promotora do rali Dakar, e a FIA, devem discutir mudanças nas regras para edições futuras, visando aprimorar as condições de disputa da competição, e talvez estudem essa situação, para evitar novas discussões entre competidores.

 

 

O Dakar prepara uma revolução para sua competição em breve: a partir de 2026, o rali terá participantes com máquinas com motorização movida a hidrogênio, a fim de impactar menos o meio ambiente, e assumir uma postura mais ecológica. Todos os principais times deverão competir com o novo combustível já em 2026, e a partir de 2030, todos os competidores terão de utilizar esta motorização. A tecnologia de motores movidos a hidrogênio já existe, mas está em estágios iniciais. Porém, o potencial de desenvolvimento é enorme, e poderia ser uma alternativa à motorização elétrica, que caminha a passos largos para ser expandida em breve, mas que tem seus limites de implantação em diversos lugares, que poderiam adotar o hidrogênio como uma alternativa mais viável. Para isso, contudo, é preciso oferecer às montadoras oportunidades para desenvolver essa tecnologia, e a exemplo do que a Formula-E fez nos últimos anos ao atrair as mais diversas marcas ao redor do mundo com o objetivo de desenvolver a tecnologia de baterias e motores elétricos, a intenção do Dakar é oferecer oportunidade e incentivo semelhantes para as marcas investirem no desenvolvimento deste tipo de motorização. O hidrogênio é um composto extremamente abundante, e seu uso como combustível gera H²O, ou simplesmente água, ao invés do poluidor CO². As fábricas terão quatro anos para desenvolver seus novos veículos com este tipo de motor, até a sua estréia na edição de 2026. Curiosamente, o Dakar compete atualmente na Arábia Saudita, a maior produtora e exportadora de petróleo do mundo...

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

ARQUIVO PISTA & BOX – ABRIL DE 1999 – 16.04.1999

            Trazendo novamente um de meus antigos textos, coloco hoje a coluna publicada no dia 16 de abril de 1999, cujo tema principal era o show dado por Rubens Barrichello no Grande Prêmio do Brasil daquele ano. Embora o brasileiro tenha ficado mais uma vez pelo caminho, mercê do azar que pareceu sempre persegui-lo em seu GP caseiro, a performance do piloto ao volante do novo modelo SF-03 da Stewart Racing adiantava uma boa temporada da escuderia fundada pelo tricampeão de F-1, que sempre confiou no talento de Rubinho, ao contrário de muitos que já davam sua decadência na categoria máxima do automobilismo.

            Mas foi um ano de altos e baixos para a equipe Stewart, que apesar da grande melhora de performance, padeceu de constância e fiabilidade, e injustiça, teve até vitória, mas com Johnny Herbert, o outro piloto da equipe, que estava no momento certo na hora certa para conseguir os louros da vitória que muitos reconheceram que deveria ter ido para Rubens. Mas o brasileiro capitalizou com a excelente temporada, ganhando um contrato com a Ferrari para o ano seguinte, onde viveria seus melhores anos na F-1, mas também teria momentos complicados por dividir um time com o então melhor piloto da categoria, Michael Schumacher, em um time que se dedicava unicamente ao piloto alemão. De quebra, alguns tópicos rápidos sobre outros acontecimentos naquela semana, como o GP do Japão da F-CART, realizado em Motegi. Uma boa leitura para todos, e em breve trago mais textos antigos...

 

O SHOW DE RUBINHO

 

            Depois de alguns anos, enfim a torcida brasileira voltou a se empolgar com uma corrida de Fórmula 1. Rubens Barrichello fez a melhor corrida de sua carreira em Interlagos, e não fosse a quebra do motor, muito provavelmente teria subido ao pódio, em 3º lugar. O gesto da torcida no autódromo, enfim, redimiu-se ao piloto que tantas vezes desprezou recentemente, diante da falta de resultados nos últimos dois anos na F-1. Espero que a torcida tenha amadurecido e reconhecido o talento de Barrichello. Não há dúvidas também de que o SF-03 é o melhor carro que ele já pilotou na F-1, e possivelmente, pensar na primeira vitória ainda este ano já pode ser considerado algo realista, e não um sonho impossível.

            Rubens deu o maior show em Interlagos. No treino de classificação, o brasileiro fez milagres com sua Stewart, sendo o piloto que mais perto chegou da McLaren, favoritas disparadas. Deixou até mesmo o bicampeão Michael Schumacher para trás, apesar da Ferrari ainda ser um carro superior ao Stewart do brasileiro. Na corrida, foi a glória vê-lo na liderança de nosso GP durante 24 voltas, andando sempre num ritmo forte e constante, provando a qualidade de seu carro e de sua pilotagem. Ele, Schumacher, e Mika Hakkinen logo se distanciaram de todos os demais pilotos na prova. Mesmo tendo optado por pneus mais moles e a estratégia de 2 paradas, era o dia da redenção de Rubinho em Interlagos.

            Foi bom ver a torcida de novo empolgada com a F-1. Depois de ficar tanto tempo acostumada às vitórias de Émerson Fittipaldi, Nélson Piquet, e Ayrton Senna, a falta de resultados fez boa parte da torcida debandar. Até mesmo o talento de nossos pilotos na categoria foi colocado em dúvida. E perdi a conta de quantas vezes Barrichello, nosso principal representante na F-1 nestes últimos anos, foi ridicularizado, depreciado, e até ignorado pelos times de ponta, para não dizer da torcida brasileira, que passou a tratá-lo como se fosse uma vergonha para o país, por na opinião deles, “desonrar” o legado de nossos campeões na categoria. A própria equipe Jordan, que tanto o apoiou no seu início na F-1, deu-lhe as costas em 1995, não acreditando mais em seu potencial e talento. O cúmulo foi a declaração de Bernie Ecclestone, recentemente, de que Rubinho não tinha mais talento para a F-1, chegando a apontar Pedro Paulo Diniz como um piloto muito melhor que Barrichello. Nada contra Diniz, que demonstrou evolução notável como piloto desde que estreou na categoria, mas Rubinho demonstrou talento e capacidade de um verdadeiro campeão nas categorias de acesso à F-1`, vencendo e conquistando campeonatos dificílimos como a F-Opel Européia e a F-3 Inglesa. Depois do show de Barrichello em Interlagos, o que será que o cartola máximo da categoria diria de nosso piloto? Até a imprensa européia já está rendendo-se novamente a Rubinho, chegando a apontá-lo como um campeão em potencial. Quem conhece Rubens há tempos, contudo, sempre soube disso.

            Ao que tudo indica, finalmente Barrichello está na hora e lugar certos. A Ford está investindo maciçamente na F-1, e tem planos de tornar o seu motor V-10 o mais potente da categoria até o fim do ano. Ao mesmo tempo, a fábrica exigiu mudanças na equipe e Jackie Stewart atendeu prontamente, efetuando uma total reestruturação da escuderia, aumentando o seu efetivo e ampliando a autonomia técnica da equipe. E para completar, Alan Jenkins, que havia concebido o fraco SF-02 de 1998, acertou a mão com o SF-03 de 1999, já melhorado pelo novo projetista do time, Gary Anderson. Um carro estável, equilibrado, e de boa aerodinâmica e com excelente tração. O ponto fraco ainda é o motor, que perde em relação aos Mercedes e ao Ferrari, mas já dá mostras de poder encarar os propulsores Honda e Peugeot. A vontade e a disposição da Ford em torná-lo o melhor motor da F-1 é válida, mas para chegar lá vai ser necessário paciência. E um pouco de confiabilidade também: não adianta dar shows nas corridas sem conseguir terminá-las. Resultados são importantes, mesmo Rubinho declarando que preferiu ter abandonado a corrida de Interlagos depois da excelente performance que apresentou à possibilidade de ter concluído a prova com um desempenho medíocre.

            Mas a chance de Rubinho vai chegar. A se manter o nível de performance para a temporada européia, podem apostar que Barrichello vai freqüentar o pódio este ano, e com alguma sorte, talvez até mesmo em seu degrau mais alto. Que volte a dar novos shows na F-1, Rubens!

 

 

A atitude de Eddie Irvinne no jogo de equipe da Ferrari para favorecer Michael Schumacher começa a dar alguns momentos de irritação. Em Interlagos, o irlandês bloqueou Rubens Barrichello por 3 voltas, retardando-o e fazendo o brasileiro perder quase 8s. E tudo porque naquele momento Rubens era uma grande ameaça a Schumacher. Irvinne chegava até a aliviar o acelerador, em pontos onde não era possível tentar uma ultrapassagem, chegando até mesmo a repetir a manobra na reta de acesso à reta dos boxes, obrigando Barrichello a diminuir para evitar colidir com a Ferrari. Apesar de tudo, o brasileiro conseguiu a ultrapassagem nos extremos da reta. Um jogo de equipe é uma tática válida, mas há limites para isso. Em determinado momento, deu-se a impressão de que Irvinne poderia dar uma fechada em Rubens e provocar um acidente entre ambos, especialmente quando o piloto irlandês aliviava o acelerador subitamente. Isso me trouxe à mente as imagens da batida entre Irvinne e Giancarlo Fisichella no GP da Espanha do ano passado. Irvinne, que sempre foi cabeça quente, ficou quieto antes os brados do piloto italiano. Houve rumores de que ele pôs Giancarlo para fora da corrida porque o italiano estava andando muito mais rápido do que Schumacher na corrida, e ele poderia complicar a situação do alemão na prova. Por mim, seria mais válido uma luta limpa e sem segundas intenções em uma disputa de posições, ainda mais porque o campeonato mal começou e, até prova em contrário, não há exatamente favoritos destacados ao título, apesar de Mika Hakkinen e Michael Schumacher sejam considerados os principais duelistas do campeonato deste ano.

 

 

Ao contrário do que mencionei na coluna da semana passada, o holandês Jos Verstappen acabou não substituindo o italiano Luca Badoer na equipe Minardi na prova de Interlagos. À última hora, o time optou pelo francês Stephani Serrazin. O piloto francês até que ia bem na corrida, até bater na subida para a reta dos boxes. O carro da Minardi, com o impacto, deu tantas voltas que dizem que Serrazin saiu do carro completamente tonto...

 

 

Na corrida de Motegi, no Japão, pelo campeonato da F-CART, os pilotos brasileiros fizeram boa participação, sendo que o pódio acabou sendo totalmente latino-americano. Adrian Fernandez conseguiu sua segunda vitória na pista japonesa. Gil de Ferran foi o 2º colocado, enquanto Christian Fittipaldi fechou o pódio na 3ª posição. O piloto mexicano teve muita sorte, pois ficou sem metanol logo após receber a bandeirada de chegada. A maioria dos outros pilotos brasileiros também pontuaram: Tony Kanaan foi o 6º colocado; Maurício Gugelmim terminou em 7º; Hélio Castro Neves foi o 9º. Tarso Marques, substituindo Al Unser Jr. na Penske, ficou em 14º. Luiz Garcia Jr. e Cristiano da Matta abandonaram a prova. Gil fez a pole-position nos treinos, seguido por Gugelmim, que fez o 2º tempo, formando uma primeira fila totalmente brasileira no Japão. Devido a problemas durante a corrida, Gil e Maurício perderam diversas posições e precisaram fazer corridas de recuperação. A prova até que foi relativamente tranqüila, não havendo nenhum acidente durante toda a corrida. O máximo que aconteceu foi uma ralada leve de Dario Franchiti no muro que motivou uma bandeira amarela por questões de segurança. Houve outras bandeiras amarelas motivadas por pilotos que rodaram, mas sem maiores conseqüências. Gil de Ferran foi um que deu uma rodada no início da prova, mas conseguiu evitar uma batida e continuar na corrida. Greg Moore foi outro que rodou também, no finalzinho da competição. Felizmente, também não bateu em nada e ninguém bateu nele. E hoje já começam os treinos para a próxima etapa do campeonato, no belo circuito urbano de Long Beach, na Califórnia, que é tida como a etapa mais charmosa de todo o calendário da F-CART.