sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

A TEMPORADA 2024 DA FÓRMULA 1 – PARTE II

A temporada de 2024 começou parecendo repetir 2023 e o massacre de Max Verstappen e da Red Bull, mas o panorama virou antes da metade da competição, e o holandês precisou trabalhar mais duro para faturar mais um título.

            E eis aqui a segunda parte de minha análise da temporada deste ano da Fórmula 1. De fato, uma temporada que saiu melhor que a encomenda, apesar de mais um título de Max Verstappen, que foi a conquista mais difícil do holandês depois de seu primeiro título, em 2021. Mas a concorrência reagiu tarde, e não conseguiu capitalizar sua vantagem como poderia. Mas não se pode negar que a segunda metade da temporada deu um tempero extra muito bem-vindo às disputas, com a imprevisibilidade voltando a figurar na competição, depois de um ano modorrento como havia sido 2023.

            Depois de tudo, pode-se louvar a Red Bull por ter conseguido manter seu nível, em boa parte graças à genialidade de Max Verstappen, que mostrou efetivamente porque é o melhor piloto do grid no momento. Mas podemos elogiar o time austríaco por ter conseguido manter, pelo menos no caso do holandês, uma certa coesão interna que permitiu que o carro ainda se mantivesse razoavelmente competitivo dentro de uma margem que ainda permitisse a Max fazer a diferença. Caso a performance do modelo RB20 caísse ainda mais, teria sido difícil o holandês conseguir emplacar o seu quarto título. Infelizmente, isso não valeu para Sergio Perez, que ficou completamente exposto na temporada, em que pese uma fase ruim do piloto, azares, além do comportamento complicado do carro que em nada o ajudou, por mais que o time tenha declarado que fez o possível para isso, o que eu acho meio duvidoso. Não fosse a capacidade de Max otimizar seus resultados, aproveitando toda e qualquer brecha aberta pela concorrência, a Red Bull possivelmente não teria chegado a mais um título de pilotos, onde o holandês conseguiu equilibrar a briga em termos de pontuação no momento mais crítico de déficit de performance enfrentado. Mas Verstappen também deu sorte em alguns momentos onde exagerou na dose, como na Hungria, onde se enroscou com Lewis Hamilton e poderia ter ficado de fora da corrida, mas conseguiu terminar a prova, perdendo apenas duas posições na pista. Ou em quando se enroscou com Lando Norris na Áustria, ou fez divididas extremamente agressivas com o inglês, que poderia ter resultado em acidentes com abandonos.

Com a McLaren sendo muito mais competitiva, Lando Norris veio para cima de Max Verstappen tentando batalhar pelo título, mas o holandês manteve-se firme e garantiu o tetracampeonato, apesar de alguns problemas.

            A coincidência da queda do desempenho do RB20 ao momento em que Adrian Newey comunicou sua saída da escuderia após 20 anos de permanência lá suscita dúvidas sobre como a Red Bull se portará no próximo ano, tendo que desenvolver seu primeiro bólido pós-Newey. O histórico dos times após a partida do engenheiro inglês não é bom neste sentido, mostrando que seus corpos técnicos sentiram fortemente o baque de sua partida. Mesmo sendo outros tempos, não se pode negar a possibilidade da Red Bull sofrer bastante com o projeto do novo RB21, de modo que a escuderia terá de passar por uma prova de fogo para mostrar que seguirá competitiva mesmo sem a presença de Adrian por lá. Resta ver se eles conseguiram manter a qualidade de seu time de engenharia para se preparar para esse momento, que em algum momento chegaria, até pela idade do engenheiro inglês, que mais cedo ou mais tarde, se aposentaria.

            A McLaren, mais uma vez, mostrou sua capacidade técnica de desenvolver o seu carro durante a temporada, tendo começado mais uma vez atrás, mas saltando adiante para ter o melhor carro de todo o grid na segunda metade do ano. Em 2023, foi preciso meia temporada para isso ocorrer, quando então o time vinha se arrastando nas últimas colocações, até que um pacote de atualizações proporcionou uma completa reviravolta, e a McLaren só não foi mais longe porque tinha muito terreno perdido na primeira metade do ano para recuperar, de modo que nem de longe ameaçou a supremacia do duo Red Bull/Verstappen. Estew ano, o desempenho da equipe não começou mal, mas foi só a partir da etapa de Miami que o MCL38 ganhou seu incremento de atualizações que foram extremamente eficientes e catapultaram o bólido para o topo do grid.

            Mas, se a área técnica da escuderia inglesa se mostrou eficiente e extremamente capaz, seus pilotos não foram tão eficientes neste quesito, com erros cometidos aqui e ali nas corridas, que resultaram na perda de resultados potenciais que poderiam ter dificultado e muito a luta pelo título por parte de Verstappen, que fez valer a gordura acumulada no início do ano para poder administrar a situação com alguma folga e tranquilidade. Oscar Piastri e Lando Norris raramente conseguiram aproveitar efetivamente a supremacia técnica de seus carros, de modo a aproveitar para buscar o holandês na pontuação. Mas coube também à escuderia proporcionar erros nas estratégias de corrida que não ajudaram seus pilotos, muito pelo contrário, complicando suas situações, e obrigando-os a correr atrás do prejuízo. A McLaren, de tantos títulos e vitórias, precisa ainda reaprender a ser um time campeão, que briga pelo título. A conquista do campeonato de construtores é bem-vinda, mas no próximo ano, a manter a excelente forma com que encerrou 2024, precisará mostrar que sabe brigar também pelo título de pilotos, e sem prejudicar as estratégias de corrida de ambos diante das circunstâncias do momento.

A Ferrari batalhou pelo campeonato de construtores até o final, perdendo o duelo para a McLaren na última corrida.

            A Ferrari teve um ano positivo, apesar de tudo. A equipe técnica soube corrigir as deficiências do carro de 2023, apresentando um bólido bem mais eficiente, que poderia ter até sido campeão da temporada nos construtores. Mas uma atualização equivocada a meio da temporada acabou complicando a situação, deixando o carro nervoso e sem condições de aproveitar melhor suas qualidades. Foram algumas corridas em que seus pílotos não puderam fazer muita coisa, e até que o rumo do desenvolvimento do carro fosse corrigido, e as causas do problema, solucionadas, permitiu que a McLaren passasse à frente e assumisse a liderança do mundial de construtores. Mesmo assim, o time de Maranello manteve a equipe de Woking à vista na pontuação, e quase chegou lá, inclusive com Charles LeClerc brigando pelo vice-campeonato com Lando Norris, perdendo a disputa por pouco, se levarmos em conta os percalços do monegasco em algumas provas. Da mesma forma, Carlos Sainz quase superou Piastri na classificação, com o espanhol fazendo uma despedida digna do time italiano, que lança uma base bem competitiva para a temporada de 2025, com vistas a repetir o duelo com a McLaren visto este ano. Fora da pista, contudo, a Ferrari causou o maior furor de todo o ano, quando anunciou a contratação de Lewis Hamilton, que defenderá o time rosso a partir de 2025, e eclipsou qualquer outro assunto que pudesse ser interessante no primeiro trimestre do ano, causando a maior expectativa a respeito de uma temporada que só começaria mais de um ano depois, fazendo até perder parte do interesse do público pelo que poderia conquistar em 2024.

            A Mercedes teve um ano para redefinir seu caminho. O novo modelo W15 retomou a base de um carro com linhas mais convencionais, mas o tempo perdido no desenvolvimento do conceito zeropod nos dois anos anteriores se mostrou patente, com o time de Brackley precisando reencontrar os caminhos do desenvolvimento de seus projetos. O time começou o ano claudicante, como 4ª, ou até 5ª força, mas a meio do ano o desempenho cresceu bastante, a ponto de as vitórias surgirem, como na apoteótica vitória de Hamilton em Silverstone, marcando seu retorno ao degrau mais alto do pódio após quase três anos sem vencer. Mas a ascenção do time alemão não se manteve na segunda metade da temporada, com o desempenho do carro oscilando muito, e sem que a escuderia conseguisse entender bem os motivos para essa alternância de performance. Dessa forma, a Mercedes terminou o ano em 4º lugar no campeonato de construtores, e George Russell e Lewis Hamilton finalizando o ano em 6º e 7º lugares, muito abaixo dos anos anteriores. Tanto Russell quanto Hamilton tiveram desempenhos oscilantes ao longo do ano, mais no caso do heptacampeão, que em certos momentos mostrou-se mais desanimado que o compatriota, diante do desempenho irregular do carro.Não foi um ano exatamente negativo, mas também não foi positivo, de modo que podemos dizer que a Mercedes ficou no meio-termo, não fazendo muito, mas também não fazendo tudo a que se propunha. James Allison, o principal nome da área técnica do time alemão, resumiu bem  ao afirmar que 2024 não será um ano a ser lembrado pelo que se conquistou, mas pelas oportunidades perdidas, de como o time poderia ter voltado a ser o grande protagonista como estava acostumado, e ainda ficou longe disso. Fora que a escuderia também teve que lidar com a perda inesperada de Lewis Hamilton para 2025, algo que foi “resolvido” em casa, mas que durante algum tempo ocupou boa parte do noticiário a respeito do time alemão.

No seu último ano na Mercedes, Lewis Hamilton voltou a vencer, e logo em Silverstone, diante de sua torcida.

            Na Aston Martin, não há como negar que o time sediado em Silverstone ainda tem muito a aprender se quiser ser de fato uma escuderia de ponta. E Adrian Newey pode ser o responsável para consolidar essa transformação, já que em termos de estrutura o time possui uma das maiores e mais avançadas sedes da categoria, precisando fazer isso agora funcionar da maneira certa. No ano passado o time esmeralda já tinha se deparado com um ponto falho crucial, que foi não conseguir desenvolver o carro adequadamente durante a temporada, de modo que ele foi perdendo competitividade frente aos rivais conforme o ano avançava na sua segunda metade. Neste ano, as lições aparentemente não foram aprendidas, pois não apenas o carro não nasceu tão bom quanto o do ano passado, como eles também não conseguiram desenvolvê-lo como deveria, a ponto de o time mal conseguir chegar à zona de pontos em alguns GPs, e só não ficar em posição pior no campeonato de construtores porque os times que ficaram atrás estiveram muito piores, ou não conseguiram manter a constância necessária para avançarem mais na classificação. Fernando Alonso mais uma vez tirou leite de pedra em vários momentos, carregando o time nas costas tanto quanto possível, mas sem conseguir render o que poderia, já que em várias provas o espanhol também ficou devendo diante do comportamento fraco do carro e até do time, enquanto Lance Stroll, para dizer o mínimo, só se mantém no time porque é filho do dono da escuderia mesmo.

            A Alpine até que terminou o ano com alguma dignidade, em especial Pierre Gasly, mas no cômputo geral, 2024 foi um ano terrível não apenas para o time, mas também para a Renault, que mais uma vez sem conseguir dar um rumo crível à sua operação na F-1, cometeu duas heresias, para dizer o mínimo: primeiro, trouxe de volta, como “consultor”, a figura nefasta de Flavio Briatore, que estava afastado da categoria desde o escândalo do Singapuragate, para tentar dar uma organizada à sua administração; segundo, resolveu encerrar seu programa de motores para a categoria máxima do automobilismo ao fim de 2025, abortando seus trabalhos para entrar na novas regras técnicas em 2026, pondo fim, por enquanto, a um envolvimento que vinha desde 1977 na F-1. O time passará a usar unidades de potência da Mercedes a partir de 2026, segundo eles, muito mais em conta do custo benefício, do que continuar desenvolvendo o próprio propulsor, que nos últimos anos, abasteceu somente seu próprio time. Na pista, a Alpine se mostrou completamente sem competitividade na primeira metade do campeonato, brigando pela lanterna no grid e nas corridas, ao lado da Sauber. Esteban Ocón, por sua vez, causou um acidente com Gasly em Mônaco que resultou em sua demissão ao fim da atual temporada, obrigando o francês a procurar um novo time para 2025. A escuderia ainda deu sorte no temporal de Interlagos, que soube aproveitar a chance, e com pilotagem digna de elogios de seus pilotos, conquistou um pódio duplo na etapa brasileira, impulsionando o time, mais do que dobrando sua pontuação obtida até ali, e proporcionando a chance de terminar o ano em 6º lugar, muito mais do que seria possível no início do ano.

Superado por Nico Hulkenberg, Kevin Magnussen deixa a F-1 pela segunda vez, indo para o Mundial de Endurance em 2025.

            Na Haas, a nova gestão de Ayao Komatsu mostrou-se bem-sucedida, conseguindo promover uma melhor eficiência da escuderia no desenvolvimento do carro, que nas mãos de Nico Hulkenberg, impressionou em algumas classificações e até em algumas corridas, tirando a escuderia da lanterna onde ameaçava encontrar-se novamente. Ficando mais uma vez amplamente superado na pista, Kevin Magnussen ainda conquistou alguns resultados satisfatórios, ajudando o time a brigar pela 6ª posição no campeonato, disputa que acabou perdida na reta final para a Alpine. O time de Gene Haas teve uma temporada acima do esperado, e poderia ter mantido a 6ª posição na temporada se não tivesse tido alguns azares. O apoio da Toyota pareceu dar um novo gás ao time na parte final do campeonato, e quem sabe, ajude a escuderia a promover vôos mais altos em 2025, quando será capitaneada por Esteban Ocón e terá o novato Oliver Bearman.

            A Visa RB iniciou a pré-temporada prometendo muito, mas novamente conquistando pouco. Yuki Tsunoda mais uma vez conquistou a maioria dos resultados do time, mostrando ter melhorado, embora ainda pareça não contar com a confiança da cúpula da Red Bull, diante de atitudes imaturas demonstradas na pista e fora dela, que certamente pesaram n a avaliação do piloto. Já Daniel Ricciardo mostrou não ter recuperado a forma de  antigamente, sendo superado na maior parte do tempo por Tsunoda, o que motivou o time a dispensar o australiano e promover Liam Lawson a fim de avaliá-lo com mais propriedade para aproveitá-lo em 2025. Lawson até que se mostrou mais rápido, mas assim como Ricciardo, não se mostrou tão efetivo em resultados como se imaginava, se comparado a Yuki, de modo que sua avaliação, a princípio positiva, mostrou também dúvidas com o passar das corridas, e não as certezas que esperavam obter a seu respeito, onde certamente esperavam que superasse o japonês com certa facilidade. Nas provas em que dividiram a escuderia, Lawson marcou 4 pontos, enquanto Tsunoda fez 8, o dobro. Noviciado de Liam à parte, pareceu um cenário similar ao de Ricciardo em parte do ano, e não uma melhora exatamente em termos de resultados dentro do time.

            A Williams começou 2024 mais uma vez prometendo sair do fundão, tentando pelo menos avançar rumo ao meio do pelotão intermediário, mas mais uma vez, ficou pelo caminho, com um carro que não era tudo o que se esperava, embora tenha tido alguns desempenhos razoáveis em certos momentos, quando os pilotos puderam aproveitar as chances de pontuar. Mas o time marcou passo com Logan Sargeant, que continuou causando prejuízos ao time, além de uma performance abaixo do esperado. O time esperava que o estadunidense melhorasse após sua temporada de estréia em 2023, tendo ganho experiência de pista, mas isso não ocorreu, de modo que sua dispensa se tornou inevitável. A chegada de Franco Colapinto para seu lugar provou que o time poderia ter rendido mais, mas como o argentino também acabou mostrando uma certa propensão a bater, isso comprometeu as chances da escuderia, que precisou dispender muitos recursos para conserto e recuperação dos carros, uma vez que até Alexander Albon andou batendo mais do que se esperava, o que sobrecarregou a equipe técnica em Grove, que precisou, no fim da temporada, recorrer até ao uso de peças velhas nos carros diante da incapacidade de repor os danos sofridos nos carros. No ínicio da temporada, inclusive, a escuderia inglesa chegou a não dispor nem de um chassi reserva nas primeiras corridas, algo inexplicável para um time de competição que se preze de estar na F-1. A chegada de Carlos Sainz ao time no próximo ano deve ajudar a escuderia a evitar maiores prejuízos, e quem sabe, promover uma certa melhora no time, com a experiência do piloto espanhol em sempre aproveitar as oportunidades nas corridas. Mesmo assim, 2024 mais uma vez não foi o ano do “renascimento” há muito prometido pela nova direção da escuderia, que seguiu promovendo mudanças para chegar a esse objetivo, embora James Vowles tenha declarado que a escuderia progrediu mais do que os resultados indicam. Pode até ser, mas não é a primeira vez que o time promete melhorar, e não cumpre a promessa, mas quem sabe os resultados apareçam em 2025...

            A Sauber fez uma temporada horrorosa. Em processo de transição para se tornar o time da Audi em 2026, esperava-se pelo menos um desempenho menos sofrível. O time só escapou de passar totalmente em branco em 2024 graças a uma melhora de performance nesta reta final, e onde conseguiu seus únicos pontos no ano em Losail, graças a Guanyou Zhou, que despediu-se da F-1 com a honra de ter salvo o time do ostracismo, algo que Valtteri Bottas não conseguiu, em despedida melancólica do grid. Fica a pergunta se a temporada de 2025 poderá inspirar expectativas melhores, ou menos ruins, com sua nova dupla de pilotos, o alemão Nico Hulkenberg, e o brasileiro Gabriel Bortoletto. Mas Bottas afirmou que o maior problema do time, o chassi, não teve um desenvolvimento condizente com as possibilidades diante do processo de transição complicado que o time viveu, e ainda vive, com muitas trocas de funcionários dentro da escuderia, com gente saindo e outras chegando, o que provocou uma falta de sinergia dentro do time, comprometendo as chances de um melhor rendimento do time na pista e fora dele.

            A temporada também foi um ano de afirmação de novos talentos na categoria. Oliver Bearman, chamado às pressas pela Ferrari para substituir Carlos Sainz Jr. no GP da Arábia Saudita devido a uma apendicite do piloto espanhol saiu-se muito bem para um novato em sua primeira participação numa corrida de F-1, e reafirmou essa impressão nas duas provas em que precisou defender a equipe Haas, garantindo dessa maneira um lugar na escuderia estadunidense para 2025.

Franco Colapinto estreou com grande velocidade e virou sensação no grid, mas começou a bater forte e o entusiasmo pelo argentino diminuiu.

            Franco Colapinto enfim ocupou o lugar de Logan Sargeant na Williams, e logo de cara mostrou a que veio, andando muito próximo, e até mesmo à frente de Alexander Albon na escuderia, o que certamente causou um belo desconforto no anglo-tailandês, acostumado a deitar e rolar sobre o estadunidense. Conseguindo aproveitar as oportunidades e até marcando pontos quase logo de cara, os times ficaram obviamente alvoroçados com o desempenho impressionante do argentino, que logo estava na mira de Alpine, Red Bull, Sauber, e até mesmo a Haas, até porque a Williams, já fechada com Albon e Sainz Jr. para 2025, não teria um lugar para colocá-lo, pelo menos no próximo ano. O ânimo em torno de Colapinto, contudo, esfriou neste fim de temporada. Primeiro, pela alta soma exigida pela Williams para liberá-lo, algo em torno de cerca de US$ 20 milhões, querendo capitalizar o interesse pelo seu piloto. Algo que até poderia ser contornado pelos patrocinadores argentinos ávidos em aproveitar a chance de terem novamente um piloto na F-1. Mas o fator preponderante foi que Franco passou a bater, e não foi apenas uma vez. Os acidentes sofridos em Interlagos, e depois, em Las Vegas, mostrou os ares do noviciado do argentino, a despeito de sua grande velocidade. E todos lembraram da impressão que tiveram de Nyck De Vries em 2022, quando o piloto também fez bonito em Monza substituindo Albon na Williams, e depois de ser cortejado por vários times, aportou na Alpha Tauri, e não mostrou mais a mesma forma. Colapinto mostrou do que era capaz, mas também lembrou que ainda não era tudo isso, e agora, os times ficaram mais receosos em relação ao que o argentino pode realmente proporcionar. E olhe que, no interesse despertado pelo piloto, correu o boato de que a Alpine daria apenas cinco provas para Jack Doohan mostrar serviço ano que vem, de modo que ele poderia muito bem ser substituído pelo argentino se as coisas não dessem certo para o filho do campeão da motovelocidade, uma conversa que, agora, é tida como completamente inverídica e improvável de acontecer, pelo menos, por enquanto. Mas, sabe-se lá o que pode rolar no ano que vem?

Sauber: a lanterna do ano, deixando seus dois pilotos de fora da F-1 em 2025.

            E, claro, não podemos deixar de falar de Andrea Kimi Antonelli, que embora tenha feito apenas dois treinos livres, ficou em evidência por ter sido escolhido para ocupar a vaga de Lewis Hamilton na Mercedes em 2025. Pairam certas dúvidas se o rapaz, aposta de Toto Wolf, saberá encarar a pressão de chegar à F-1 em um time grande. Em Abu Dhabi, inclusive, circulou uma fofoca de que a Mercedes poderia colocar o rapaz na Williams nos próximos dois anos, em troca de contar com Carlos Sainz Jr., titular do time de Grove para os próximos dois anos. A medida seria até óbvia: Sainz, com sua experiência e velocidade comprovadas, seria muito útil à Mercedes no momento de transição dos regulamentos de 2025 para 2026, além de já estar habituado a defender um time de ponta, após 4 anos correndo pela Ferrari. E isso também tiraria a pressão de resultados que Antonelli irá sofrer, pois ninguém poderá cobrar isso dele na Williams, onde poderia ganhar quilometragem e experiência com mais calma, a exemplo do que George Russell fez quando esteve por lá, e se cacifou para ser promovido ao time alemão. Perguntado a respeito, Toto Wolf não confirmou o boato, mas na F-1, nada é certo até ser oficialmente anunciado ou desmentido.

            Por último, tivemos Jack Doohan, promovido a titular da Alpine na última corrida, em Abu Dhabi, em mais uma daquelas manobras eticamente duvidosas por parte de Flavio Briatore, chantageando Esteban Ocon com a ameaça de proibir sua estréia pela Haas no teste de pós-temporada. Não dá para afirmar muito sobre Doohan pela prova que fez, ainda mais na prova de encerramento da temporada, deixando para se fazer essa avaliação em 2025.

            Entre as decepções do ano, algumas foram óbvias. Talvez a maior delas tenha sido Logan Sargeant. Não que o estadunidense fosse grande coisa, mas que ele não merecia ter uma segunda temporada, isso era consenso geral. Mas a Williams quis dar uma chance, esperançosa de que o piloto embalasse depois de um ano de experiência, o que é um argumento válido, porém Logan não evoluiu como se esperava. Muito pelo contrário, as batidas que acabou sofrendo significaram prejuízos para o time de Grove, que já tinha sofrido com sua logística de fornecimento de peças de reposição, ajudando a complicar a rotina de um time que, por si só, já não andava em seus melhores dias.

            Uma decepção também foi Daniel Ricciardo. Resgatado pela Red Bull, que o alocou de volta na Alpha Tauri ano passado, após ter feito uma boa sessão de testes com o carro do time principal, esperava-se ver de volta o australiano que já chegou a ser considerado um campeão em potencial. Infelizmente, um acidente sofrido por Daniel em Zandvoort complicou essa análise no ano passado, de modo que apenas este ano poderíamos ter um panorama mais confiável para ver se ele voltaria a ser o piloto que já foi em seus tempos de Red Bull, quando chegou a bater Sebastian Vettel, e andava no nível de Max Verstappen, ou muito próximo, ou se continuaria sendo aquele piloto que motivou a McLaren a rescindir o contrato antes da hora. A comparação com Yuki Tsunoda, infelizmente, não lhe foi favorável, apesar da melhora de performance do japonês, mas que mesmo assim nunca encheu os olhos de Helmut Marko. Com o desempenho de Daniel não correspondendo ao que se esperava, em que pese o australiano não ter tido um desempenho pífio também, mas com a Red Bull precisando desesperadamente se preparar para a próxima temporada, eis que Daniel saiu mais uma vez da F-1 pela porta dos fundos, talvez de forma definitiva. Em seu lugar, entrou Liam Lawson, que já havia substituído o australiano no ano passado, a fim de ser avaliado, até mesmo para ocupar o lugar de Sergio Perez no time principal em 2025. Lawson deixou impressões divididas, entre um piloto com potencial para brilhar, mas também ser um pouco mais do mesmo, tendo mostrado um desempenho apenas razoável no confronto com Tsunoda.

Sérgio Perez teve um ano horrível em 2024, com fracas performances e muitos azares em vários GPs, culminando em sua dispensa da Red Bull para 2025.

            E o que dizer de Sergio Perez? O mexicano nunca foi considerado um gênio como Max Verstappen, é verdade, mas estava longe de ser um braço duro. Mesmo assim, é curioso como o desempenho dele oscilou nestes últimos dois anos na Red Bull, sendo que mesmo em 2023 ele correu risco de perder seu lugar na escuderia rubrotaurina. E este ano, com as dificuldades que a equipe enfrentou com seu RB20, a coisa desandou de vez para Sergio. É difícil apontar todas as causas para uma queda tão drástica do mexicano, que terminou 2024 apenas em 8º lugar no campeonato, muito longe do companheiro de equipe. Se por um lado isso evidenciou a diferença de talento entre Sergio e Max, por outro lado, o método de trabalho da escuderia também ajudou a amplificar essa diferença, quando alguns pedidos de Perez para deixar o carro mais a seu gosto foram ignorados em 2023. Com evoluções que não funcionaram, e um carro difícil de ser conduzido, algo relatado, e reafirmado até por Max Verstappen, em defesa do mexicano, pode-se afirmar de fato que nem tudo foi culpa do mexicano, que em alguns momentos também teve um azar danado que em nada ajudaram a amenizar sua posição.

            E nesta quarta-feira, dia 18, o próprio Sergio Perez fez o anúncio da sua saída da Red Bull, oficializando o término do vínculo com o time dos energéticos. E, na manhã desta quinta-feira, veio também a comunicação oficial da promoção de Liam Lawson para o posto de companheiro de Max Verstappen em 2025. Com isso, Tsunoda mais uma vez perde a briga da tão esperada promoção, apesar dos esforços despendidos na Visa RB, que terá o vice-campeão Isack Hadjar no lugar de Lawson no segundo time dos energéticos, que passará a se chamar apenas Racing Bulls no próximo campeonato.

            E esta, em síntese, foi um pouco do que foi a temporada da Fórmula 1 em 2024. Vejamos agora o que nos espera em 2025...

 

 

Mais um ano se encerra, e agora, hora de um descanso, especialmente em um ano que foi muito desgastante para mim, em termos profissionais, mas especialmente pessoais, tendo passado por uma grande perda a qual ainda não consegui me recuperar, e que ainda me pesa muito. Espero que o ano de 2025 seja melhor, porque simplesmente não quero repetir o que vivenciei em 2024. Encerro as colunas regulares de 2024 mantendo os compromissos profissionais em relação ao automobilismo, algo que já faço há praticamente mais de trinta anos. Ainda estou incerto em relação ao que farei em 2025, diante dos percalços pessoais pelo que passei, e preciso colocar as coisas nos lugares, fisica e espiritualmente, ainda me encontrando muito abalado. Espero que possamos nos ver no próximo ano então, até lá...

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

HAVOC SERIES – OS BONS ANOS 1980 – OS DOCUMENTÁRIOS OFICIAIS DA ABRIL VÍDEO

            Voltando com a sessão de vídeos, hoje coloco uma relação dos documentários oficiais das temporadas da Fórmula 1 em 1986, 1987, 1988, 1989, 1990, e 1991. Nestas seis temporadas, o Brasil foi campeão em quatro delas: em 1987, com o tricampeonato de Nélson Piquet; e em 1988, 1990, e 1991 com os três títulos conquistados por Ayrton Senna. O único “intruso” nestas temporadas foi Alain Prost, que venceu a temporada de 1989. Todos estes vídeos já foram lançados no mercado nacional, nos tempos áureos do VHS, pela extinta Abril Vídeo, que tinha o selo esportivo da 4 Rodas, sua emblemática revista de carros e automobilismo, numa época em que a publicação nacional mantinha publicações regulares sobre automobilismo, e em determinado momento, a Abril tinha até revista especializada neste assunto, a famosa GRID, que durou alguns anos, antes de ser cancelada. Algum tempo depois, no início dos anos 1990, estes vídeos, à exceção do documentário das temporadas de 1986 e 1987, acabaram relançados em VHS na Coleção Video Print, onde a Abril passou a lançar em fascículos um material especial sobre as temporadas de 1988 a 1990, e um pouco depois, a temporada de 1991.

            O grande atrativo destes documentários é que se tratavam de material oficial da FIA/FOCA sobre as temporadas da Fórmula 1, com direito a algumas cenas exclusivas de câmeras que a entidade possuía, e que não iam ao ar durante as transmissões das corridas, de modo que era possível ver alguns acontecimentos com mais detalhes, ou através de outros ângulos. Havia também algumas entrevistas com personagens do meio, como pilotos, dirigentes, donos de equipe, etc. Um prato cheio em uma época onde tudo o que tínhamos à disposição eram as transmissões padrão das corridas, que eram feitas pelas emissoras locais de cada país, com qualidades variáveis da cobertura dos acontecimentos nas corridas, bem diferente da padronização que temos hoje, sem mencionar nos vários ângulos e câmeras até nos carros que a tecnologia atual permite, algo que até começou a ser implantado naqueles tempos, mas de forma rudimentar, e em muitos poucos carros, mas que naqueles dias era algo incrível, permitindo que os fãs pudessem acompanhar a perspectiva do piloto na condução de seu carro de corrida.

            Outro fato interessante destes documentários é que todos eles foram lançados aqui com narração de Reginaldo Leme, na época já uma referência na cobertura do automobilismo, pelos trabalhos desempenhados no jornal O Estado de São Paulo, e como repórter da TV Globo nos anos 1980, já tendo se tornado um nome bem conhecido do público, conferindo grande qualidade ao material lançado, que na época, podia ser encontrado nas videolocadoras país afora. Então, como estes vídeos acabaram postados no You Tube, hora de rever aqueles tempos, e apreciar uma época mais simples, mas com a F-1 já sendo há vários anos a maior categoria automobilística de competição do planeta, com suas virtudes e defeitos. E, claro, para o torcedor brasileiro, os tempos áureos onde tínhamos na pista dois dos maiores gênios da história da categoria máxima, Nélson Piquet e Ayrton Senna. Portanto, vamos aos vídeos...

 

O primeiro vídeo, obviamente, é da temporada de 1986. Foi talvez a temporada mais disputada da década de 1980, nem tanto pela diferença entre os finalistas da temporada, mas pela qualidade dos astros envolvidos na disputa. Na Williams, que assumia a posição de time a ser batido, tivemos o duelo fraticida entre Nigel Mansell e Nélson Piquet. Na McLaren, Alain Prost, o novo campeão mundial, tentava manter o título em suas mãos. Na Lotus, tudo estava voltado para fazer de Ayrton Senna o novo campeão mundial. No final das contas, com um péssimo gerenciamento entre seus pilotos, a Williams viu Prost levar o bicampeonato, depois de renegar a Piquet o status combinado com Frank Williams de ser o primeiro piloto do time, que com o acidente e recuperação de Frank no acidente que o deixou paraplégico, a equipe acabou priorizando Mansell, e detonando uma das maiores rivalidades da história da F-1. O vídeo foi postado no You Tube pelo usuário João Fóz Neto:

 

https://www.youtube.com/watch?v=Sg1cO95b4Zc

 

No segundo vídeo, agora com a coleção chamada de Quatro Rodas Esportes Mundiais, chegamos à temporada de 1987, onde revimos o duelo entre Nigel Mansell e Nélson Piquet pelo título, mas com o brasileiro, já calejado pelos problemas vividos no ano anterior, disposto a não dar mole para o inglês. Mas não foi tão fácil como ele esperava: o acidente sofrido em Ímola, quando bateu na curva Tamburello, afetou sua visão, fazendo com ele perdesse a sensação de profundidade, o que afetou sua pilotagem, deixando-o mais lento, e obrigando-o a se adaptar para compensar o problema, além de escondê-lo de todos, até da própria equipe. Não conseguindo ser tão rápido quanto Mansell, Nélson apostou na regularidade e constância para vencer o campeonato, desbancando Nigel graças às estripulias que o inglês aprontava na pista, que culminou naquela batida em Suzuka que acabou por tirar o inglês da corrida japonesa, e deu o título por antecipação a Piquet. O vídeo foi postado no You Tube pelo usuário Cabeça de Gasolina:

 

https://www.youtube.com/watch?v=3sEAplG9Q8E

 

O próximo vídeo, postado no You Tube pelo usuário João Fóz Neto, como não poderia deixar de ser, é sobre a temporada de 1988, que consagrou Ayrton Senna como novo campeão do mundo, em um ano onde a equipe McLaren sobrou na competição, massacrando a concorrência, e vencendo quase todas as corridas. Pela primeira vez em um time de primeiro nível, Senna enfim teve chances reais de ser campeão, e precisou bater ninguém menos do que Alain Prost na pista, levando o título no descarte dos piores resultados do ano, algo que era válido pelo regulamento da época, onde Prost acabou perdendo mais pontos que o brasileiro, e vendo Ayrton levar o título:

 

https://www.youtube.com/watch?v=kKbFc6PJW20&t=116s

 

Postado pelo usuário F1Vintage, o próximo vídeo é da temporada de 1989, onde mais uma vez a McLaren dominou, embora um pouco menos do que em 1988, mas vimos a rivalidade entre Ayrton Senna e Alain Prost pegar fogo e se tornar uma das mais acirradas da história da F-1. O francês acabou levando a melhor, por ser mais constante e regular durante o ano, onde Senna infelizmente abandonou muito mais etapas do que deveria, algumas por problemas alheios, outras por problemas mecânicos. E a polêmica batida ocorrida em Suzuka não foi a única causa da perda da disputa do título para o brasileiro, embora tenha tido influência com a desclassificação de Senna. Mas muitos esquecem que ele precisava ter vencido as últimas duas corridas do ano para conseguir chegar ao título, e na prova final, na Austrália, ele infelizmente abandonou no meio da chuva torrencial, de modo que mesmo que não tivesse sido desclassificado na etapa japonesa, ele não teria sido o campeão. Destaque que o vídeo traz as propagandas da Abril Video de outros lançamentos na época, com documentários sobre o Raly Paris/Dakar, a série Havoc, e o documentário do Camel Trophy. Relembre como foi aquela temporada:

 

https://www.youtube.com/watch?v=E5AtmRtYrys

 

E o vídeo seguinte, postado pelo usuário João Fóz Neto, nos traz a temporada de 1990, onde o duelo entre Senna e Prost ganhou mais um round, agora vencido pelo brasileiro, que em outra decisão polêmica, deu o troco no francês pelo ocorrido em Suzuka no ano anterior, e na mesma pista de Suzuka, que mais uma vez definiu o título da temporada. Senna chegava ao bicampeonato, em um momento onde Piquet, depois de dois anos de ostracismo numa Lotus pouco competitiva, voltava a vencer corridas, e mostrava parte da velha garra que o tornou tricampeão mundial e um dos maiores vencedores da história da F-1 à época. Veja como foi aquele ano:

 

https://www.youtube.com/watch?v=MA32-Khjlvc&t=120s

 

Fechando esta postagem de vídeos, vamos à temporada de 1991, que consagrou Ayrton Senna como mais novo tricampeão mundial de F-1, repetindo o feito obtido pelo compatriota Nélson Piquet, em postagem feita pelo usuário Eduardo Banjo F1. Neste caso, o vídeo está dividido em duas partes, seguindo os links abaixo na ordem para assistir:

 

https://www.youtube.com/watch?v=y3KdYf0wsFA

 

https://www.youtube.com/watch?v=DATSKZOMnng

 

E é isso, pessoal. Curtam os vídeos, e divirtam-se com os documentários. Infelizmente, estes documentários nunca mais foram lançados pela Abril Vídeo, uma vez que Senna não conquistou mais títulos. A própria Abril Vídeo foi encerrada alguns anos depois. Relatos de uma época que até hoje deixa saudades para muitos fãs brasileiros, que se regozijavam de ver nossos pilotos detonando a concorrência na F-1, algo que nunca mais se repetiu.