sexta-feira, 3 de maio de 2024

QUAL O DESTINO DE ADRIAN NEWEY?

Adrian Newey: o projetista que criou todos os carros campeões da Red Bull está deixando o time dos energéticos.

            A Fórmula 1 2024 pode estar morna e modorrenta dentro da pista, mas fora dela, o ambiente nunca esteve tão agitado nos últimos anos. E agora, a nova bomba é: qual o destino de Adrian Newey? O projetista, tido como o mais bem-sucedido da história da F-1, anunciou que está deixando a Red Bull, fato também oficializado pela escuderia dos energéticos, e o alvoroço que isso causa, e ainda irá causar, está no topo das especulações e fofocas do mundo do automobilismo. O projetista tinha contrato com o time rubrotaurino até o fim de 2025, mas ele acertou para sair no início do ano que vem, de modo que quaisquer pendências contratuais já foram combinadas e acertadas, para permitir a sua saída antes do prazo final do contrato.

            O motivo da saída antecipada seria a guerra interna de poder dentro da escuderia, com Christian Horner o lado tailandês do Grupo Red Bull de um lado, e do outro, Helmut Marko, e a divisão austríaca da empresa. Não é surpresa que Horner, pego em “comportamento impróprio” recentemente, anda com sua posição meio na corda bamba no comando da escuderia de F-1. O assunto, que pegou fogo nos bastidores da categoria máxima do automobilismo semanas atrás, arrefeceu um pouco, mas internamente, o clima continua quente, e esta disputa para ver quem manda mais estaria deixando Newey muito incomodado, até porque ele estaria alinhado, ainda que veladamente, ao lado de Horner, mesmo não querendo tomar parte neste cabo de guerra interno. Por isso mesmo, estaria procurando um ambiente mais calmo para trabalhar. E, com praticamente 19 anos de casa, sente já ter cumprido com seus deveres muito bem, tendo proporcionado ao time a conquista de oito títulos de pilotos, incluso o deste ano, praticamente nas mãos de Max Verstappen. É o maior período da carreira de Newey em um único lugar, desde que estreou no automobilismo ainda no início dos anos 1980, trabalhando na equipe Fittipaldi.

            Tal longevidade no meio é impressionante, e ainda por cima, Adrian Newey tem nada menos que 12 títulos no currículo na F-1, número impressionante de conquistas, acima de qualquer outro projetista ou profissional da área na história da categoria máxima do automobilismo. Seus carros são uma excelência em termos de performance, fazendo dele o nome mais cobiçado da categoria na atualidade. Desnecessário dizer que se a Red Bull tem a força que tem hoje, ela deve em muito aos projetos de Newey, pois sem seus carros o time não teria vencido tantas corridas, nem conquistado tantos títulos, sem desmerecer, claro, o talento de seus pilotos, principalmente de Sebastian Vettel e Max Verstappen, os responsáveis pela imensa maioria destes triunfos. Newey é um daqueles raros nomes da área técnica que se tornaram estrelas tão disputadas quanto os grandes pilotos campeões, daí o impacto que sua saída irá gerar para a Red Bull, seu time atual, e o impacto potencial que poderá exercer em seu futuro novo time onde for trabalhar.

Adrian Newey não gostou do rolo interno na Red Bull, tendo Christian Horner como grande pivô em uma luta por poder dentro da escuderia, e preferiu cair fora antes de acabar sendo arrastado para a confusão.

            Fora da Red Bull, portanto, qual será efetivamente o novo destino de Adrian Newey em 2025? Há pelo menos quatro opções a se considerar... A primeira delas, e a mais simples, é o engenheiro apenas se aposentar, uma vez que já está com 65 anos, e portanto, um descanso, a esta altura da vida, depois de ganhar uma fortuna como engenheiro mais bem pago da F-1 na última década e meia, não seria nada ilógico, lembrando de como é estressante o ambiente ultracompetitivo da categoria máxima do automobilismo. Vários profissionais que estrearam no mundo da velocidade nos anos 1980 já encerraram suas atividades, aproveitando o que resta de suas vidas. Mas, é a hipótese menos provável, pois Newey ainda ama o automobilismo e o que faz, e ainda se sente forte para seguir mais alguns anos adiante.

            A segunda opção poderia ser a Aston Martin. Lawrence Stroll está com o talão de cheques aberto para oferecer o que Newey pedir, e se precisar de mais um pouco, os árabes da Aramco garantem o que for preciso, sem mencionar que alguns de seus antigos auxiliares já estão trabalhando por lá, e Adrian teria facilidade em se entrosar e organizar a área técnica, e com isso, ajudar outra escuderia a galgar os degraus para se tornar um time de ponta e disputar o título, podendo ser campeão, lembrando que a partir de 2026 a Aston Martin será o time de fábrica da Honda na F-1, um pessoal com quem Newey já andou conversando nestes últimos anos na Red Bull. E ele teria a chance de trabalhar com Fernando Alonso, um piloto de grande calibre, desejo que sempre é algo natural em um engenheiro de renome, de poder trabalhar com os melhores talentos disponíveis. E, de bônus, também poderia conceber o novo carro da Aston Martin para o Mundial de Endurance (WEC), um velho sonho do projetista, que nunca escondeu de ninguém este desejo de projetar um carro de competição para outra área além da F-1.

            A terceira opção é a Mercedes, que no grito tenta atrair Max Verstappen, o grande campeão da Red Bull, e até aceitaria engolir junto a presença de Helmut Marko, e com isso, ter um trunfo capital para que Newey aceitasse trabalhar ali. De vantagem, o engenheiro continuaria morando na Inglaterra, mas de negativo, Adrian já deu indícios de que não vai muito com a cara de Toto Wolf. Mas, com Verstappen e Marko por lá, quem sabe ele topa a empreitada. De brinde, o dirigente ainda daria dois golpes fulminantes na rival Red Bull, tirando dela seu maior piloto, e seu grande projetista. Mas parece a hipótese menos provável até aqui, o que não significa que seja impossível.

Em 2010, o primeiro título da Red Bull (acima) com Sebastian Vettel. Em 2024, mais um título vem a caminho do time dos energéticos, com Max Verstappen (abaixo). Todos carros concebidos por Adrian Newey.


            A quarta, e última opção, pelo menos na minha listagem, é considerada por muitos a mais plausível, e por que não, tentadora: a Ferrari. O time italiano é uma lenda nos anais do automobilismo, e poder trabalhar com a escuderia rossa é o sonho de muitos pelo mundo inteiro, e claro que Newey também nunca negou esse sonho. E o time também terá, a partir de 2025, Lewis Hamilton, outro desejo de Newey, que mesmo estando trabalhando com Max Verstappen, nunca escondeu que gostaria de ter a chance de trabalhar também ao lado do heptacampeão. Ajuda a colocar lenha na fogueira dessa possibilidade o fato da esposa de Newey ter sido vista na Itália recentemente, procurando um imóvel, o que dá muitas idéias a se pensar na cabeça. Um dos motivos de Newey nunca ter trabalhado antes em Maranello era justamente sua recusa em morar na Itália, preferindo se manter na Inglaterra, mas isso foi há anos atrás, e nesta altura da vida, ele já parece estar mais flexível em torno dessa possibilidade. Além disso, há outra tentação que a Ferrari oferece ao engenheiro: a de projetar um carro de rua da marca italiana, e também, o seu carro de Hypercar no Mundial de Endurance, em paralelo com o projeto da F-1. E, claro, liberdade total para tocar estes projetos, algo que ele preza muito.

            Por estas e outras, Frederic Vasseur, chefão da Ferrari, já teria ido à Inglaterra antes de chegar a Miami para o GP deste fim de semana, para discutir os detalhes inerentes à contratação de Newey. O engenheiro, aliás, presente no box da Red Bull neste final de semana, diante do anúncio bombástico de sua saída do time dos energéticos, é o principal alvo dos jornalistas no paddock, que infelizmente não terão muita chance de obter maiores declarações de Adrian, uma vez que o time praticamente o isolou do público, a fim de não tumultuar o fim de semana do time e do projetista.

            Anúncio oficializado, Newey inclusive deve deixar de comparecer aos GPs do restante da temporada, salvo alguma exceção. Seu dever agora é finalizar o projeto do modelo RB17, um hipercarro de rua da Red Bull superexclusivo, com produção limitada a 50 exemplares. O engenheiro se afastará do desenvolvimento do modelo RB20, bem como do modelo RB21 para a próxima temporada, de modo que ele não terá mais a palavra para atualizações dos respectivos modelos. A expectativa agora, é quem vai levar Newey, e como isso irá mudar a relação de forças do grid no futuro próximo.

Em 1993, Adrian Newey projetou o carro campeão da escuderia inglesa com Alain Prost (acima). Na March, o projetista começou a chamar atenção na F-1 quando estreou no time em 1988 (abaixo).


            Isso transformaria o novo time do projetista na força a ser batida na F-1? Devagar aí... Pelas leis europeias, fora cláusulas contratuais que possam existir a respeito, Newey teria de cumprir uma quarentena técnica antes de poder exercer suas novas atribuições na nova escuderia, a fim de não levar vantagens técnicas do antigo time para o novo. Neste ponto, mesmo que saísse agora, não haveria o que fazer em relação à temporada de 2025 no novo time. O novo modelo RB21 já está sendo encaminhado no setor técnico de Milton Keynes, de Adrian não poderia contribuir para o carro de seu novo time no próximo ano. Mas, para 2026, a história já seria diferente, e ele poderia, se não projetar o novo carro, colaborar com seu projeto, mesmo indiretamente. E se lembrarmos que neste ano entrará em vigor um novo regulamento técnico na F-1, faria todo sentido ele começar a pensar somente no carro de 2026.

            Porém, de acordo com as informações divulgadas, não haverá este prazo de carência, de modo que o projetista fica na Red Bull até o primeiro trimestre de 2025, mas depois disso, ele já poderá iniciar seus trabalhos quase imediatamente no seu novo time. Como ele já está se afastando do projeto de F-1 da Red Bull após a prova de Miami, na prática ele já estará cumprindo essa quarentena, focando-se exclusivamente no novo carro de rua dos energéticos. Assim, ele poderá comandar o projeto do novo carro de seu novo time para a temporada de 2026, justamente quando estreará o novo regulamento técnico da competição. Então, até lá, a relação de forças do grid não deve apresentar mudanças em decorrência da saída do engenheiro. Na Red Bull, as bases do novo carro já devem estar traçadas e encaminhadas no departamento técnico.

            Mas, e a pergunta que muitos fazem: como a Red Bull será afetada com a perda de seu mais notável membro? A pergunta é pertinente, pois temos um exemplo de um time que jamais se recuperou completamente da saída do engenheiro inglês, e isso aconteceu há muito tempo atrás. Adrian Newey havia tido seus primeiros anos de sucesso na categoria máxima do automobilismo com a Williams, tendo projetado o fabuloso modelo FW14, que já assustava a concorrência em 1991, mas em 1992, com a versão FW14B, simplesmente massacrou todo mundo na pista, naquele que é considerado talvez o mais perfeito bólido já criado para a F-1 em termos de tecnologia embarcada, com suspensão ativa, freios ABS, e tudo o mais, descrito pelo pessoal à época de “carro de outro planeta”, que deixava os rivais 2s por volta para trás nas corridas. O período de glórias de Newey no time foi até 1996, quando o projetista, insatisfeito com sua posição no time, se mandou para a McLaren.

            O resultado pode ser sentido na temporada de 1998: a McLaren se tornou o carro a ser batido, enquanto a Williams despencou na categoria, deixando de disputar o título, e até de vencer corridas. A escuderia de Frank ainda venceu a temporada de 1997, cujo carro tinha sido o último de Newey no time. Pensando a longo prazo, dizem que Adrian queria ter participação societária no time, a exemplo do que Patrick Head tinha, mas Frank, notório pão-duro, não quis aceitar, de modo que Newey, então, foi para a concorrência. O resultado todos sabemos: a Williams jamais voltaria a disputar um título de fato, e no máximo venceu algumas corridas na sua parceria com a BMW. Tivesse conseguido manter o engenheiro, com certeza teria mantido por vários anos o nível de competitividade de seus tempos de glória, e quem sabe, seu declínio na F-1 teria sido diferente, ou nem teria acontecido.

            E a Red Bull pode ter destino similar? Newey está no time desde 2006, mas demorou até 2009 para os trabalhos do engenheiro darem frutos. A escuderia, egressa da antiga Jaguar, estava montando sua força técnica, e claro que, neste processo, as coisas demoraram a se encaixar, mas quando isso ocorreu, com o novo regulamento técnico de 2009, o carro passou a disputar vitórias, e de 2010 a 2013, teve seu primeiro período de hegemonia, nas mãos de Sebastien Vettel. Uma hegemonia interrompida com a nova era turbo híbrida a partir de 2014, onde o propulsor Renault se tornou o ponto fraco do time, menos competitivo que o Mercedes, apesar do excelente carro ainda disponível. Isso fez a Red Bull vencer apenas esporadicamente nos anos seguintes, a exemplo de outros times, como a Ferrari. Somente em 2021, quando o propulsor da Honda atingiu um nível de excelência similar ao da Mercedes, a disputa ficou equilibrada, e apesar da decisão polêmica de Abu Dhabi, a Red Bull voltaria a ser campeã de pilotos, e desde então, com o novo regulamento do efeito solo, é ela quem tem dado as cartas nos últimos anos.

            Saindo agora, a Red Bull ainda terá um ano de comprovada excelência em 2025, com o novo RB21, ainda em gestação, mantendo o nível da escuderia, no que será na prática o último projeto de Newey para o time, ainda que ele seja finalizado por seu novo substituto no setor técnico, que será Pierre Waché, que era o braço direito de Adrian no setor, mas já vinha acumulando mais cacife de direção recentemente. A coisa pode se complicar a partir de 2026, dependendo de como o departamento técnico de Milton Keynes sob comando de Waché se apresentar. A escuderia dos energéticos procura blindar os auxiliares diretos de Adrian Newey, a fim de evitar uma debandada, e perder sua coesão técnica. O time já perdeu engenheiros recentemente, mas sem se preocupar tanto, uma vez que Newey continuava por lá, e com isso, manter o setor de engenharia devidamente alinhado. Mas agora, com a saída do “mago”, a situação muda de figura, obviamente, e outra preocupação passa a ser evitar que outros funcionários sigam o exemplo de Newey, que deu o alerta maior na direção da escuderia de que é preciso cuidar da casa.

            Agora, todos esperam pelo anúncio oficial de qual será a nova casa de Adrian Newey na F-1 em 2025, algo que pode sair muito em breve, ou até demorar um pouco. A ser mesmo a Ferrari, tal anúncio poderia ser feito já no próximo GP, em Ímola, circuito próximo à sede da Ferrari, e palco de peregrinação dos tiffosi, se o contrato novo tiver sido finalizado. Caso contrário, isso poderá ser feito em Monza, em setembro, pelos mesmos motivos: fazer o anúncio perante a torcida de casa, ainda que Newey só vá frequentar os boxes do time rosso em meados de 2025. Mas, vamos com calma, pois apesar do franco favoritismo da esquadra rossa, nada ainda está garantido, portanto, devagar com as expectativas...

            Se o anúncio da ida de Lewis Hamilton para a Ferrari já fez muita gente se concentrar apenas na temporada de 2025, esquecendo 2024, este anúncio já faz algo bem similar, mas para o ano de 2026... Nunca a F-1 gerou tanta expectativa futura em tempos recentes... Ainda mais em um momento onde o presente já parece batido e sacramentado, todos querem saber apenas do futuro, e não é por acaso...

 

 

Hora do GP de Miami, uma corrida criada com badalação, mas que até agora não decolou propriamente no gosto do público da Flórida. E ainda temos mais uma prova sprint, para ver se dá uma chacoalhada no fim de semana do GP, que está mais interessante fora da pista do que dentro, por motivos óbvios...

quarta-feira, 1 de maio de 2024

FLYING LAPS – ABRIL DE 2024

            Já chegamos ao mês de maio, e os campeonatos automobilísticos mundo afora seguem firmes em seus respectivos certames, e como é de costume, todo início de mês é hora da sessão Flying Laps, para relacionar alguns acontecimentos do mês anterior que não tenham sido devidamente relatados nas postagens semanais regulares, sendo que nesta edição temos uma ênfase praticamente exclusiva da Indycar, que retomou suas corridas, e ainda teve um acontecimento bem sério que promoveu uma reviravolta no panorama inicial da competição nesta temporada de 2024, que é dissertada com alguns detalhes nesta edição. Portanto, tenham todos uma boa leitura e até a próxima edição da Flying Laps no mês de junho...

Reviravolta na Indycar: a equipe Penske acabou desclassificada da prova de São Petesburgo, que iniciou a temporada da competição, e perdeu a vitória de Josef Newgarden e o 3º lugar de Scott Mclaughlin. Will Power, que havia terminado a corrida em 4º, escapou de ser excluído da corrida, mas perdeu 10 pontos, apesar de ter ganho duas posições no novo resultado da corrida, cuja vitória ficou para Patricio O’Ward, da McLaren. O motivo foi a utilização irregular do recurso do “push-to-pass”, que Newgarden e McLaughlin acabaram usando nas relargadas, momento onde o uso do sistema é proibido. O sistema do push-to-pass, permitindo seu uso livre, havia sido utilizado pelos carros da escuderia de Roger Penske nos testes de pré-temporada realizados dias antes da primeira corrida, e por algum motivo, não havia sido trocado para o sistema correto de uso durante as corridas, quando seu uso é permitido apenas com autorização da direção de prova, que desabilita o sistema em determinados momentos, como nas relargadas, ocasião em que os dois pilotos do time da Penske acabaram usando o recurso, e assim, cometendo infração do regulamento. Mas pegou mal isso ter sido descoberto apenas por ocasião do GP de Long Beach, onde uma análise dos carros, 45 dias após a corrida de São Petesburgo, acabou constatando a irregularidade. Obviamente, a Penske aceitou a desclassificação, admitindo o erro, e saindo claramente chamuscada do episódio. Não faltou também críticas pela demora de se constatar este tipo de irregularidade, com alguns chegando a sugerir até uma manobra de má fé por parte da direção da categoria, que poderia ter privilegiado o time, que é de propriedade do mesmo dono da Indycar há alguns anos, Roger Penske.

 

 

Não seria por menos as dúvidas e críticas. A Penske é a maior e mais poderosa equipe de competição dos Estados Unidos, tendo participação nos campeonatos também da Nascar, além da Indycar, e já tendo participado do IMSA, o certame de endurance dos Estados Unidos, além de estar participando também do Mundial de Endurance (WEC), com apoio da Porsche. É o time mais meticuloso da Indycar, cuja competência e cuidado é ímpar, e acreditar que tenha deixado um erro crasso destes acontecer é meio difícil de acreditar. E claro, a insinuação de que a categoria estivesse sendo condescendente com a escuderia, por ser o time do dono da competição, não é nada agradável. Roger Penske, desde que assumiu a propriedade tanto da Indycar, quando do Indianapolis Motor Speedway, afastou-se do comando direto da equipe, delegando o comando a Tim Cindric, que há muito tempo já era seu braço direito no comando da escuderia, como forma de evitar este tipo de situação. E também não pega bem descobrirem algo assim mais de um mês após a realização da corrida, e ver que este tipo de coisa acabou passando batido até mesmo por ocasião do Desafio do Milhão, em que pese ter sido uma prova extra-campeonato, e com regras diferentes das etapas convencionais da temporada. De qualquer maneira, a desclassificação derrubou as posições de Josef Newgarden e Scott Mclaughlin na classificação, obrigando os pilotos a terem de correr atrás do tempo perdido.

 

 

E, esclarecendo: o sistema “push-to-pass” é um “botão de ultrapassagem”, que é utilizado pela Indycar há várias temporadas, com o propósito de tentar incrementar as disputas por posição na categoria de monopostos dos Estados Unidos. O seu uso é apenas nos circuitos de rua e mistos, e basicamente, é composto de um número de segundos disponível por corrida (que pode variar para mais ou menos), que ao ser ativado pelo piloto, lhe concede uma potência extra durante um intervalo de segundos calculado. Essa potência extra pode ser usada pelo piloto durante qualquer momento da prova, bem como qualquer trecho da pista, independente de outras condições. E não é restrito ao carro que vai à frente, podendo ser utilizado também pelo piloto que vem atrás, de modo que, ao tentar superar o piloto da frente com o recurso, este também pode apelar ao push-to-pass para tentar se defender da manobra, e com isso garantir a posição na pista. Claro, cada uso vai consumindo o tempo disponível do recurso para aquela prova, de modo que os pilotos precisam disciplinar o seu uso aos momentos estritamente necessários, caso contrário, perto ao fim da corrida, ele já não terá segundos disponíveis para tentar se defender de um adversário que tenha economizado mais segundos do recurso. O único momento onde seu uso não é permitido é nas largadas e relargadas, onde todos os carros estão juntos, e seu uso poderia acarretar algum acidente, quando vários pilotos poderiam se enroscar com pilotos que não usaram o recurso. Como em testes o sistema é liberado, ele precisa ser trocado no software dos carros para a corrida que vai ser disputada, e foi isso o motivo do problema com os carros da Penske, pois Josef Newgarden e Scott McLaughlin acabaram podendo usar o recurso nas relargadas, e com isso, se defenderem de quem vinha atrás, em um momento onde o uso do recurso não é permitido. Will Power acabou escapando de ser desclassificado por não ter feito uso do recurso como seus companheiros de equipe fizeram, e acabou perdendo 10 pontos, mas recuperando pontos também, por acabar promovido do 4º para o 2º lugar. Nas corridas em circuitos ovais, como as dificuldades de ultrapassagens são muito menores, o recurso não é utilizado.

 

 

E a prova de Long Beach acabou não sendo muito favorável aos pilotos da Penske. Josef Newgarden teve alguns percalços nas disputas da corrida, terminando a prova no famoso balneário californiano em 4º lugar, quando poderia ter subido ao pódio. Will Power foi outro que poderia ter terminado melhor do que deveria, tendo recebido a bandeirada em 6º lugar, enquanto Scott McLaughlin foi o mais azarado, tendo problemas no carro, e ficando longe de um bom resultado, sendo classificado apenas em 26º. E a vitória coube a Scott Dixon, que mostrando seus dotes de conseguir ser veloz e economizar combustível, conseguiu vencer a corrida, apesar do forte assédio dos rivais nas voltas finais da prova, em especial de Colton Herta, que tentou tomar a vitória do hexacampeão da Ganassi, mas não conseguiu achar uma brecha para tentar a ultrapassagem. Atual bicampeão da categoria, Álex Palou fechou o pódio com um excelente 3º lugar, com a Ganassi dando o troco à arquirrival Penske pelo ocorrido em São Petesburgo, e com o resultado da corrida, àquele momento, conferindo a liderança do campeonato a Scott Dixon, que com seu triunfo, alcançou a marca de 57 vitórias, ficando a 10 do recorde de triunfos das categorias Indy, pertencente a A. J. Foyt, com 67 vitórias obtidas na antiga F-Indy. Foyt, aliás, detém o recorde de títulos, com 7 conquistas também na antiga F-Indy. Dixon, por sua vez, já conquistou 6 títulos na IRL, atual Indycar, ficando a apenas uma conquista de igualar o feito de Foyt. O neozelandês continua andando forte, e mostra que ainda não pensa em aposentadoria. Será que ele conseguirá bater o número de conquistas de Foyt? Algo a ser conferido para o futuro próximo...

 

 

David Malukas está fora da McLaren na Indycar. O piloto, contratado para fazer parceria com Patricio O’Ward e Alexander Rossi nesta temporada, acidentou-se enquanto pedalava de montain bike, lesionando o pulso, e ficando impossibilitado de defender o time, no início de fevereiro. O que deveria ser uma recuperação simples, após cirurgia, contudo, acabou se revelando um problema bem mais sério e complicado do que a escuderia e o piloto poderiam imaginar, e com isso, David não conseguiu participar de nenhuma das quatro provas da competição realizadas até o presente momento, sendo uma delas o Desafio do Milhão, prova extra-campeonato disputada em março na Califórnia. Para a corrida de estréia da temporada 2024, em São Petesburgo, e esta prova extra-campeonato, a McLaren contou com Callun Illot no carro que seria de Malukas. Já para as corridas de Long Beach e do Alabama, o time teve Théo Pourchaire no seu terceiro carro. Como a situação da recuperação de Malukas ainda segue indefinida, o time acionou a cláusula contratual de rescisão do mesmo se o piloto ficasse impossibilitado de defender o time por quatro provas, preferindo liberar o piloto de suas obrigações. Malukas agora terá de correr atrás de um novo lugar para correr, o que possivelmente só deve ocorrer em 2025, o que fará o piloto ter um ano sabático fora das pistas, procurando recuperar-se adequadamente da lesão sofrida. Até o fechamento deste texto a McLaren ainda não havia se pronunciado sobre quem seria o ocupante definitivo do seu terceiro carro para o restante da temporada deste ano. Campeão da F-2, Théo Pourchaire gostou da experiência de pilotar o carro do time na Indycar, e manifestou interesse em continuar participando da categoria, mas ainda não sabemos qual será a escolha da escuderia, até porque tanto Illot quanto Pourchaire tem compromissos, o primeiro com o WEC, e Théo com a Superformula, onde compete na atual temporada, de modo que a McLaren pode partir para um outro nome, que não possua compromissos e possa defender o time em todas as provas restantes da temporada.

 

 

Chamuscada pelo episódio da desclassificação na etapa de São Petesburgo, a melhor resposta da Penske na competição da Indycar veio na pista, com uma dobradinha incontestável na etapa do Alabama, com vitória de Scott McLaughlin, com Will Power em 2º lugar, para mostrar que a escuderia não precisa de algo irregular para vencer na competição. Josef Newgarden, contudo, não deu muita sorte nesta etapa, e depois de um entrevero numa tentativa de ultrapassagem, o bicampeão perdeu o controle do carro, mas conseguiu evitar de bater ou ser atingido por alguém, porém despencou na corrida, e não conseguiu se recuperar, recebendo a bandeirada numa modesta 16ª posição, posição longe do necessário para reagir na classificação do campeonato. Linus Lundqvist salvou a honra da Ganassi, fechando o pódio com uma bela 3ª posição na pista de Barber, à frente de Felix Rosenqvist, da Meyer Shank, que vem fazendo um início de temporada extremamente positivo diante de sua nova escuderia, com Álex Palou terminando em 5º lugar. Depois do show em Long Beach, Scott Dixon se enroscou numa tentativa de ultrapassagem, e a exemplo de Newgarden, também caiu lá para trás, arruinando suas chances de um bom resultado, e terminando apenas em 15º lugar. Mas eles não foram os únicos a se enrolarem e fazerem confusão na pista: Patricio O’Ward acertou Pietro Fittipaldi quando tentava superar o brasileiro, após escapar da pista e perder várias posições, e na tentativa de recuperar o terreno perdido, acabou atacando demais uma zebra quando procurava superar o piloto brasileiro, perdendo a dianteira do seu carro, e jogando o rival para fora da pista, ocasionando o seu abandono ao bater nos pneus, e tomando um drive through pela manobra, também acabando com sua própria prova, finalizando apenas em 22º. No meio da confusão dos rivais, Colton Herta, da Andretti, apesar de ter feito uma prova discreta, terminando apenas em 8º lugar, mas mantendo-se sóbrio na pista, sem arrumar percalços com outros pilotos, assumiu a liderança do campeonato, com 101 pontos, com Will Power logo atrás, com 100 pontos. Álex Palou, na regularidade, é o 3º, com 98 pontos, à frente de Dixon, com 94. E Felix Rosenqvist é o 5º colocado, com 87 pontos. Agora a Indycar parte para Indianápolis, onde terá o GP no traçado misto do famoso autódromo, além das 500 Milhas, a prova mais importante do ano, no último domingo de maio.