sexta-feira, 23 de março de 2012

CALVÁRIO BRASILEIRO

            Em meu texto sobre o campeonato da Fórmula 1 deste ano eu afirmava que nossos representantes na categoria este ano estariam na corda bamba, precisando mostrar serviço para garantir sua permanência na categoria máxima do automobilismo em 2013. Confesso que tinha maus presságios sobre o que esperar de nossos pilotos nesta temporada. Infelizmente, a coisa já começou mal logo na primeira corrida. E Felipe Massa virou o alvo favorito da semana, sendo execrado de quase todos os lados. Haja início ruim assim.
            Logo no primeiro treino livre em Melbourne, ver Felipe rodando e atolando o carro na brita já não ficou bem. O brasileiro simplesmente inaugurou as caixas de brita da pista australiana, e num ano em que ele precisa mostrar o que vale, já começou ruim. Na classificação, a rodada de Fernando Alonso no mesmo ponto, colocando fim às expectativas do espanhol de conseguir um bom lugar no grid poderia ter redimido Massa. Infelizmente, Felipe, mesmo tendo suas chances, conseguiu ficar atrás de Alonso no grid, com uma diferença de praticamente 1s para o asturiano. Na corrida, o brasileiro até começou bem, pulando para a 10ª posição, mas ficou nisso. Assim como nas corridas do último ano, Felipe foi ficando para trás, e nem mesmo a tática de 3 paradas surtiu muito efeito. Acabou enroscado com Bruno Senna em disputa pela 13ª colocação, em um incidente que acabou por tirar ambos da corrida com danos aos respectivos carros.
            Foi o que bastou para a edição desta semana da Autosprint, a principal revista de automobilismo italiana, sair detonando o piloto brasileiro, que virou manchete de capa e sendo tachado de “piloto inútil” pela revista, tendo uma matéria especial e até editorial sobre o assunto. E como se trata da passional imprensa italiana, pegaram pesado com Massa. O mesmo valeu para a torcida brasileira, que entupiu as notícias sobre Felipe em fóruns, blogs e sites jornalísticos com uma avalanche de críticas e ofensas. Todos pedindo a cabeça de Massa. Engraçado que, nesta saraivada de críticas, esqueceram até que o carro da Ferrari este ano é um dos piores já produzidos pela escuderia nos últimos anos...
            Eu já havia afirmado mais de uma vez que, quando o carro é ruim, as chances de Massa conseguir boas performances diminuem. Desde sua estréia na F-1, em 2002, na Sauber, Felipe nunca me pareceu o tipo de piloto que consegue suplantar as deficiências do carro. Não que ele não seja capaz de boas corridas com carros pouco competitivos, mas até hoje ele nunca apresentou uma performance capaz de surpreender ao volante de um carro em condições ruins. E infelizmente, o F2012 é o tipo de carro que ao que tudo indica, não vai ajudá-lo a recuperar sua imagem na escuderia e na categoria. A discrepância de performance de Felipe para Alonso motivou até a troca de seu chassi para a corrida de domingo, na Malásia, cujos treinos começaram hoje, na madrugada brasileira. Por mais que seja um voto de confiança do time, também pode ser um tiro pela culatra: se Felipe continuar apresentando o mesmo desempenho visto em Melbourne, com outro chassi, suas desculpas perderão ainda mais credibilidade. No Albert Park, o brasileiro declarou que não conseguia encontrar estabilidade nas reações do monoposto, e que até os pneus, que haviam rendido relativamente bem nos testes da pré-temporada, de um instante para o outro passaram a não durar praticamente nada. Tecnicamente, a diferença de temperatura dos testes de inverno para o forte calor australiano poderia justificar isso, mas Fernando Alonso fez uma grande corrida, terminando em 5° lugar, atrás apenas dos pilotos da McLaren e Red Bull, e sempre andando na zona de pontuação, enquanto Felipe se debatia do pelotão intermediário para trás. E Alonso não teve uma corrida das mais fáceis.
            A situação do time italiano deve continuar complicada neste final de semana: o F2012 tem muito arrasto aerodinâmico, e Sepang tem duas enormes retas onde o carro italiano deve sofrer com esse problema. Se na Austrália nem chegaram ao Q3 na classificação, as perspectivas em Kuala Lumpur não são das melhores. Na pior das hipóteses, McLaren, Red Bull, Mercedes e Lótus estão mais velozes que a Ferrari, e existe a possibilidade até de Force Índia, Williams e Sauber azedarem o panorama italiano. A fritura detonada pela revista italiana parece jogar toda a culpa pela falta de resultado em cima de Felipe, pois quase não há menção sobre as condições de performance deficiente do F2012. E, numa enquete no site da revista, onde eles perguntam quem seria o piloto mais indicado para substituir Felipe, até o fechamento desta coluna, quem ganhava disparado de nomes como Sérgio Perez, Kamui Kobayashi e Jarno Trulli era Rubens Barrichello, com cerca de 35% das intenções de voto. Felizmente, Rubens inicia hoje os treinos da IRL em São Petesburgo, e não está disponível para entrar numa roubada destas; a que teve na época em que dividiu a Ferrari com Michael Schumacher já foi suficiente...
            Felipe ser demitido antes do fim do campeonato é ilusão, e tivemos apenas a primeira corrida, mas que ninguém se engane: se a coisa continuar nessa toada, o brasileiro estará com os dias contados não apenas na Ferrari, mas na própria F-1. Massa tem sua primeira chance de redenção neste final de semana, e ele precisa encarar a pressão extra que estão colocando sobre ele e fazer bem o seu trabalho. Ele pode fazer melhor, e precisa provar agora mais do que nunca. E a paciência da Ferrari tem seus limites...
            Quem também teve uma estréia abaixo do esperado foi Bruno Senna. Em sua primeira corrida pela última equipe defendida pelo seu tio, Bruno tomou 07s de Pastor Maldonado na classificação, e admitiu que foi conservador no treino para o grid. Na corrida, infelizmente, o toque que o fez decolar na largada certamente comprometeu suas chances de um bom desempenho, e ainda o fez perder um tempo extra repondo o bico do carro logo na primeira volta. O enrosco com Felipe Massa, em disputa pelo 13° lugar, foi encarado como um incidente de corrida por ambos, mas visualmente falando, pegou mal para a torcida brasileira, que ali viu seus dois representantes eliminarem-se da prova australiana, e ainda pior, em uma posição intermediária; antes lutassem pelos primeiros lugares... Pior ainda, Maldonado andou a prova inteira na zona de pontuação, e só não fez melhor porque em sua pressão para roubar o 5° lugar de Fernando Alonso, acabou errando o venezuelano, que bateu forte na volta final e jogou para o ar mais pontos do que a Williams conseguiu em toda a última temporada. Se Bruno começa a ganhar a simpatia do time nos boxes e na área técnica, por outro lado a direção da equipe prestou mais atenção na performance de Maldonado, mesmo com sua batida. Bruno também tem que reagir e não permitir que Maldonado ganhe todas as atenções. E olha que o jovem Senna em breve terá de perder um dos treinos livres para dar lugar a Valtteri Bottas, piloto-reserva do time, o que irá lhe roubar tempo precioso de treino com o carro, enquanto Maldonado terá todo o tempo disponível.
            O ano de 2012 vai ser mesmo crítico para os pilotos brasileiros na F-1. O ano mal começou e as coisas já começaram dando errado. Ainda tem muita corrida pela frente, e há todas as chances de se reverter a situação, mas que tanto Massa quanto Bruno fiquem mais ligados do que nunca, pois se há expectativa de melhorar, também existem as chances de tudo piorar ainda mais. Então, é hora de tocar a bola pra frente e tentar reverter o panorama.


Hoje começam os treinos oficiais para a primeira corrida da Indy Racing League 2012, em São Petesburgo, na Flórida. Para quem não agüenta mais as narrações de Luciano do Valle, uma boa notícia: a locução da prova ficará com Téo José, que junto com toda a equipe da Bandeirantes, já está na cidade do Estado da Flórida, onde farão todo o trabalho in-loco, com direito a transmissão da prova ao vivo neste domingo a partir das 13:30 Hrs. Mas não fiquem na expectativa: no ano passado a emissora fez a mesma coisa, para na segunda corrida já relegarem a IRL a segundo plano na transmissão. Esperam os fãs que este ano a coisa seja diferente...

quarta-feira, 21 de março de 2012

ESPECIAL INDY RACING LEAGUE 2012

            Está para começar o campeonato deste ano da IRL. Então, vejam o que esperar do certame neste ano. Que venha a bandeira verde...
 
IRL 2012: UM NOVO COMEÇO?
Categoria adota novo carro e novos motores para tentar se reerguer.

Adriano de Avance Moreno
            A Indy Racing League inicia o campeonato de 2012 disposta a se reencontrar e se reerguer como categoria automobilística de ponta no cenário mundial da velocidade. Depois de um ano que terminou de forma traumática em Las Vegas com a morte de Dan Wheldon, e às saraivadas de críticas por punições duvidosas a pilotos em várias corridas, a direção da categoria tem a esperança de que este ano marque o início de um recomeço para a Indycar. Uma Indycar que nem de longe lembra o que era a verdadeira Indycar, a antiga F-Indy, que na década de 1990 chegou a fazer sombra à F-1, e que infelizmente acabou há alguns anos atrás. Um dos maiores percalços é que a IRL ainda luta para se desfazer da má imagem gerada pela briga de Tony George com as CART, entidade que comandava a F-Indy original. Querendo ser o manda-chuva maior da categoria, George criou sua própria categoria, roubando as 500 Milhas de Indianápolis. Depois de mais de 10 anos de briga, conseguiu a extinção da F-Indy, e a IRL ficou sendo a única categoria, mas nesse tempo de racha, ambos os certames perderam muito de sua força.
            A crise financeira desencadeada em 2009 também abalou a categoria, que há algum tempo já havia se tornado monomarca, adotando apenas um tipo de chassi e motor, além dos mesmos pneus para todos. Mas isso foi uma conseqüência do desinteresse das marcas pelo campeonato, e não uma imposição econômica, o que acabou acontecendo depois para manter os custos baixos. Mas o pacote técnico já andava defasado, e era preciso renovação. E para isso, a categoria resolveu adotar a partir deste ano novos conjuntos de competição. A renovação só não será totalmente completa porque o novo conjunto técnico previa a adoção de kits aerodinâmicos a serem criados e/ou encomendados pelas equipes, mas estas pediram que esta regra fosse adotada apenas a partir de 2013 para contenção de custos.
            Os chassis de competição continuam sendo os Dallara, mas agora entra um novo modelo, totalmente redesenhado, intitulado DW12 (DW em homenagem a Dan Wheldon, que fazia os testes de desenvolvimento do monoposto no ano passado), com perfil muito mais atualizado, e dotado de sistemas de segurança bem mais completos, inclusive com proteção para as rodas traseiras, dispositivo muito útil para se prevenir possíveis enganchos de rodas entre os carros, o que poderia gerar capotagens em caso de toques. O antigo modelo, em uso há cerca de 8 anos, foi finalmente aposentado, depois de passar por inúmeras adaptações nos últimos anos. O novo carro é muito mais seguro e veloz, conforme já demonstraram os testes realizados na pré-temporada.
            O melhor de tudo é a volta da diversidade dos motores. Depois de vários anos tendo apenas a Honda como fornecedora, eis que teremos este ano pelo menos 3 fornecedores diferentes, e uma nova configuração: saem os V-8 atmosféricos de 3,5 litros, entram os novos V-6 turbo de 2,2 litros. A Honda continua como fornecedora de motores, mas agora enfrentará a concorrência da Chevrolet – que volta à categoria depois de vários anos; e da Lótus, que estréia na IRL. Dos novos motores, a Chevrolet parece estar um pouco à frente, com seus novos propulsores construídos pela Ilmor Engineering, parceria que vem de longa data. Os novos Honda turbo aparecem logo atrás dos Chevrolet, com pouca diferença. Quem deve ficar na rabeira são os propulsores da Lótus. A fabricante esportiva associou-se a John Judd, que já construiu motores turbo para a F-Indy original no fim dos anos 1980 e início dos anos 1990, para a criação dos novos turbos V-6 da marca que pertence atualmente à malaia Próton.
            Os pneus continuam sendo os Firestone, marca que está presente há muitos anos na categoria. E que ameaçaram sair dela recentemente, mas foram convencidos a voltar atrás pela direção da Indycar. E o combustível utilizado agora é o etanol, depois de muitos anos utilizando o metanol. Mais tóxico, e oferecendo o perigo de chamas invisíveis em caso de incêndio, o metanol foi abandonado há poucos anos em favor do etanol, um combustível mais ecológico.
            A disputa do campeonato deve ser interessante, e embora a teoria aponte que os dois maiores times da categoria, Ganassi e Penske, devam dominar a luta pelo título, a adoção dos novos chassis da Dallara podem bagunçar um pouco o status de força destes dois times, uma vez que todas as escuderias ainda estão batalhando para entender todo o potencial dos novos carros. Isso pode causar algumas surpresas na pista em algumas provas. Mas não se pode subestimar a capacidade técnica tanto da Penske quanto da Ganassi, que podem superar todos os percalços inesperados e manterem seu tradicional domínio da categoria. Dario Franchiti, tetracampeão da IRL e o piloto mais vitorioso da categoria, é o homem a ser batido, assim como a Ganassi. Will Power, vice-campeão nos dois últimos anos, está com o escocês entalado na garganta, e com muita vontade de enfim vencer o campeonato.
            Para os brasileiros, teremos 3 representantes na competição. Hélio Castro Neves, na Penske, é quem tem melhores condições de brigar pelo campeonato, e Helinho quer mais do que nunca apagar o péssimo ano de 2011, onde ficou sem vencer pela primeira vez desde que chegou ao time de Roger Penske. Na KV Racing, a grande sensação da pré-temporada: Rubens Barrichello! O ex-piloto da F-1 chega à IRL com condição de superastro, e nos testes realizados em Sebring, andou entre os primeiros e mostrou força e adaptação rápida. A seu lado, Tony Kanaan, que realizou um campeonato surpreendente no ano passado, terminado em 5° lugar no certame, embora não tenha conseguido disputar o título. Tony elevou o patamar da KV, que mostrou um grande crescimento de performance em 2011, mas que ainda está abaixo das toda-poderosas Ganassi e Penske. Com o reforço de Barrichello, a KV aposta em continuar crescendo e quem sabe passar a lutar por vitórias. Disputar o título ainda pode ser prematuro.
            O campeonato terá 16 provas. Destaque para a prova da China, na cidade de Qingdao, em um circuito de rua, que substitui Motegi, no Japão. Para 2013, prevê-se a volta de Surfer’s Paradise, na Austrália, ao calendário. O Brasil sediará a 4ª etapa do campeonato, no circuito montado junto ao Anhembi e o Sambódromo em São Paulo. As provas ovais diminuíram, ficando apenas 5 corridas, duas delas em superspeedways: Indianápolis e Fontana (encerramento da temporada).
            Até o fechamento desta matéria, 25 pilotos estavam confirmados para disputar todo o campeonato, mas podem surgir novos competidores em algumas corridas. Bia Figueiredo, por exemplo, acertou com a Andretti Motorsports para correr o GP do Brasil e a Indy500. Se conseguir patrocínio, pode correr em mais algumas provas. Paul Tracy é outro que pode retornar a qualquer momento em alguma corrida.
            Tentando recuperar seu espaço no cenário automobilístico, a IRL pelo menos já contabiliza um ponto positivo para 2012: terá seu campeonato transmitido em TV aberta nos Estados Unidos, cuja transmissão será dividida entre as emissoras ABC e NBC. No ano passado, a maioria das corridas foi transmitida por um canal pago chamado Versus, de alcance limitado, o que derrubou a audiência. A volta à TV aberta é considerado um passo fundamental para se recuperar o prestígio e charme que o nome “Indy” já desfrutou no mercado americano.
            Para os brasileiros, fica a esperança de que a Bandeirantes, que detém os direitos de transmissão, faça um trabalho melhor do que o dos últimos anos, com uma transmissão decente e clara, e não uma roleta russa misturando as corridas em seus canais abertos e pago. Em 2011, fez o maior estardalhaço na estréia, em São Petesburgo, com transmissão no canal aberto, para na prova seguinte quase ignorar a competição, relegando-a ao canal pago Bandsports. Fez novo oba-oba no GP Brasil, e uma cobertura razoável da Indy500, para depois simplesmente exibir compactos revezando com provas na TV aberta e transmissões na TV fechada. A chegada de Rubens Barrichello à categoria parece ter renovado os ânimos da emissora, que certamente quer capitalizar com seu novo astro na categoria. Resta saber se fará a coisa direito, ou vai continuar destratando os torcedores do automobilismo. 
PILOTOS E EQUIPES DA TEMPORADA 2012: 
EQUIPE
MOTOR
PILOTOS
Andretti Autosport
Chevrolet
Marco Andretti
Ryan Hunter-Reay
James Hinchcliffe
A. J. Foyt Enterprises
Honda
Mike Conway
Dale Coyne Racing

Justin Wilson
James Jakes
Ed Carpenter Racing
Chevrolet
Ed Carpenter
KV Racing Technology
Chevrolet
Tony Kanaan
Rubens Barrichello
Ernesto Viso
HVM Racing
Lotus
Simona de Silvestro
Dragon Racing
Lotus
Katherine Legge
Sebastien Bourdais
Dreyer & Reinbold
Lotus
Oriol Servia
Panther Racing
Chevrolet
J. R. Hildebrand
Rahal-Letterman-Lannigan Racing
Honda
Takuma Sato
Sarah Fisher Hartman Racing
Honda
Josef Newgarden
Chip Ganassi Racing
Honda
Scott Dixon
Dario Franchitti
Penske Racing Team
Chevrolet
Will Power
Ryan Briscoe
Hélio Castro Neves
Team Barracuda
Lotus
Alex Tagliani
Schmidt-Hamilton Motorsports
Honda
Simon Pagenaud
Nordisk Central Chip Ganassi
Honda
Charlie Kimball
Graham Rahal
CALENDÁRIO 2012 DA INDY RACING LEAGUE 
DATA
PROVA
CIRCUITO
TIPO DE CIRCUITO
25/03
GP de São Petesburgo
São Petesburgo
Urbano
01/04
GP do Alabama
Barber Motorsport
Misto
15/04
GP de Long Beach
Long Beach
Urbano
29/04
GP do Brasil
São Paulo (Brasil)
Urbano
27/05
500 Milhas de Indianápolis
Indianapolis Motor Speedway
Oval
03/06
GP de Detroit
Belle Isle Park
Urbano
09/06
GP do Texas
Forth Worth Speedway
Oval
16/06
GP de Milwaukee
Milwaukee Mile
Oval
23/06
GP de Iowa
Iowa Speedway
Oval
08/07
GP de Toronto
Toronto
Urbano
22/07
GP de Edmonton
Edmonton
Misto
05/08
GP de Mid-Ohio
Mid-Ohio Sports Car Course
Misto
18/08
GP da China
Qingdao (China)
Urbano
26/08
GP de Sonoma
Infineon Raceway
Misto
02/09
GP de Baltimore
Baltimore
Urbano
15/09
GP da California
California Speedway
Oval

sexta-feira, 16 de março de 2012

CAINDO NA REAL?

            Hoje começam os treinos oficiais para o 63° Campeonato Mundial de Fórmula 1. Todos os carros estarão na pista do Albert Park para darem início a mais uma luta que irá durar praticamente o ano todo. Serão 20 corridas durante vários meses, com o “circo” visitando praticamente 5 continentes e 19 países, numa maratona cansativa, e acima de tudo, cara. Cara a ponto de Bernie Ecclestone, nesta semana, chegar a defender, em entrevista ao site oficial da categoria, que a idéia de um “teto” orçamentário para as escuderias não seria uma má idéia. Segundo o chefão da FOM, os times andam gastando muito, e o momento atual não favorece a gastança desenfreada que se vê na categoria máxima do automobilismo mundial.
            Quem diria? Bernie, admitindo que a F-1 anda cara demais, e que precisa diminuir os custos? Será que ouvimos direito? Não foi uma alucinação? Um sonho? Será que ainda há esperança para o mundo da velocidade? Devagar aí...
            Não é por ter falado algo que todo mundo quer ouvir que Ecclestone, de uma hora para outra, tenha se tornado outra pessoa, e que esteja menos ganancioso ou avarento. Por mais que alguns digam que Bernie já está ultrapassado, e que suas idéias já não refletem as necessidades da F-1 moderna, o baixinho está mais lúcido do que nunca, conhece a realidade muito bem, e sabe de todas as dificuldades que o mundo do esporte a motor enfrenta em todo o mundo, e em especial na Europa, cuja economia está combalida pela crise que afeta diversos países do continente. Mas, conhecer e admitir o problema é uma coisa; tomar alguma providência, isso já são outros quinhentos...
            Que a F-1 anda gastando muito, é a mais pura e banal verdade. Todo mundo que acompanha a categoria está cansado de saber disso. Duro é saber que já foi ainda mais gastona: em 2008 e 2009, com a crise econômica mundial, várias montadoras pularam fora da categoria: Honda, BMW, Toyota, e Renault – esta em um processo mais gradual, terminado no ano passado, ficando apenas como fornecedora de motores. Sem os rios de dinheiro que as fábricas de automóveis acostumaram a fornecer por praticamente uma década, os times enfim baixaram um pacotaço de medidas destinadas a reduzir os custos de competição da categoria: os testes praticamente foram extintos durante o campeonato; motores foram congelados; etc. Max Mosley, presidente da FIA na época, ao ver a debandada das fábricas da categoria, voltou a defender os times “independentes”, os mesmos que uma década antes, dizia serem prejudiciais à F-1. Para atrair novos times para a categoria, quis impor um limite de gastos, estimados em US$ 40 milhões, como forma de viabilizar a competição em maior escala de competidores. A idéia não emplacou, mais pelos métodos ditatoriais com que Mosley queria enfiar o projeto goela abaixo nas escuderias do que pela inviabilidade da iniciativa.
            Na época, o pacote de redução de custos foi muito bom, fazendo com que os times gastassem bem menos na competição, com uma diminuição estimada em média de 30% dos gastos até então contabilizados. Nada mal para a saída. O efeito colateral foi a demissão em massa nas escuderias, que se desfizeram de suas divisões de testes, agora que estes praticamente não mais seriam permitidos durante o ano. Aproximadamente 4 mil empregos foram extintos na categoria, mas o mundo seguiu em frente. O problema é que, de lá para cá, a economia européia continuou em crise, desse modo, vários patrocinadores potenciais também sumiram do mapa, enquanto outros que estavam na categoria preferiram pular fora e buscar opções mais realistas de divulgação de seus nomes e produtos. Isso fez com que a redução dos custos praticamente se tornasse inócua: os gastos baixaram, mas o dinheiro disponível também ficou escasso, logo, ficou num empate, se não até pior do que antes. Imaginem então se a categoria continuasse gastando como fazia até 2008...
            E agora, vivemos um impasse: os gastos estão altos, e a economia de muitos países patina, quando não regride. Mais cedo ou mais tarde, o dinheiro secará, e a F-1 poderá sentir e viver a crise que teima em ignorar até o presente momento. Uma conseqüência disso é o número de pilotos pagantes que há no atual campeonato, um dos mais altos de todos os tempos na categoria. Pulverizou-se as fontes de receitas, incluindo patrocínios de países como Venezuela, Rússia e Índia. Ao mesmo tempo, Ecclestone tem buscado novos mercados para tentar manter a F-1 abastecida de dólares em economias menos estagnadas. Mas é uma receita perigosa: alguns países até ficam seduzidos pela categoria, mas sem um piloto que os represente, e bem, os investimentos podem sumir tão rápido quanto surgiram, ou se tornarem instáveis demais a ponto de não serem suficiente seguros. E, paralelamente a isso, Ecclestone continua cobrando fortunas dos países que sediam um GP, o que coloca na corda bamba várias provas. Onde está a necessidade de baixar os custos que Bernie apregoa quando ele mesmo se recusa a baixar as taxas que cobra?
            Dos novos GPs, os turcos já se cansaram da brincadeira; Valência também está desiludida; os chineses não morrem de amores pela categoria, mas ainda deram mais algumas chances; a Índia e a Coréia do Sul ainda não mostraram exatamente a que vieram; e os russos ainda são uma incógnita mais do que uma certeza. Não há exatamente um porto seguro onde se escorar. A solução é tornar a categoria mais barata para se competir para todos, e isso inclui baixar custos para pilotos, patrocinadores, GPs, etc. Com certeza, essa seja a verdadeira intenção de Ecclestone: iniciar uma redução gradual, com um possível teto de gastos para os times, de maneira a minimizar o possível choque que uma falta de patrocinadores possa gerar no caso de um corte abrupto de verbas inesperado, o que poderia levar a F-1 a um colapso financeiro. Um pouso gradual e constante poderia diminuir as pressões das contas, e evitar um pouso forçado onde as conseqüências poderiam ser imprevisíveis para todos, até mesmo para Ecclestone, que sempre se gaba de enxergar negócios e oportunidades mesmo nos piores momentos. O chefe da FOM poderia estar temeroso com um baque generalizado que poderia ocorrer se as condições econômicas européias não melhorarem.
            Apesar de andar desdenhando das provas no Velho Continente, é na Europa que a F-1 tem sua grande massa principal de fãs, é onde estão sediadas todas as escuderias. Se a crise econômica européia se agravar, ou não melhorar, de uma hora para outra, as necessidades podem mudar de prioridade, e com os custos em alta, verbas poderiam passar a ser destinadas para categorias mais em conta. O efeito dominó de algo assim poderia até implodir a categoria, se algo não for feito. E esperar o desastre acontecer pode não ser a melhor opção. Portanto, esforços para evitar o pior devem ser implementados desde já.
            O problema, como já mencionei, é partir das palavras para as atitudes. Por mais que saiba dos problemas que podem afligir a categoria, equipes e FOM estão “satisfeitas” com a situação atual, e não querem que as coisas mudem. Bernie também parece não ter interesse em mudar o panorama atual, que lhe garante lucros exorbitantes, assim como as escuderias ganham muito com o repasse das verbas de direitos da categoria. Numa hipótese mais realista, eles só tomarão mesmo atitudes se o desastre se tornar potencialmente perigoso e até inevitável, se algo não for feito. Prefiro acreditar que o alerta de Bernie seja por ter ciência, enfim, de que algo precisa ser feito para evitar o pior à frente, e não de que isso seja um alerta de que o pior está praticamente na iminência de acontecer.
            Bernie fala a verdade quando diz que os times grandes rejeitam a idéia de um teto orçamentário. Estes times querem gastar o que querem, enquanto as escuderias menores gastam o que podem, o que muitas vezes cria um desnível impossível de ser compensado na pista. Impor tal teto vai ser complicado, mas não impossível. Um dos principais motivos pela idéia ter fracassado anos atrás foi que Mosley errou na maneira de obrigá-lo a ser adotado, pra não falar no valor excessivamente baixo em relação ao que se gastava na época. Tivesse sido mais bem negociado, o teto até poderia ser adotado, com valores mais razoáveis ao que se gastava, e com baixa gradativa e lenta a cada ano. No fim deste ano, é chegada a hora da FOM renovar o “Pacto de Concórdia” com todas as escuderias que participam da F-1. Com a praticamente extinção da FOTA, a associação das equipes da categoria, os times perderam força de negociação, e Bernie teria a oportunidade de quem sabe fazer uma idéia assim passar e ser adotada pela categoria. Os times, como sempre, vão querer renegociar o percentual dos lucros que recebem da FOM, mas Ecclestone deverá estar com as melhores cartas de negociação na mesa. Pode ser a chance de fazer os times aceitarem, gostem ou não, tal medida. Mas que ninguém se engane: será algo muito difícil de se adotar, pois as escuderias, via de regra, não se entendem, e isso, infelizmente, já não é de hoje. Basta lembrar que a FOTA surgiu pela necessidade de se diminuir os gastos e enfrentar a “ditadura” de Max Mosley em 2009. Bem, Mosley caiu, os times conseguiram enfiar Jean Todt como presidente da FIA, e até agora, estão “contentes” com os gastos atuais. E não demorou para as escuderias começarem a se desentenderem por quaisquer picuinhas, o que já tirou praticamente toda a força da FOTA, que perdeu vários times a ela filiados. E adivinhem quem andou patrocinando algumas destas picuinhas... ele mesmo – Bernie Ecclestone. O homem é uma raposa velha, não tenham dúvidas. Mas mesmo ele tem limites, e a adoção de um teto orçamentário para os times da F-1 poderia ser um desafio e tanto para ele, mesmo com a ocasião de renovação do Pacto de Concórdia vir a calhar no momento.
            Se ele conseguir impor algo assim, terá de fato dado uma grande contribuição para deixar a F-1 mais equilibrada financeiramente, dando oportunidade de os times gastarem menos e poderem competir de forma mais justa. Por outro lado, Ecclestone, vez por outra, diz o que muitos querem ouvir para logo em seguida esquecer o assunto e continuar tudo do mesmo jeito. E, acreditem, Ecclestone pode fazer isso mesmo, e nem mesmo falar mais do assunto. Espero, claro, estar enganado, pois desejo uma F-1 melhor e mais emocionante para ser admirada por muito tempo...