sexta-feira, 13 de março de 2015

ENCRENCA COM PRECISÃO SUÍÇA



Estranho no ninho: Giedo Van Der Garde no box da Sauber, contra a vontade da equipe, que perdeu a parada na justiça australiana.

            Quando nós achávamos que a F-1 iria ter pelo menos um início de ano mais tranquilo, eis que surge uma confusão que eleva os ânimos na categoria. Desta vez quem arrumou sarna para se coçar foi a equipe Sauber, que nas piadas do paddock, inaugurou o "overbooking" na categoria. "Overbooking" é um termo usado quando uma companhia de transporte, geralmente as áreas, vendem mais bilhetes de passagem do que assentos disponíveis em seus veículos. É uma prática que fere os direitos do consumidor, pois as companhias, apostando no cancelamentos de algumas passagens por parte dos compradores, já tem garantido compradores para ocupar os lugares que ficam vagos. Geralmente no transporte aéreo, isso até acontece com alguma frequência, mas sempre também ocorre que a empreitada dá com os burros n'água, e quando isso acontece, as companhias tem de se virar para honrar os compromissos assumidos de garantir lugares a todos que compraram passagens, do contrário, podem levar um processo bravo dos consumidores. Se no Brasil isso nem sempre é garantido, uma vez que nossa justiça vive emperrada na maior parte das vezes, em outros países o bicho pega, e pega feio.
            Pois bem, a Sauber firmou contrato com os pilotos Felipe Nasr e Marcus Ericson para ser sua dupla titular nesta temporada. Ambos trouxeram cerca de US$ 20 milhões cada um, que ajudaram a reforçar as finanças do time suíço, que ficaram combalidas em 2014, e forçaram a escuderia a escolher sua nova dupla de pilotos mais pelo patrocínio do que pelo talento propriamente dito. O problema é que o time teria firmado contrato, também em 2014, com o holandês Giedo Van Der Garde, que previa que sua posição seria de piloto de testes no ano passado, e que seria titular este ano. Um contrato que, segundo o piloto, não foi rescindido, nem mesmo quando a escuderia anunciou Ericson e Nasr como sua dupla titular.
            Daí que Giedo fez uma coisa que pouco se viu entre pilotos na F-1 nos últimos tempos: foi à luta pelos seus direitos. Entrou na justiça suíça e, com a F-1 chegando à Austrália, também entrou com ação na justiça australiana para fazer valer o seu contrato e a posição de titular na escuderia suíça. E aconteceu o que muitos não imaginavam: a Corte Suprema do Estado de Vitória, onde fica Melbourne, deu ganho de causa ao holandês. Trocando em miúdos, ele tem direito a ser piloto titular. Nem é preciso dizer que a Sauber não gostou nada disso, apresentou recurso, e perdeu também o recurso, com a justiça australiana confirmando a decisão inicial. Ficou ridículo a posição de defesa da escuderia suíça, afirmando que o holandês estaria se arriscando por não conhecer nada do novo modelo, por não haver um banco moldado para ele, etc. Qualquer piloto profissional sabe que sua profissão é de risco. Automobilismo é um esporte arriscado por natureza, uma vez que por mais seguro que seja o veículo ou o local onde será disputada a etapa em questão, sempre pode acontecer algo inesperado, com consequências até imprevisíveis. O que pode acontecer é o holandês não ter uma boa performance de início por não conhecer realmente as reações do novo modelo C34, mas como piloto profissional que é, Giedo pode muito bem se recuperar nos treinos. Com relação ao banco, mesmo que eles sejam moldados para cada piloto, será que isso iria representar risco considerável para um piloto não poder andar no monoposto? Não creio.
            A encrenca está armada. Como este texto foi fechado antes do primeiro treino livre aqui no Albert Park, quando a coluna estiver sendo lida, talvez já tenhamos uma resposta para o que vai acontecer de fato, se a Sauber vai enfim ceder o carro ao holandês, ou se haverá novos desdobramentos desta encrenca que a escuderia arrumou com precisão suíça. E bota encrenca nisso: o fato de a Corte Suprema de Vitória ter dado ganho a Giedo simplesmente indica que o contrato é mesmo válido e continua firme, do contrário, nenhum piloto compraria uma briga dessas sem estar seguro do que tem em mãos. E a Sauber ter perdido o seu recurso só confirma a impressão de que o time meteu mesmo os pés pelas mãos ao não resolver isso da maneira mais adequada quando teve chance.
            E o que o time faz agora? Todos os planejamentos foram feitos com Nasr e Ericson. Se um deles for alijado da condição de titular, haverá problemas. O Banco do Brasil, principal patrocinador de Felipe Nasr, já avisou ao time que o brasileiro precisa estar disputando o campeonato, caso contrário, o contrato de patrocínio não apenas será revisto como até cancelado. Do lado de Ericson, podem esperar atitudes similares de seus patrocinadores, que a exemplo do banco brasileiro, também contam com o sueco defendendo o time na pista. E a Sauber, no seu momento atual, não pode prescindir de perder nenhum dos patrocínios trazidos por sua dupla. E qualquer um deles que perca seu lugar como titular certamente também irá acionar a justiça buscando seus direitos, o que é mais do que justo, pois não tiveram ligação com a má atitude da escuderia com relação a Van Der Garde.
            E a Sauber, como se vira com o piloto holandês? Ao buscar seus direitos, ele não fez nada demais, pelo contrato ser válido. E soube agir com precisão cirúrgica: ao acionar a justiça australiana a poucos dias da corrida de F-1 do país, colocou a escuderia numa saia justa da qual não terá tempo hábil de se desvencilhar. Se tivesse entrado com a ação no ano passado, o time levaria em banho maria, procurando negociar a situação, e certamente, planejando como pagar a multa rescisória que costuma acompanhar contratos deste tipo. E deve haver uma multa bem razoável pelo não cumprimento do acordo, do contrário, o time já a teria pago e dado a questão por encerrada. Ou não? Sem ver os detalhes do contrato, não posso dizer com certeza, só especular que, pelo rumo que a situação tomou, não vai ser fácil ignorar o cumprimento do acordo sem mais nem menos, ou não haveria esse estardalhaço todo, e nem a justiça teria dado ganho de causa ao piloto.
            O fato é que Van Der Garde vai atrair para si toda a fúria do time, e não me refiro apenas à direção da escuderia. Mesmo os mecânicos vão ficar constrangidos, e até irritados, de terem de trabalhar com o holandês. E isso pode comprometer qualquer esperança de uma boa preparação do carro para a corrida. Por outro lado, se bater o pé e resolver desobedecer à justiça, a Sauber corre o risco de ter seus equipamentos apreendidos e bloqueados, o que tiraria a escuderia da disputa do GP da Austrália e de cara já comprometeria a corrida seguinte, daqui a duas semanas, na Malásia. Pior, Monisha Kaltelborn, chefe da escuderia, poderia até ser presa por descumprimento da ordem judicial. Ironia da situação: antes de entrar para o time suíço, ela pertencia a uma firma de advocacia que prestava serviços à escuderia de Peter Sauber. Era advogada, portanto, deve ter ciência da enrascada em que está metida agora, por ter firmado um contrato com um piloto, e simplesmente deixá-lo a ver navios depois. Será que, com a experiência que tem no meio jurídico, nunca lhe passou pela cabeça que o piloto poderia exigir seus direitos? Pior ainda, para ser aceito como plenamente válido, a ponto de levar o time a ter de lhe dar obrigatoriamente assento, conforme ordenou a justiça após analise dos documentos, é que o contrato firmado deve ter sido excepcionalmente bem feito, com todos os detalhes bem delineados e claros na garantia dos direitos e deveres de ambas as partes. O documento tornou-se literalmente um tiro pela culatra para a Sauber.
Monisha Kaltelborn: de advogada a chefe de equipe de F-1, e agora enrolada com um contrato que o próprio time firmou com Van Der Garde no ano passado.
            Treinar adequadamente com o carro, e disputar a corrida, vai ser uma situação tremendamente desgastante para a escuderia, tendo de aceitar um piloto que ela jogou para escanteio. Imaginem o caso se não fosse um piloto relativamente modesto como Van Der Garde e um time médio com a Sauber. Já imaginaram Fernando Alonso movendo esse tipo de ação contra a Ferrari se o time o tivesse jogado para escanteio quando contratou Sebastian Vettel? Claro, a Ferrari não cometeria uma burrada tremenda destas, mas e se cometesse? E Alonso não tivesse ido para a McLaren, claro. Imaginem a cena do asturiano levando o time rosso na saia justa da justiça para lhe dar o carro para disputar o campeonato com base neste tipo de contrato firmado e ignorado? Vettel ou Kimi Raikkonem, um deles teria de ser rifado, e quem perdesse o lugar iria arrumar um tremendo bafafá sobre o assunto. A casa iria cair com um impacto tremendo, para não mencionar que tanto a Ferrari quanto a F-1 cairiam no total descrédito. Como foi com Van Der Garde e a Sauber, o impacto é menor, mas não menos constrangedor e desmoralizante.
            A F-1 já ignorou contratos várias vezes, e desfez acordos firmados inúmeras outras. Não foram ocasiões dignificantes, muito pelo contrário. Raramente as discussões terminaram com ambas as partes satisfeitas. Mas dava-se um jeito de se chegar a um acordo, ainda que não fosse o ideal. E, desde que assumiu seu lado mais corporativo e dane-se o esportivo, tudo o que os times sempre desejaram é que os pilotos ficassem quietos no seu canto e pilotassem. Um dos que mais defenestrava seus pilotos era Flavio Briatore, para quem os competidores não eram ninguém além de meros empregados que deviam calar a boca, sentar nos carros e pilotarem, sem dar palpites. Claro que sempre se fez contratos com salvaguardas no caso de algum piloto se irritar e ir tirar satisfações, especialmente com quem não tinha reputação no meio. A arrogância e prepotência dos cartolas já era irritante, e atualmente, parece cada vez mais insuportável. Agora, essa postura que queixo alto e dominação acaba de levar um belo abalo com a atitude de Giedo, que podem apostar, vão deixar os outros times bem mais cuidadosos na hora de firmarem contratos com os pilotos, a fim de garantirem uma blindagem que só vai dificultar ainda mais para o lado mais fraco, que sempre foram os pilotos.
            Afinal, nenhum time gosta de pilotos "rebeldes" ou que não sigam as determinações do time. Assim, como o time da Sauber vai acolher Van Der Garde como piloto depois que ele levou a escuderia à justiça? Vai haver um clima tremendamente pesado nos boxes entre mecânicos, engenheiros, etc, que não vão simplesmente nem olhar para a cara do holandês. E isso pode ser potencialmente perigoso: imaginem que a preparação malfeita, ou feita com extrema má vontade do carro que Giedo pilotar possa comprometer sua segurança? E se ele sofrer um acidente? Por mais que irão afirmar que estavam certos em não permitir que ele assumisse o carro, como fizeram questão de afirmar em sua defesa, vai pairar uma imensa desconfiança sobre a escuderia que pode comprometer sua reputação, que teria feito descaso e até "sabotagem" para ir à forra contra o piloto. Exagero? Talvez, mas como ignorar a possibilidade de isso acontecer?
            Ainda vai rolar muita coisa sobre essa situação. Até o fechamento desta coluna, iria haver nova audiência nesta quinta-feira, na Corte Suprema de Vitória. Na pior das hipóteses, a Sauber pode dizer adeus à prova australiana. Na melhor das hipóteses, Van Der Garde sai com uma bela rescisão recebida e tudo se acerta. Mas isso é nos extremos, se a coisa ficar pelo meio, tudo pode ficar ainda mais complicado.
            Os suíços gostam de mostrar como são precisos e organizados. Dessa vez, a encrenca foi armada mesmo com precisão de um relógio suíço. Mas aposto que os suíços dificilmente vão gostar dessa piada... Depois de atravessarem um ano complicado em 2014, tudo que a Sauber não precisava era se enrolar novamente, mas não é que eles conseguiram...?


A corrida da Austrália deve ter o menor número de carros no grid de que há memória em uma corrida da F-1. A Manor/Marussia chegou a Melbourne, mas está com inúmeros problemas para terminar de montar seus carros, enfrentando até a insólita falta do software de gerenciamento do motor Ferrari que utilizam, por terem em mãos a versão errada do programa, a de 2015, quando a unidade precisa da versão de 2014, e muito provavelmente não terão como disputar a corrida, uma vez que seu carro, na verdade o modelo do ano passado adaptado ao regulamento técnico deste ano, sequer andou um metro até agora. Com isso, o grid só teria 18 carros, mas o imbróglio jurídico em que a Sauber se meteu também pode deixar o time suíço de fora do GP. Restariam então apenas 16 carros para alinhar na prova. E ainda dizem que, se a McLaren não conseguiu melhorar seu novo MP4/30, o time pode nem conseguir tempo para largar, ou mesmo que largue, pode ficar pelo caminho logo de cara. Resumindo, a corrida pode ficar logo de início com apenas 14 carros...


A F-E disputa neste sábado sua nova etapa do campeonato, o GP de Miami. O circuito, montado nas ruas de Biscayne Bay, tem cerca de 2,17 Km de extensão, com 8 curvas, quase todas em 90°. A corrida terá 39 voltas, e será disputada neste sábado, no horário das 16:00 de Miami. O canal pago Fox Sports transmite a corrida ao vivo, com direito a reprise às 21:00 no horário do Brasil. Será a primeira corrida da categoria em solo americano, que no dia 04 de abril disputará nova etapa nos Estados Unidos, nas ruas de Long Beach, tradicional palco de corridas da Indy, e que já recebeu a F-1 no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980. O brasileiro Lucas Di Grassi, da equipe Audi Sport ABT, defende a liderança da competição, com 58 pontos, seguido pelo inglês Sam Bird, da Virgin Racing, com 48 pontos. Nélson Ângelo Piquet, da equipe China Racing, é o 5° colocado na classificação, com 37 pontos, enquanto Bruno Senna, da Mahindra Racing, ocupa a 11ª colocação, com 18 pontos, estando empatado com seu colega de time, o indiano Karun Chandhock. As corridas do campeonato de carros elétricos bem melhorando a cada etapa, e a expectativa é de uma prova bem disputada nas ruas da capital do Estado da Flórida. Na última etapa, disputada em Buenos Aires, na Argentina, a corrida foi cheia de surpresas do começo ao fim, com os pilotos efetuando disputas acirradas em diversos momentos, a ponto de vários deles acabarem se estranhando e até perdendo a noção de que posição se encontravam com tantas disputas, levando o público presente ao delírio. Aguardemos para ver a etapa de Miami consegue repetir a dose de emoção. Uma novidade na etapa deste fim de semana é que a categoria perdeu sua representante do sexo feminino no grid: Michela Cerruti deixou sua posição na equipe de Jarno Trulli, e o veterano ex-piloto de F-1 terá como companheiro de equipe Vitantonio Liuzzi. Pela pouca performance demonstrada nas etapas disputadas até aqui, Cerruti fará muito pouca falta.
Traçado da pista de Miami para a Formula E: trechos de reta devem favorecer boas disputas de posições, apesar de curtas.

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