sexta-feira, 4 de setembro de 2020

GLOBO SEM A F-1


Globo anunciou que deixará de transmitir a F-1 no próximo ano.
            E mais uma “bomba” surgiu no meio automobilístico recentemente, esta dizendo respeito especificamente aos brasileiros: a Globo confirmou que não renovará seu contrato e que deixará de exibir o campeonato da Fórmula 1 a partir de 2021, depois de quase 40 anos de transmissão ininterrupta das provas da categoria máxima do automobilismo. O que pensar de algo assim?
            Aqueles que há tempos criticam a forma como a Globo exibe a categoria, claro, comemoraram o fato. Para eles, é o fim do descaso como a emissora trata as corridas, e por assim dizer, também se livrarem do “mala” do Galvão Bueno, que para eles, mais enche o saco e a paciência do que narra direito nos últimos tempos, entre outras condenações capitais à emissora carioca, que tem lá seus pecados na forma como trata a categoria máxima do automobilismo. Para outros, contudo, fica a apreensão de como poderão continuar seguindo as corridas, e a exemplo do que aconteceu com a MotoGP, que também foi deixada de lado pela Globo, e agora está na Fox Sports, esperam que algo similar aconteça. E há aqueles que não estão nem aí com isso, e tanto faz o que aconteça a respeito.
            Oficialmente, a Globo declarou que está revisando o seu portfólio de eventos, procurando redimensionar seus gastos e a relação custo-benefício. E isso vem ocorrendo com vários eventos, entre eles a Copa do Mundo de 2022, e a Copa Libertadores da América, além da já citada MotoGP, e agora, a F-1. A emissora alega que a decisão já vinha sendo cogitada desde antes do início da temporada atual, iniciada em julho, por conta da pandemia da Covid-19. As negociações com a Liberty Media, que já vinham desde o ano passado, não teriam chegado a termo, e diante das exigências financeiras pedidas pelo grupo norte-americano que hoje é dono da F-1, a Globo optou por não renovar o contrato de transmissão, encerrando uma relação que teve início ainda nos anos 1970, e segue até hoje, com exceção da temporada de 1980, transmitida pela TV Bandeirantes naquele ano.
            Entre os detratores da emissora, isso é um sinal da falência da Globo, e que seria muito bem-vinda, pela forma como a rede de TV por vezes mais prejudica do que ajuda o país, além de que, sem contar mais com benesses do governo, estaria agora em crise financeira, e até com a possibilidade de ter sua concessão cassada por calote e sonegação de impostos devidos há tempos. Bem, a Globo tem lá sua cota de pecados e mazelas, mas desejar o mal, e até o fechamento da empresa não é algo elogiável, uma vez que ela emprega milhares de pessoas, que dela tiram o seu sustento e mantém suas famílias, e que em caso de acontecer o que muitos críticos raivosos desejam, jogaria a imensa maioria destes funcionários no inferno do desemprego, como se já não tivéssemos tantas pessoas sofrendo com isso no momento. Devagar com essas idéias bestas, pessoal...
Nos últimos anos, a equipe de transmissão era composta de Reginaldo Leme, Galvão Bueno (no meio, acima), e Luciano Burti. Reginaldo deixou a Globo no ano passado, sendo substituído por Felipe Giaffone (abaixo, ao lado de Burti).
            Falando especificamente do caso da F-1, não há como negar o impacto que isso poderá ter no panorama nacional, e no que resta da popularidade da categoria por aqui. Um dos aspectos que infelizmente estava “emperrando” as negociações é que a Liberty Media atualmente tem seu sistema de streaming próprio para a F-1, com transmissão das corridas via internet para diversos países. Um sistema que ela quer ampliar para o maior número de países, e que só não chegou aqui até agora porque o contrato em vigor com a Globo impedia isso de ocorrer, por dar à emissora brasileira a exclusividade de exploração da F-1 em nosso país, fosse em TV, ou até mesmo na internet. Desconhecendo o teor exato das condições de renovação, muito provavelmente a Liberty estava impondo que a Globo não teria mais essa exclusividade, indicando que o streaming oficial da F-1 poderia ser oferecido aqui, concorrendo com a Globo, que obviamente não deve ter gostado de saber que teria essa competição. E, já que não teria exclusividade, não teria também razão para aceitar os altos valores pedidos pela Liberty, só que esta não teria aceitado reduzir as exigências financeiras, que se manteriam no mesmo nível de antes, de quando a Globo tinha o monopólio em nosso país. Natural, portanto, que a rede de TV refutasse tais condições.
            Há erros dos dois lados. A Globo, como já é de praxe, tem o hábito de tratar como “acessório” tudo em sua programação que não é produzido por ela, e isso se aplica também a eventos esportivos. Em alguns detalhes, o descaso é patente, especialmente quando se refere ao nome de algumas equipes de competição cujos nomes são de patrocinadores ou produtos, que são omitidos nas transmissões, onde a ordem é não fazer propaganda de graça. No caso da F-1, a birra era com as equipes Red Bull e Toro Rosso, que sempre eram citadas como “RBR” (abreviatura de Red Bull Racing) e “STR” (Super Toro Rosso). A emissora, no caso da F-1, recentemente deixou de exibir o pódio ao final das corridas, que passou a ser exibido apenas na internet, no site do Globoesporte.com, e as transmissões das provas, vez por outra, passam por cima até mesmo da vinheta de apresentação oficial da F-1, enquanto narrador e comentarista conversam sobre a prova, mostrando imagens deles no estúdio da emissora. A Liberty quer uma transmissão mais engajada, e que ajude a valorizar o seu produto, tanto é que mudou o horário de início das corridas, atrasando-as em 10 minutos, a fim de ajudar a encaixar melhor nas grades de transmissão ao vivo das emissoras. A empresa também investiu numa nova apresentação oficial, com tema próprio, e espera que isso seja exibido na transmissão, reforçando a identificação do produto. Mas, o que esperar de uma emissora que, desde os anos 1980 passou a mutilar a abertura dos seriados que exibe, trocando-os por uma vinheta muito breve, com os dizeres “Rede Globo Apresenta...”
            Não dá para exigir da Globo um tratamento para a F-1 como a da Sky Sports britânica, que começa mais de uma hora antes da largada, com vários materiais sendo apresentados, e termina também muito depois, com toda a avaliação dos acontecimentos da corrida, mas a emissora poderia se empenhar mais em melhorar seu esquema de transmissão, que quase sempre começa em cima da hora, e nem bem temos a bandeirada, a transmissão já é cortada, e quem quiser ver o pódio que vá até o site de Globoesporte.com procurar por lá. Quando a transmissão é no SporTV, até há um cuidado melhor, uma vez que o programa começa antes, mas que também poderia ser melhor neste aspecto... E nem falo do pecado capital que é a fixação em citar Ayrton Senna em algum momento da transmissão, fazendo questão de não deixar o torcedor esquecer que ele existiu, esquecendo-se que Nélson Piquet e Émerson Fittipaldi, nossos outros campeões, são quase ignorados, se comparados com as menções frequentes a Senna, que morto há 26 anos atrás, não pôde descansar até hoje das lembranças da emissora...
            Por parte da Liberty, o erro é querer impor valores altos para um contrato de transmissão sem exclusividade, para que possa explorar o seu canal oficial de F-1 na internet. O grupo norte-americano foi duramente afetado pela pandemia da Covid-19, e parece se esquecer que o mundo todo foi impactado também, de modo que muito poucos grupos podem se dar ao luxo de cumprir com exigências contratuais em valores tão altos. Empenhados em fazer caixa, os donos atuais da F-1 ficam cada vez mais parecidos, ou talvez até piores do que Bernie Ecclestone, que vivia impondo valores astronômicos para realização de GPs, e contratos de transmissão. Um dos trunfos da Globo, que é a transmissão em TV aberta, rende a maior audiência em números quantitativos da F-1 no mundo inteiro, mas isso parece estar sendo ignorado pela Liberty Media, que estaria interessada em ter mais lucros, mesmo que isso signifique menor audiência, e não o contrário. Este tipo de atitude já é amplamente praticado lá fora, onde as provas da F-1 migraram para canais pagos, sendo poucas provas exibidas em TV aberta. Estão neste sistema países como França, Itália, e a própria pátria-mãe do automobilismo, a Inglaterra. E a F-1 está disponível apenas em pacotes caros, o que diminui ainda mais sua difusão dentro da própria TV por assinatura.
Ruim com Galvão Bueno, pior sem ele. Cléber Machado (acima), apesar de ter experiência na transmissão das corridas de F-1, não consegue empolgar o público, e comete muitos erros. Nos autódromos, a emissora ainda mantém repórteres cobrindo as corridas, como Mariana Becker (abaixo), procurando trazer as últimas novidades.
            Sem os índices de audiência da Globo, os números de transmissão do campeonato certamente sofrerão um decréscimo que ainda precisará ser calculado. A Liberty Media pode estar menosprezando o impacto que isso causará, mas parece estar pagando para ver no que vai dar. Para um grupo que iniciou uma luta para tornar a F-1 mais atrativa para a atual geração de fãs do esporte, manter os valores de renovação do contrato muito altos, e com isso dificultar as possibilidades de renegociação, elitizando o produto, parece ser um grande erro estratégico. Muitos fãs estão ansiosos para poderem assinar o streaming oficial da F-1, e se “livrarem” da transmissão da Globo, mas se esquecem que isso não será de graça. Será preciso ver quanto custará a assinatura do pacote, e ver se teremos opções em nosso idioma, algo que até o presente momento não está disponível na plataforma. Por enquanto, há dois serviços disponíveis no Brasil: assistir reprises de corridas, e ter acesso aos dados de cronometragem e telemetria dos carros. Para ver as reprises de provas da F-1, incluído aí F-2, F-3, e Porsche Supercup, o plano custa cerca de US$ 27 por ano, enquanto o acesso aos dados da telemetria é de cerca de US$ 3 por mês. No acervo de corridas, contudo, estão disponíveis corridas desde 1981 para frente, e não há opção em português, e os replays das provas só está disponível depois de uma semana da realização da corrida em si. E nem menciono o pacote completo, que permite aos assinantes verem a corrida com uma série de recursos, mas cujo valor... Bem, muitos não vão nem querer saber, e vão gostar menos ainda quando souberem quanto custa... E lembrem-se que são valores em dólar, e a cotação da moeda norte-americana deu um grande salto por aqui recentemente... Este aumento bruto do valor do dólar também teria pesado sobremaneira nas negociações, já que os valores em reais sofreram uma disparada. O “pacote” que a Globo oferecia costumeiramente às empresas anunciantes sempre foram considerados bons, pela exposição que ganham nos jornais e em horários nobres da grade da emissora, e na imensa maioria das vezes, sempre foram comercializados com relativa facilidade, garantindo um bom lucro com a operação da F-1. Mas, neste ano, uma das cotas de patrocínio não foi vendida, e com as dificuldades econômicas, potencializadas pela pandemia, isso poderia tornar ainda mais complicado para vender os pacotes de 2021 às empresas potenciais interessadas, que poderiam pensar duas vezes antes de embarcar na empreitada. E com potenciais dificuldades financeiras à frente, mais dólar nas alturas, e contratos de transmissão caros... Tudo se acumula para servir de justificativa para não renovação do contrato.
            Os fãs brasileiros que adoram criticar a TV Globo se esquecem que podem assistir a maioria das corridas no canal aberto, sem pagar nada. E quem tem TV por assinatura pode curtir os treinos livres e a classificação nos canais do SporTV. E, apesar dos pesares, a emissora ainda mantém um repórter presente “in loco” nos locais das corridas, mesmo depois de ter deixado de mandar um time de transmissão completo para os GPs nos últimos anos, com narração e comentários sendo feitos em estúdio, e não mais nos autódromos, à exceção do GP do Brasil. E, a bem ou mal, a transmissão da corrida é feita sem interrupções, enquanto em alguns lugares mundo afora, a prova é “cortada” para exibição de propagandas de patrocinadores e programas da emissora, algo muito pior. E, a despeito das críticas que se faz à narração das corridas, onde ninguém é poupado, apenas menos “massacrado” pelo modo como trabalha nas corridas, a Globo ainda mantém uma equipe de nível, como Felipe Giaffone e Luciano Burti nos comentários. Nas reportagens mundo afora, Mariana Becker atua com boa desenvoltura na transmissão das reportagens e notícias, pela experiência que tem há anos na função. Um pouco menos calejado, Marcelo Courrege também dá conta do recado. É verdade, contudo, que a Globo pecou ao dispensar nomes importantes de seu staff de transmissão, como Lito Cavalcanti e Reginaldo Leme, o que só deu mais razões para os fãs criticarem a emissora.
            E, não fiquem com muitas esperanças quando a Globo fala que ainda cobrirá a F-1, mesmo sem transmitir as corridas. Quem conhece a postura da emissora sabe que ela tem o hábito de ignorar eventos que não transmite, de modo que muito provavelmente só veríamos notas rápidas sobre o campeonato, como ocorre quando ele fala de algum evento que não transmite. Ou alguém vê a Globo mencionar a Indycar ou a Formula-E em seus jornais esportivos, sem que haja algo excepcional a noticiar...?
            E, quando se fala em quem poderia assumir a transmissão, esqueçam as emissoras abertas. Se a Globo, que é a que tem o melhor potencial financeiro, está pulando fora, os demais canais nem chegariam perto. Basta ver o que a Bandeirantes faz com a Indycar, para ver a diferença de estrutura posta à disposição para a transmissão... Claro, tudo pode mudar, se a Liberty Media e a Globo voltarem atrás, e se acertarem nos pontos divergentes. Não é algo impossível, mas é melhor não ficar empolgado demais com essa possibilidade. Podemos ter tido o exemplo da Bandeirantes, que ia deixar de exibir a Indycar, e acabou voltando atrás, acertando um contrato de última hora, e permitindo aos fãs do certame dos Estados Unidos continuar assistindo às corridas, mas nada garante que possa ocorrer o mesmo entre a Globo e a Liberty Media. A menos que o buraco seja muito mais embaixo do que se possa imaginar, mas teria que atingir muito mais o grupo norte-americano do que a Globo propriamente...
Sem transmissão na TV, o Grande Prêmio do Brasil também pode ser afetado, com nosso país podendo até perder sua corrida, na pior das hipóteses.
            Ah, e não fiquem empolgados também com o grupo Rio Motorpark, que planeja construir o novo autódromo no Rio de Janeiro, e que adquiriu os direitos da MotoGP, com vistas a divulgar sua “corrida” da motovelocidade no “futuro” autódromo em 2022, repassando os direitos ao Fox Sports. Além do autódromo em Deodoro ainda ser uma miragem, sem garantias de sair do papel e se tornar realidade, a empresa não teria pago pelos direitos de transmissão da MotoGP à Dorna como o combinado, dando um calote no negócio. E se isso acontece com a MotoGP, imagine com a Fórmula 1, já que muitos imaginaram que a empresa poderia repetir a empreitada com a categoria máxima do automobilismo, e garantir a transmissão da F-1 em alguma emissora, a fim claro, de usar isso para se promover na luta contra Interlagos para sediar o Grande Prêmio do Brasil de F-1.
            E nem menciono que o GP brasileiro também corre risco com a não-exibição da F-1 por aqui, já que patrocinadores potenciais da corrida poderiam pular fora devido à falta de transmissão da corrida em nosso país, o que impossibilitaria a divulgação de suas marcas. E sem apoio financeiro, como ter GP? Não é impossível, mas complica a situação. E, sem transmissão, o grande público pode até esquecer do automobilismo, o que pode complicar até mesmo o automobilismo nacional, que em muitos casos, se aproveita da fama que a F-1 conseguiu por aqui, graças aos feitos de Émerson Fittipaldi, Nélson Piquet e Ayrton Senna. Tudo isso ainda vai gerar muitas consequências potenciais. Apenas esperem para ver...

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

FLYING LAPS – AGOSTO DE 2020


            E estamos no mês de setembro. Agosto já ficou para trás, e com ele, várias disputas em diversos campeonatos do mundo do esporte a motor mundo afora. Este mês era tradicionalmente um pouco parado, em virtude das “férias” de meio de ano de alguns certames, como a F-1, mas devido à pandemia da Covid-19, tudo precisou ser mudado, e apesar dos percalços, a imensa maioria das corridas que conseguiram programar até que está fluindo com certa normalidade, tendo como maior diferencial o fato de estarem sendo feitas a portões fechados, como acabamos vendo nas 500 Milhas de Indianápolis deste ano. E todo início de mês é hora de mais uma sessão Flying Laps, com tópicos rápidos sobre acontecimentos diversos do mundo da velocidade que não deu para comentar nas colunas semanais regulares. E neste mês de agosto, se teve assunto para discutir, foi da MotoGP, que praticamente monopolizou a sessão de hoje. Não é para menos, uma vez que a ausência do grande hexacampeão Marc Márquez transformou a disputa pelo título na classe rainha do motociclismo em um verdadeiro mistério, sem favoritos destacados na competição. Portanto, uma boa leitura a todos, com muito boa saúde, e cuidem-se, uma vez que não podemos nos descuidar com relação à Covid-19, que ainda está causando muitos estragos pelo mundo inteiro, apesar de tudo.

Andrea Dovizioso está fora da Ducati em 2021. Às vésperas do Grande Prêmio da Áustria, o empresário do piloto comunicou que o italiano, vice-campeão da MotoGP nas últimas três temporadas, não defenderia mais o time de Bolonha na próxima temporada. As negociações vinham se arrastando nos últimos meses, e a Ducati, tendo em vista as condições econômicas adversas oriundas da pandemia do coronavírus, teria oferecido um novo contrato com redução salarial a Dovizioso, que não teria aceitado a condição. O time já havia confirmado Jack Miller para a vaga de Danilo Petrucci para o próximo ano, e continuava o mistério a respeito da permanência ou não de Dovizioso na escuderia italiana, apesar de ter sido o melhor piloto da marca nos últimos anos, em especial a partir de 2017, quando a Ducati voltou a ser uma força no campeonato, e Andrea discutiu o título daquela temporada até a última corrida com Marc Márquez. Dovizioso agora pretende definir o seu futuro nas competições, mas a situação é complicada, uma vez que não há vagas nos demais times de expressão, e o piloto mesmo admitiu não ter um plano B para a situação, apenas afirmou que as condições propostas pela Ducati não era as mais condizentes para continuar defendendo o time. Vários pilotos classificaram a decisão de uma grande perda para a Ducati, que fica sem o seu principal piloto para a próxima temporada, lembrando que Jack Miller, apesar de estar tendo boas performances com o time satélite da Pramac, ainda é visto com certa reserva. A Ducati, a depender de como se comportar no restante da temporada, pode perder boa parte de seu poderio, já que Dovizioso vinha sendo o ponto de referência do time nos últimos anos.


Uma prova de como a Ducati ainda pode lamentar a saída de Dovizioso é que, praticamente mantendo a tradição da marca de ir bem na pista de Zeltweg, Andrea venceu a primeira corrida da MotoGP na pista da Estíria, depois de um bom duelo com Joan Mir, da Suzuki, e Jack Miller, da Pramac. A KTM voltou a ter uma boa apresentação com Brad Binder, que terminou a corrida no país da equipe em 4º lugar, à frente de Valentino Rossi, que fez uma corrida determinada, largando do meio do grid, enquanto os demais pilotos da Yamaha tinham seus problemas. Líder do campeonato, Fabio Quartararo seguiu reto numa curva, mas evitou a queda, tendo de voltar no fim do pelotão para uma corrida de recuperação, até terminar em 8º. Maverick Viñalez terminou em um modesto 10º lugar. E o time oficial da Honda, mostrando mais uma vez quanto depende de Marc Márquez, foi apenas 14º com Álex Marquez, vendo Takaaki Nakagami, do time satélite LCR, terminar em 6º lugar.


A segunda prova da MotoGP em Zeltweg, batizada de Grande Prêmio da Estíria, a exemplo do que foi feito na F-1, mostrou novamente uma bela disputa pela vitória, que acabou com o português Miguel Oliveira, levando o time da Tech3, satélite da KTM, ao degrau mais alto do pódio. A corrida mostrou um duelo entre Pol Spargaró, da KTM, Joan Mir e Alex Rins, da Suzuki, Takaaki Nakagami, da LCR, e Oliveira, da Tech3. Na volta final, enquanto Spargaró e Jack Miller, da Pramac, se digladiavam na liderança, um toque entre ambos na última curva permitiu a Miguel Oliveira assumir a liderança e vencer a prova, num final eletrizante, como já havíamos visto em anos anteriores na pista austríaca. Joan Mir acabou em 4º, seguido de um Andrea Dovizioso que não conseguiu repetir o triunfo da semana anterior, terminando em 5º. Novamente lutando contra a falta de performance de seu equipamento, Valentino Rossi acabou sendo mais uma vez o melhor piloto da Yamaha, em 9º lugar. Fabio Quartararo, em uma atuação apagada, foi apenas o 13º colocado, e viu sua vantagem no campeonato reduzir drasticamente, embora ainda continue liderando a competição.


As duas corridas da MotoGP em Zeltweg foram marcadas por fortes acidentes, que obrigaram a interrupção das corridas, que foram reiniciadas após os eventos que, felizmente, não resultaram em tragédias na pista, embora tenha faltado muito pouco para não acontecer o pior. Na primeira prova, Johaan Zarco acabou tocando em Franco Morbidelli, no trecho de aproximação da curva 3 do circuito. Com o toque, os dois pilotos caíram, mas as motos de ambos seguiram em frente, atingindo o guard-rail e voando sobre a curva 3, passando no meio da dupla da equipe oficial da Yamaha. Valentino Rossi e Maverick Viñalez por pouco não foram atingidos pelas motos desgarradas, que se destroçaram com o impacto no guard-rail e capotaram sobre a pista na saída da curva 3. Viñalez chegou a tirar as duas mãos do guidão de sua moto, procurando proteger a cabeça, mas felizmente não foi atingido, e nem caiu por causa disso. Franco Morbidelli disparou inúmeras farpas contra Zarco, que acabou punido por direção irresponsável, e teve como punição largar dos boxes na segunda prova, além de ter de passar por uma cirurgia na mão, em virtude do acidente sofrido, mas tendo sido liberado para competir. Com vários destroços das motos de Morbidelli e Zarco na pista e área de escape, a corrida foi paralisada, e recomeçada somente após os reparos no guard-rail e limpeza da pista. E, felizmente, nada de grave ocorreu também com ambos os pilotos após a queda ao chão. Zarco, obviamente, não gostou da punição recebida, mas infelizmente o histórico recente do piloto não vem ajudando muito em sua defesa, e ele acabou considerado culpado pelo acidente que poderia ter resultado em uma tragédia na pista do Red Bull Ring, caso Rossi e Viñalez tivessem tido menos sorte e fossem pegos em cheio pelas motos desgovernadas.


Maverick Viñalez, aliás, teve outro percalço complicado na segunda prova em Zeltweg. O piloto da equipe oficial da Yamara ficou literalmente sem freios durante a corrida, e para tentar evitar o pior, acabou se soltando se sua moto em plena aproximação da primeira curva do circuito, ao notar que já não tinha como reduzir sua velocidade. Maverick caiu ao chão e rolou pelo asfalto, felizmente sem sofrer ferimentos, enquanto sua moto seguiu reto contra o guard-rail, batendo forte, e até pegando fogo após o impacto. O acidente ocasionou nova interrupção da corrida, a segunda nas provas disputadas na Áustria, até que a proteção fosse reparada, e a moto destruída de Viñalez fosse removida. A Yamaha, assim como outros times, vinham enfrentando problemas de freios na corrida anterior, de modo que a Brembo resolveu trazer novos materiais para todos utilizarem na segunda corrida, como forma de tentar sanar o problema. Só que, de acordo com as informações, Viñalez resolveu não usar o novo equipamento, preferindo correr com o freio antigo, mesmo correndo maiores riscos. Valentino Rossi, seu companheiro de equipe, assim como Fabio Quartararo e Franco Morbidelli, do time satélite SRT, usaram o novo equipamento, e mesmo assim, também tiveram problemas de frenagem na corrida. A Brembo se eximiu de responsabilidade por eventuais acidentes, caso os pilotos não seguissem suas recomendações de segurança, o que provocou críticas dos demais pilotos à postura de Viñalez, que afirmou que desde a quarta volta já sentia que estava perdendo a capacidade de frenagem. Para outros pilotos, como Alex Rins e Joan Mir, Viñalez acabou colocando a si mesmo e a outros pilotos em situação de perigo, caso o acidente tivesse ocorrido em outras circunstâncias, uma vez que já haviam várias voltas desde o início da manifestação do problema. Felizmente, mais uma vez, nada de mais grave aconteceu, mas os pilotos sabem que não podem contar sempre com a sorte, e que melhorias na segurança da pista precisam ser implementadas, para a MotoGP continuar correndo por lá. Veremos o que será feito a respeito...


E o assunto mais repercutido da MotoGP durante as corridas realizadas na Áustria foi a ausência de Marc Márquez, que está praticamente fora da disputa pelo título da atual temporada. A Honda, equipe do piloto, anunciou que o retorno da “Formiga Atômica” teve de ser adiada, visando uma recuperação total de Marc, que quebrou o braço direito após sofrer um acidente na primeira corrida do campeonato, em Jerez de La Fronteira. Márquez até tentou voltar na segunda corrida, mas ao ver que não teria condições de pilotar como gostaria, retirou-se da disputa. E pouco depois, a placa que tinha sido implantada em seu braço, para a recuperação da fratura, teria se rompido, devido a um esforço feito em casa, o que motivou a realização de nova cirurgia para tratar do problema, e a um período de afastamento mais longo necessário para sua recuperação, o que o tirou das etapas seguintes, até as provas disputadas em Zeltweg. Mas na Áustria, a Honda confirmou que a recuperação de seu piloto irá demorar mais tempo, cerca de dois meses, no mínimo, de modo que Marc retornaria apenas nas corridas finais, em novembro, e já sem condições de lutar pelo título. Para alguns, o piloto, ao se ver sem chances de vencer o campeonato, poderia retornar somente em 2021. Com isso, o sonho de um novo título fica adiado para o próximo ano. Apesar de lamentarem a ausência do hexacampeão, os torcedores aproveitam para cravar quem será o campeão da temporada atual então. Fabio Quartararo, apesar da má performance na Áustria, ainda lidera a competição com 70 pontos, mas Andrea Dovizioso vem bem perto em 2º lugar, com 67 pontos. Jack Miller é o 3º, com 56 pontos, seguido por Brad Binder, com 49 pontos; e Maverick Viñalez, com 48. Vice-campeão nos últimos anos, Andrea Dovizioso tem sua melhor chance de ser campeão, o que seria um duro golpe na Ducati, já que o piloto está fora dos planos do time italiano para 2021. Será que agora vai? Pelo que já fez nos últimos anos, sendo o melhor do resto do grid depois de Márquez, seria bem merecido ao piloto... Mas o mundo na velocidade muitas vezes nem sempre é justo, então, esperemos que Dovizioso consiga aproveitar a grande oportunidade que se apresenta para marcar o seu nome na MotoGp em definitivo...


A ausência de Marc Márquez revela o quanto o time oficial da Honda ficou dependente do piloto. Seu irmão Alex, que estreou este ano na classe rainha do motociclismo, não vem tendo um bom desempenho nas corridas até aqui, ocupando apenas a 15ª posição no campeonato, com 15 pontos. OK, Alex é novato na competição, e todo mundo já sabia que a moto da Honda é particularmente difícil de ser pilotada, bastando ver as dificuldades enfrentadas por Jorge Lorenzo no ano passado, e antes disso, os problemas que Dani Pedrosa tinha para acompanhar o ritmo de Marc Márquez. Tanto que, desse modo, devia se relevar a diferença de quase 1s4 no tempo do grid da primeira corrida em Jerez de La Fronteira entre a dupla de irmãos. Essa dificuldade no comportamento da moto da Honda já não é novidade, com outros pilotos que usam o equipamento, como Cal Crutchlow, a reclamarem deste tipo de problema, que torna o equipamento mais difícil de ser pilotado no seu extremo. Mas, com Marc Márquez, um fora de série, e um dos gênios com capacidade de se tornar o maior piloto da história da MotoGP de todos os tempos, dado o seu desempenho desde que estreou até aqui, a Honda se via no direito de ignorar as ressalvas e pedidos dos demais pilotos. Afinal, quem precisava deles, com a “Formiga Atômica” ganhando quase tudo? Só que, ficar assim tão dependente de seu piloto pode também ser um tiro pela culatra, e estamos falando de corridas de motos, onde o risco de acidentes é potencialmente mais perigoso do que nas corridas de monopostos, onde os pilotos contam com uma estrutura de proteção muito mais ampla se comparado com o de uma moto. A Honda, depois de vencer os últimos campeonatos com base nessa filosofia, agora paga o preço de sua aposta, mas ao menos, está fazendo o certo, ao deixar Marc Márquez de fora da competição, até que esteja plenamente recuperado. O piloto poderia se exceder tentando recuperar terreno no campeonato, e se expondo ainda mais a sofrer novos acidentes, que poderiam dificultar, ou até complicar ainda mais sua situação. Melhor voltar mais adiante, inteiro, e com melhores condições de competição.