sexta-feira, 3 de novembro de 2017

HAMILTON TETRACAMPEÃO



Lewis Hamilton comemora a conquista de seu quarto título em frente à torcida mexicana no autódromo Hermanos Rodrigues, ao fim do GP do México.

            Acabou! Lewis Hamilton faturou o seu quarto título mundial. O piloto inglês da Mercedes fechou a fatura no Grande Prêmio do México, depois de uma corrida complicada onde tanto ele quanto seu grande rival pelo título da temporada, Sebastian Vettel, viram seus planos de prova irem por água abaixo e terem de partir para corridas de recuperação que, ao final, apenas confirmaram o que todos já esperavam desde a prova dos Estados Unidos, de que era apenas questão de tempo até Lewis partir para o abraço do título.
            Apesar de mais um campeonato vencido pela Mercedes, não se pode dizer que foi uma disputa monótona. Diferente dos demais campeonatos, desde que estreou a nova era turbo, em 2014, esta foi a temporada onde a equipe alemã enfrentou de fato uma oposição na pista, com uma Ferrari que esteve em sua melhor forma nos últimos anos, e onde Sebastian Vettel lutou bravamente em busca do título, só perdendo forças nas últimas corridas, devido a vários fatores que se avolumaram, comprometendo o belo campeonato que tanto ele quanto a Ferrari vinham desempenhando até então.
            E palmas para Lewis Hamilton, que depois da derrota sofrida para Nico Rosberg no certame de 2017, voltou mais focado e determinado que nunca, condições que foram essenciais para que o piloto inglês enfrentasse a inesperada oposição por parte de Vettel e da Ferrari, que em determinado momento da temporada, pintavam como mais favoritos ao título do que Hamilton e a Mercedes. Mesmo nos piores momentos, vividos principalmente na primeira metade da competição, Hamilton soube manter a cabeça no lugar, e agarrar todas as oportunidades disponíveis, cometendo pouquíssimos erros, e sabendo capitalizar as vantagens de seu equipamento no momento em que isso lhe permitia acelerar fundo e demonstrar a gana e determinação que sempre caracterizou sua carreira na F-1 desde sua estréia, em 2007.
            Aos 32 anos, Lewis Hamilton já se tornou um dos gigantes da história do automobilismo e da F-1. Com quatro títulos mundiais no currículo, ele está abaixo apenas de Juan Manuel Fangio, com 5 títulos, e de Michael Schumacher, com 7. Já igualou o número de títulos de Sebastian Vettel e Alain Prost, superando ambos em número de poles e vitórias, e podem estar certos de que as estatísticas irão aumentar ainda mais nas próximas temporadas, a continuar dispondo de um carro vencedor, e que lhe permita disputar o título da categoria máxima do automobilismo. Ele já é o recordista de pole-positions, com 72 em 206 GPs disputados, e o segundo maior vencedor de corridas, com 62. Um dos recordes de Michael Schumacher, que era o número de poles, já foi superado pelo inglês. O recorde de vitórias do alemão, 91, ainda irá durar por pelo menos 3 temporadas, no ritmo de vitórias que Lewis vem amealhando nos últimos anos, graças ao excelente conjunto da Mercedes. Desde já, o piloto inglês já se torna o piloto a ser batido no ano que vem, e motivação para isso não falta, o que já deixa os adversários com a pulga atrás da orelha, em que pese a oposição, teoricamente, ter perspectivas de estar bem mais forte em 2018, começando pela própria Ferrari, que vai tentar manter sua base competitiva para evoluir ainda mais e se mostrar novamente forte para disputar o título. Adicione uma Red Bull também mais forte, com um carro e motor mais evoluídos, e teremos um páreo potencialmente interessante nos duelos. Sem esquecer que todos esperam pelo renascimento da McLaren, agora associada à Renault, que poderá voltar a disputar as primeiras colocações e engrossar bastante essa disputa.
            Isso deveria preocupar Lewis Hamilton? Teoricamente, sim, e certamente o novo tetracampeão já está ciente de que a temporada de 2018 certamente terá tudo para ser ainda mais difícil do que foi a deste ano, mas a temporada de 2017 foi onde vimos Hamilton nunca perder o controle na pista. Nunca deixando de ser o velocista que é, Lewis aprendeu a dosar sua impetuosidade, garantindo os melhores lugares quando não era possível vencer. Prova disso foi que em seu momento mais baixo em termos de resultados, até a corrida no México, domingo passado, havia sido em Mônaco, onde terminara em um 7º lugar, vendo Sebastian Vettel vencer a corrida com folga, e abrindo vantagem na classificação, e mesmo assim, Hamilton manteve sua tranquilidade e calma, sem se afobar na pista, ou cometer alguma barbeiragem, situações costumeiras em outros momentos, quando o inglês sentia a pressão dos concorrentes, e tentava responder sem pensar nas consequências, procurando reagir o mais rápido possível, de forma até irresponsável, o que o levava a sofrer vários incidentes, que o levaram a perder vários resultados potenciais.
Na pista, Lewis Hamilton aproveitou todas as oportunidades que surgiram, mantendo-se focado e concentrado, e não perdendo a calma nem mesmo nos momentos de maiores dificuldades, como nos duelos com a Ferrari de Sebastian Vettel (abaixo).
            Esse era até então o maior ponto fraco de Hamilton. Fora o fato de o inglês se divertir como poucos em seus momentos de folga, figurando no show business ao lado de vários amigos e pelo mundo afora, que era outra crítica que muitos lhe faziam, de que isso o distraía e tirava sua concentração, como quando seus namoros também enfrentavam altos e baixos, e isso parecia se refletir em suas performances. Tudo isso ficou para trás, e se Lewis ainda se diverte como poucos em seus momentos de descanso, ele parece ter não ter deixado mais que isso lhe tirasse o foco. Aliás, muitos dizem que sua derrota para Nico Rosberg no ano passado o fez ficar mais centrado em suas atribuições na Mercedes. Se com distrações momentâneas Hamilton já era um piloto difícil de ser batido, concentrado e focado em sua pilotagem, ele tornou-se um adversário muito mais eficiente e competitivo, o que é uma péssima notícia para seus adversários, que ainda tentavam explorar os pontos fracos conhecidos do piloto. E vimos isso ao longo deste campeonato. Lewis estava sempre calmo, sereno. Mesmo nos momentos em que a Mercedes foi batida com certa facilidade pela Ferrari, ele não desandou a fazer críticas ou a fazer estribeiras na pista.
            Na minha opinião, é nos momentos de dificuldade que os pilotos crescem e aprendem a explorar seu potencial com muito mais afinco e eficiência. Tendo estreado na F-1 já em um time de ponta, Lewis sempre esteve no “paraíso” da F-1, podendo disputar as primeiras posições e o campeonato desde o início, e para muitos, isso podia acostumá-lo mal, já que nos momentos de dificuldades, ele poderia não saber como reagir a estes momentos negativos. Surpreendendo desde o início, quando todos achavam que ele seria um mero escudeiro de Fernando Alonso na McLaren em 2007, Hamilton mostrou logo que não estava ali para fazer figuração, e obteve sua primeira pole e vitória no Canadá, naquele ano, levando Alonso a ter chiliques que só fizeram o espanhol perder o campeonato e a criar cismas dentro da escuderia. Hamilton perderia o título pelo seu noviciado, cometendo erros crassos nas etapas finais, sentindo enfim a pressão da luta pelo título, o que muitos acharam até natural. Mas ele já havia dado o seu recado, de que não seria um piloto qualquer.
            Em 2008, ele conquistou seu primeiro título, e o último da equipe McLaren até hoje na F-1, em uma disputa renhida com Felipe Massa. Os anos seguintes foram de menos glórias, em especial em 2009, mas serviram para mostrar a Lewis que a vida na F-1 tinha também seus pontos baixos. Ao deixar de disputar o título em algumas temporadas, ele precisou aprender a conviver com momentos ruins, e em vários deles, seu temperamento e descontrole o fizeram perder várias disputas que teria plenamente condições de superar se mantivesse a cabeça no lugar. Demorou, mas Hamilton aprendeu várias lições destes momentos, e chegava a hora de alçar vôos mais independentes. Quando trocou a McLaren pela Mercedes para a temporada de 2013, muitos disseram que ele estava sendo ingrato com quem sempre o apoiou e garantiu sua entrada na F-1, além do fato de que, até aquele momento, a Mercedes vinha tendo um desempenho inferior ao do time de Woking na categoria.
Na sua estréia pela McLaren, em 2007, Hamilton já mostrava suas garras e seu imenso talento ao volante, deixando o companheiro Fernando Alonso bem desconcertado.
            Mas foi uma mudança certeira. A partir de 2013, a McLaren decaiu, enquanto a Mercedes começou a evoluir, e naquele ano já se mostrou mais eficiente do que sua antiga escuderia. Se ele ficou abaixo de Nico Rosberg na Mercedes em 2013, a partir de 2014, com o advento da nova era turbo, e a supremacia do time alemão, Lewis mostrou a que veio, e mesmo enfrentando uma oposição forte de Rosberg, o que levou ambos os pilotos a algumas rusgas na pista em alguns momentos, Hamilton sagrou-se bicampeão, iniciando sua escalada rumo aos recordes da F-1. Em 2015, seu ano mais favorável, ele chegou ao tricampeonato sem muitas dificuldades, superando seu antigo amigo e atual parceiro de time com relativa facilidade. A temporada do ano passado, contudo, foi cheia de altos e baixos, e Nico aproveitou-se disso para vencer Hamilton e mostrar que ele também tinha qualidades para ser campeão do mundo. A derrota foi dura de engolir, mas necessária para Lewis ver que precisava se aplicar mais na pista e nos boxes, para se tornar um piloto mais capaz e completo. Apesar de seu imenso talento e seu arrojo, que o fazem em muitos momentos ser comparado a seu ídolo, o brasileiro Ayrton Senna, era nítido que Hamilton ainda precisava aprender a se concentrar mais na sua atividade. E ele parece ter conseguido atingir este estágio, finalmente.
            Fica nítida a evolução do inglês quando comparado aos momentos de destempero emocional demonstrados por Sebastian Vettel durante o campeonato, em especial após o incidente em Baku, quando o alemão da Ferrari acertou o inglês da Mercedes durante um período de safety car na pista da capital do Azerbaijão. Enquanto Vettel reclamou várias vezes, Lewis manteve a cabeça fria. O esperado duelo homem-a-homem, que muitos fãs e torcedores ansiavam que pegasse fogo, não chegou a se concretizar, mesmo com ambos travando bons duelos roda a roda na pista em diversos momentos.
            A comparação com Valtteri Bottas também é interessante. Em certos momentos, o finlandês deu pinta de que poderia se intrometer na luta pelo título entre os dois pilotos. Hamilton, claro, não se deixou levar pelo momento, e não perdeu o foco, quando muitos apostavam que Bottas poderia entornar o caldo da competição, fazendo a Mercedes “rachar” ao meio. Para o bem ou para o mal, Hamilton engatou vários resultados após a Hungria, aproveitando todas as oportunidades que surgiram, e extraindo o máximo do modelo W08, o que Valtteri não conseguiu fazer com a mesma eficiência.
            O desaire da largada em Singapura, quando a dupla da Ferrari e Max Verstappen se enroscaram foi um destes momentos em que Hamilton, já resignado em tentar apenas minimizar o prejuízo do fim de semana, aproveitou o momento, e conseguiu uma vitória que nem ele acreditava conseguir obter. Com uma vantagem já grande na pontuação, ele se permitiu abdicar da vitória na Malásia, contentando-se em terminar à frente de Vettel, que mais uma vez teve problemas, e precisou fazer uma corrida de recuperação, vendo sua desvantagem na pontuação aumentar ainda mais. A vitória na corrida malaia ficou com Max Verstappen, com Hamilton em 2º lugar, resultado mais do que satisfatório, lembrando-se de que lá, no ano passado, ele sofrera uma quebra de motor que praticamente inviabilizou sua conquista do título. No Japão, ele foi impecável, não dando chances à concorrência de tentar algo, e repetiu a dose nos Estados Unidos, onde até viu o rival Vettel sair na frente na corrida, mas manteve-se tranquilo, e foi à caça do rival para superá-lo sem maiores percalços momentos depois, e vencer novamente.
No duelo pelos títulos de 2014 a 2016 com Nico Rosberg, Lewis ganhou dois e perdeu um.
            Mesmo na prova do México, onde um toque entre ele e Vettel poderia pôr tudo a perder e dar ao rival alguma esperança de ainda levar o título, Lewis ficou firme na dele, e mesmo com o carro não rendendo mais o seu melhor, devido a um problema no difusor, não se afobou, e tratou de escalar o pelotão do jeito que dava, travando com alguns pilotos, entre os quais Fernando Alonso, um belo duelo pelas posições na pista. O toque se mostraria mais fatal para Vettel do que para Hamilton, já que o piloto alemão da Ferrari contava com a vitória para adiar o sonho da conquista do tetra do inglês, e para isso, fez uma volta impecável na classificação, conquistando a pole-position. Mas sua corrida de recuperação o fez chegar somente em 4º lugar, e mesmo que Hamilton não tivesse chegado em 9º, e até ficado sem marcar pontos, ele teria conquistado o título da mesma maneira. Seriam 54 pontos de vantagem de Hamilton, com apenas 50 em disputa nas etapas restantes.
            Hamilton conquistou o título com todos os méritos, e Vettel demonstrou grande esportividade ao cumprimentar o inglês pela conquista, parabenizando-o pelo feito. Mas já adiantando que fará tudo o que puder para impedir o rival de ser pentacampeão no ano que vem. Semana que vem, os brasileiros poderão ver algo inédito na história da F-1: teremos dois tetracampeões presentes na pista de Interlagos. Serão 8 títulos na pista, o que não é pouca coisa. Teremos no grid nada menos do que 11 campeonatos, já que estarão na pista também Fernando Alonso, bicampeão em2005 e 2006, e Kimi Raikkonem, campeão em 2007, e até o presente momento, o último título conquistado pela Ferrari, que passou praticamente uma década sem conquistar novamente um título na F-1. É um desses raros momentos em que todos poderão presenciar uma reunião de pilotos de grande estirpe, que ainda tem muito o que mostrar, acompanhados de uma nova geração de talentos que promete explodir em breve na categoria máxima do automobilismo, como Max Verstappen, que já está fazendo e acontecendo, assim como Daniel Riciardo, e nomes como Esteban Ocon, que a cada dia mostra-se mais capaz e veloz, entre alguns outros. Nos vemos em Interlagos na semana que vem, e espero que tenhamos outra grande corrida, assim como várias que tivemos este ano, com muitas disputas e duelos. E Hamilton ostentando com grande orgulho e mérito seu novo título de tetracampeão da F-1.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

PIQUET: 30 ANOS DO TRI



            Por motivos operacionais, a coluna da última sexta-feira não pôde ser publicada. Aqui está ela, publicada excepcionalmente hoje.


PIQUET: 30 ANOS DO TRI

A vitória de Nélson Piquet no Grande Prêmio da Itália foi a sua última pela equipe Williams, que dava preferência a Nigel Mansell na luta pelo título da temporada de 1987.
            Hoje começam os treinos oficiais para o Grande Prêmio do México, no circuito Hermanos Rodriguez, na Cidade do México, e depois de assistirmos a mais um triunfo de Lewis Hamilton no Grande Prêmio dos Estados Unidos, e aumentar ainda mais a sua vantagem na classificação, tudo indica que a decisão do título deva sair na pista mexicana, salvo um desastre completo para o piloto da Mercedes, o que é muito difícil de acontecer, dadas as circunstâncias atais da competição. Em vez de debater novamente sobre a possibilidade de uma conquista iminente, o que já havia mencionado na coluna da semana passada, aproveito a oportunidade hoje para lembrar de uma data cuja conquista fará 30 anos na próxima segunda-feira, o tricampeonato de Nélson Piquet, ocorrido em 1987.
            Nélson foi nosso primeiro tricampeão na F-1, e na época, isso não era pouca coisa: apenas Juan Manuel Fangio havia conseguido ser mais vezes campeão na categoria máxima do automobilismo, com 5 títulos. Depois dele, todos os demais grandes pilotos conseguiram ser no máximo apenas tricampeões até então. Àquela altura, Niki Lauda havia sido o último competidor a alcançar tal feito, com o triunfo de 1984, chegando aos três títulos. Ao fim da temporada de 1985, Lauda se retiraria em definitivo da competição, sendo mais um piloto a “empacar” na marca dos três títulos. Ao começarmos a temporada de 1987, a F-1 contava então com dois bicampeões mundiais: Nélson Piquet e Alain Prost. O brasileiro havia sido campeão em 1981 e 1983 pela Brabham, que decaiu muito na competição em 1985, obrigando Piquet a procurar novos ares para voltar a disputar o título. Prost, por sua vez, encaixara dois títulos consecutivos em 1985 e 1986, e era o piloto a ser batido no início da temporada, em que pese todos saberem que a Williams tinha o melhor conjunto carro-motor.
            O francês começava bem o ano, vencendo a corrida inaugural, no Rio de Janeiro, com Piquet em 2º lugar. Prost ficaria sem pontos em San Marino, mas com nova vitória na Bélgica, dava mesmo pinta de que iria tentar ser tricampeão naquele ano. Mas 1987 estava só começando, e a dupla da Williams iria mostrar sua força mais dia, menos dia. Era questão de tempo isso acontecer. Nigel Mansell venceria a corrida em San Marino, enquanto Ayrton Senna triunfaria duas vezes, em Mônaco e nos Estados Unidos, também dando a entender que entraria firme na disputa. Com cinco provas disputadas, a Williams parecia que teria muito mais trabalho do que esperava: até então, vencera apenas uma vez, com Mansell, o vice-campeão do ano anterior, e Piquet já havia ficado de fora de uma prova, em Ímola, em consequência do seu violento acidente na curva Tamburello, sendo vetado pelos médicos de participar da corrida.
            O clima na Williams, aliás, não era dos melhores, mas isso já vinha desde meados da temporada anterior, quando Piquet descobriu que a escuderia estava dando preferência a Mansell no time. O brasileiro iniciou o ano disposto a não dar mole para Nigel, mas o acidente em San Marino complicaria as coisas para Nélson, que confessou, tempos depois, que não era mais o mesmo após a batida, e que perdeu boa parte de sua capacidade de se concentrar na pilotagem. Sua noção de profundidade ficou comprometida, e ele passou a depender de estabelecer referências para frear nos circuitos, algo que nunca precisara fazer antes. Ele precisou guardar segredo disso para evitar que Mansell e a própria Williams usassem como argumento para preteri-lo oficialmente e centrar esforços no piloto inglês para vencerem o campeonato. Se, em igualdade de condições, o time já vinha dando preferências veladas ao piloto inglês, se soubessem que Piquet estava debilitado, o descartariam de fato da luta pelo título.
A luta com Mansell foi acirrada durante toda a temporada, como na Inglaterra, onde o inglês venceu por muito pouco, e ignorando completamente os alertas de combustível de seu carro. Piquet foi segundo colocado, assim como na grande maioria das corridas do ano.
            A partir do Grande Prêmio da França, a Williams finalmente deslanchou no campeonato, e começou a deixar todos os adversários para trás tanto nas classificações como nas corridas. Nigel Mansell enfileirou duas vitórias na França e na Inglaterra, onde travou um duelo acirradíssimo contra Piquet e dava pinta de que iria ser favorito isolado na luta pelo título da temporada. Piquet precisou de muita malícia e certa dose de malandragem para virar o jogo a seu favor. Sem conseguir bater Mansell com a frequência necessária, o brasileiro precisou se reinventar na pista para garantir os resultados necessários para fincar o pé na luta pelo campeonato, e fez da constância e regularidade suas principais armais para inverter a situação. Com exceção de San Marino, onde ficou de fora, e da Bélgica, onde abandonou por quebra de motor, em todas as demais provas Nélson havia subido ao pódio, todas na 2ª posição.
            Em Hockenhein, na Alemanha, Piquet deu a virada, ao vencer a corrida e aproveitar o infortúnio de Mansell, que abandonava sua 3ª corrida no ano. O inglês sofreria novo abandono na Hungria, e com um novo triunfo, Piquet assumia as rédeas da competição, e passava a ser tão ou até mais favorito ao título do que Mansell. A disputa, porém, continuava difícil, e o brasileiro ainda sentia os efeitos do choque na Tamburello, e isso o fazia ser, em condições normais, mais lento do que Mansell. Era preciso manter o foco e garantir a constância dos resultados para se manter firme no jogo. O estado de alerta não era em vão: na corrida seguinte, na Áustria, apesar de marcar uma bela pole-position, Piquet acabou superado na corrida, vencida por um Nigel Mansell imparável, mas garantindo-se em 2º lugar, o brasileiro minimizava os prejuízos e seguia à frente na luta. Em Monza, uma de suas pistas favoritas, Piquet voltaria a vencer e a abrir vantagem novamente na pontuação, graças ao 2º lugar de Ayrton Senna, que deixara Mansell em 3º. O campeonato aproximava-se de sua reta final, e não se podia admitir deslizes.
O acidente na curva Tamburello, em San Marino, deixou sequelas que limitaram as capacidades de Nélson na pista, obrigando o brasileiro a mudar seu estilo de condução.
            Mas a sorte sorriu novamente para Nélson na etapa de Portugal. Apesar de terminar em 3º lugar, seu “pior” resultado em terminar uma corrida até então no ano, o brasileiro teve o prazer de assistir seu maior rival abandonar novamente uma corrida, e com isso perdendo nova oportunidade de diminuir sua desvantagem para Nélson, mais líder do que nunca, e cada vez mais perto do inédito tricampeonato. Mas ainda havia muito chão pela frente. E a etapa da Espanha, em Jerez de La Frontera, mostrava que não se podia comemorar antecipadamente a conquista do título: Mansell venceu a corrida de forma categórica e Piquet, com problemas na corrida, terminou pela primeira vez uma prova no ano fora do pódio, sendo apenas o 4º colocado. Nigel Mansell ainda estava longe de ser derrotado, e o inglês provou isso na etapa seguinte, no México, onde venceu mais uma vez, obtendo sua 6ª vitória no ano, o dobro dos triunfos de Piquet até então na temporada, e decidido a chegar ao seu primeiro título na categoria. Piquet, fazendo uma grande corrida, onde caiu bem para trás e recuperou-se, foi o 2º colocado, e a pontuação dava 15 pontos de vantagem para Nélson, que com o descarte dos piores resultados, tinha de fato 12 pontos de dianteira no campeonato, com duas provas restantes para fechar o calendário.
            A situação era complicada: naquele ritmo, se Mansell vencesse as duas corridas finais e Piquet fosse o 2º, o inglês se sagraria campeão. O plano de ser constante e regular havia dado frutos, e o brasileiro estava firme no páreo, mas longe de poder relaxar e baixar a guarda. Aos poucos, Piquet ia se recuperando parcialmente das sequelas do acidente de Ímola, mas mesmo assim, Mansell parecia imparável na pista. Era preciso manter a pressão e a vantagem, a fim de minar a confiança do inglês para tentar manter o controle da situação. E foi assim que ambos chegaram ao Japão, em uma prova que poderia ser decisiva para ambos. E acabou sendo, de fato.
            Suzuka era uma pista completamente nova no calendário, e ninguém sabia muito bem o que esperar dela. Na pista, após um bom período de domínio da Williams, caras novas davam o tom da disputa, como Gerhard Berger, da Ferrari, e Alain Prost, da McLaren, que inclusive havia conseguido vencer em Portugal. Mas as atenções estavam voltadas para a dupla da Williams, os únicos que poderiam vencer o campeonato. E Piquet, ao ser mais rápido que Mansell no treino de sábado, deixou o inglês pressionado para superar o brasileiro, em uma pista que se mostrava um desafio, e que poderia ser complicada de ultrapassagem. Tanto forçou para ser mais rápido que Nigel acabou sofrendo um forte acidente nos esses atrás da reta dos boxes, e acabou sendo vetado pelos médicos para correr, em que pesem histórias de que Mansell até tinha condições de correr, mas sem as condições ideais de que necessitaria para conseguir sobrepujar Piquet na pista, o que o teria levado a se retirar mesmo da disputa.
Além dos adversários na pista, Piquet tinha de lutar praticamente contra o próprio time para ser campeão em 1987.
            E assim, já ao final da sexta-feira, o campeonato acabava com a conquista do título da temporada por Nélson Piquet, que chegava ao tricampeonato, igualando-se a alguns dos maiores pilotos da história da categoria. Claro que alguns afirmaram, na época, que era uma conquista anticlimática, por Mansell não poder correr, e assim, a decisão do título ficar facilitada, mas Nélson avisava que não era por aquilo que ele era o campeão, e sim pelo seu conjunto de resultados durante a temporada, onde sua impressionante constância e regularidade foram suas armas para alcançar a maior pontuação já atingida por um piloto até então em um campeonato mundial de F-1. Até aquela corrida, Piquet havia sofrido apenas um abandono por problemas mecânicos, enquanto Mansell havia ficado fora de combate em cinco provas, deixando de pontuar. E ainda é preciso levar em consideração que Nélson havia ficado de fora da etapa de San Marino, devido à batida na curva Tamburello, cujas sequelas o deixaram mais lento e com problemas de concentração e percepção por todo o restante da temporada, exigindo do piloto uma série de adaptações ao seu estilo de pilotagem para buscar os melhores resultados disponíveis a fim de lutar pelo título.
            Vale lembrar também que Piquet foi campeão contra o próprio time, que apoiava de forma quase explícita Nigel Mansell. Piquet escondia certos acertos e regulagens, e as mudava sempre que podia para despistar os mecânicos que atendiam seu parceiro de equipe, a fim de não entregar todos os segredos ao rival. Trabalhou duro para desenvolver o sistema de suspensão ativa, utilizado pela primeira vez pela Lotus naquele ano, e venceu em Monza, na Itália, mostrando a viabilidade de seu uso. Nas corridas seguintes, o time, contudo, optou por não usar mais o sistema. Uma decisão estranha, não fosse o fato de Nigel Mansell não se dar bem com ele, e dessa forma, ficar em desvantagem na pista contra o brasileiro, que defendia o seu uso. Foi mais uma decisão com o intuito de favorecer o inglês na disputa pelo título. Piquet precisou superar muita coisa para chegar ao título, e que piloto hoje conseguiria competir tendo de lutar contra o próprio time?
            Eram outros tempos, óbvio, mas o desafio em si ainda era considerável. As provas finais, em Suzuka e Adelaide, viram o abandono de Piquet por problemas mecânicos, mas o brasileiro deixaria o time ao fim da temporada, rumando para a Lotus, onde esperava não enfrentar os mesmos problemas de relacionamento com a escuderia. Por isso mesmo, ele recusou o convite da McLaren, uma vez que no time, teria de enfrentar Alain Prost, que lá já estava estabelecido, apesar das promessas de Ron Dennis de igualdade plena de condições para ambos os pilotos e liberdade de competição na pista. Isso também havia sido prometido na Williams, com o agravante de que Piquet seria o primeiro piloto, algo que nunca foi respeitado. Além de não concordar com algumas condições que Ron Dennis exigia, isso fez Piquet optar pela Lotus, onde ganharia um salário muito maior, e não teria que entrar em disputas fraticidas com o companheiro de equipe.
            Infelizmente, foi a decisão errada. A Lotus produziu um carro horroroso, e Piquet ficou impossibilitado de lutar por novas vitórias a partir dali. A McLaren escolheu Ayrton Senna para ser o novo companheiro de Alain Prost, e o que se passou a partir dali todos conhecem. Quanto a Nélson, foram dois anos para esquecer na Lotus, virando coadjuvante, e deixando de ser protagonista que era até então. Piquet só voltaria a recuperar parte de seu prestígio na Benetton, em 1990, mas sem condições técnicas de lutar pelo título, uma vez que a escuderia da marca de confecções italiana ainda era um time médio para grande, que só momentaneamente conseguia bater-se de igual para igual com times como McLaren e Ferrari.
            O tricampeonato de Piquet está para completar 30 anos, e deve ser lembrado com todo o respeito e comemoração a um dos maiores pilotos que a F-1 já viu em toda a sua história, mesmo que atualmente tenha surgido novos pilotos cujos números de títulos seja até superior, como Michael Schumacher, Sebastian Vettel, e Lewis Hamilton esteja a ponto de se tornar também. Nélson talvez não tenha o reconhecimento que mereça de fato pelo fato de ser um piloto muito autêntico e sincero, que diversas vezes falou o que pensava e com isso arrumou muitos desafetos, fossem nas pistas, nas equipes rivais, e principalmente na imprensa, inclusive a brasileira, que tomou partido por Ayrton Senna, muito mais afável a eles, e que a partir dali, decolaria na categoria, tornando-se também tricampeão mundial, centralizando as atenções dos torcedores nacionais, que sempre foram atrás de vencedores.
            A Nélson Piquet, todos os respeitos pela comemoração dos 30 anos de seu tricampeonato. Uma conquista que não deve ser desprezada, e sim valorizada como poucas.


Assim como o GP dos Estados Unidos, a Globo mais uma vez não exibirá o GP do México ao vivo, exibindo a corrida no canal pago SporTV. A única diferença é que Galvão Bueno assumirá o lugar de Sergio Mauricio na narração da corrida, feita em estúdio, no Rio de Janeiro.