sexta-feira, 25 de outubro de 2019

30 ANOS DE UMA POLÊMICA

O acidente que definiu o GP do Japão de 1989, e por tabela o campeonato de F-1 daquele ano, entre Ayrton Senna (no carro) e Alain Prost (já fora do seu).

            Esta semana, no último dia 22, completou-se 30 anos de uma das decisões mais polêmicas da história da Fórmula 1, quando o brasileiro Ayrton Senna foi desclassificado após vencer o Grande Prêmio do Japão de 1989, resultado que deu o título daquela temporada ao francês Alain Prost, companheiro de Senna na equipe McLaren, e àquela altura, inimigo fidagal do piloto tupiniquim na pista e nos boxes do time.
            Foi uma prova com um duelo de tirar o fôlego. A dupla da McLaren largou na frente na pista de Suzuka, e foi-se embora. Estava em disputa o título da temporada, e Senna precisava da vitória para postergar a decisão para a última corrida do ano, na Austrália. O brasileiro chegara ao Japão com 16 pontos de desvantagem para seu rival Prost. O que salvava um pouco a situação era que, na época, o regulamento da F-1 adotava o descarte de resultados, de modo que, em um campeonato com 16 corridas, só os 11 melhores resultados seriam contabilizados. Com 7 provas sem marcar pontos no ano, todo ponto era válido para Ayrton, enquanto Prost, com apenas um abandono até ali, teria que começar a jogar pontos fora por causa desse sistema (que seria abolido a partir de 1991).
            Só que Prost, naquele momento, estava decidido a tudo para garantir o título, e não ia dar mole para o brasileiro. E não deu mesmo. Ajustou seu carro para ter maior velocidade em reta, a fim de dificultar as tentativas de ultrapassagem que Senna tentasse fazer, e ao conseguir largar melhor que o rival, assumiu a dianteira, que não estava decidido a perder. Pode-se dizer que todos ficaram surpresos ao ver Senna ter tanto trabalho para conseguir chegar em Prost, afinal, na temporada, o francês só vencera corridas em que o brasileiro ficou fora de combate, tendo perdido todos os duelos diretos na pista. Mesmo assim, Ayrton foi à luta, até que, perto do final da corrida, tentou a ultrapassagem na última chicane, quando Prost abre sua tangência um pouco mais. Mas o francês, vendo o brasileiro tentar o bote, simplesmente fechou a porta, e os dois carros se tocaram, enroscando as rodas.
            Era um resultado que dava o título a Prost. Senna, contudo, ao ser empurrado pelos fiscais para tirar o seu carro de posição perigosa, conseguiu fazer seu motor pegar. Então, voltou à pista cortando a chicane por dentro, e depois de parar no box para consertar o bico de seu carro, ainda conseguiu retomar a prova e vencer a corrida. Mas Senna seria desclassificado por ter cortado a chicane, mesmo tendo perdido todo aquele tempo em consequência da batida. E com isso, o campeonato ficou decidido a favor de Prost. Jean-Marie Balestre, presidente da então FISA, confessou anos depois que deu uma “ajudinha” a Prost naquele dia, e comenta-se que, embora não tenha sido algo completamente decisivo, a pressão que teria feito nos comissários ajudou. Mas também houve um agravante, que foi justamente o percurso “irregular” de Ayrton, ao retornar à pista por dentro da chicane. Na época mesmo, o regulamento não permitia isso, e era consenso que Senna devia ter dado um cavalo de pau, e retornado ao circuito pela chicane da pista. Teria perdido pouco tempo a mais do que perdeu, mas quem sabe, daquela maneira, teria garantido a vitória.
            A gritaria foi geral no Brasil, com a torcida brasileira apontando que Senna fora “roubado” em favor de Prost, entre outras acusações mais sérias e comentários mais odiosos. Em uma era sem internet, pode-se dizer que foi uma tremenda repercussão, e não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro. Mas insuficiente para reverter o resultado da corrida decidido pelos comissários. A McLaren apelou da decisão, e quase levou a pior: entre acusações de favorecimento a Prost e ladroagem, o time levou uma forte multa, e Senna ainda foi obrigado a se retratar publicamente, do contrário, seria banido da F-1 praticamente, com a revogação de sua Superlicença, o documento que permite a um piloto competir na categoria máxima do automobilismo. Ayrton teve de recuar, tanto que sua participação em 1990 foi confirmada tardiamente.
Largada do GP do Japão de 1989: Prost (acima) consegue ir para a liderança e lá foi ficando, em um duelo sob a perseguição implacável de Ayrton Senna (abaixo).
            E quem diria que já vão 30 anos daquele momento... O tempo realmente voa quando olhamos para trás. Na repercussão, Senna foi considerado o campeão moral da temporada, enquanto Prost, o vencedor de fato, teria sua credibilidade e capacidade como piloto colocada em dúvida por muitos fãs do esporte a motor. A fama de ter ganho “no tapetão” a temporada de 1989 demoraria a ser apagada de sua reputação.
            De minha parte, considero que Senna foi mesmo roubado naquele GP. Prost fechou a porta jogando o carro em cima, mas não se pode dizer que a manobra foi ilegal. Mas, que dá para notar que o francês começa a mover o carro antes de chegar na chicane para fazer a tomada, isso dá, de modo que ele provocou deliberadamente a batida. Um ato antidesportivo, mas que não era ilegal. Senna, por outro lado, ao retornar à pista pelo interior da chicane, deu aos comissários a desculpa perfeita para desclassificar o brasileiro, por ser uma irregularidade que era prevista no regulamento. Tivesse retornado pelo traçado normal, tudo teria sido bem mais complicado para justificar a punição a Ayrton, e quem sabe, tivesse mantido a vitória, e adiado a decisão para a prova derradeira, na Austrália.
            Só que, é preciso ser realista: Senna não teria conquistado o título. Na Austrália, o brasileiro acabou abandonando após bater na Brabham de Martin Brundle, em meio à chuva torrencial que caia em Adelaide, então palco da prova. Tivesse vencido aquele GP, o resultado do campeonato de 1989 sempre estaria em questão pelo que ocorrera em Suzuka. Com o seu abandono, tivesse mantido a vitória no Japão, não teria feito diferença. E vale lembrar que, desclassificado ou não do GP japonês, nem por isso Ayrton estava aliviando na Austrália, debaixo da chuva, onde vinha liderando a corrida facilmente, até errar por si mesmo, ao abalroar Martin Brundle numa tentativa de ultrapassagem onde não viu o piloto da Brabham.
            Senna foi o piloto mais vencedor da temporada, é fato. Mas Prost foi um piloto muito mais regular e constante, algo que Ayrton não foi. E com 6 abandonos até o Japão, isso era um revés considerável, enquanto o francês até então só tinha um abandono na temporada. Isso não desmerece a temporada de Senna, mas mostra que o francês soube ser um piloto mais eficiente. Uma reprise do que acontecera no duelo entre Nélson Piquet e Nigel Mansell na Williams, em 1987, onde o brasileiro, com perda parcial de seu ritmo diante das sequelas do acidente sofrido na curva Tamburello, em San Marino, passou a se concentrar na regularidade e constância de resultados para derrotar seu parceiro de time Nigel Mansell, que estava mais veloz naquele momento. Arrojo X cérebro. Simples assim.
            Prost foi sujo na manobra de fechar Senna em Suzuka? Foi. Mas quem disse que Senna era um santo dentro da pista? O lance do acordo de não-agressão na primeira volta de uma corrida entre os dois pilotos da McLaren foi mandado para o espaço justamente por Senna na prova de Ímola de 1989, ao alegar depois que o acordo valia só para a “primeira” largada, já que a corrida teve duas, por causa do acidente de Gerhard Berger na curva Tamburello. Então, um piloto acusar o outro de deslealdade e traidor, para usar um termo mais forte, era praticamente o roto falando do rasgado. Não havia inocentes naquela história. Ayrton fez seu nome com um nível de arrojo que a F-1 já tinha visto em outros pilotos em sua história, mas agregou a seu estilo um nível de agressividade jamais visto até então. Sua fome de vitória parecia não conhecer limites, como o próprio Prost acusou, afirmando que o brasileiro não aceitava perder, o que não era mentira, haja vista o seu tremendo mau humor quando perdia.
            Se Senna quis dar uma de esperto para cima do francês, achando que a luta seria fácil, quebrou a cara, pois Prost também tinha seus ases na manga. E um deles era saber cuidar melhor do carro, em uma época onde os bólidos quebravam com mais frequência do que hoje. Senna teve algumas quebras durante o ano, enquanto em um ou outro momento, sua própria impetuosidade jogou contra si próprio, como no Brasil, onde forçou a dividida de curva logo no início da corrida, e danificou seu carro, perdendo as chances de ganhar a corrida, e com isso, levar mais 9 pontos que fizeram falta na luta pelo título mais tarde. Mas o francês também acusou o golpe, passando a afirmar publicamente que a Honda favorecia Senna na luta pelo título. Foi um duelo de gigantes, dentro e fora da pista, que atingiu um nível onde um já não suportava mais o outro. Ninguém arredava pé, e como dois grandes campeões e fenômenos dentro do esporte a motor, os iguais passaram a se repelir. O clima dentro dos boxes só ia piorando, mas de forma relativamente velada, com a McLaren ainda conseguindo manter o ritmo de competição.
            Assim, não era de se admirar que Prost, naquele momento, já acertado com a Ferrari para o ano seguinte, não ia dar mole para Senna. Posso dizer até que o brasileiro meio que baixou a guarda ao não notar como o francês havia sido o mais rápido no warm-up em Suzuka, a despeito de ter ficado praticamente 1s7 atrás de Ayrton no treino de classificação. E como dizem, treino é treino, e corrida é corrida. Se a estratégia de Prost exigia que ele estivesse na frente para fazer valer seu acerto mais veloz para a corrida, era imprescindível largar na frente, e Senna infelizmente deixou o rival pular na frente no arranque da luz verde. Tivesse mantido a ponta, a tarefa de Prost teria sido muito mais complicada. Como se daria um duelo com as posições invertidas, com Prost a forçar Ayrton o tempo todo? Uma pergunta interessante, mas que jamais saberemos a resposta...
Aqui se faz, aqui se paga: no mesmo GP do Japão, em 1990, Ayrton Senna bate em Alain Prost, agora em times diferentes, e o brasileiro ganha o bicampeonato, vingando-se do ocorrido no ano anterior, para fúria do francês e de seu compatriota Jean-Marie Balestre.
            Haveria um rescaldo deste momento no futuro, e quis o destino que ele se desse novamente na mesma pista de Suzuka, um ano depois. Agora em equipes diferentes, Senna e Prost chegaram ao Japão mais uma vez duelando pelo título, mas com o francês tendo de correr atrás, e com uma Ferrari que tinha muito mais chances de ser competitiva na pista japonesa do que a McLaren, devido ao maior equilíbrio do carro italiano. E, mais uma vez, tivemos uma decisão curiosa, com os comissários a manterem a posição do pole-position no lado interno da pista, ao invés do lado externo, onde era feito o traçado normal pelos carros. Isso se tornava um revés para o pole, que obviamente, acabou sendo Senna, com Prost a largar em segundo. Dava para sentir que ia sair faísca naquela corrida novamente, e foi o que aconteceu.
            A diferença é que tudo ocorreu em poucos segundos, já na largada, com Senna a tentar recuperar a liderança perdida para Prost no arranque na aproximação da primeira curva, com os dois carros se tocando, e saindo da pista. E mais um fim de campeonato, agora a favor de Senna. Por linhas tortas, alguns disseram que foi feita justiça, depois do ocorrido em 1989. Verdade ou não, Prost, e principalmente Jean-Marie Balestre, ficaram bem furiosos naquele dia, mas nada puderam fazer. Senna, como ele próprio admitiu algum tempo depois, executara sua vingança, dando o troco em seu principal rival, e em seu desafeto presidente da FISA. Prost, aliás, chegou até a querer fazer um movimento para “moralizar” a F-1, alegando que pilotos com Senna eram um perigo para o esporte, mas ninguém deu muita bola para isso. Esportivamente falando, não foi uma maneira correta de se decidir um título, e pior, ainda daria um mau exemplo, quando, alguns anos depois, Michael Schumacher ganharia o seu primeiro campeonato com uma batida feita em seu adversário Damon Hill, no encerramento da temporada de 1994, na Austrália, com o alemão tentando repetir a manobra em 1997 contra Jacques Villeneuve, mas fracassando nessa nova tentativa.
            A rivalidade entre Senna e Prost ainda ganharia um novo round em 1992, quando o francês, após um ano sabático após ser demitido pela Ferrari (chamou seu carro de “caminhão” ao fim do GP do Japão de 1991) acertou seu retorno à F-1 pela Williams, que dominava amplamente a categoria máxima do automobilismo, e obviamente vetando o nome de Senna como possível companheiro de equipe, recebendo uma saraivada de críticas ferozes do brasileiro pelo que considerou um gesto “covarde” e antidesportivo, esquecendo-se de que fizera o mesmo na Lotus em 1986, com relação à possível contratação de Derek Warwick pelo time inglês. Prost foi campeão em 1993, mas guiando o melhor carro da categoria, disparado muito melhor que os outros, sua conquista não teve o reconhecimento de outros tempos, sendo vista muito mais como mera obrigação. Com Ayrton finalmente garantindo um lugar no time de Frank Williams em 1994, já que o veto do francês não valia mais, Prost optou por se retirar da F-1, encerrando sua carreira de piloto.
            Todos se perguntam como Senna e Prost estariam hoje em dia. Prost se tornou dono de equipe, e hoje é um dos chefes do programa da Renault na F-1. Já Ayrton faleceu em 1994, vítima do carro que tanto cobiçara nos dois anos anteriores. Senna iniciou uma reaproximação ao fim de 1993, e continuou em 1994. Provavelmente, talvez fossem até amigos de novo, e se respeitassem muito mais... Mas é algo que nunca saberemos de fato. De qualquer maneira, frente à rivalidade extremada de ambos, os duelos de hoje na F-1 parecem mais briguinhas à toa, onde não vemos o mesmo ímpeto ou instinto “matador puro” dos velhos tempos. Se competissem hoje, será que ambos também se comportariam como naquela época? Outra boa pergunta...


Terreno das hipóteses: e se Ayrton Senna não tivesse cedido, e preferisse ficar de fora da F-1 a pedir desculpas públicas a Jean-Marie Balestre e à FISA pelo ocorrido no Japão em 1989, como exigia o cartola? O que ele faria como piloto, lembrando que a entidade, por retaliação, poderia bani-lo como piloto do mundo do esporte a motor por sua recusa em se desculpar? A resposta mais possível parece um tanto óbvia: a Fórmula Indy. Lembremos que, depois da temporada de 1992, insatisfeito com a competitividade da McLaren frente às poderosas Williams, Senna testou o carro da Penske de Émerson Fittipaldi, incentivado pelo mesmo, e gostou muito da brincadeira. Imaginemos que isso acabasse acontecendo até antes, por Ayrton estar banido da F-1 e do resto do mundo do automobilismo, lembrando que a Indy não era uma categoria sancionada pela FISA (que aliás, até considerava o certame norte-americano como uma categoria “pirata”, por não se sujeitar a ela). Poderia ter sido o início de uma carreira muito interessante de Senna na F-Indy, para sorte dos americanos e azar da F-1, como Nigel Mansell fez em 1993. Uma possibilidade que dá asas à nossa imaginação, sobre como Senna poderia ter seguido com sua carreira, em uma atitude que seria um verdadeiro tapa na cara da prepotência de Balestre, que teria de ver o sucesso do brasileiro na Indy, e nada podendo fazer quanto a isso...
Senna com o carro Penske de F-Indy de Émerson Fittipaldi. E se o brasileiro mandasse a F-1 se danar e fosse correr nos EUA? Se Nigel Mansell causou impacto quando o fez, imagine Ayrton Senna mandando a F-1 às favas...

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

ARQUIVO PISTA & BOX – NOVEMBRO DE 1998 – 27.11.1998


            Mais uma vez, trago aos leitores um de meus antigos textos, e este foi publicado no dia 27 de novembro de 1998, fazendo um pequeno balanço do que foi a temporada daquele ano na Fórmula 1. Um ano que prometia muito, começou com um domínio assustador da McLaren, e terminou com uma disputa pelo título na última corrida, mas não entre os pilotos de Woking, mas entre Mika Hakkinen, pela McLaren; e Michael Schumacher, da Ferrari, que conseguiu dar uma equilibrada na disputa e presentear os fãs com mais emoções do que se poderia imaginar depois do que tínhamos visto na primeira corrida. Seria mais um ano de poucas alegrias para os torcedores brasileiros, enquanto a Williams enfrentava o primeiro ano após sua última conquista na F-1, que foram os títulos de pilotos e construtores de 1997. Já são praticamente 21 anos, e o tempo realmente parece passar voando. Curtam o texto, e boa leitura para todos...



UM BOM ANO NA FÓRMULA 1

            Fazendo um balanço do Mundial de Fórmula 1 de 1998, posso afirmar que este foi um bom ano para a categoria. Após as primeiras etapas, tudo indicava que veríamos uma verdadeira procissão da equipe McLaren, com vitórias fáceis e sem possibilidade de reação da concorrência. Felizmente, a Ferrari desmentiu este panorama e, pelo terceiro ano consecutivo, a decisão do campeonato foi para a última etapa. Nada mal para um ano que prometia muito em termos de luta pelo título e que, de repente, dava-se a sensação de que a McLaren repetiria o seu massacre de 10 anos atrás, quando Alain Prost e Ayrton Senna praticamente monopolizaram as vitórias no campeonato, deixando todos os outros praticamente como meros figurantes.
            A vitória da McLaren mostrou que privilegiar o talento e a competência dão resultados. Adrian Newey, contratado pela McLaren no ano retrasado, foi o ponto-chave para o sucesso do time de Ron Dennis nesta temporada. Newey foi apenas mais um talento que Frank Williams não soube dar o devido valor em seu staff, e depois de uma briga jurídica nos tribunais ingleses, acabou ficando de molho durante uns tempos, até poder estrear em seu novo time. Assim como Frank demitiu Damon Hill em 1996 por achá-lo incompetente para defender o time naquele ano (curiosamente, o ano em que Hill foi campeão pela escuderia inglesa), o panorama foi quase o mesmo em relação ao projetista inglês: ele não faria falta à equipe. Mas fez: a Williams este ano foi uma sombra do que foi em 1997, não conseguindo nenhuma vitória e muito menos uma pole, e pela primeira vez desde 1990, ficou sem conseguir lutar pelo título.
            Se a Williams caiu e a McLaren subiu, foi preciso também que o time prateado soubesse canalizar seus esforços na luta pelo título. Mika Hakkinen acabou sendo o foco de atenções do time, por ter se mostrado desde o início do campeonato o piloto mais rápido da escuderia, que precisou fazer a opção pelo finlandês a certa altura, o que se mostrou a escolha correta, pois enquanto Hakkinen ia à luta, seu companheiro de equipe David Coulthard protagonizava performances pífias, ou era afligido por falhas mecânicas em seu carro. Coulthard acabou ficando à sombra de Mika este ano. Para a próxima temporada, a opção natural da McLaren, caso continue a dar as cartas na F-1, é fazer do escocês o próximo campeão. Resta saber se ele irá corresponder às expectativas, o que não fez este ano.
            Pelo segundo ano consecutivo a Ferrari bateu na trave. Mas o time de Maranello teve sua melhor performance em muitos anos, levando-se em conta o balanço geral do campeonato. Conseguiu, através de muito esforço e determinação, reduzir o seu déficit de performance para a McLaren a tempo ainda de disputar o título. Michael Schumacher brilhou nas provas da Argentina, França, Hungria e Itália, onde conseguiu vencer de forma memorável, mas sua temporada ficou marcada por novos pontos negativos no currículo, como o que se viu no Canadá e na Bélgica, onde sua conduta anti-esportiva mais uma vez colocam seu caráter em dúvida. Eddie Irvinne finalmente foi um pouco mais valorizado pela Ferrari, que decidiu apoiar o irlandês um pouco mais, mas claro que não o suficiente para permitir que ele desafiasse Schumacher. Mesmo assim, conseguiu fazer duas dobradinhas para o time italiano, na França, e principalmente na Itália, em Monza, perante a fanática torcida ferrarista, no melhor momento para o time italiano no campeonato, pois ali o bicampeão alemão igualava seus pontos aos de Hakkinen, e previa que o título seria da Ferrari. Melhor sorte para o time de Maranello em 99. Expectativa positiva não falta para que tudo dê certo, e que enfim a Ferrari consiga quebrar o seu jejum de títulos.
            A Benetton teve um ano de recomeço, com novos pilotos e novo grupo técnico. O resultado foi desanimador: o time multicolorido acabou superado pela Williams e até pela Jordan. Quem reclamava que Jean Alesi e Gerhard Berger não valiam nada e que eram os responsáveis pela decadência do time deve ter ficado com saudade dos dois pilotos e dos anos anteriores. Mas a culpa não cabe inteiramente a Giancarlo Fisichella e Alexander Wurz. A Benetton, assim como a Williams, também padeceu com a falta de desempenho e desenvolvimento dos motores Renault, agora chamados de Mecachrome. Mas o desenvolvimento do novo chassi B198 ficou muito aquém do esperado, além dos pilotos do time terem se envolvido em algumas confusões, aliada a uma performance bastante irregular dos carros durante todo o campeonato. A equipe também perdeu David Richards, que tinha assumido o lugar de Flavio Briatore, devido à falta de resultados e a algumas atitudes tomadas sem consultar Luciano Benetton. Espera-se que o time reencontre seu rumo no próximo ano.
            Na Sauber, que manteve seu nível de performance, o destaque foi Jean Alesi. Desprestigiado na Ferrari e na Benetton, o intrépido piloto francês que no início da década foi considerado o sucessor de Alain Prost deu boas mostras de que ainda não está acabado para a F-1. Alesi eclipsou totalmente seu companheiro de equipe Johnny Herbert, o que fez o inglês perder o lugar no time suíço para 99, indo para a equipe Stewart, onde poderá ficar novamente à sombra de outro piloto muito talentoso, Rubens Barrichello.
            A Stewart, por sua vez, teve um ano muito ruim em 98, mas as lições dos erros foram aprendidas, e as devidas providências estão sendo tomadas para que não sejam repetidos na próxima temporada. Assim como a Sauber, a Stewart está redobrando seu staff e estrutura para evoluir consideravelmente de performance em 1999. Conseguirão cumprir o prometido?
            Um time com perspectivas indefinidas para o próximo ano é a TWR-Arrows. O time prometia muito para 98 e o que sei viu foi um retrocesso até mesmo em relação ao apresentado em 1997. O carro e o motor deram muito mais trabalho do que se esperava, sem apresentar nenhum ganho de performance. John Barnard pulou fora e Pedro Paulo Diniz também saiu. Tom Walkinshaw havia prometido que o time seria uma potência na F-1 quando adquiriu a escuderia. Fica para 99, quem sabe...
            A Jordan teve dois momentos distintos no campeonato de 98: até o meio do ano, o time se debatia com a falta de performance e fiabilidade mecânica. A partir da chegada do novo projetista Mike Gascoyne, o time reencontrou o rumo e voltou a disputar posições pontuáveis. O ponto alto da escuderia foi sem dúvida a vitória em dobradinha no Grande Prêmio da Bélgica, com Damon Hill a voltar ao topo do pódio, mostrando sua classe e competência como piloto de ponta. É claro que a hecatombe de carros ocorrida na largada que vitimou vários pilotos, além do acidente esdrúxulo de Michael Schumacher em cima de David Couthard facilitou as coisas. No Japão, Hill superou nada menos do que a Williams, seu ex-time, superando Jacques Villeneuve e Heinz-Harald Frentzen na reta de chegada. Em franca ascenção, a Jordan promete vôos mais altos em 99, contando agora com o apoio total da Honda para desenvolver plenamente seus motores para voltar como um time completo em 2000.
            Já a Prost teve um ano para ser esquecido. O novo chassi AP02, projetado por Loic Bigois, foi incapaz de mostra a competitividade esperada que o novo e superpotente motor Peugeot V-10 poderia proporcionar ao time do tetracampeão Alain Prost. Comparado a 97, foi um tremendo retrocesso. Espera-se que, com a chegada de John Barnard ao corpo técnico do time, Alain Prost consiga fazer com que seu time decole na F-1. Vamos esperar para ver...
            A Minardi e a Tyrrel foram, como já se esperava, as “carroças” do ano nos grids de largada. A Tyrrel, em sua última temporada, apenas cumpriu tabela devido ao desentendimento entre Ken Tyrrel e Craig Pollock, que vai gerir o novo time BAR em 99. Isso prejudicou seus pilotos e o trabalho da escuderia, que praticamente correram à toa neste campeonato, apenas fazendo figuração. Já a Minardi, vítima da tradicional falta de recursos, praticamente nada conseguiu mostrar, além de, novamente, dizer que no próximo ano as coisas serão melhores. Enquanto a Tyrrel fez seu adeus à F-1 com performances pífias, espera-se muito do novo time BAR que irá assumir seu lugar em 1999. Com relação à Minardi, resta apenas esperar que a escuderia italiana consiga crescer um pouco...
            Este foi um pequeno panorama geral do que vimos na Fórmula 1 em 1998. Que melhores ventos soprem na categoria em 1999 e nos dêem ainda mais emoção e disputas do que vimos nesta temporada...