quarta-feira, 9 de setembro de 2026

ARQUIVO PISTA & BOX – SETEMBRO DE 2000 – 29.09.2000

            Trazendo novamente uma de minhas antigas colunas, o texto de hoje foi publicado no dia 29 de setembro de 2000, praticamente 26 anos atrás. O tempo voa, hein? Mas o assunto principal era a estréia da Fórmula 1 no autódromo de Indianápolis, que por pouco mais de metade daquela década foi a casa da categoria máxima do automobilismo nos Estados Unidos, em um traçado misto criado dentro do circuito oval, para delírio dos amantes das provas do esporte a motor. Embora a F-1 não tenha durado muito por lá, o traçado misto é usado até hoje, com algumas mudanças, pela Indycar, como Grande Prêmio de Indianápolis, dividindo a programação da categoria no mês de maio com as tradicionais 500 Milhas. E deu dobradinha da Ferrari na primeira prova da F-1 no templo de Indianápolis, com Michael Schumacher vencendo e Rubens Barrichello fechando o 2º lugar. O resultado praticamente sacramentava o título em favor do piloto alemão, embora não fechado matematicamente, com o abandono de Mika Hakkinen, que ainda tentava o tricampeonato mundial com a McLaren, mas que seria de fato o tricampeonato de Michael Schumacher, enfim tirando a Ferrari da fila que ocupava desde 1978 na etapa final do campeonato, em Suzuka, algumas semanas depois. De quebra, vários tópicos rápidos de mais alguns acontecimentos no mundo da velocidade, com alguns comentários. Uma boa leitura então, e em breve trago mais textos antigos por aqui...

O DIA EM QUE A FERRARI REINOU EM INDIANÁPOLIS

             O Grande Prêmio dos Estados Unidos, disputado domingo passado, foi sem dúvida um dos grandes momentos desta temporada de F-1. Além de marcar a volta da maior categoria automobilística do planeta ao maior mercado consumidor do mundo, o ambiente do autódromo de Indianápolis é único. Foi demais ver os carros da F-1 correrem no mais famoso de todos os autódromos do planeta. Conforme citei na coluna da semana passada, agora, mais do que nunca, Indianápolis pode mesmo dizer que é a “Capital Mundial das Corridas”.

            O público presente nas arquibancadas do Indianápolis Motor Speedway foi impressionante. E muitos torcendo fervorosamente durante toda a corrida pelos seus eleitos na categoria, embora parte dos torcedores ainda tentasse adivinhar qual carro pertencia a qual equipe. Mas, no aspecto geral, a F-1 retornou em grande estilo mesmo aos Estados Unidos.

            A sensação de ver toda a estrutura criada para acomodar a F-1 apenas ampliou a já espetacular estrutura presente neste templo sagrado das corridas. Os pilotos e suas equipes ficaram surpresos com todo o aparato à sua disposição em Indianápolis. Nada foi esquecido, e todo mundo ficou satisfeito.

            Para quem acompanha a categoria, foi uma sensação ímpar ver os carros da F-1 perambularem pelo circuito. O novo traçado misto criado dentro do circuito oval, como era de se esperar, não permitiu muitas áreas de ultrapassagem ideais, dada a configuração aerodinâmica atual dos F-1. Mas, em compensação, a visão dos carros da F-1 percorrendo o trecho do circuito oval foi inesquecível. E com direito a algumas boas disputas de freada na primeira curva, onde tivemos até Jacques Villeneuve escapando por deixar a freada demais para os limites, em sua luta por posição com Heiz-Harald Frentzen.

            Tony George fez um trabalho impecável e, mais uma vez, faz o que muitos consideravam uma loucura, dada a falta de cultura de F-1 pelos norte-americanos. Mas ele conseguiu de novo, e com isso aumenta ainda mais o seu status dentro do automobilismo americano.

            E, para completar, era preciso apresentar alguém que servisse de ídolo à nova geração de torcedores americanos. E Michael Schumacher se encarregou de preencher este papel e sua equipe, a Ferrari, o papel de ícone da categoria.

            Para boa parte dos torcedores, foi a glória. Ferrari é um nome conhecido em qualquer lugar do planeta, e nos EUA, o número de fã clubes dos carros mais famosos do mundo é grande. Boa parte das arquibancadas estavam tomadas por fãs da Ferrari, muitos deles vendo ao vivo e pela primeira vez os míticos carros de F-1 que geraram toda a lenda em torno do nome Ferrari. E a Ferrari venceu em grande estilo: Michael Schumacher venceu, mesmo depois de uma pequena escorregada numa curva, e Rubens Barrichello, depois de um início de corrida pífio, recuperou-se com o decorrer da prova e terminou em 2º lugar, dando à Ferrari a sua 3ª dobradinha no ano e a primeira da escuderia no circuito de Indianápolis, onde nunca havia corrido, nem mesmo na história das 500 Milhas de Indianápolis.

            Schumacher, para completar, ainda fez a pole position no sábado com maestria. O bicampeão alemão conquistou a torcida de Indianápolis, e não se fez de rogado. Assumiu o papel de ídolo da torcida e arrumou uma nova massa de fãs para ele e, por tabela, aumentou ainda mais a legião de fãs da Ferrari, escuderia que é sinônimo de F-1.

            Para os rivais, leia-se McLaren, o dia não podia ser dos mais piores. O time de Ron Dennis foi derrotado por completo em Indianápolis e nem o 5º lugar de David Coulthard serviu de consolo, diante da vitória e dobradinha da Ferrari. David Coulthard foi derrotado por ele próprio, ao queimar a largada e, depois, ter de pagar a tradicional punição por isso. Assim, a corrida do escocês, que tentava fazer jogo de equipe para beneficiar Mika Hakkinen, foi para o brejo, tendo de vir lá de trás, mas sem render o que se poderia esperar de um piloto com uma McLaren nas mãos. Já Mika Hakkinem vinha fazendo o seu papel, vindo implacável no encalço de Michael Schumacher, reduzindo a diferença à razão de 1s por volta, quando seu carro deixou-o na mão com problemas. A expressão de abatimento do piloto finlandês era visível nos boxes.

            Contratando com a decepção da McLaren, a Ferrari era pura euforia. Mais uma vitória no currículo, a 8ª nesta temporada, que já é a melhor temporada de toda a história da Ferrari na F-1, como ainda se inscreve na história do automobilismo americano como a primeira equipe de F-1 a vencer o Grande Prêmio dos Estados Unidos de F-1 no circuito de Indianápolis. Até então, a única equipe de F-1 a vencer em Indianápolis fora a Lótus, com Jim Clark e Graham Hill nos anos 60, mas na prova da Indy 500. Sem dúvida alguma, um dia para se comemorar no automobilismo.

 

 

Com a vitória em Indianápolis, Michael Schumacher ultrapassou Ayrton Senna nas estatísticas de Gps vencidos na F-1: Foi a 42ª vitória do alemão. Mas Schumacher já avisou a todos que sua marca não significa nada diante das conquistas de Senna. “Ayrton teve sua carreira brutalmente encerrada no acidente de Ímola em 94; nunca saberemos quantas vitórias ele ainda poderia conseguir na F-1”, declarou Schumacher. E com razão. Pelo segundo GP consecutivo, quando lhe foi mencionado sobre Senna, mais uma vez o bicampeão alemão reverenciou o piloto brasileiro.

 

 

A F-1 tem boas chances de decidir o título já no Japão. Se Michael Schumacher marcar 2 pontos a mais que Mika Hakkinem no autódromo de Suzuka, garante matematicamente o título da temporada e chegará ao tricampeonato, pondo então, fim ao jejum de mais de 20 anos da Ferrari. Mas a parada da Ferrari deverá ser dura em Suzuka: Hakkinem venceu a prova nos últimos dois anos, mesmo quando a Ferrari parecia ter todas as condições de favortismo. Depois do fiasco de Indianápolis, é bom ninguém duvidar que a escuderia de Ron Dennis chegará ao Oriente disposta a dar tudo o que pode para adiar a luta pelo título. Mas que as coisas ficaram difíceis depois do resultado do último domingo, isso ficou.

 

 

Ponto negativo para a Williams em Indianápolis: anunciou a contratação oficial de Juan Pablo Montoya para 2001 e deixou o piloto colombiano nos boxes, bem aos olhos de Jenson Button, que será substituído no ano que vem. Além da mancada de ética da equipe, Button ainda contribuiu para mais um fim de semana magro da equipe, ao errar na pista e ficar novamente a pé, a exemplo do que aconteceu na Itália.

 

 

Ricardo Zonta fez outra boa corrida em Indianápolis e pontuou pela 2ª vez consecutiva. Parece que, finalmente, a BAR resolveu dar ao piloto brasileiro um equipamento melhor trabalhado. Mas ainda está devendo melhor atenção ao piloto brasileiro, que já está fora dos planos da equipe para 2001.

 

 

A F-CART inicia hoje os treinos oficiais para o GP de Houston, antepenúltima etapa do Mundial da categoria. Nos últimos dois anos, a equipe Green dominou esta corrida, mas este ano a parada está mais dura. Para os pilotos brasileiros Gil de Ferran e Roberto Moreno, a pista é do agrado e significa a oportunidade de abrir maior vantagem na classificação. Os dois ocupam as primeiras colocações do campeonato e pretendem aumentar o máximo possível sua vantagem na pontuação para chegar a Fontana, etapa final, podendo correr apenas por pontos, uma vez que a prova no Califórnia Speedway é considerada praticamente uma loteria. Antes de Fontana, há mais uma etapa em circuito urbano, em Surfer’s Paradise, na Austrália, outro circuito bem ao gosto dos brasileiros.

 

 

A Penske já começa a planejar jogo de equipe para levar Gil de Ferran ao título da categoria. Em Madison, Hélio Castro Neves trocou de posição com Gil na pista, o que deu ao piloto brasileiro mais um ponto na classificação. A maior atenção da equipe é com a performance de Michael Andretti, adversário dos mais perigosos. Roberto Moreno é encarado como ameaça mediata, enquanto Andretti é visto como o maior rival em potencial. Mas a Penske, que não conquista um título desde 94 com Al Unser Jr., não quer descuidar de nenhum detalhe para a prova de Houston e Austrália. Mas a equipe tem dúvidas sobre seu rendimento em Fontana, pois até o momento, nesta temporada, ainda não conseguiu um bom acerto para as pistas ovais.

 

 

Enquanto a Penske se prepara, a Patrick também sonha em repetir o feito de 89, quando foi campeã com Émerson Fittipaldi. Moreno é vice-líder do campeonato e deve ter a preferência do time nas provas finais, apesar de todos na equipe negarem isso. Mas, uma vez que o mexicano Adrian Fernandez está de saída para outro time em 2001, a aposta em Moreno começa a parecer a mais lógica, uma vez que o brasileiro continua firme na Patrick para 2001.

 

 

A Newmann-Hass também quer acabar com o seu jejum. O time venceu o campeonato da CART pela última vez em 93 com Nigel Mansell e agora, pela primeira vez desde aquele ano, está mais perto do que nunca de conseguir novamente o título, e vai concentrar todos os seus esforços em Michael Andretti. E Andretti já mostrou que, se depender dele, os rivais que se preparem, como demonstrou em Madison. Isso, é claro, se o carro não resolver quebrar de novo...

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