E cá estamos de volta com mais um de meus antigos textos, no caso, esta coluna que foi publicada em 22 de setembro de 2000. E o assunto era portentoso: a estréia da F-1 no circuito de Indianápolis, que enfim faria parte pra valer do campeonato mundial da categoria máxima do automobilismo, tendo sido criado um traçado misto dentro da pista oval para receber a competição. E, pela primeira vez, desde o início dos anos 1980, quando a F-1 cativava os fãs dos EUA com a prova em Long Beach, o público voltava a ver a F-1 como algo relevante, embora nunca tenha dado muita falta dela propriamente, nos anos em que ficou ausente, algo diferente dos dias atuais, quando temos novamente 3 corridas por lá, sendo que a pista de Austin, no Texas, já está há mais de uma década recebendo a competição. Tempos bem diferentes da virada do século, quando a F-1 tentava ainda emplacar no país mais rico do mundo... Uma boa leitura a todos, e em breve trago mais textos antigos por aqui...
A F-1 ENFIM, EM INDIANÁPOLIS
O mais famoso de todos os circuitos de corridas dos Estados Unidos finalmente está recebendo a mais famosa categoria automobilística do mundo. A Fórmula 1 está de volta aos EUA, e pela primeira vez de fato em sua história, correrá no famoso Indianapolis Motor Speedway. E todo mundo gostou disso. Não apenas a F-1, como maior campeonato automobilístico mundial, volta a ter uma etapa na maior potência econômica mundial, como um dos maiores templos da velocidade enfim sedia um GP da categoria.
Há muito Bernie Ecclestone queria trazer de volta os Estados Unidos ao calendário. O maior mercado consumidor do mundo ficou alheio à F-1 desde a última corrida disputada neste país, em 1991, em um circuito de rua montado nas ruas de Phoenix, no Estado do Arizona, que sediou a etapa estadunidense por 3 ocasiões: 1989, 1990, e 1991. Verdade que os americanos não sentiram tanto assim a falta da F-1, uma vez que o país conta com grandes competições automobilísticas, a principal delas a Nascar, a Stock Car americana. E, na última década, a Fórmula Indy cresceu muito, a ponto de eclipsar a F-1 para o público americano. Tony George, um dos responsáveis, ao lado de Bernie Ecclestone, pelo retorno da F-1 aos EUA, criou o seu próprio certame, a Indy Racing League, categoria rival da Indy original, atualmente chamada de F-CART, ou Champ Car.
Para tanto, foi construído um traçado misto dentro do famoso oval da capital do Estado de Indiana. Medindo 4,192 Km de extensão, esta pista mista será disputada no sentido oposto às corridas da pista oval. A prova terá 73 voltas, com uma extensão total de 306,01 Km. Parte do circuito oval, em especial a curva 1, parte da curva 2, e a maior parte da reta dos boxes, integram o traçado misto criado para receber a F-1, mas que também poderá receber outras categorias de competição, como a Motovelocidade, por exemplo. A previsão é dobrar o número de corridas sediadas no famoso autódromo, e fazer valer o apelido de Indianápolis de "Capital Mundial das Corridas".
Até poucos anos atrás, o circuito sediava apenas as famosas 500 Milhas, mas passou a sediar também uma das etapas da Nascar, a Brickyard 400. Agora, com a vinda da F-1, e com os planos para vir também a Motovelocidade, o autódromo deverá sediar 4 competições durante o ano.
Indianápolis já fez "parte" do campeonato da F-1. Isso aconteceu na década de 1950. Para dar efetivamente ao campeonato fundado em 1950 o status de "mundial", a corrida das 500 Milhas disputada aqui fazia parte do calendário. Mas era uma participação figurativa: a corrida integrava o calendário, mas não era disputada por nenhum piloto ou time que disputava o campeonato da F-1. E o inverso também era válido: os pilotos que participavam da Indy500 não tomavam parte do campeonato de F-1, disputando efetivamente mesmo só o certame da F-Indy. Isso aconteceu durante 11 anos, de 1950 a 1960. A primeira corrida de F-1 que pode ser chamada realmente de "Grande Prêmio dos Estados Unidos" foi disputada em 1959, no circuito misto de Sebring, em 12 de dezembro de 1959. O primeiro vencedor deste GP foi Bruce McLaren, competindo na época pela Cooper-Climax. Assim, naquele ano, tivemos então "duas" provas do calendário da F-1 nos Estados Unidos: esta, em Sebring, e as 500 Milhas de Indianápolis, realizadas no dia 30 de maio.
Essa situação se repetiria no ano seguinte: teríamos novamente a Indy500, em 30 de maio, e no dia 20 de novembro, o GP dos EUA, agora disputado no circuito de Riverside. Coube a Stirling Moss a vitória nesta corrida, competindo com um Lotus-Climax. A partir de 1961, Indianápolis não mais fez parte do calendário, e os Estados Unidos teriam o seu palco mais duradouro de um GP de F-1, o circuito de Watkins Glen. Esta pista só deixaria o calendário da F-1 em 1980, e Detroit assumiria seu lugar, com um circuito montado nas ruas do centro da capital americana do automóvel. Foi uma pista que não deixou saudades contribuindo para reduzir a popularidade da categoria nos Estados Unidos, que ao mesmo tempo viam a F-Indy e a Nascar como categorias de competição mais acessíveis e disputadas. Detroit sobreviveu até 1988, e Phoenix, em mais um circuito de rua, segurou a corrida por mais 3 anos.
Apreciador de boas disputas, as temporadas de supremacia de uma única escuderia tiravam o interesse do público americano, ao mesmo tempo em que a falta de um nome local carismático também não ajudava: o único nome firme na F-1 era Eddie Cheever, mas como não corria por times de ponta, nem era um gênio da velocidade, tinha poucos resultados a mostrar para cativar o público, que se esvaiu em boa parte após a saída de Mario Andretti da categoria. Para piorar, equipes americanas não davam sorte na F-1: Roger Penske tentou competir nos anos 1970, mas só colecionou dissabores, e voltou-se para a Indy, onde está até hoje, com um time que é a maior escuderia da competição, e que tem boas chances de voltar a ser campeão este ano, com o brasileiro Gil de Ferran. Carl Hass tentou também correr em meados dos anos 1980, mas durou apenas 2 anos, sem bons resultados.
Com a nova pista de Indianápolis, a F-1 ganha uma nova chance de tentar recuperar sua popularidade perante os fãs estadunidenses de corridas. Está no lugar certo para isso. E há fãs por aqui que certamente seguem a categoria máxima do automobilismo, conhecem seus times e seus pilotos, e terão a chance de prestigiar o seu novo palco de GP. Desde a saída de Watkins Glen, em 1980, é a primeira vez que os americanos terão um circuito de verdade para receber a F-1. Não há como negar que as péssimas pistas de rua de Detroit e Phoenix nunca permitiram que a categoria mostrasse tudo o que tem de melhor. Houve ainda tentativas em pistas de rua montadas em Dallas e Las Vegas, mas com resultados muito ruins. E Long Beach, apesar de agradar a todos, resolveu mudar para o campeonato da Indy, em virtude das altas taxas que começavam a ser cobradas para sediar GPs de F-1.
Resta agora saber quem terá a honra de largar na frente na primeira corrida de F-1 a ser disputada nesta pista, bem como quem será o seu primeiro vencedor. A Ferrari, com Michael Schumacher, é a principal favorita, mas a McLaren, com Mika Hakkinem e David Couthard, não podem ser descartados do páreo, e estão decididos a estragar os planos dos ferraristas. A disputa promete, e é chegada a hora dos F-1 cruzarem a famosa Brickyard Line. E que vença o melhor!
A F-1 já teve dias bem melhores nos Estados Unidos. Houve épocas em que o país tinha duas corridas, e até três GPs. Além da corrida tradicional, em 1976 foi criado o GP dos EUA-Oeste, disputado no balneário californiano de Long Beach, em um traçado montado próximo à praia e à marina da cidade. A corrida fez sucesso, sendo disputada até 1983. A prova saiu do calendário porque na época, Bernie Ecclestone, que assumira o comando comercial da F-1, começou a exigir muito mais para se manter a realização da corrida, pelo que os organizadores da prova simplesmente não concordaram e resolveram ingressar na competição da F-Indy, onde a corrida continua sendo disputada até hoje, sendo uma das etapas de maior sucesso e público da categoria. Ecclestone deu uma tremenda bola fora nesta...para azar da F-1.
A F-1 ainda tentou cativar os fãs americanos do meio-oeste. Assim, nas temporadas de 1981, 1982, e 1984, os EUA tiveram 3 GPs de F-1. Em 1981 e 1982, houve o GP de Las Vegas, com resultados pouco promissores. Mas ruim mesmo foi em 1984, quando realizaram uma corrida em Dallas, em uma pista cujo asfalto era tão ruim que começou a desmanchar durante a corrida. Tanto Las Vegas quando Dallas não deixaram saudade nenhuma nos times e pilotos, muito pelo contrário...
Os brasileiros contabilizam 8 vitórias nas corridas de F-1 disputados nos Estados Unidos. Émerson Fittipaldi, com a Lotus, venceu sua primeira corrida de F-1 em 1970, em Watkins Glen, sendo este seu único triunfo na categoria nos EUA. Nélson Piquet venceu a prova em 1984, já em Detroit, com a Brabham. Piquet também venceu a etapa de Long Beach de 1980, conquistando naquele ano seu primeiro triunfo na F-1, com a Brabham. Ayrton Senna foi quem mais venceu esta corrida: começou em 1986, com a Lotus, repetindo a dose em 1987, ainda na Lotus, e em 1988, 1990, e 1991, com a McLaren.
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