sexta-feira, 15 de maio de 2026

ANTONELLI CAMPEÃO?

Andrea Kimi Antonelli venceu a terceira corrida consecutiva na temporada 2026. Pintou o campeão? Ainda não, mas...

            Com quatro provas disputadas, a temporada 2026 da Fórmula 1 registra um caso inesperado: a Mercedes lidera a competição, mas quem lidera o campeonato de pilotos é Andrea Kimi Antonelli, com nada menos que 3 vitórias em 4 corridas até aqui. George Russell venceu a primeira prova, na Austrália, e ocupa a vice-liderança da competição, com 20 pontos a menos que o jovem italiano que faz apenas sua segunda temporada completa na categoria máxima do automobilismo. E aí, alguém crava: Antonelli campeão?

            Não se pode deixar de considerar a possibilidade, o que faria Andrea repetir o feito de outro grande campeão na F-1: Lewis Hamilton, que em sua segunda temporada, conquistou o título em 2008, com a McLaren. Claro, ainda há muito chão pela frente, e se considerarmos apenas as 22 corridas atuais da temporada, estimando que Arábia Saudita e Bahrein não voltem ao calendário, ainda temos 18 corridas até o fim do ano, e o panorama vem se mostrando mais complexo do que apenas imaginar um possível passeio da Mercedes, como se especulava logo no início.

            O modelo W17 ainda é o melhor carro do grid, mas a concorrência, leia-se McLaren, vem chegando perto. O time de Woking levou várias atualizações para Miami, e se não venceu a corrida principal, ainda assim, esteve presente no pódio, e em maioria. Na verdade, não fosse a atuação perfeita de Kimi Antonelli, o time inglês teria saído com duas dobradinhas no fim de semana, já que venceu a corrida sprint no sábado, e Lando Norris chegou bem perto de Antonelli na bandeirada, e Oscar Piastri fechando o pódio. No sábado, Norris venceu com Piastri em 2º. O time papaia parece repetir a escrita de 2024, quando também apresentou novidades em Miami, e a partir dali, seria o time a ser vencido, ainda que Max Verstappen apresentasse forte oposição ainda. A diferença é que a McLaren, se ainda não é o melhor carro, encostou bem na Mercedes, pelo menos o suficiente para bagunçar o favoritismo da equipe de Brackley.

            Depois de um ano irregular em sua temporada de estréia no ano passado, Andrea parece ter se encaixado bem com o carro da Mercedes este ano. É bem verdade que George Russell teve percalços na China e no Japão, e novamente, não esteve isento de problemas em Miami. Mas não é verdade que Kimi tenha feito um passeio livre de problemas como parece ter ocorrido, apesar da forte imagem disso. Em Miami, a McLaren estava forte, mas Antonelli conseguiu a pole-position com categoria, enfrentando a ameaça de ninguém menos que Max Verstappen, que quase partiu da posição de honra. Na largada, novamente o italiano perdeu posições, enquanto rivais como Charles LeClerc continuam saindo muito bem do grid. Mas Andrea se manteve firme, e quando teve a chance nas estratégias de paradas de box, assumiu a liderança, e não a largaria mais. E é importante não esquecer de mencionar que Lando Norris esteve firme na perseguição ao jovem italiano da Mercedes, fazendo com que Andrea não pudesse se descuidar de modo algum. É verdade que o atual campeão do mundo nunca chegou a ameaçar uma ultrapassagem, mas Antonelli se manteve firme sem cometer erros, com um rival que estava muito próximo, e onde cada desleixo certamente seria fatal.

            E, por isso mesmo, o triunfo de Antonelli foi o melhor do ano, porque ele esteve na alça de mira o tempo todo desde que assumiu a liderança, que precisou batalhar para assumir, diante da largada falhada, e da pressão dos adversários. Enquanto isso, George Russell passou pela segunda corrida fora do pódio, e certamente os 20 pontos de desvantagem, se não são um problema, podem muito bem não apenas vir a ser, como se tornarem algo muito mais complicado.

            Em primeiro lugar, porque todo mundo imaginava que o inglês, depois de andar ao nível, e até à frente de Lewis Hamilton nos três anos em que dividiram a Mercedes, teoricamente seria o líder isolado da escuderia alemã na pista. No ano passado, isso foi óbvio e evidente, com Russell capitaneando o time prateado e fazendo uma temporada sólida e firme, diante do protagonismo da McLaren e de Max Verstappen. Claro, Andrea Kimi Antonelli surgia como promessa, mas sua campanha irregular durante o ano de estréia, natural para um novato, mesmo começando em um time de ponta, era vista como de alguém que poderia sim surpreeender, pela aposta que Toto Wolf mostrou no garoto. Por isso, o panorama visto em Melbourne, com a dobradinha da Mercedes, com Russell à frente, era vista como possível panorama geral da temporada. Mesmo o triunfo de Antonelli em Shanghai, o primeiro do garoto, foi vista mais como resultado dos problemas de George Russell do que propriamente à competência e talento do italiano, que sim, fez uma corrida firme e competente, mas calcada na “obrigação”, tendo o melhor carro do grid, o que se confirmou com o 2º lugar de Russell, mesmo diante das dificuldades. Até aí, tudo bem. O argumento não estava correto propriamente, mas também não estava errado. Mas, a partir do Japão, a coisa começava a mudar de ares, com a dupla da McLaren reagindo espantosamente, depois do fiasco visto na prova chinesa, onde a dupla de pilotos nem conseguiu largar com problemas no sistema de energia de ambos os carros. Antonelli conseguiu uma vitória firme, enquanto Russell, novamente com alguns percalços, não foi capaz de garantir a dobradinha. E agora, em Miami, onde a McLaren chegou ainda mais firme, a atuação de Russell foi a pior do ano até aqui. Não é um desastre, mas...

A McLaren venceu a corrida sprint de Miami e fez maioria no pódio da corrida principal. O time de Woking vem se aproximando, e a passos largos...

            Claro que a Mercedes veio em defesa de seu piloto, listando os problemas que o inglês tem enfrentado. Certo, os argumentos têm sua validade, mas da mesma maneira, os elogios à forma como Antonelli venceu a corrida continuam mais do que válidos. E os 20 pontos de vantagem para Russell podem começar a mexer com a cabeça de George, que não imaginava que o italianinho pudesse se tornar um desafio maior do que tudo o que ele esperava. Uma derrota aqui e ali, tudo bem, ainda mais depois que George mediu forças com Lewis Hamilton por três temporadas, onde as reclamações do heptacampeão com as reações do carro, não muito ao seu gosto no estilo do efeito-solo, sempre foram vistas mais como desculpas esfarrapadas por parte de Lewis por parte de seus detratores. Mas, aparentemente, Antonelli está mais à vontade com o modelo W17 do que Russell, portanto...

            Desconforto com o carro não significa que George vai sofrer sempre, e não é garantia de que ele não possa reagir e superar o companheiro de equipe. Mas claro que o efeito psicológico de ter sido superado pelo colega mais novo, e vê-lo abrindo vantagem na classificação certamente vai dar um baque na estima de Russell, que se não se controlar, pode piorar sua situação, vendo o garoto “roubar” o seu protagonismo no time. E aí, entra outro fator que, em tese, não deu em nada, mas sugere que o valor de George para Toto Wolf e a Mercedes poderia não ser tudo isso. No ano passado, quando pipocaram boatos de que Max Verstappen poderia deixar a Red Bull, descontente com as saídas de Adrian Newey e Helmut Marko, a Mercedes foi um dos times especulados que poderiam contar com o holandês. Mas, quem seria o companheiro de Max no time germânico? Curiosamente, as possibilidades de Andrea Kimi Antonelli permanecer, e George Russell ser rifado eram maiores do que o contrário. A princípio, o raciocínio era econômico: Verstappen é um piloto caro, e Antonelli, começando carreira, é barato, ao contrário de George Russell, já “veterano” no time, e que diante dos resultados apresentados diante de Hamilton, teve seu passe valorizado. Ou pensaria estar valorizado, pelo menos dentro da equipe Mercedes.

            Com a Mercedes tendo pela primeira vez desde 2021 um carro capaz de ser campeão, claro que George Russell viu sua oportunidade de sim, disputar o título, talvez até com alguma facilidade, diante do que a Mercedes apresentou na pré-temporada, e principalmente, na primeira corrida. Mas ver Antonelli “desembestar” desta maneira, certamente não era esperada. Não que Andrea não fosse vencer, mas não da maneira como está ocorrendo, com três triunfos consecutivos, e todos eles partindo da pole-position, confirmando que o potencial do modelo W17 ainda é excelente, mas apenas o italiano está conseguindo extrair tudo o que pode, e deve, do bólido. As perspectivas, neste momento, estão invertidas, e de favorito, Russell virou o “azarão” da Mercedes. Pode ser uma situação momentânea, claro, afinal, no ano passado, Lando Norris saiu na frente sobre Oscar Piastri, dentro da McLaren, mas o australiano assumiu as rédeas do time de Woking, e Lando ficou em segundo plano durante a maior parte da temporada, ressurgindo somente na reta final, para ser campeão. Nada impede que aconteça o mesmo dentro da Mercedes. Da mesma forma como Norris pareceu ter entrado em parafuso com a boa fase do colega de time, Russell parece estar vivenciando isso no momento, enquanto Antonelli deita e rola. Mas, até quando? Quando era superado por Lewis Hamilton em disputas duras na pista, Russell reclamava disso, mostrando incômodo, e como se já merecesse ter o status de “número 1” dentro da escuderia alemã. E agora?

George Russell (acima) ficou fora do pódio pelo segundo GP consecutivo, enquanto Andrea Kimi Antonelli segue firme com mais uma vitória (abaixo).


            Podemos ver um duelo fraticida dentro da Mercedes, com um George Russell desesperado para retomar o controle interno no time, e Andrea Kimi Antonelli, que vai ficando cada vez mais confiante e forte na pista? No próprio ano passado, quando o italiano superou Russell algumas vezes, o inglês não escondeu o incômodo, mesmo que isso fosse pontual. E agora, com Andrea tomando uma dianteira que deveria ser de Russell, na classificação do campeonato, com vitórias incontestáveis e firmes na pista? A própria Mercedes já se mexe em outra direção, anunciando que levará para Montreal, na semana que vem, várias atualizações para seu carro, diante da encostada da concorrência, leia-se McLaren, que colocou o time alemão na parede, mostrando que aquela vantagem demonstrada na pré-temporada e na primeira prova do ano já não existe mais, o que demonstra certo nervosismo no time de Brackley, que certamente já esperava pela reação dos rivais, mas talvez não tão cedo. Fora isso, o lance polêmico da taxa de compressão do motor, vetada em atendimento aos concorrentes, mesmo sendo tecnicamente legal, mostra que a Mercedes pode ter sentido o golpe, e por isso mesmo, a dianteira exibida até aqui pode estar comprometida. Não pdemos nos esquecer do início de 2024, quando a Red Bull largou na frente com uma facilidade assustadora, dando a parecer que teríamos um passeio e massacre de Max Verstppen sobre a concorrência, mas que no final, teve sua hegemonia ameaçada seriamente quando a McLaren veio para cima.

            A McLaren veio, e mesmo que ainda não tenha vencido, a pressão já está lá, e isso pode ser arriscado. Antonelli até aqui vem surpreendendo, e Russell, decepcionando, mas nada está perdido, ainda. George tem tudo para colocar a cabeça no lugar, e retomar o controle da situação, só não dá para esperar que Antonelli fique parado, aceitando voltar para sua condição submissa dentro da escuderia germânica. A sorte, se é que se pode dizer isso, é que a situação também tende a ficar tensa dentro da própria McLaren, pois Oscar Piastri não engoliu a perda do título no ano passado, e muito menos do vice-campeonato que Max Verstappen conseguiu. Por enquanto, Lando Norris vem conseguindo comandar a McLaren na pista, mas não se surpreendam se Piatri mais uma vez botar as manguinhas de fora e bagunçar a disputa dentro da McLaren, situação que poderia favorecer, e muito, a Mercedes, se o time alemão não vivesse drama similar dentro de suas próprias garagens.

            Assim, a pressão sobre a Mercedes no campeonato tende a aumentar, e se George Russell já está perdendo o rebolado, torna-se ainda mais urgente que ele recupere o rumo, se não quiser que seu time, acossado por um adversário que pode ser muito forte, resolva fazer opção pela opção de Antonelli para a primazia de disputa do título. Ainda é cedo para tal escolha, mas para todas as opções em vista, George tem que reagir. Resta saber se Antonelli vai ficar cada vez mais forte a cada resultado mais positivo do que o do parceiro de time, ou se ele vai desandar também em algum momento, caso a pressão aumente, e ele sinta então o peso da liderança do campeonato...

            Mas, não se pode deixar de aventar também a possibilidade de Andrea chegar ao título. Já imaginaram o feito? Depende dele, e claro, da Mercedes, de ambos não marcarem bobeira, mas também se Russell continuar tendo seus desaires e foco disperso. Difícil pode ser... Impossível, nem tanto... O que irá acontecer de fato? Há chances reais de termos mais um novo campeão na F-1, fica apenas a dúvida de quem será ele...

 

 

Além da McLaren, quem parece mostrar as garras é a Red Bull. Max Verstappen brigou fundo pela pole em Miami, perdendo por pouco para o desempenho de Antonelli no Q3. Não fosse a rodada logo no início, que comprometeu parcialmente a corrida do holandês. Max chegou apenas em 5º, a quase 50s do vencedor Antonelli, é verdade, o que indica que o ritmo de corrida do carro da Red Bull ainda não é o mais entusiasmante, mas sua sorte poderia ter sido diferente, se não para brigar pela vitória, para chegar mais à frente. Se não é a redenção da Red Bull na competição, já é um indício de melhora, porque a nova unidade de potência Red Bull/Ford parece ser a segunda melhor do grid. Se eles conseguirem melhorar o RB22, Verstappen vem para cima, e o discurso do holandês, até então pessimista, começa a mudar de tom, o que indica que pode vir perigo potencial por aí, se a escuderia dos energéticos acertar de fato a mão. Resta saber se não foi um resultado pontual devido às particularidades da pista da Flórida, também...

 

 

A Audi viveu seu pior fim de semana no ano em Miami. Nico Hulkenberg nem largou na prova sprint, quando seu carro encrencou antes mesmo de alinhar no grid. E. na corrida principal, o alemão foi de novo a nocaute após apenas 7 voltas. Nas classificações, Nico até que foi bem, dando esperanças de um resultado mais positivo para o time, mas Gabriel Bortoleto já viveu o inferno ao não conseguir se classificação propriamente para a corrida principal, só não saindo em último pelas punições a outros pilotos. A confiabilidade do carro alemão virou o ponto fraco do time em Miami, e eles sabem que isso literalmente implodiu as chances de seus pilotos, que não conseguiram satisfações no fim de semana. Por outro lado, o time resolveu uma situação que tinha tudo para bagunçar sua coesão interna, que foi a saída de Jonathan Weatley, cujo cargo agora foi ocupado por Allan McNish, ex-piloto e profissional com larga história dentro da própria Audi, que começou suas atribuições em Miami, e agora deve começar a trazer resultados desta nova abordagem da marca na F-1. Isso deve trazer um pouco mais de tranquilidade dentro da escuderia, e facilitar os trabalhos da escuderia na resolução dos problemas apresentados até aqui... Porque eles mesmos sabem que o sarrafo tende a ficar mais duro daqui em diante, caso os rivais consigam resolver seus problemas, e eles acabem ficando estacionados. Até a Williams já conseguiu passar à frente, então o risco não é descabido...

A Audi sofreu bastante com a fiabilidade de seus carros em Miami, para frustração de seus pilotos...

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