
A Fórmula 1 encerrou a pré-temporada hoje com os últimos testes no Bahrein, e com vários pilotos não gostando do modo como precisarão gerenciar os novos sistemas de energia das unidades de potência.
A Fórmula 1 encerrou a
pré-temporada hoje com o último dia de testes em Sakhir, no Bahrein, e se é
verdade que tivemos uma pré-temporada enfim minimamente digna do nome, em
comparação com o que vimos em anos recentes, com ridículos 3 dias de testes
apenas, não podemos dizer que os times saíram plenamente satisfeitos com o
tempo de pista que tiveram à disposição.
A mudança de regulamento para esta temporada foi uma desculpa mais do que razoável para a ampliação do número de dias de testes, que totalizou 9 dias no total para todo mundo, algo muito mais plausível e aceitável do que mirradas pré-temporadas das últimas temporadas, que nem mereciam ser chamadas assim, de tão ridículas que foram em se tratando de tempo de pista, ainda mais com a regra ainda mais imbecil de cada time treinar com apenas um carro de cada vez na pista…
Só que as novidades do regulamento deste ano ainda inspira certos cuidados. Alguns times saíram mais satisfeitos que outros da pré-temporada, do que outros, mas um consenso é que todo mundo queria ter feito mais, mesmo aqueles que tiveram menos problemas, porque os testes servem justamente para isso: conferir se tudo funciona, e mais importante, como carro e pilotos estarão em termos de performance, em que pese a relação de forças na pista, se parece clara, ainda tem variáveis sobre o que cada escuderia conseguiu esconder de seu real potencial, ou não.
Mas o que também rendeu esta semana foi reclamação de algumas regras, em especial sobre o novo sistema elétrico das unidades híbridas que potência, que ao terem sua parte elétrica ampliada consideravelmente, a ponto de termos metade da potência distribuída entre o motor V-6 turbo propriamente, e o sistema de energia, tiveram percalços claros na pista, e os pilotos sentiram que o problema de gerenciamento da parte elétrica vai ser um pouco complicado.
Max Verstappen soltou o verbo sobre a necessidade de conservação de energia ser particularmente ridícula, alegando que isso obriga os pilotos literalmente a “tirar o pé” em plena reta, sob ameaça de esgotar a potência elétrica antes da hora, e ainda disparou algumas farpas em direção à Formula-E, categoria de carros monopostos totalmente elétricos, onde o piloto precisa saber como conservar energia e como atacar, chegando a provocar algumas reações de pilotos e da diretoria do certame elétrico. Após uma conversa com Stefano Domenicalli, Verstappen deu uma pequena abrandada nas críticas, mas ele não está totalmente errado sobre a insatisfação dos pilotos em ter que andar com luva de pelica neste assunto da pilotagem, a ponto de a própria FIA admitir que o sistema “não está perfeito”, e que pode introduzir mudanças, dependendo do feedback dos pilotos, procurando corrigir eventuais erros e problemas que podem surgir. Uma abordagem de recuo importante, ainda mais porque, além das reclamações virem dos mais importantes pilotos do grid, Max Verstappen, Lewis Hamilton e Fernando Alonso, também contou com mais expoentes denunciando o desconforto com esse tipo de procedimento que será necessário ter para com as novas unidades de potência, em especial. Além dos problemas do gerenciamento de energia nas retas, aventou-se para eventuais problemas que o novo sistema pode ter nas largadas dos GPs, momentos de uso máximo da tração, onde falhas do sistema poderiam ser perigosas, diante da proximidade de todos os carros, sendo que, se um deles falhar o arranque, isso pode resultar em um acidente de grandes proporções se o pior vier a ocorrer. Felizmente, as simulações de largada feitas em Sakhir aparentemente não mostraram problemas neste sentido, mas sempre é bom ver todas as possibilidades pertinentes.
A FIA, claro, procura
defender o seu lado e a sua versão dos acontecimentos, chegando a admitir que,
nas simulações feitas no ano passado, parte destes problemas foram previstos,
mas que, nos testes de pista realizados nesta pré-temporada, os problemas foram
menores do que os esperados, de acordo com os dados das simulações feitas
inicialmente. Domenicalli, presidente da Liberty Media, alegou que 90% do
regulamento está perfeitamente afinado, restando conferir, e se necessário
corrigir, os 10% restantes, alegando que uma posição mais real a respeito do
assunto só poderá ser tomada após o GP da Austrália, prova que abre a
temporada, e provavelmente implantada somente a partir do GP da China, diante
do tempo necessário para as mudanças eventualmente necessárias.
A postura procura mostrar prudência e compreensão, sob a afirmação de que ninguém sabe ainda como será uma corrida sob o novo regulamento, e que os testes da pré-temporada não permitem uma observação precisa a respeito disso. Se até aqui o argumento soa lógico e correto, porém, o que se segue é tentar tapar o sol com a peneira, com Domenicalli “estranhando” tanto alarde e prometendo que teremos corridas incríveis este ano sob as novas regras. Ele doura a pílula sem saber efetivamente o que acontecerá, e neste aspecto, por mais lógicas que sejam algumas argumentações, são os pilotos que podem passar o que sentem na pista, e o que pode funcionar ou não. E alguns já avisam que as ultrapassagens ficarão bem mais complicadas este ano, diante das novas normas. Quem detestava o DRS, segundo eles, vão sentir saudades do dispositivo, que infelizmente surgiu como uma alternativa às dificuldades crescentes dos bólidos em serem ultrapassados na pista, diante da erodinâmica cada vez mais refinada, e da padronização cada vez maior das unidades de potência.
É compreensível que os pilotos fiquem frustrados de não poderem acelerar a fundo como gostariam, e sendo a F-1 a categoria automobilística mais importante do planeta, ter que ficar mais preocupado com a conservação do equipamento chega a ser frustrante, e os pilotos se ressentem de não poderem extrair a fundo tudo o que podem dos carros, e os fãs, claro, sem saberem qual é performance máxima de um bólido da competição. Toda mudança de regulamento tem seus prós e contras, e infelizmente, muitas vezes a F-1 tem mania de mudar tudo em tempo considerado relativamente curto, às vezes, curto até demais para o gosto das equipes, precisando se adaptar a novas normativas técnicas que drenam recursos que poderiam ser melhor calibrados para melhorar suas performances propriamente.
Foi assim com a mudança para trazer de volta o efeito-solo em 2022, e agora, em 2026, apenas 4 campeonatos depois, a F-1 muda novamente a concepção técnica dos carros. O efeito-solo ainda está lá, os carros ficaram ligeiramente menos (pouco, claro) e as novas regras das unidades de potência só não são traumáticas porque o regulamento anterior datava de 2014, ou seja, há foi utilizado por 12 temporadas, um período de tempo relativamente mais duradouro. Em tese, as mudanças são para melhorar a competição, e promover a melhoria do espetáculo na pista, mas entre metas e realidade, esta infelizmente costuma apresentar algumas surpresas nada agradáveis.
Por exemplo, em 2022, a mudança tinha, além do detalhe de melhorar a competição tornando os carros menos dependentes da aerodinâmica, e facilitar as ultrapassagens, interromper também o domínio acachapante da Mercedes na categoria desde 2014. O que conseguiram foi substituir o domínio da Mercedes pelo da Red Bull, que deitou e rolou com Max Verstappen neste quadriênio, com o holandês sendo derrotado somente no ano passado pela McLaren, e mesmo assim, por pouco. A melhoria da competição nunca veio de fato, além de criar certos problemas para os outros times em replicar o sucesso do time dos energéticos.
Já com relação à “limitação” do acelerador, para precisar gerenciar e conservar energia elétrica, precisamos ser coerentes em afirmar que, há muito tempo, a F-1 não se baseia apenas em velocidade pura, mas também no talento que cada piloto precisa ter em saber gerenciar seu equipamento, ainda que, sob os regulamentos atuais, o índice de quebras seja ínfimo hoje em dia, comparado com o passado. Mas um detalhe interessante a respeito do ritmo a fundo na corrida tem paralelo com regras visando dificultar justamente a vida dos pilotos “pé de chumbo” antigamente. Nos anos 1980, por exemplo, houve diminuição no tamanho permitir dos tanques de combustível, com o propósito de melhorar a eficiência dos motores, e privilegiar pilotos que conseguissem ser rápidos sem sacrificar o carro, o que exigia um talento muito mais refinado e restrito. A lógica era clara: quem insistia em pilotar sempre com o pé no fundo poderia sofrer uma “pane seca” e ficar pelo caminho nas voltas finais por gastar todo o combustível permitido, enquanto quem sabia ser saído e ainda assim economizar combustível quase sempre vencia a parada, com raras exceções. Mesmo quando o tanque de combustível não tinha limitações, quem largada mais pesado tinha que arcar com o carro teoricamente mais lento no início das provas por causa do peso maior da gasolina, o que podia forçar mais a estrutura do carro, ocasionando quebras potenciais, além de deixar o monoposto potencialmente mais lento na fase inicial dos GPs.
A crítica de Max Verstappen, chegando até a sugerir que a F-1 se “livrasse das baterias”, é compreensível, porém inviável, em um momento onde a grandiosidade da categoria máxima do automobilismo se deve à participação das grandes montadoras mundiais, que só estão lá porque a motorização híbrida é um ponto em comum de atratividade nos mercados onde todas elas atuam, sendo que algumas estão também comprometidas com a eletrificação total, e assim, atuam na categoria própria para isso, a Formula-E. As montadoras não investiriam o que investem atualmente se a tecnologia dos propulsores não atendesse ao objetivo de ajudar a melhorar suas unidades dos carros de rua, ajudando a manter, ainda que em menores dimensões, o papel da F-1 de “laboratório das pistas”, onde a adoção de combustíveis sintéticos, mais ecologicamente corretos, também desempenha papel importante, ainda que as corridas tenham um histórico de queima de combustíveis fósseis que mais as jogam no banco dos réus do que na condição de “mocinhos” da história.
Assim sendo, mesmo com todos os dados técnicos, simuladores cada vez mais avançados e impressionantes, ainda há muito o que somente uma corrida real é capaz de proporcionar, e o GP da Austrália, e logo em seguida, o do Japão, devem ser mais do que suficientes para que a F-1 consiga verificar se as novas regras técnicas servirão para melhorar de fato a qualidade do show, e principalmente, das corridas. Todos clamam por mais competição, mais equilíbrio, mais emoção, mas é preciso oferecer regras claras, e acima de tudo, evitar picuinhas que prejudiquem a competição. Um exemplo claro é a “brecha” envolvendo os propulsores da Mercedes, que exploraram uma área do regulamento que permitia interpretações mais flexíveis, e agora, os rivais querem acabar com isso, quando a Mercedes apenas foi mais inteligente e competente, e agora, isso corre o risco de fornecer mais uma oportunidade para mostrar como a FIA se embana sozinha querendo regulamentos cada vez mais restritos, e onde a competência, originalidade, e criatividade, acabam sendo “podadas” em detrimento da concorrência que não soube demonstrar conseguir ter a mesma eficiência. Desde sempre o mote da engenharia da F-1 é “burlar” as regras sem infringi-las, mas que atualmente toda sacada genial que algum time consegue descobrir ou desenvolver tem sido expurgada sem razões adequadas que justifiquem isso, ou simplesmente quando a solução é tão engenhosa que os rivais, ao invés de trabalharem melhor, usam da política para sabotarem o adversário que conseguiu ser mais criativo e inteligente.
Há razões plausíveis para se temer que as novas regras não sejam tão boas quando prometeram em termos de resultados. Resta saber, claro, quanto das expectativas serão de fato justificadas, e o que será necessário corrigir, aventados os problemas resultantes desse novo conjunto de regras técnicas adotadas a partir deste ano. E, claro, vermos como a F-1 realmente se comportará neste momento, se saberá ouvir de fato times e pilotos, o que muitas vezes costuma não fazer da maneira certa, porque, do alto da arrogância que costuma ter, muitas vezes apenas tenta empurrar o problema com a barriga, ou simplesmente trabalhar em resoluções inócuas e inadequadas. Rezo para que os problemas, se surgirem, sejam devidamente encarados e enfrentados da melhor maneira possível, fazendo deste aprendizado um ponto útil e eficaz para que a categoria aprenda como resolver os problemas da melhor maneira possível, e possa apresentar as melhorias tão alardeadas.
Porque, infelizmente, o histórico da F-1 em apresentar problemas, e suas soluções resultarem em mais problemas, não é nada difícil de se repetir, mais uma vez…
Charles LeClerc encerrou a pré-temporada hoje com o melhor tempo de todos os testes em Sakhir, com o tempo de 1min31s992, além de ter rodado cerca de 130 voltas na pista, confirmando que a Ferrari parece vir mesmo forte para a temporada deste ano, e pelo menos, com melhores chances do que o visto no ano passado. Mas claro que ninguém está cravando o favoritismo descarado dos italianos, porque ainda não se pode subestimar a concorrência, nem mesmo o fato de Lando Norris, o atual campeão, ter terminado este último dia com o segundo lugar, e um tempo quase 0s9 mais alto que o monegasco da Ferrari. Mas todo mundo parece concordar que o bloco formado por Ferrari, Red Bull, McLaren, e Mercedes, ocupam as posições de destaque, com o restante brigando pelo pelotão intermediário, com exceção de Cadillac e Aston Martin, que ocupam a rabeira neste presente momento.
A Aston Martin, então, teve uma atuação pífia hoje, com Lance Stroll completando míseras 6 voltas antes de recolher aos boxes com problemas, e depois o time comunicar que estavam encerrando as atividades de pista e já se preparando para voltarem à fábrica, em Silverstone. O argumento é de iniciarem a preparação para a primeira corrida, na Austrália, mas a verdade é que vai ser uma semana complicada na sede da escuderia inglesa, que até agora não conseguiu resultados convincentes nem do carro, e nem do novo propulsor da Honda. Pilotos já parecem se conformar que a temporada vai ser mesmo complicada, e que melhoras significativas só virão na segunda metade da temporada, e isso se mais nada aparecer. Todo mundo estava na expectativa do que Adrian Newey poderia realizar no seu novo time, depois de praticamente 20 anos desenhando os carros da Red Bull que conquistaram oito títulos de pilotos com Sebastian Vettel e Max Verstappen, e agora, parece que o caminho rumo ao esperado sucesso do novo carro da Aston Martin e de Newey vai ter pedras mais consideráveis pelo caminho...
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| Muitos problemas na Aston Martin não permitiram a Fernando Alonso andar tanto quanto gostaria. A equipe vai ter muito trabalho até acertar o ritmo e a fiabilidade... |




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