sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

MOTOGP – PRIMEIROS PASSOS DE 2026

MotoGP iniciou os testes da pré-temporada, e Marc Márquez deve renovar até 2028 com a Ducati de fábrica.

            A classe rainha do motociclismo iniciou seus preparativos de pista para a temporada deste ano, e muita coisa andou rolando dentro, e especialmente fora da pista, embora estas últimas movimentações tenham sido as mais impactantes até agora. Na pista, times e pilotos procuraram efetuar todos os trabalhos possíveis, visando a preparação para a nova temporada, procurando, claro, romper o domínio da Ducati, campeã nas últimas temporadas, praticamente sem oposição à altura dos concorrentes.

            A temporada de 2026 promete manter a Ducati à frente, com a marca de Borgo Panigale decidida a manter o seu domínio na competição, mas a dúvida é de quão grande será a sua vantagem? No ano passado, Marc Márquez conquistou o título com um pé nas costas, sem que os rivais conseguissem mostrar resistência ao desempenho da “Formiga Atômica” de volta ao seu auge e à forma demolidora com que arrasava seus rivais, ainda que em algumas corridas ele não tenha sido tão dominante como a temporada sugere pelos resultados e vitórias. Mas, testes são testes, e corridas são corridas. Por mais promissores que sejam os resultados, é quando a temporada começar que iremos descobrir quem é quem de fato na competição, quem irá brigar por título, e quem terá problemas.

            Neste ponto, a Ducati parece de fato pronta para mais um ano de domínio, mas como mencionei, não há como mensurar ainda de quanto será a vantagem que eles disporão na pista, ou mesmo se haverá uma vantagem. A Aprilia cresceu bastante na reta final de 2025, e se eles tiverem feito um bom trabalho, a marca de Noale poderá enfim vir a ser uma oponente considerável para sua compatriota Ducati. Resta saber se eles terão condições de brigar por toda a temporada, e lutar efetivamente pelo título, ou se, no máximo, tornarão uma nova conquista bem mais difícil. O ambiente é de otimismo, mas também de cautela, porque efetivamente ninguém sabe direito a força do adversário. Mas há quem garanta que a nova GP26, a mais nova Desmosédici, é ainda melhor do que a GP25 do ano passado, e só o fato de Francesco Bagnaia elogiar o comportamento da nova moto é um indicativo poderoso da qualidade do equipamento, especialmente se levarmos em conta como “Pecco” não se encontrou com a moto de 2025 e fez sua temporada mais fraca na MotoGP. Um mau sinal em potencial para as rivais, especialmente a compatriota Aprilia, que quer tentar dar o bote em cima da rival italiana, mais do que nunca.

            A KTM parece ter conseguido se aprumar melhor para 2026. O ano passado foi marcado por muitas instabilidades diante da situação financeira complicada da KTM em si, o que afetou sobremaneira a divisão de competições, que não pode desenvolver seu equipamento da forma como gostaria, ainda mais com a companhia matriz estando em situação quase pré-falimentar, o que deixou em dúvida se o envolvimento com a MotoGP seria mantido, apesar das confirmações de que eles continuariam presentes na competição.

Situações distintas na Aprilia: Marco Bezzecchi (acima) renovou até 2028 com o time de fábrica italiano, enquanto Jorge Martin (abaixo) preferiu não esperar para ver, e vai defender a Yamaha em 2027.


            E, claro, temos Honda e Yamaha brigando para voltar aos bons tempos. A marca da asa dourada até conseguiu impressionar com bons tempos, confirmando os sinais de evolução vistos no ano passado, mas resta saber se estará pronta para brigar por vitórias como antigamente, ou seu desempenho será mais ocasional. Pelo lado do time dos três diapasões, o clima andou mais carregado, diante de problemas com os novos motores V4 adotados pela marca de Hamamatsu, procurando eliminar a defasagem técnica para os demais propulsores do grid da classe rainha, um problema que já vem de longa data, mas que havia sido mitigado pela agilidade da moto nipônica em alguns momentos, como em 2021, quando Fabio Quartararo deu o último título à marca, e até apresentou notável resistência ao avanço implacável da Ducati em 2022, mas dali em diante, os rivais evoluíram, e a Yamaha perdeu todos os seus trunfos, e agora corre contra o tempo para recuperar o prestígio perdido.

            A Honda, por sua vez, virou praticamente figurante na competição depois que perdeu Marc Márquez no início da temporada de 2020, quando o hexacampeão se acidentou logo na primeira etapa e passou a viver um calvário pessoal que só foi encerrado em 2024. Mas a Honda tinha ficado extremamente dependente do espanhol, apostando em uma moto que só ele conseguia dominar, apesar das reclamações dos demais pilotos da marca, e quando ficou sem seu maior trunfo, a Honda desmoronou, precisando reencontrar o seu caminho, e parece que só agora dá sinais de que parece ter achado a trilha certa.

            Claro que os testes tiveram de tudo um pouco, com alguns dos pilotos levando os costumeiros tombos, e alguns, como Fabio Quartararo tvendo mais azar e sofrendo fraturas que, embora não muito graves, prejudicaram sua participação nos testes. Mas a pré-temporada serve para isso mesmo, testar tudo o que há para ser testado, conhecer as novas versões das motos, ou os aprimoramentos desenvolvidos nas motos existentes, bem como para os novos pilotos que trocaram de equipe se familiarizarem com seus novos times e equipamentos. Mas, mesmo diante das atividades de pista, tivemos também vários anúncios de pilotos visando já a temporada de 2027, quando a de 2026 nem começou propriamente.

            Começamos por Jorge Martin, que certamente não tem saudades de 2025. O piloto espanhol, campeão de 2024, o primeiro a realizar o feito por um time satélite (Pramac) e não de fábrica na era atual da MotoGP, se acidentou logo no primeiro dia da pré-temporada do ano passado, e aquele seria apenas um dos vários percalços que sofreria ao longo do ano, e que não terminaram com o fim da temporada de 2025. Martin precisou passar por nova cirurgia, para correção de sequelas dos acidentes sofridos ao longo do ano, e com isso, praticamente já perdeu esta semana de testes na Malásia, o que é um novo revés na carreira. Embora ele diga que está quase 100%, e pronto para retornar, a verdade é que Jorge não perdeu tempo em se preparar, pelo menos para 2027. Sim, Jorge anunciou que irá defender a Yamaha na temporada do ano que vem, mostrando que pretende, desta vez, encerrar mesmo o seu compromisso com a Aprilia, o que ele até tentou para este ano, mas o time prometeu levá-lo aos tribunais para fazer valer seus direitos, e com razão.

            Mas com o fim de seu contrato ao fim deste ano, Martin estava livre para o próximo ano, mas ao invés de tentar confiar no que a Aprilia pode oferecer, dando um voto de confiança à escuderia, preferiu já pular fora do barco italiano e embarcar na aventura com os japoneses do time oficial da marca dos três diapasões. Martin, com isso, não poderá reclamar se a Aprilia preferir concentrar suas forças em Marco Bezzecchi na temporada, o que pode deixar o espanhol em segundo plano na preparação do equipamento.

Dois campeões de mudança: Francesco Bagnaia (acima) pode ser rifado na Ducati de fábrica para 2027, enquanto Fabio Quartararo (abaixo) deve se mudar para o time de fábrica da Honda na próxima temporada, deixando a Yamaha.


            Não por coincidência, Bezzecchi já teve seu contrato renovado com a casa de Noale, merecidamente. Afinal, se por um lado Jorge Martin tinha se acidentado, enquanto o espanhol chegou a tentar romper seu contrato com o time para 2026, Marco trabalhou duro na pista, chegou a vencer corridas, e terminou o ano em alta, mostrando uma Aprilia forte como não se viu nos últimos anos. O posto que, em teoria, seria ocupado por Martin, como campeão do mundo de 2024, acabou surrupiado por Bezzecchi, que assumiu a postura que Jorge deveria ter tido, mas não teve, e não apenas pelos acidentes que sofreu. Com isso, a Aprilia recompensa a dedicação e esforço do italiano, com uma merecida extensão de contrato para 2027 e 2028, e que claramente fará dele o líder do time na pista. E talvez por isso, Martin tenha decidido pular fora, por perder uma posição que poderia considerar ser dele, sem nem menos tentar se redimir junto à escuderia italiana este ano, depois dos desaires de 2025.

            A Yamaha, aliás, usa a chegada de Jorge Martin para compensar a perda de Fabio Quartararo, que já foi comunicado que irá para o time oficial da Honda no próximo ano. A contratação do campeão mundial de 2021 ainda não foi oficializada pelo time da asa dourada, mas é inegável que seria um golpe tremendo na moral da rival Yamaha, com quem a Honda se digladiou por anos na pista em tempos ainda recentes. Quartararo já andava impaciente com a falta de progressos mais visíveis da Yamaha há dois anos, sempre ameaçando cair fora, mas parece que a paciência do piloto francês finalmente acabou, e ele seguirá por outras paragens no próximo campeonato.

            Mas se a Yamaha está trocando um campeão mundial por outro, o que dizer então de “Pecco” Bagnaia na Ducati? Qual será o seu destino? O bicampeão de 2022 e 2023, e vice-campeão de 2024, já estaria fora do time oficial da Ducati para 2027, pelo que se comenta. Teria sido anunciada a contratação da revelação Pedro Acosta, atualmente no time de fábrica da KTM, para correr pela Ducati para o próximo ano, e com Marc Márquez em renovação para 2027 e 2028 praticamente confirmada, fica a dúvida se o lance de Acosta ser o novo companheiro do heptacampeão no time oficial de fábrica se materializará ou não, o que significaria o fim da linha para “Pecco”, pelo menos no time principal de Borgo Panigale.

            Não há como negar que a péssima temporada de 2025 de Bagnaia ajudou a diminuir a consideração da Ducati pelo piloto, que até então tinha as maiores credenciais da história da marca para permanecer firme no time de fábrica, afinal, ele foi bicampeão com a Desmosédici por dois campeonatos. Por outro lado, a Ducati contratar Pedro Acosta não significa que ele certamente irá defender o time de fábrica, o que sugere que, dependendo da situação, ele poderia ser “emprestado” a um dos times satélites da marca. Mas para isso acontecer, “Pecco” precisa arrasar este ano na pista, recuperando sua imagem junto ao time, e mostrando que ainda é o piloto que levou a marca italiana a dois títulos mundiais, superando o feito de Casey Stoner muitos anos antes. Mas outra temporada abaixo da crítica será fatal para a continuidade de Bagnaia no time de fábrica. Basta lembrar que Enea Bastianini também estava no time oficial em 2023, depois da excelente campanha em 2022 pela Gresini. Mas Enea se acidentou logo na primeira corrida, e isso comprometeu toda a sua temporada no time principal, que ainda assim, honrou o seu contrato e o manteve para 2024, onde infelizmente, mesmo recuperado, Bastianini infelizmente não rendeu o suficiente, e acabou dispensado, indo parar no time satélite da KTM, a Tech3. “Pecco” pode ter destino semelhante, se não conseguir se redimir este ano, e ver seu lugar ser oferecido a Acosta. Por outro lado, Acosta defende atualmente um time de fábrica, a KTM, e ele certamente não iria para Borgo Panigale para ser alocado em um time satélite da marca, mas para correr pelo time de fábrica, o que realmente coloca a situação do bicampeão italiano na berlinda, quando a temporada de 2026 ainda nem começou.

            E, confirmada realmente sua saída, para onde Bagnaia iria? A VR46 seria uma das opções, já que “Pecco” é praticamente cria da academia de pilotos de Valentino Rossi, dono da VR46, que inclusive conta com uma moto do ano para um de seus pilotos. Ou até mesmo a Gresini poderia ser uma opção. Álex Márquez foi vice-campeão com a Gresini no ano passado, e com todos os méritos, chegando a ganhar uma moto oficial do ano para esta temporada, em reconhecimento ao bom trabalho desempenhado. E o mais novo dos irmãos Márquez já parece sonhar em defender um time de fábrica no ano que vem, o que poderia abrir uma vaga mais do que interessante para receber Bagnaia no caso do bicampeão ser dispensado do time oficial. “Pecco” poderia continuar com a moto oficial do ano, a exemplo do que Álex terá, como possível compensação, o que não seria ruim, mas é bem verdade que, mesmo assim, seria um retrocesso na carreira cair para um time satélite depois das conquistas realizadas no time oficial de fábrica. Por isso mesmo, urge ao italiano fazer uma temporada ao nível das que resultaram em seus títulos, se ele quiser potencializar suas opções de mercado, inevitáveis ou não.

            E como será o panorama da MotoGP em 2027? Ninguém sabe exatamente. A classe rainha do motociclismo terá novas regras técnicas, entre elas os novos motores de 850cc, em substituição aos atuais propulsores de 1.000cc. Tudo isso pinta um quadro de incerteza para o próximo ano, onde possivelmente a relação de forças na competição pode sofrer mudanças consideráveis. Para este ano, a Ducati deve continuar sendo a grande favorito, mas a Aprilia promete desafiar o poderio de sua compatriota, enquanto KTM e Honda, e a própria Yamaha, prometem melhorias em seus novos protótipos, com o objetivo de pelo menos não tomarem outra lavada das motos italianas que vem sendo campeãs incontestáveis desde 2022 na competição.

            Mas as novas regras técnicas podem embaralhar fortemente o equilíbrio do grid no próximo ano, de modo que até mesmo Yamaha e Honda, se trabalharem direito, podem voltar a ocupar posição de disputar vitórias e título, da mesma forma que isso não significará necessariamente que a Ducati deixará de ser uma força, ou que a Aprilia não possa ficar mais forte, mas pode oferecer uma boa oportunidade de mais disputas e competição. Por isso mesmo, certas apostas, como a de Jorge Martin, tentando a Yamaha sem nem esperar para ver a condição da Aprilia este ano, podem fazer sentido. Jorge Martin tenta capitalizar o seu título de 2024 enquanto ainda pode, uma vez que o passar do tempo, e a temporada atribulada do ano passado, fora os enroscos que teve com a direção da Aprilia, podem comprometer sua capacidade de negociação para posição mais atrativas em times mais competitivos. Da mesma forma, Fabio Quartararo, sem expectativas de melhora efetiva na Yamaha, resolver se arriscar na Honda, que parece oferecer condições um pouco mais esperançosas, também são razoavelmente coerentes.

            Mas, a bem da verdade, não dá para apontar mesmo quem estará bem, e quem não estará tão bem em 2027, de modo que estes movimentos são o que são: apostas. Algumas se pagarão, outras talvez não. Os pilotos preferiram se mexer enquanto as opções ainda são mais interessantes do que esperar para ver se seus times atuais ainda proporcionarão mais satisfações do que decepções, ou talvez não, quem sabe? Resta ver quem poderá se arrepender ou não da decisão...

 

 

Estreante na MotoGP, Diogo Moreira pode não ter aparecido em posições destacadas nas tabelas de tempos até aqui, mas a direção da equipe LCR, e a própria divisão da HRC, braço esportivo da Honda, estão mais do que satisfeitos com o trabalho desempenhado pelo brasileiro até aqui. Diogo chegou a cair com a moto, mas não perdeu o bom humor, dizendo-se “batizado” na classe rainha, onde todos que buscam os melhores tempos sempre acabam no chão em algum momento. Mas a equipe se impressionou com a sensibilidade de Diogo, sendo muito preciso com o feedback técnico dos trabalhos desenvolvidos, dando sempre respostas objetivas aos questionamentos dos engenheiros sobre o comportamento da moto. E isso é um ponto positivo para o brasileiro, que se destaca pelo feeling que consegue apresentar, algo muito importante para os engenheiros e mecânicos avaliarem o desempenho e as reações do protótipo. Diogo foi contratado pela Honda, em um acordo de três anos, e obviamente, faz sua estréia pela LCR, time satélite da Honda, com a chance de, em algum momento, ser promovido ao time principal, se conseguir apresentar resultados na pista que justifiquem a escolha. E até o presente momento, ninguém sabe como ficará exatamente o time oficial da marca nipônica na temporada de 2027. Mesmo que a contratação de Fabio Quartararo seja oficializada, fica a dúvida se Joan Mir ou Luca Marini seguirão na escuderia, e além disso, na própria LCR, Johaan Zarco é visto como a primeira opção de substituição, pela boa temporada realizada no ano passado, quando té venceu a etapa da França, em Le Mans. Zarco já é veterano, e sentiria menos a pressão se for promovido ao time de fábrica. Resta Diogo Moreira fazer bem o seu trabalho, que as oportunidades certamente surgirão… Por enquanto, é ir aprendendo todas as nuances do equipamento e da categoria, o que vem apresentando uma ótima impressão inicial...

O "batizado" de Diogo Moreira como piloto da MotoGP: primeiro tombo na categoria, mas sem se deixar abalar, mantendo a confiança.

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