![]() |
Max Verstappen comemorou oficialmente a conquista do tetracampeonato mundial na etapa de Las Vegas. |
Já era praticamente dado como favas contadas, mas agora é oficial: Max Verstappen é tetracampeão mundial de F-1, com o 5º lugar obtido no fim de semana passado em Las Vegas. O holandês precisava apenas marcar 2 pontos a mais que Lando Norris para fechar matematicamente a contenda, e o inglês da McLaren chegou logo atrás, em 6º lugar, resultado que deu o título ao piloto da Red Bull, o seu quarto consecutivo na categoria máxima do automobilismo.
O resultado iguala Verstappen a Sebastian Vettel, que também foi tetracampeão por quatro anos consecutivos com a Red Bull, entre as temporadas de 2010 e 2013. Mas Verstappen tem tudo para ir além de Vettel, uma vez que o piloto alemão, que foi considerado um gênio capaz de desbancar até os feitos de seu compatriota Michael Schumacher, empacou nestes únicos quatro títulos. A nova era turbo híbrida da F-1 mudou a relação de forças na competição, e a Mercedes surgiu como nova força hegemônica, desbancando todo os outros times. Superado por Daniel Ricciardo na Red Bull em 2014, Sebastian migrou para a Ferrari, na esperança de levar o time italiano de volta ao título, um objetivo que ele não conseguiu alcançar. O piloto alemão deixou a F-1 ao fim de 2022, meio que pela porta dos fundos, sem ter conseguido voltar aos tempos de glória vivenciados na equipe dos energéticos.
Curiosamente, fica a expectativa se Verstappen não corre risco similar. A Red Bull perdeu Adrian Newey, e verdade seja dita, o projetista inglês criou todos os carros campeões do time, até mesmo o RB20, carro que começou demolindo a concorrência, mas que depois estagnou, coincidentemente logo após Newey deixar suas funções na escuderia. A Red Bull, aliás, tem dois desafios enormes pela frente nos próximos dois anos: para 2025, é conceber um carro campeão sem a presença de Adrian Newey, tarefa difícil, mas não impossível, se tiver conseguido manter a coesão de sua equipe técnica sem a presença de sua grande estrela; e para 2026, é ver como se dará com sua nova unidade de potência, agora sem a parceria da Honda, e com a Ford por trás dando apoio, enquanto os japoneses se mudarão de mala e cuia para a Aston Martin. Da capacidade de se manter competitiva irá determinar se Verstappen seguirá vencendo corridas, e títulos. Mas há outro aspecto a se considerar também, que é a paciência do holandês, que disse que pode deixar a competição ao fim de seu atual contrato, ao fim de 2028, ou talvez até antes, dependendo de como as coisas se apresentarem a partir do próximo ano.
Independente disso, o tetracampeonato já coloca Verstappen como um dos maiores nomes da F-1 em todos os tempos, abaixo apenas de Michael Schumacher, Lewis Hamilton, e Juan Manuel Fangio, e ao lado de Alain Prost e Sebastian Vettel em número de títulos. Verstappen é o melhor piloto do grid atual, e os rivais mais próximos de seu status de gênio são Fernando Alonso e Lewis Hamilton, que só não puderam fazer mais devido aos carros de que dispõem atualmente. O espanhol padece com uma Aston Martin que não mostrou a que veio em 2024, enquanto o inglês tem tido altos e baixos com o modelo W15 da Mercedes, que ora se mostra competitivo, ora não. Enquanto isso, outros nomes do grid, como Lando Norris, Carlos Sainz Jr., Charles LeClerc, e George Russell, mostram grande potencial para vencerem corridas, mas quanto a serem campeões, ainda é dúvida. Norris ainda mais, depois do que vimos este ano, onde o piloto inglês da McLaren não conseguiu aproveitar, por culpa própria e do time, a chance de ser campeão quando teve o melhor carro na pista.
A medida de talento de Verstappen pode ser vista pela forma como conseguiu gerenciar a situação da luta pelo título nesta temporada. Se é verdade que a grande gordura na pontuação conquistada na fase inicial do ano foi crucial para o título, não deixa de ser verdade também que o piloto holandês conseguiu superar os adversários desde que deixou de ter um carro dominante a partir do GP de Miami, que computados todos os resultados, ainda o deixariam na liderança do campeonato até aqui. Mas ainda precisando conquistar o título, de forma que a disputa estaria bem mais renhida, e com riscos sérios de sofrer um contragolpe nestas duas provas finais, onde a Red Bull não conseguiu voltar a ter um carro superior frente aos concorrentes. O que salvou Verstappen foi o seu grande talento e capacidade de minimizar os prejuízos nas diversas corridas que vieram depois, aproveitando deslizes dos rivais, que não conseguiram demonstrar a mesma constância do piloto do time austríaco.
Verstappen conseguiu triunfos importantes no Canadá e na Espanha, e principalmente, no Brasil, onde desmoralizou a concorrência, em especial Norris, com seu show na pista molhada, ainda mais tendo largado em 17º, para vencer a corrida de forma incontestável. Além disso, contou com o duelo entre McLaren, Ferrari e Mercedes, que foram pulverizando os pontos cruciais para que alguém pudesse capitalizar sozinho numa escalada pelo título com o holandês. E como os pilotos destes times não conseguiram manter a constância de resultados, eles também não puderam ameaçar efetivamente Max na pontuação. No campeonato de construtores, contudo, a situação foi diferente, com a McLaren e Ferrari, possuindo duplas mais equilibradas, conseguindo alcançar e superar a Red Bull na classificação, uma vez que no time austríaco, Sergio Perez faz a sua pior campanha deste que se tornou piloto da escuderia. Mas neste ponto, parece que o time dos energéticos tem também uma parcela de culpa além da ineficácia do piloto.
Não se trata de por em dúvida o talento de Verstappen, mas de tentar entender como Perez não consegue render mais no time. Acredita-se que o modo como a escuderia promoveu a evolução do carro, tornando-o mais complicado de guiar, tenha prejudicado sobretudo o mexicano, que sem ter a mesma capacidade do holandês, não conseguiu acompanhar o ritmo, e ainda caiu pelas tabelas. Um olhar mais profissional, como o expressado por Juan Pablo Montoya, apontou diferenças significativas no comportamento dos bólidos, observando sua performance em pista pelas câmeras onboards de ambos os carros, apontando que há algo mais de diferente no carro de Max e de Sergio do que apenas o piloto e seu talento, algo que obviamente é negado de pés juntos pela Red Bull, que apenas mantém a fritura do piloto mexicano, que é verdade que nunca foi um gênio como Verstappen, mas também nunca foi um braço duro tão ruim assim, tendo superado todos os pilotos dos quais foi companheiro antes de chegar na Red Bull, com exceção de Jenson Button na McLaren em 2013. Não se trata de isentar Perez de sua péssima temporada, apenas de mostrar que a culpa não é inteiramente apenas do piloto, mas é sempre mais fácil criticar o competidor do que o time.
![]() |
Todo o time da Red Bull comemorou efusivamente a conquista do título de Verstappen. |
Mas Verstappen, por vezes, também mostrou que pode ser suscetível a pressão. O modo como se comportou na prova da Hungria, onde ficou fora da briga pela vitória, lhe custou um potencial resultado no pódio, ao se envolver em manobras um pouco desastradas na pista, que por pouco não resultaram em abandono depois de se enroscar com Lewis Hamilton, um dos poucos pilotos que não se intimidam diante do holandês na pista. E o modo como agiu de forma extremamente agressiva, chegando a jogar Lando Norris para fora da pista junto com ele na etapa do México lhe valeu algumas punições que não precisavam, dada a sua imensa vantagem na pontuação, o que ele soube administrar com maestria em outros momentos, como deveria ser praxe para um piloto de seu quilate. Isso poderia ter feito a disputa pelo título ter se encerrado até antes, mas não creio que ninguém, além do próprio Verstappen, e da Red Bull, se queixem a esse respeito.
Por outro lado, isso reflete também uma F-1 muito cheia de frescuras, onde há excesso de regras e firulas coibindo uma competição mais livre e solta, de modo que, fosse em outros tempos, onde os pilotos se pegavam na pista, ninguém sairia sem punições a rodo, sendo que várias delas são completamente esdrúxulas. Verstappen deixa o pessoal desconfortável com seu modo de pilotagem, que em certos momentos sim, passa dos limites do que seria uma competição saudável, mesmo ferrenha na pista. Até certo ponto, seu estilo de se jogar em cima dos adversários, colocando para eles a responsabilidade de baterem ou não, é errado. Ou os pilotos endurecem também com ele, ou nada irá mudar. Mas isso não parece tão fácil de fazer como se fala. Basta ver o exemplo de Lando Norris, que quando precisou endurecer nos extremos da disputa, na Áustria, acabou sendo o maior perdedor da contenda, talvez por ser muito “bonzinho” na pista, o que não quer dizer ser desleal ou antidesportivo.
Isso até pode tirar um pouco do brilho do tetracampeonato de Verstappen, mas não o seu mérito de ter sido o melhor piloto do ano. Enquanto os demais pilotos perderam chances potenciais de melhores resultados, Max conseguiu ser o que errou menos e aproveitou melhor suas oportunidades, e carregou o time nas costas em seus piores momentos. A Red Bull, por sua vez, conseguiu sobreviver a 2024 graças ao holandês, especialmente depois da crise interna que o time vivenciou na primeira metade da temporada, que acabou por se refletir depois na pista. Como Helmut Marko afirmou, nenhum outro piloto teria sido capaz de ser campeão com a Red Bull em 2024, e mesmo sabendo que Marko é puxa-saco-mor do holandês, seu queridinho, não se pode contestar sua afirmação desta vez.
Max já escreveu seu lugar na história da F-1, e do mundo do esporte a motor, mas sua história ainda está longe de terminar, e teremos novos capítulos por pelo menos mais dois anos, em que sua participação na competição está assegurada, onde ele poderá estender suas conquistas ainda mais. Quando ele fala não ter pretensões de ter sete ou oito títulos na F-1, ele tem todo o direito de escolher o que quer fazer, e se quiser aproveitar a vida, já terá todo o direito de fazê-lo. Não precisa seguir o exemplo de outros para ser feliz, só ser fiel a si mesmo. Suas melhores respostas serão na pista, enquanto correr, e se sentir bem com isso. Agora, é aproveitar a conquista, e vamos ver como será sua história no próximo ano.
Quanto aos rivais, que se preparem melhor, cometam menos erros, e torçam para seus times lhes darem carros competitivos, além de serem mais competentes fora da pista. Caso contrário, que se acostumem a serem superados por Max. Avisados todos já estão...
Com 4 edições de seu GP, Las Vegas já ocupa um lugar privilegiado no que tange a decisão de títulos na F-1. As duas corridas realizadas nos anos 1980 também viram a decisão de campeonatos, em 1981 a favor de Nélson Piquet, em seu primeiro título com a Brabham; e em 1982, com o triunfo de Keke Rosberg, no seu único título conquistado na categoria máxima do automobilismo mundial. No ano passado o título não saiu na cidade, mas este ano, Max Verstappen fechou a fatura na pista montada junto à Las Vegas Boulevard, e seus inúmeros cassinos, o que dá 3 decisões de títulos em quatro provas, índice de 75% de decisão de títulos. E ainda com direito a uma incrível coincidência: tanto em 1981 quanto em 1982 e agora em 2024, Piquet, Rosberg, e Verstappen terminaram a corrida na 5ª colocação, posição em que garantiram a conquista dos títulos das respectivas temporadas.
Esta foi sem dúvida mais uma semana tensa para o time da Williams. A equipe de Grove teve de fazer uma operação de guerra para recuperar seus dois carros após os acidentes sofridos com ambos no Brasil, quando seus dois pilotos bateram, e mais de uma vez no fim de semana chuvoso de Interlagos. A escuderia chegou a Las Vegas aliviada por ver que conseguiria competir com seus dois carros, mas o perigo de um circuito de rua, com seus muros bem próximos à pista, deixava todo mundo ansioso, no caso de um dos pilotos cometer um erro. E a recuperação dos carros, por tabela, ainda dava dor de cabeça, como os problemas no carro de Alexander Albon, que não conseguiu treinar a contento como gostaria. Mas, eis que Franco Colapinto, piloto sensação deste fim de temporada, resolve dar o ar da graça no treino de classificação, e bate forte com o carro, deixando todo mundo com as mãos na cabeça no box da Williams, já vendo que teriam trabalho extra no fim de semana. Felizmente, ninguém bateu na corrida, mas os consertos do carro do argentino, que teve sua participação posta em dúvida na prova, mostraram como o time inglês estava na saia justa com relação a suas peças de reposição e estado do chassi do carro. E tornando a participação aqui em Losail, no Qatar, complicada também, já que a sede precisou providenciar novas peças para qualquer eventualidade, não apenas para a corrida catari, mas também porque, daqui, todo mundo segue para Abu Dhabi na semana que vem, para a prova de encerramento da temporada 2024. As batidas de seus pilotos deixaram a Williams na berlinda na classificação de construtores, tendo perdido a chance de tentar lutar por alguns resultados melhores, e vendo os rivais não apenas tendo menos azar, como passando por larga margem à frente, como a Alpine, que pontuou em Interlagos o que não pontuou em toda a temporada. Agora a Williams encontra-se à frente apenas da Sauber, o pior time do grid. Muito pouco para o que se poderia esperar de um dos times mais tradicionais do grid.
![]() |
Segunda batida em duas corridas: o piloto argentino começa a suscitar dúvidas a respeito de sua capacidade ao volante de um F-1. |
A F-1 chegou a Losail para sua penúltima etapa da temporada, e a agitação já começa com tudo hoje, diante do fato de termos a última corrida sprint do ano, sendo que haverá apenas um treino livre hoje, seguido depois pela classificação da prova sprint, que será realizada amanhã. E depois iremos para a classificação da corrida de domingo. No ano passado, tivemos vários problemas aqui na pista catari, diante do forte calor do deserto, mesmo com todas as atividades noturnas, a ponto de a Pirelli, tendo problemas com seus pneus ter estabelecido, junto com a FIA, um limite do número de voltas para os pneus, a fim de evitar problemas com os compostos por causa do forte calor. Houve problemas também com uma das curvas, onde os pilotos ficavam extrapolando o limite de pista, numa daquelas confusões ridículas que a FIA criou por causa disso, obrigando a redefinção de parte da largura da pista, a fim de minimizar o problema. E as zebras também estavam dando problemas com os pneus, criando riscos potenciais de estouros dos compostos dos carros que passavam muito em cima das zebras, uma vez que tinham perfis muito altos e potencialmente agressivos para os pneus que porventura passassem por cima delas. Para este ano, estas zebras tiveram um trabalho de raspagem, de forma a serem menos prejudiciais para os pneus. A Pirelli reproduziu o novo perfil das zebras em seu laboratório, e os resultados parecem ter sido positivos com relação à garantia da integridade dos compostos. Agora, vamos ver se a teoria se confirma na prática.