Hora de trazer novamente alguns de meus antigos textos, e a coluna a seguir foi publicada no dia 6 de setembro de 2000, às vésperas do Grande Prêmio da Itália. O clima no campeonato mundial de F-1 estava tenso para o lado dos ferraristas, com a ascenção da McLaren, e a possibilidade concreta de o time italiano, que vinha em sua melhor campanha há muito tempo, acabar novamente derrotada, depois de cumprir com uma primeira metade de temporada confiante e com a quase certeza de que enfim, o jejum de títulos iria acabar. Era preciso dar uma resposta, e ela foi dada, com uma vitória de Michael Schumacher em grande estilo, partindo da pole-position e disparando rumo à vitória onde o time italiano é tratado como uma verdadeira religião, a Itália.
Não foi fácil, contudo. Mika Hakkinen veio na cola do piloto alemão durante praticamente toda a corrida, de modo que Schumacher não teve respiro ou folga em momento algum, e o bicampeão finlandês cruzou a linha de chegada em um 2º lugar, por meros 3s8 de desvantagem para o alemão da Ferrari. A disputa continuava acirrada, e não se podia abaixar os braços. Hakkinen ainda sairia de Monza na liderança da competição, com 80 pontos, mas Schumacher logo atrás, com 78 pontos, era o sinal de que o alemão e a Ferrari estavam de novo no jogo, e ele poderia ser imprevisível. A briga prometia ser dura, mas a verdade é que dali em diante, tudo daria certo para Michael Schumacher e a Ferrari, que ganhariam todas as 4 provas restantes do campeonato, Itália inclusiva, e enfim encerrariam o mais longo jejum de títulos do time italiano, de 21 anos, o maior até hoje, e olhe que o jejum atual vem chegando perto, contando com 19 anos, se imaginarmos que este ano o time de Maranello novamente ficará na fila dos títulos...
CLIMA DE REVANCHE
A Fórmula 1 chegou a Monza se perguntando se a Ferrari conseguirá reagir à escalada da McLaren nas últimas corridas. Desde o triunfo de Michael Schumacher no GP do Canadá, já são cinco corridas que Michael Schumacher não vai ao degrau mais alto do pódio. Rubens Barrichello venceu de forma magistral a etapa da Alemanha, uma das provas mais emocionantes do ano, e ajudou a impedir um desastre maior, mas desde que Lucca de Montezemolo afirmou com todas as letras que Barrichello não tem “direito” a disputar o título, como muitos gostariam de ver acontecer, o desempenho do brasileiro não foi mais o mesmo desde então. Coincidência, ou algo mais?
Duas vitórias consecutivas de Mika Hakkinen levaram o piloto finlandês para a liderança do campeonato, chegando aqui em Monza com 74 pontos, contra 68 do bicampeão Michael Schumacher. Na Bélgica, o finlandês aplicou uma ultrapassagem desconcertante sobre o alemão da Ferrari, com Ricardo Zonta, da BAR, como testemunha privilegiada, de se ver, como retardatário, sendo superado pelos dois bicampeões na parte final da reta Kemmel, na freada para a Les Combes. E aqui estamos em Monza, o santuário italiano do automobilismo, onde a Ferrari é literalmente uma religião nacional, e Michael Schumacher, seu papa destinado a tirar os carros vermelhos de uma fila de espera de títulos de pilotos que vem desde 1979, quando Jody Schkter levou o último caneco para Maranello.
Schumacher quer repetir o feito de 1996, quando venceu aqui, e levou a torcida ferrarista ao delírio, em um ano que não prometia muita coisa. O alemão recém-coroado bicampeão do mundo, trocou a então poderosa Benetton pelo projeto de reconstrução da Ferrari, e os passos foram sendo dados aos poucos desde então. No ano passado, as chances eram boas, mas o acidente sofrido por Michael em Silverstone, onde quebrou a perna, alijou as esperanças dos tiffosi, e mesmo assim, o título quase veio, com Eddie Irvinne, por muito pouco. Michael Schumacher venceu aqui também em 1998, dando esperanças renovadas de título aos torcedores em um campeonato que desde o início pareceu inevitavelmente ir para Mika Hakkinen, em uma renascida McLaren que, de fato, conquistou o título, mas com o piloto alemão dando briga e impedindo uma vitória antecipada do título, que não veio. A sina irá se repetir agora?
A McLaren venceu 4 das últimas cinco provas, e poderiam ter sido as cinco, não fosse a performance exuberante sob chuva nas voltas finais da etapa da Alemanha, onde Rubens Barrichello arriscou ficar na pista para conquistar sua primeira vitória na categoria máxima do automobilismo, impedindo que Hakkinen levasse mais 4 pontos para casa, o que tornaria a desvantagem de Michael para Mika ir de 6 para 10 pontos. Pode parecer pouco, mas seria um golpe moral forte para a Ferrari e Schumacher. Vencer em Monza, a “casa” da Ferrari, é vital para impedir que a McLaren, e sobretudo, Mika Hakkinen, abra vantagem na reta final da competição. Afinal, depois daqui, restam apenas as etapas dos Estados Unidos, Japão, e Malásia, para fechar o campeonato. A F-1 vai finalmente estrear na pista de Indianápolis, o tempo sagrado do automobilismo estadunidense, mas em um traçado misto construído no interior da pista oval, e em teoria, ninguém sabe quem terá favoritismo naquele novo circuito, então, bora garantir logo um resultado confiável aqui em Monza, do que apostar nas incertezas da pista da capital do Estado de Indiana.
O problema é que falta combinar com a McLaren, que depois de levar uma paulada considerável da Ferrari no início do ano, se recompôs, e Mika voltou à briga para lutar pelo tricampeonato, o mesmo objetivo do piloto alemão. E claro que eles não vão entregar o ouro sem luta. O duelo, mais uma vez, tem tudo para ser homem a homem, com Mika e Michael tendo tudo para sair no braço em mais uma luta pela vitória. Michael tem a seu favor a força da torcida, mas torcida não ganha corrida. Se a Ferrari capengar, o mínimo que seja, a McLaren vai deitar e rolar, e se o título não vier, cabeças poderão rolar em Maranello, que pelo segundo ano consecutivo, tem tudo para ser campeã, e deixa escapar no último instante. No campeonato de construtores, a McLaren vem na frente, com 125 pontos, contra 117 da Ferrari, a vice-líder, mostrando uma luta que tem tudo para ser parelha até o último instante. No ano passado, conquistou a taça de construtores, que é importante, claro, mas para a torcida italiana, e em geral, o que vale é a conquista do título de pilotos, e nada mais.
E vamos lembrar que, depois da arrancada fulminante de Michael Schumacher no início do ano, onde o alemão venceu as primeiras 3 provas de forma consecutiva, os mais otimistas já garantiam que o título viria mais cedo do que todos imaginavam, e com sorte, até mesmo em Monza, justo o quintal da Ferrari. Seria o júbilo máximo ver o triunfo ferrarista logo em solo italiano. Só que, depois do Canadá, as coisas desandaram um pouco, a McLaren reagiu, e o atual bicampeão reassumiu o controle da situação, sendo neste momento, até mesmo o favorito para o título.
A Ferrari, claro, desdenha da força da rival, chegando a declarar que eles só estão vencendo “por sorte”, e não por serem mais rápidos. Pode até ser verdade, mas na F-1, ninguém vence apenas pela competência, tem sempre uma pitada de sorte envolvida, ou falta dela, para não dizermos azar. E é o prognóstico do azar que pode ser um fator negativo aqui: se Michael Schumacher já venceu em 1996 e 1998, Mika Hakkinen ainda não sentiu a vertigem do degrau mais alto do pódio em Monzam nasé bem verdade que o finlandês só venceu sua primeira corrida na etapa final de 1997, enquanto o alemão já frequenta esse lugar há muito tempo.
Pelo sim, pelo não, a Ferrari carrega também no duelo psicológico, afirmando que a Ferrari entra como azarona na pista italiana, com 40% de chances de vitória contra 60% das chances do triunfo ir para a McLaren, jogando claramente a pressão em cima da equipe rival, procurando criar alguma instabilidade que eles possam aproveitar para dar um possível contragolpe. Pode até ser difícil, mas não é porque Schumacher não venceu as últimas corridas que ele não estará na briga. Ele vai estar, e a McLaren que fique de sobreaviso se não quiser ser surpreendida, apenas isso. Claro, a Ferrari segue provocando, afirmando que só não venceram na Hungria porque erraram o acerto do carro de Schumacher, e lembrando que o alemão liderava a prova na Bélgica, até ser superado por Hakkinen a apenas 3 voltas da bandeirada de chegada. Mas na F-1 não existe “se”, mas o que de fato ocorreu, e o que aconteceu é que a McLaren, e Mika Hakkinen, venceram com categoria, e tem tudo para repetir a dose aqui em Monza neste domingo. Pelo sim, pelo não, com sorte ou sem, a Ferrari que fique preparada, mais uma vez, e esteja certa de que não poderá cometer o mínimo deslize, se não quiser ver o rival carimbando nova faixa de vitória para si bem na cada do principal time rival e adversário...
Portanto, se tem uma hora para partir para a revanche, a hora é essa, se não quiser entregar o campeonato aos rivais antes da hora... O clima na Ferrari é justamente de revanche, e portanto, ela virá com tudo para tentar a vitória e retomar o controle da situação, e a McLaren que esteja pronta para reagir.
A F-CART disputou domingo passado o Grande Prêmio de Vancouver. O fim de semana da prova canadense foi carregado de emoção por ser a primeira prova na região realizada após a morte do piloto canadense Greg Moore, ocorrida em outubro do ano passado, em um violento acidente na pista de Fontana, na Califórnia. Moore nasceu na cidade de New Westminster. e cresceu em Maple Ridge, ambas as cidades estão localizadas na região metropolitana de Vancouver. Por ser um competidor local e um dos pilotos mais carismáticos e talentosos de sua geração, a corrida de Vancouver era considerada a "casa" dele, o que tornou a primeira edição do evento após a sua morte um momento de profunda emoção para o público canadense. Na ocasião, a direção da CART “aposentou” o número 99, com o qual o piloto competia, em sua homenagem. Como forma de tornar o momento ainda mais emblemático, a lenda canadense do hóquei no gelo, Wayne Gretzky, que por coincidência também usou o número 99 em sua camisa por toda a sua vitoriosa carreira na NHL, foi o convidado de honra para dar o famoso comando para os pilotos ligarem seus motores.
E a torcida canadense teve o que comemorar, com o triunfo de Paul Tracy, piloto canadense, da equipe Green. Tracy largou na primeira fila, atrás do companheiro de equipe Dario Franchiti, que partiu da pole-position e liderou o maior número de voltas da prova, realizada no circuito urbano do Pacific Concord Place. Mas, em um pit stop realizado durante uma bandeira amarela, o carro de Franchiti apagou, precisando ser religado. Tracy aproveitou e assumiu a liderança da corrida, que manteve até a bandeirada de chegada, apesar das investidas incessantes de Dario em tentar retomar a dianteira na prova, mas tendo de contentar-se com o 2º lugar, o que garantiu uma dobradinha para o time de Barry Green. O pódio foi completado pelo mexicano Adrian Fernandez, da equipe Patrick Racing.
Entre os brasileiros, Christian Fittipaldi foi o melhor classificado, tendo terminado a prova em 4º lugar, seguido por Gil de Ferran, na 5ª posição. Cristiano da Matta foi o 7º colocado, enquanto Roberto Moreno recebeu a bandeirada em 10º lugar. Tony Kanaan terminou em 14º, e Luiz Garcia Jr. em 15º. Hélio Castro Neves, Maurício Gugelmim, e Tarso Marques, ficaram pelo caminho, devido a acidentes durante o decorrer da corrida.
Vancouver foi a 15ª etapa do campeonato da F-CART, restando agora 5 etapas para fechar a temporada. Apesar do azar na prova canadense, Michael Andretti ainda se mantém na liderança do campeonato, com 126 pontos. Com a vitória, o canadense Paul Tracy encostou na vice-liderança, com 120 pontos. O canadense passou à frente de Adrian Fernandez, agora o 3º colocado, com 117 pontos. Com o 5º lugar, Gil de Ferran passou para a 4ª posição, com 116 pontos, superando Roberto Moreno, agora o 5º colocado, com 115 pontos.
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