
Max Verstappen acusou o golpe das perguntas incômodas e reagiu mal expulsando repórter de entrevista coletiva em Suzuka.
Muito se falou da
atitude de Max Verstappen na entrevista coletiva feita pelo holandês em Suzuka,
durante o GP do Japão, onde o tetracampeão impôs a saída da sala de um dos
jornalistas, sob ameaça de não conversar com ninguém ali. O jornalista em
questão era Giles Richards, do jornal inglês The Guardian, e ele cobre a
categoria há uma década, e possui credencial permanente para cobrir a F-1, o
que não é pouca coisa. Giles resolveu sair, até para que os colegas de
profissão não fossem prejudicados com a atitude de Max, que pode até ter suas
razões, mas certamente perdeu muitos pontos em termos de atitude que um grande
campeão deveria, pelo menos, ter, no mínimo.
Se ele não iria responder a questões do jornalista, bastava anunciar isso. Mas, chegar ao caso de expulsar o profissional pareceu demais. Claro, era uma entrevista coletiva no espaço da Red Bull, e por não ser exatamente um local oficial da FIA/FOM, mas dentro dos limites conferidos a um dos times, Max pode ter se sentido no direito de ditar as normas de como a entrevista seguiria. Mas claro que isso pegou mal, o que não quer dizer que ele esteja com razão, ou que vá se importar com isso. O tetracampeão nunca pára de dar sinais de que está de “saco cheio” da F-1, e na atual temporada, com um carro que infelizmente no presente momento não lhe permite brigar por vitórias, seu mau humor é patente, chegando, alguns dizem, que ele poderia pular fora da competição ao fim deste ano, se não sentir-se “bem” na categoria.
Em parte, a desculpa é curtir mais a família. Max vem se aventurando em provas de endurance recentemente, e este poderia ser o seu destino profissional no futuro, onde o calendário é bem menos puxado e extenuante do que o da F-1, com mais de 20 corridas por ano, enquanto no endurance quando muito há duas corridas por mês, e olhe lá, dependendo do certame. Não por acaso, pilotos que atuam no endurance geralmente competem em outros campeonatos, diante do número menor de provas por ano, com poucos conflitos de datas.
Mas, como piloto, Verstappen deveria ter mais culhões de certos aspectos. E quando se é um esportista de alto nível, de um campeonato mundial, sempre haverá os momentos de vidro, e vidraça. Quando se está por cima, é tudo uma maravilha. Quando se está por baixo, ou algo parecido, pode ser o pior dos infernos. Mas desde que se tornou um atleta “público” e reconhecido mundialmente, tem de estar preparado para alguns momentos ruins. No caso de Max, o que o deixou desconfortável em relação a Richards foi uma pergunta feita, em Abu Dhabi, no ano passado, de como a punição sofrida pelo holandês no GP da Espanha do ano passado, acabou sendo determinante para Verstappen perder o título da temporada, ficando em 2º lugar, a apenas dois pontos de distância para Lando Norris, que conquistou o campeonato.
Max não gostou de um certo tom de “deboche” que ele teria sentido na pergunta, e alegou que houve outros fatores durante a temporada que foram igualmente determinantes para a perda do título, mas que jornalistas como ele só sabiam pregar na tecla da punição que ele sofreu na Espanha. Para quem não sabe ou não lembra, naquela prova, Max teria feito uma ultrapassagem irregular sobre George Russell, da Mercedes, e teria recebido ordens para devolver a posição. O piloto da Red Bull até ensaiou abrir a porta para o inglês da Mercedes assumir a posição, mas repentinamente, ele fechou Russell, acertando a Mercedes do inglês que, felizmente, não sofreu nada, assim como Max e seu Red Bull. A direção de prova, porém, considerou a atitude desnecessariamente agressiva, e estabeleceu punição que derrubou Max na classificação final da corrida, fazendo-o perder pontos que, não fossem menores diante da punição, teriam feito Verstappen terminar o ano como campeão, e não Norris. Max admitiu na época que ficou de cabeça quente, que errou, e teoricamente, fim de papo.
Porém, no fim do ano, tendo perdido o título por meros dois pontos, claro que este tipo de pergunta viria à tona, e por mais que Max tenha tido razão ao argumentar que não perdeu o título somente por aquele momento, é inegável que aquela punição prejudicou sobremaneira por um detalhe particular: foi o próprio Max que causou aquilo, com sua atitude antidesportiva, na avaliação da FIA. Outros motivos ocorridos durante o ano, como o carro pouco competitivo em diversas etapas, por exemplo, eram fatores alheios ao controle de Verstappen, de modo que ele pouca responsabilidade teria nestes outros fatores. Mas ali, em Barcelona, foi a atitude dele, a culpa foi inteiramente dele, e de ninguém mais. Tivesse feito as coisas direito, estaria agora como pentacampeão, talvez o título mais desafiador da carreira, pelo modo como a Red Bull havia começado o ano, claudicante, até dar uma verdadeira reviravolta na segunda metade do campeonato, e quase chegando a mais um título, que seria o mais improvável de todos no início, dada a supremacia com que a McLaren se apresentava até então, quando o time de Woking se complicou sozinho no final do ano.
Ter feito esta
pergunta ao final da temporada de 2025 era a função de qualquer jornalista, e
Max, se achou a pergunta “debochada” pelo que pensou no comportamento do
jornalista, com um riso contido a respeito do assunto, e não gostou disso, o
problema é dele. Admitir o erro, como já tinha feito na ocasião, não iria
diminui-lo nem um pouco. Mas, quando você começa a sentir ofensa com perguntas
óbvias a respeito da profissão, e mesmo sabendo que a imprensa, mesmo quando
age corretamente, gosta de polêmicas (notícias ruins sempre vendem mais, e isso
nunca foi novidade, da mesma forma como questões discutíveis como essa), e
portanto, bastava a Max dizer que, infelizmente, as coisas correram dessa
maneira, e pronto, fim de conversa, talvez. Sempre haverá perguntas difíceis,
algumas mais, outras menos, e por vezes, nunca será agradável responder a
algumas.
Mas daí a começar a expulsar jornalista da entrevista coletiva vai uma grande distância, e Verstappen expõe-se ao indicar que pode começar a “escolher” quem pode ou não participar da entrevista. Ele tem o direito de ignorar a pergunta e não respondê-la, mas quando resolve proibir a pergunta, e ainda confirma na lata, que o motivo foi aquela pergunta mesma, feita em Abu Dhabi, sem firulas e tudo o mais, ele cai absurdamente no conceito de muita gente. Por mais que alguns membros da imprensa possam não ser lá flor que se cheire, Max acabou se rebaixando tremendamente neste comportamento. Alguns diriam que Max está seguindo o perfeito exemplo do sogro, Nélson Piquet, que nunca foi de trato fácil com repórteres, e em determinada época, levou o “troféu limão” por parte da imprensa, pelo seu modo indócil de responder ou tratar jornalistas, muitas vezes, à época, com grosserias desnecessárias.
Só que Piquet nunca chegou a expulsar ninguém, pelo que me lembro. Ele por vezes era bronco, grosseiro, apelava para palavrões e falas de baixo calão, mas respondia com sinceridade, e dane-se se não era o que o pessoal queria ouvir. Mas, justamente por isso também, o brasileiro fazia a festa dos jornalistas, por fugir do “padrão” habitual, e falar o que pensava na telha na lata, sem firulas ou conversas politicamente corretas. Ele podia até ofender alguém e não responder a algumas perguntas, mas na imensa maioria das vezes, não fugia dos assuntos, nem mesmo quando ele mandava às favas a si próprio, quando ele tinha sido responsável por alguma besteira cometida na pista. Claro que essa sinceridade e estilo direto o fez criar inimizades e colecionar desafetos por onde passou. Mas, por onde passou, e trabalhou firmemente, ninguém pode negar a integridade e persistência como profissional, de quem o conheceu a fundo.

Nélson Piquet falava poucas e boas dos jornalistas, mas não fugia da raia. Fez inúmeros desafetos por suas declarações, mas também a alegria dos repórteres com sua língua ferina e ácida.
Max tem repetido este
estilo de responder as coisas, e claro, no ambiente politicamente correto e
excessivamente controlado dos dias de hoje, isso incomoda muito mais, mas ao
mesmo tempo, é uma lufada de ar fresco no meio de declarações pasteurizadas,
padronizadas, e expressão de sinceridade que tanta falta há no ambiente atual.
Mas, e por isso mesmo, falar o que pensa também é aceitar que muitos o
criticarão por isso, no bom e no mal sentido. E, se em teoria, não está se
importando com isso, por outro lado, para quê expulsar o repórter? Apenas desse
de ombros, e segue o jogo. Infelizmente, o mundo atual caminha para uma
situação onde pessoas de destaque começam a querer “controlar demasiadamente”
tudo à sua volta, inibindo ou tentando castigar a prerrogativa de opinião, que
deve ser livre, e se exagerada, há meios legais compatíveis para se exigir
retratação, se isso chegar a extremos. Mas opiniões e perguntas, quando começam
a incomodar, apenas revela uma fragilidade patente de quem não gostou da
pergunta. Basta apenas não responder, e pronto.
Costumo falar que, às vezes, o sucesso pode fazer mal. Max vem de cinco temporadas impressionantes na F-1, com quatro títulos conquistados e um vice-campeonato que, por pouco, não se consolidou no quinto título. Mas, ao ver como a Red Bull parece carta fora do baralho este ano, com perspectivas menores de uma possível reviravolta, como ocorreu no ano passado, ter voltado a criticar a F-1, aproveitando o justo e lógico desconforto que os pilotos estão sofrendo com os carros atuais, parece indicar mais um inconformismo por não poder batalhar por vitórias do que por qualquer outra coisa, mesmo que ele já tenha criticado a F-1 até mesmo quando estava ganhando tudo e deitando e rolando em cima da concorrência. A pergunta que fica é: se seu carro estivesse competitivo como o da Mercedes, suas críticas seriam assim tão fortes? A resposta até poderia ser sim, mas é óbvio que a falta de resultados dá o tom da avaliação na natureza primária das críticas, então...
Seu contrato com a Red Bull vai até 2028, de modo que, contando esta temporada, e se ele permanecer até lá, serão 3 anos de competição. Muito provavelmente ele deixa a F-1 ao fim de 2028, efetivamente. O que não significa que não possa sair antes. O mesmo contrato libera o holandês para sair do time dos energéticos se este não cumprir com alguns requisitos de performance, e diante das dificuldades que a escuderia vem tendo este ano, com seu pior carro em mais de uma década, e ainda mais diante de um regulamento que claramente o desagrada, Max teria motivos válidos para deixar a competição, e redirecionar suas atividades para competições com menos “frescuras”, como as provas de endurance. Na F-1, ele já é tetracampeão mundial, já inscreveu seu nome entre os melhores da história da categoria, ao lado de nomes como Alain Prost e Sebastian Vettel, que também foram tetracampeões, e já falou não ter as ambições de ter um recorde de vitórias ou de títulos, indicando desde muito tempo que não se veria no esporte até tão tarde, como fazem Lewis Hamilton e Fernando Alonso.
Claro que os críticos aproveitarão a oportunidade para malhar Verstappen, de que, caso resolva mesmo sair, o fará mais por estar “por baixo” no momento, e de que se estivesse “por cima”, não faria a mesma coisa. Não se pode ignorar o raciocínio, que até tem sua lógica. Mas, se o fizer, que tenha brios e aceite as críticas, não expulsando os jornalistas por fazerem perguntas incômodas ou desagradáveis. Ou apenas confirmará ter “queixo de vidro” para os críticos, não aguentando ou não aceitando responder perguntas que não lhe agradem… Ser pedra é fácil… Difícil é ser vidraça, e levar os golpes… Alguns aguentam como categoria, outros, nem tanto… Como um grande campeão, Max volta e meio mostra estar mais para vidraça do que para pedra… E por vezes sem saber como se portar no caso da primeira...
Situação curiosa nos times da Red Bull até aqui na temporada de 2026: com três GPs disputados, a Red Bull ocupa a 6ª posição no Mundial de Construtores, com 16 pontos, enquanto a Racing Bulls vem logo atrás, em 7º, com 14 pontos. No campeonato de pilotos, Max Verstappen é o mais bem posicionado, em 9º lugar, com 12 pontos. Liam Lawson vem logo atrás, com 10 pontos, em 10º lugar. Arvid Lindblad é o 11º, com 4 pontos, empatado com Isack Hadjar, também com 4 pontos. Impulsionados pela mesma unidade de potência, produzida pela RBPT em conjunto com a Ford, já começa a existir um consenso de que o carro do time “B” dos energéticos é potencialmente mais competitivo do que o do time principal, e de que Max Verstappen poderia até ter resultados melhores se trocasse de time. Não é brincadeira, infelizmente. Mas já houve precedente: em 2008, o carro da segunda equipe, chamada à época de Toro Rosso, era mais competitivo do que o carro da Red Bull, que embora fossem os mesmos, tinham uma diferença: o carro da Toro Rosso usava motor Ferrari, enquanto a Red Bull utilizava o Renault. E foi de Toro Rosso que Sebastian Vettel conquistou sua primeira vitória na F-1, em Monza, na Itália, naquela temporada, no que foi a primeira vitória do Grupo Red Bull na categoria máxima do automobilismo, com seu segundo time, e não com o principal. A Red Bull enfrenta problemas com seu modelo RB22, que estaria até acima do peso, e ainda por cima, tendo recebido atualizações na prova japonesa que não funcionaram como o esperado. A equipe de Milton Keynes corre para preparar melhorias para a prova de Miami, no início de maio, e já começam a pipocar rumores de que Pierre Waché, responsável pelo projeto do carro atual, pode até ser dispensado da escuderia, se os resultados não melhorarem já em Miami. Waché assumiu a primazia da área técnica da Red Bull após a saída de Adrian Newey em 2024, sendo que o modelo deste ano é o primeiro concebido inteiramente sob sua responsabilidade, já que o modelo do ano passado, o RB21, ainda tinha concepção inicial de Newey, tendo sido apenas desenvolvido e aprimorado sob a gestão de Waché desde então.

Segundo declarações, o modelo RB22 está perdendo 0s8 por volta para as Mercedes. O novo carro tem dificultado a vida de Max Verstappen e da Red Bull em 2026.
A situação de Verstappen na F-1 ficou um pouco “mais complicada” em termos de opções neste momento. Dominando a competição, por agora, a Mercedes diz que não “precisa” do tetracampeão, estando contente com sua atual dupla de pilotos, que inclusive, custa muitíssimo mais barato que o holandês. Se formos ver que Andrea Kimi Antonelli venceu duas das 3 provas, e lidera o campeonato, e pode até mesmo virar favorito ao título, a depender do andamento da competição, de fato Toto Wolf neste momento tem a faca e queijo na mão, podendo se dar ao luxo de menosprezar a importância de Verstappen para a Mercedes. E olha que, até algum tempo atrás, muito se dizia sobre as possibilidades de o time alemão contratar Max… Claro que, isso é para este momento. Ninguém sabe como a situação irá se desenvolver futuramente. Max, em teoria, fez o certo, quando se deu o voto de confiança para a Red Bull, de ver como seria o desempenho do novo equipamento do time neste ano. E a grosso modo, não tinha do que reclamar muito, ainda mais depois da arrancada fenomenal que a escuderia deu na segunda metade do ano passado, que quase resultou no pentacampeonato do holandês. O time dos energéticos, claro, menosprezou os impactos da saída de Adrian Newey em 2024, e pelo menos, até o ano passado, parecia estar com a razão. Mas agora, em 2026, parece que a fatura do menosprezo chegou, e com juros...

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