sexta-feira, 4 de abril de 2025

A DECISÃO DA RED BULL – PARTE II

Novo recorde na Red Bull: com apenas duas provas, Liam Lawson já foi "despromovido" pela escuderia, sendo mandado de volta para o segundo time, depois dos resultados pífios obtidos.

            Chegamos ao momento do Grande Prêmio do Japão, e é sempre prazeroso chegar ao autódromo de Suzuka para a disputa de mais uma corrida, uma vez que este é um dos circuitos mais técnicos do calendário, e extremamente desafiador para equipes e pilotos, com curvas para todos os gostos, com trechos de alta velocidade e setores em várias curvas, exigindo um compromisso de equilíbrio entre agilidade e estabilidade, e velocidade de reta. E também uma pista de difícil ultrapassagem, o que indica que a briga pela classificação deverá ser concorrida, pois largar mais atrás pode comprometer as expectativas para o fim de semana, e ninguém quer ter de precisar recuperar o prejuízo de uma má posição de largada. E como desgraça pouca é bobagem, a previsão para domingo, dia da corrida, é de chuva, ainda que não seja exatamente para o momento da prova, mas mesmo assim, todo mundo já se pergunta se poderemos ter um repeteco do que vimos em Melbourne, o que pode apimentar a corrida tanto no bom quanto no mau sentido.

            Mas o assunto principal aqui no paddock de Suzuka ainda é a troca efetuada pela Red Bull, rebaixando Liam Lawson de volta para a Racing Bulls, e promovendo Yuki Tsunoda no sentido inverso. A meu ver, e de boa parte da imprensa especializada, uma fritada precipitada do piloto, que teria aqui na pista japonesa talvez sua chance de redenção após ter um desempenho pífio nas duas primeiras corridas do ano. Isso porque Suzuka seria o primeiro circuito conhecido por Lawson, que já andou aqui nos tempos da Super Formula, ao contrário das pistas de Melbourne e Shanghai. O neozelandês também teria um carro um pouco mais conhecido por ele, e quem sabe, um pouco mais dirigível. E, se mesmo assim, não conseguisse apresentar uma boa performance, aí sim a troca de pilotos já efetuada poderia se justificar, em que pese continuaria a ser uma decisão precipitada por parte da Red Bull, que esconde problemas muito mais sérios no time do que apenas o desempenho ruim de um piloto onde ele é a parte de menor culpa na história toda.

            Quem sai no lucro, teoricamente, é Yuki Tsunoda, que a bem da coisa, merecia ter a chance de ser avaliado efetivamente no carro da Red Bull. E o japonês fará sua estréia justamente em casa, no Japão, o que por si só já está gerando expectativas na torcida nipônica. Mas o sonho pode virar pesadelo, e isso não é difícil de acontecer, muito pelo contrário, como vimos com Lawson. A favor de Tsunoda há o fato de ele ser bem mais experiente que Lawson, tendo 4 temporadas completas na competição, frente a apenas 11 provas de Liam antes de aceitar o abacaxi que a Red Bull lhe proporcionou. E há também o conhecimento da pista, onde Yuki competiu nas categorias japonesas, além da própria F-1. Agora, a pergunta que todos fazem: Tsunoda vai aguentar o tranco de domar o RB21? Teoricamente, ele tem melhores condições que Lawson, e além de relacionar os motivos acima, deve-se esperar que a Red Bull possa disponibilizar ao segundo carro as atualizações que até agora foram feitas apenas para o carro de Max Verstappen, que podem ter ajudado a melhorar o comportamento do bólido, em teoria. Como este texto foi fechado antes dos carros irem para a pista, pode ser que surpresas tenham ocorrido já no primeiro treino livre. Ou não. Mas os treinos livres tem sido interessantes este ano, nos deixando até sonhar mais alto do que se poderia esperar, portanto, mesmo que o primeiro treino tenha sido de fato interessante, vamos ver como ficará o restante do fim de semana, onde a torcida japonesa deve fazer furor pela presença de seu representante em um time de ponta na F-1, enfim.

Assim como saiu em defesa de Sergio Perez no ano passado, Max Verstappen falou o óbvio sobre a situação: o problema não são os pilotos, e sim o carro. Resta o time saber escutar, ainda mais quando é seu principal piloto que fala.

            Mas... E se Tsunoda também não apresentar resultados? Aí, o buraco pode ser bem mais embaixo do que foi com Lawson, que ainda tinha a seu favor a inexperiência. Tsunoda poderia também ser rifado depois de algumas corridas, mas a verdade é que Yuki está numa via cruccis na F-1. Com a saída da Honda da Red Bull, e sua ida para a Aston Martin, a fábrica japonesa já disse que Tsunoda estará por conta própria, o que significa que ele dificilmente ficaria no Grupo Red Bull em 2026. Fazer um bom campeonato, como ele tentava fazer na Racing Bulls, seria a única maneira de tentar cavar um outro lugar no grid, uma vez que a Aston Martin, novo destino da Honda, já tem sua dupla de pilotos teoricamente garantida para 2026, com Lance Stroll e Fernando Alonso, a menos que ele aceitasse a posição de piloto reserva e de teste, posição atualmente ocupada por Felipe Drugovich, hipótese que poderia ser mais aceitável.

            Mas, agora, na Red Bull, ele tanto pode potencializar seu nome, como denegrir sua reputação, se não trouxer os resultados esperados pela Red Bull. E por mais que todos entendam as condições no time dos energéticos, e os problemas do carro, claro que um rebaixamento, ou até mesmo uma dispensa, pesariam no currículo do japonês, podendo dificultar sobremaneira, ou até comprometer de vez as chances do nipônico de permanecer na F-1 no próximo ano, mesmo como piloto reserva. A sorte foi lançada para Yuki, e resta esperar para ver se a Red Bull terá com ele mais paciência, ou se continuará de pavio curto, como foi com Lawson. Helmut Marko afirmou que Tsunoda terá paciência para mostrar o que pode fazer, garantindo veladamente que o japonês deve ficar até o fim da temporada, mas alguém aí acredita que isso será mantido, se os resultados ficarem devendo? Para o nipônico, vai ser um verdadeiro vai ou racha, com grandes chances de rachar. Se conseguir sobreviver, ótimo, um merecido ponto para a capacidade de Tsunoda, sempre subestimado por muitos. O problema é que muitas vezes depende mais do humor da cartolagem da Red Bull do que do piloto, daí não se poder ter segurança alguma no resultado. Yuki pode se consagrar, ou sair da F-1 pela porta dos fundos dos fundos, na pior das hipóteses… Duro é que Tsunoda não teve como treinar com o RB21, e embora tenha andado com o RB20 ao fim da temporada passada, é outro carro, e com outras reações. E andar no simulador não é exatamente a mesma coisa de estar ao volante do carro real, onde se pode ver a fundo do tamanho do buraco onde pode estar prestes a entrar. O japonês fala que não terá problemas como Lawson, e já anda prometendo até chance de que, sabe, chegar ao pódio. Devagar com andor, Yuki, mais devagar… Um dos problemas de Lawson foi sua prepotência na pista e nos boxes, como se já fosse o rei da cocada preta. Tsunoda tem de tomar cuidado para não cair no mesmo erro, ou vai ser mais um com a caveira pintada no currículo do time dos energéticos. E não são poucas...

            E aqui, esse problema com os pilotos apenas escancara como a Red Bull, na impaciência com Lawson, revela que o clima dentro da escuderia, que quando estreou na F-1 trouxe um frescor extremamente bem-vindo e necessário à competição, se corrompeu com o sucesso que passou a viver desde 2010. E a uma briga de poder interna que tem tudo para implodir a escuderia. Sim, estamos falando de Christian Horner e Helmut Marko. É verdade que ambos, mesmo com suas opiniões divergentes, conseguiram conduzir o time com certa harmonia por muitos anos, com Horner cuidando mais dos assuntos gerais, enquanto Marko, a bem ou mal, gerenciava os pilotos, e ao mesmo tempo em que caía de amores por Sebastian Vettel e Max Verstappen, seus queridinhos, era implacável com todos os demais pilotos, fossem do time principal, ou do time secundário. Mas, nos seus íntimos, claro que cada um deles brigava de forma velada para ter mais poder dentro da escuderia. Uma disputa que Dietrich Mateschitz, fundador do Grupo Red Bull, soube manter sob controle. O problema é que Mateschitz faleceu, e com isso, o que era uma disputa velada começou a ganhar ares de briga efetiva mesma, com Horner se garantindo com o lado tailandês do Grupo Red Bull, enquanto Marko, pela sua intimidade com Mateschitz, tentava garantir seu lado junto ao polo austríaco do grupo.

A grande chance de Yuki Tsunoda, finalmente ganhando a oportunidade na Red Bull, e já começando em Suzuka, diante de seu público. Que o sonho não vire pesadelo...

            E aí, no ano passado, o escândalo do assédio a uma funcionária da escuderia por parte de Horner, deixou o clima em ebulição dentro do time, com a perspectiva do dirigente ser suspenso, ou até rifado do comando da Red Bull. Mas Horner conseguiu sobreviver ao episódio, escapando de perder sua posição no time, ou pelo menos, ficar inferiorizado a Marko na hierarquia dentro da organização. O equilíbrio de poder, contudo, ficou tenso, e foi no meio dessa contenda interna que Adrian Newey resolveu pular fora, o que certamente prejudicou o desenvolvimento do modelo RB20, que desde a saída do engenheiro inglês, deixou de ser o carro competitivo e até dominante que ainda parecia ser. Aos poucos, Horner foi recuperando o comando do time, e para muitos, ele tenta se impôr de forma contundente, para reafirmar sua liderança perante todos, inclusive Helmut Marko, de forma a não deixar dúvidas de quem dá as cartas na equipe. Pedro Henrique Marum, do site Grande Prêmio, inclusive, descreve esse momento em matéria publicada semana passada, fazendo uma análise da falta de rumo que periga tomar conta da Red Bull com este tipo de atitude.

            E a impaciência é o primeiro sinal de uma equipe sem rumo. Com um carro que não conseguiu corrigir os problemas do anterior a contento, a equipe técnica corre contra o tempo, mais ainda do que já se corre na F-1, para apresentar soluções que solucionem, ou pelo menos, mitiguem a situação. O problema é que carros mal nascidos são sempre muito mais complicados de desenvolver, e ainda mais, de corrigir, e no ano passado já vimos quando várias atualizações feitas para o modelo RB20 não apresentaram resultados, ou as melhoras foram insignificantes. A sorte, como já mencionei semana passada, foi o início avassalador de Verstappen na primeira metade da temporada, onde o holandês abriu larga vantagem que, mais à frente, serviu de garantia para administrar a competição, enquanto os adversários não conseguiam aproveitar suas vantagens como poderiam. Mesmo assim, o clima ficou tenso entre o holandês e a escuderia. Por mais que cálculos feitos mostrem que Verstappen teria conseguido chegar ao título mesmo contando apenas a partir da etapa de Miami, quando as dificuldades eclodiram realmente na equipe, é certo dizer que, com o campeonato em perigo real e imediato de ser perdido, a situação teria ficado ainda mais tensa e adversa.

            É o que vemos agora, com o agravante de que a Red Bull já começou em desvantagem perante a concorrência. Max Verstappen vem fazendo o que pode, mas ele parece já estar no limite do limite, e por melhor que seja, não vai conseguir fazer os costumeiros milagres que apregoam a ele. E pior: a Mercedes já começa a crescer com George Russell, e a Ferrari, no momento claudicante, também pode vir para cima se acertar o passo, dificultando ainda mais as esperanças e possibilidades. Neste cenário, queimar Lawson, antes mesmo da chance de mostrar o que poderia fazer em um circuito conhecido pelo piloto, revela como a escuderia está perdida. E se Tsunoda não render? Também o trocarão? Entraria Isack Hadjar? E se ele também não corresponder? Vão trocar de novo o piloto? Isso deixaria o time totalmente desestabilizado, contando apenas com Verstappen, que como já dissemos, está no limite. Porém, a recusa da escuderia em enxergar que não adianta ter essa impaciência toda com seus pilotos, só prejudica suas chances de recuperar o rumo. Nenhum time de ponta que se preze fica trocando seus pilotos em plena temporada, salvo por motivos extremos. Só a Red Bull tem praticado isso. Por mais que em alguns momentos possa até ter sido justificável, o saldo geral é negativo. E às vezes, pode até ser contraditório.

            Já mencionei aqui algumas vezes como o programa de pilotos da Red Bull tem se tornado uma bênção, mas na maior parte das vezes, uma maldição, a ponto de muitos pilotos preferirem até passar longe dele, pelo temor de verem suas carreiras mais prejudicadas do que beneficiadas. Se é verdade que o programa apresentou dois gênios da velocidade, Sebastian Vettel e Max Verstappen, por outro lado defenestrou vários pilotos que, com um pouco mais de consideração e paciência, poderiam ter rendido muito mais na equipe. É preciso encarar a realidade: talentos como Vettel e Verstappen não surgem de uma hora para outra, e mesmo assim, por vezes, alguns supertalentos podem não despontar logo de cara, como vem sendo exigido. Antigamente, os pilotos chegavam com mais quilometragem e experiência à F-1, bem depois dos 20 anos, o que lhes conferia também maior estabilidade emocional. Hoje, já estão chegando lá por vezes até antes dos 20 anos, e querem que arrebentem logo de cara, o que vem sendo cada vez mais difícil de acontecer.

            Tudo bem, o programa revelou Max Verstappen, e a grosso modo, também Sebastian Vettel, mas o número de pilotos que não “vingou” nos times da Red Bull é imenso, e vários deles precisaram sair de lá para reencontrarem o rumo de suas carreiras, porque se dependesse de Horner, Marko & Cia., estariam pra lá de lascados. Hoje alguns destes pilotos estão em outras escuderias, como Carlos Sainz Jr., Alexander Albon, Pierre Gasly, enquanto outros, como Sébastien Buemi e Jean-Éric Vergne foram ser campeões na Formula-E. Lógico que o mundo do automobilismo costuma ser duro e exigente, e muitas injustiças são cometidas com vários talentos potenciais no meio do caminho. Se a Red Bull “dá asas”, como diz seu slogan comercial, ela as tira com muito mais facilidade ainda. E também já mencionei que o problema do programa é o que fazer com os pilotos que conseguem ser promovidos à F-1, uma vez que as vagas são finitas, e para a fila andar, os pilotos têm que sair. Até aí, vá lá, o problema é como eles fazem os caras “saírem”, ou melhor, saem com os caras, muitas vezes da pior maneira, e sem a menor consideração. Um pouco de respeito também é bom, mesmo nos padrões da F-1, mas para algumas pessoas...

Mesmo na chuva, Max Verstappen não conseguiu garantir a vitória na Austrália, e viu a McLaren vencer também na China. Disputa pelo título já começa com o time dos energéticos precisando se mexer para tentar se manter na briga.

            Com este tipo de abordagem, a Red Bull periga cair ainda mais no abismo, com as piores consequências possíveis. Precisa manter a calma, e focar em trabalhar direito no projeto do carro. E esquecer essa mania de deixar o carro tão nervoso como vem ficando nos últimos tempos, só para agradar, ainda que parcialmente, aos desejos de Verstappen por um carro dianteiro ao extremo. A própria McLaren já debochou sobre isso, gabando-se de ter um carro “neutro”, que funciona tanto com Lando Norris quanto com Oscar Piastri, podendo ser rápido com os dois pilotos, como vimos nas duas corridas até agora, dominantes pelo time inglês, mas com vitórias de cada um dos pilotos. E eles ainda podem ser ainda mais rápidos. O temor de queda parece criar pânico na Red Bull, como se nenhum time que se preze vivesse períodos de vacas magras. A própria McLaren, que hoje está de volta ao topo, viveu os infernos na década passada, e precisou de uma mudança de mentalidade, muita paciência, e trabalho duro para voltar ao protagonismo que possuía.

            E quem também precisa ter paciência é Max Verstappen. O holandês parece ver o fim do mundo se não conseguir ser campeão novamente este ano, sentimento parecido com o da Red Bull. Mas é do jogo. Nenhum time fica sempre no topo, e sempre poderá haver períodos ruins, ou menos gloriosos. Não conseguir ser campeão este ano justificaria pular fora da Red Bull pelo inconformismo de perder a disputa? E Lewis Hamilton que não conseguiu ser campeão novamente nos últimos anos, e aguentou três anos de uma equipe Mercedes instável e com performances abaixo da média? Curioso que muitos criticam as reclamações de Hamilton feitas neste período, mas aceitam as reclamações de Verstappen, como se o holandês tivesse mais direitos de cobrar resultados do que o inglês no time alemão entre 2022 e 2024. Haja incongruência...

            O panorama na Red Bull anda em polvoroso. Reuniões emergenciais, como a da semana passada, só mostram como o time perdeu aquela sensação de que ganha-se umas, perde-se outras. Quando ganha, ótimo. Quando perde, parece o apocalipse. Devagar aí, gente. Não é questão de ser derrotista, nem ficar conformado com a derrota. Só que não dá para ganhar todas. Dificilmente a Red Bull terá outra temporada massacrante como foi 2023, o que não significa que não poderá voltar a vencer e ser campeã. Um pouco de calma e paciência, resolvendo um problema de cada vez, sem querer criar clima de desastre, podem ajudar muito a voltar aos trilhos. A não ser que este pânico todo indique que há muito mais coisas desandando do que se pode ver, como por exemplo, o desenvolvimento dos novos motores pela Red Bull Powertrains que serão usados a partir de 2026, com a saída da Honda e a entrada da Ford, que seria de fato o primeiro propulsor criado pela nova divisão do grupo Red Bull, que até este ano vem usando unidades produzidas pela Honda basicamente em cooperação com a RBPT. Um desenvolvimento insatisfatório poderia ser um fator a mais para Verstappen justificar uma saída abrupta da Red Bull, invocando cláusula certamente prevista em contrato para tanto. Mas isso só demonstra também impaciência e inconformismo talvez exagerados do piloto, que não teria paciência para aceitar um momento de vacas magras no time. Um comportamento talvez exacerbado também pelo modo como o time lida com a situação, contaminando o seu maior astro, mal acostumado às vitórias retumbantes de que desfrutou recentemente na competição.

            A Red Bull, e talvez também Max Verstappen, precisam aprender a perder. A derrota nunca é agradável, mas é nas derrotas que se pode tentar ganhar um pouco de humildade, e analisar melhor os erros, e tentar corrigi-los o mais breve possível. Isso exige estudo calmo e focado da situação, compreender os trunfos e reveses, e saber redirecionar as energias para empreender novamente a jornada rumo ao sucesso. Calma e tranquilidade, entretanto, parecem andar em falta em Milton Keynes. E pedir ponderação e paciência não significa que eu não queria ver a Red Bull de volta ao topo. Quanto mais competição, melhor para a F-1 e para os fãs da velocidade. Mas o time dos energéticos precisa constatar que certos métodos de atuação ao longo dos anos, por mais sucesso que tenham tido, não são os mais adequados e garantidos para se permanecer sempre com sucesso na competição. Reorganização e mudança de hábitos são necessários para se achar e reencontrar o caminho do sucesso, se preciso for.

            Resta esperar que Christian Horner e Helmut Marko tenham sabedoria para trilhar esse caminho, ou se ajudarão a tornar tudo mais complicado do que já é, com os resultados mais óbvios possíveis...

quarta-feira, 2 de abril de 2025

FLYING LAPS – MARÇO DE 2025

            O mês de março já foi embora, e entramos no mês de abril, com os campeonatos do mundo da velocidade seguindo com tudo. E início de mês novo é mote para mais uma edição da Flying Laps, relatando alguns acontecimentos das competições que acabaram sendo deixadas de lado nas colunas regulares. E esta sessão é praticamente apenas sobre a motovelocidade, com o início das competições da MotoGP, que começaram mantendo o domínio da Ducati, e com a perspectiva de Marc Márquez dominando a categoria novamente, dispondo da moto mais competitiva do grid. Mas nem tudo está perdido, e ainda temos a esperança de vermos um ano com muitas disputas e emoções, de alguma forma. Bem, boa leitura e curtam o texto, relatando os destaques das primeiras provas da temporada 2025 da MotoGP, e sigamos em frente...

Marc Márquez não poderia ter começado melhor a temporada 2025 da MotoGP. A “Formiga Atômica” teve um fim de semana quase irrepreensível na etapa de estréia do campeonato, na Tailândia, ao marcar a pole-position e vencer tanto a corrida sprint quanto a corrida principal, em sua estréia pelo time oficial da Ducati na competição. O tão esperado duelo com Francesco Bagnaia, que muitos tinham esperança de ser o grande mote da temporada, diante da manutenção da hegemonia da marca italiana na classe rainha do motociclismo, não ocorreu. Bagnaia, aliás, virou personagem secundário em Chang, tendo terminado as duas provas do fim de semana apenas fechando o pódio, na 3ª posição. O duelo que teve ficou apenas entre a família Máquez: Álex Márquez, da Gresini, deu show na pista de Chang, terminando as duas corridas em 2º lugar, sendo que na prova de domingo, ele até deu o ar da graça quando o irmão mais velho teve um pequeno problema com a pressão dos pneus, e assumiu a liderança da corrida por boa parte dela, até ser superado pelo hexacampeão nas voltas finais, quando Marc resolveu colocar ordem na situação. Assim, tivemos um pódio idêntico nas duas provas do fim de semana, com vitória de Marc Márquez, Álex Márquez em segundo, e Bagnaia fechando o pódio em 3º. Um trio de Ducatis no pódio, para confirmar que a moto italiana ainda vai dar as cartas nesta temporada, e com relativa facilidade, a julgar pela forma da concorrência, que apesar de seus avanços, ainda não consegue ameaçar de fato a marca de Borgo Panigale na competição.

 

 

Entre os destaques do fim de semana em Chang, está Ai Agura, novato na classe rainha, defendendo a Trackhouse, time satélite da Aprilia. O japonês mostrou as garras logo de cara, e chegou até a dar um calor em “Pecco” Bagnaia, colocando a 3ª posição do bicampeão em risco. Mas Bagnaia controlou a situação, e Ogura fez uma bela estréia na corrida sprint com um 4º lugar. E ele repetiu a dose na prova principal, onde terminou em 5º lugar, repetindo um duelo particular com Franco Morbidelli, outro destaque do fim de semana. O ítalo-brasileiro, em sua estréia pela VR46, time de Valentino Rossi, voltou à sua velha forma, de quando foi vice-campeão na temporada de 2020, e fez corridas combativas tanto na sprint quanto na prova principal, tendo terminado ambas em 5º e 4º lugares, respectivamente. E na VR46, é preciso lembrar que Franco corre com a Desmosédici GP24, a moto do ano passado, enquanto seu companheiro de equipe, Fabio Di Giannantonio compete com a GP25, a moto atual. Em que pese o fato de Fabio ainda se recuperar de lesões sofridas na pré-temporada, Franco tem na manutenção da GP24 seu grande trunfo, já que ele competiu com esta moto no ano passado, quando defendia a Pramac, principal time satélite da Ducati, que tinha as mesmas motos do time de fábrica, e não motos com um ano de defasagem. Morbidelli, aliás, vinha fazendo já boas apresentações no final de 2024, estando mais à vontade com a GP24, depois de um início de ano complicado onde também não rendia o que podia devido a lesões da pré-temporada, que complicaram sua adaptação ao modelo Ducati da Pramac, depois de anos competindo com motos da Yamaha.

 

 

Na etapa da Argentina, que voltou ao calendário da MotoGP este ano, Marc Márquez continuou deitando e quase rolando, repetindo o panorama que havíamos visto na Tailândia. O hexacampeão fez novamente a pole-position, e mais uma vez, venceu as duas corridas do final de semana. E Álex Márquez, mais uma vez, fez a festa da família, terminando as duas provas na segunda posição, e mais uma vez, também discutiu a vitória na corrida principal, como havia feito em Chang, mas desta vez deu um pouco mais de trabalho para o irmão mais velho, que precisou atacar um pouco mais para recuperar a liderança na prova de domingo, para vencer de novo. A diferença para a Tailândia é que em Thermas de Rio Hondo Francesco Bagnaia ficou ainda mais apagado, tendo terminado as duas corridas apenas em 4º lugar, ficando de fora do pódio, e por tabela, perdendo contado na pontuação com os irmãos Márquez. Na prova sprint, o pódio foi completado por Johann Zarco, numa atuação de gala do piloto francês com a moto da Honda, pelo time satélite da LCR, um resultado muito importante para a marca japonesa, que tenta se recuperar na competição, depois de ficar na rabeira da competição no ano passado. Já na corrida principal, mais uma boa apresentação de Franco Morbidelli, que venceu a disputa com Bagnaia pelo degrau mais baixo do pódio, e marcou o retorno do piloto ao TOP-3 de uma corrida de onde estava ausente desde 2021, encerrando um jejum bem incômodo. Enquanto isso, depois de abafar na Tailândia, Ai Ogura não teve a mesma sorte na Argentina, terminando a prova sprint apenas em 13º, e sendo desclassificado na prova de domingo, onde tinha conseguido a 8ª posição, depois de constatado o uso de uma ECU irregular em sua moto, por um erro do time na instalação da peça, usando uma especificação não homologada pela direção da MotoGP. Melhor sorte para o japonês nas próximas etapas, sendo desde já candidato a sensação da temporada, se conseguir repetir a performance da primeira prova…

 

 

Desfalcada de Jorge Martin, que se recupera de lesões na mão, a Aprilia começou o ano tentando entender sua relação de forças na competição. O desempenho de Ai Ogura, do time satélite Trackhouse, mostra que a RS-GP tem potencial para bons resultados, mas vai ser preciso trabalhar bastante para alcançar as Ducatis. Na etapa da Tailândia, Marco Bezzecchi ficou apenas em 12º, e na corrida de domingo, fez um bom 6º lugar, exatamente atrás de Ogura, um bom sinal. Já na Argentina, Marco repetiu o bom 6º lugar, mas na corrida de domingo, acabou abandonando logo na largada, depois de ter sido tocado por Fabio Quartararo, da Yamaha, indo para o chão e sem ter condições de voltar à pista. Lorenzo Savadori, que substituiu Martin nas duas etapas, apenas fez figuração, não conseguindo nem mesmo pontuar, algo que só mudou na corrida de Austin, com um 15º lugar, onde Martin ainda ficou de fora da prova, nos Estados Unidos, e quem sabe, possa retornar na etapa de Jerez de La Frontera, já que até mesmo em Losail, no Qatar, a próxima corrida, o retorno do atual campeão mundial ainda é incerto. Felizmente, Martin voltará à competição, mas o espanhol ficou com receio de os ferimentos até comprometerem o seguimento de sua carreira, lembrando dos percalços vividos por Marc Márquez entre 2020 e2022, quando o compatriota teve altos e baixos na sua recuperação, devido a forçar um retorno antes da hora, de um ferimento que parecia coisa menor, mas que levou a uma série de complicações que deixou o hexacampeão mundial fora de combate por um longo período, só voltando a competir a pleno em 2023, depois de praticamente três anos após o tombo sofrido na etapa de Jerez que abriu a temporada de 2020. Jorge felizmente foi mais prudente, e vem seguindo as recomendações médicas, sem forçar o retorno antes da hora. Infelizmente, seus planos de defender o título, que já eram complicados, diante da falta de competitividade da Aprilia, agora ficam ainda mais distantes, pois o piloto terá de se aclimatar com o novo equipamento, enquanto todos os demais competidores já estarão bem mais à frente com suas motos. A Aprilia até tentou obter uma autorização para Martin fazer um teste de adaptação, já que ele não teve como conhecer sua nova moto na pré-temporada, mas a direção da MotoGP negou, uma vez que os testes particulares estão proibidos durante o campeonato, de modo que Martin terá de conhecer seu equipamento nos fins de semana de corridas. E a própria Aprilia, como se vê, precisa melhorar bastante se quiser desafiar a rival compatriota Ducati, que segue dominando a competição, talvez com mais facilidade do que todo mundo imaginava, vendo a forma com as demais marcas estão no grid neste início de temporada...

 

 

E a MotoGP já começa sua contagem regressiva para retornar ao Brasil na temporada de 2026. Em evento realizado no último dia 17 no autódromo de Goiânia, com a presença de alguns dos pilotos da competição, foi anunciado que o GP do Brasil será realizado no dia 29 de março do próximo ano. O evento contou com a presença de Franco Morbidelli, Luca Marini, Diogo Moreira e Eric Granado, que fizeram exibições de demonstração e interagiram com o público. Estiveram presentes também o CEO da Dorna Sports, Carmelo Ezpeleta, e o Governador de Goiás, prestigiando o evento, que marca o retorno oficial da classe rainha do motociclismo ao nosso país. O circuito de Goiânia, inclusive, já sediou etapas da motovelocidade nos anos 1980. Fica a dúvida se a prova brasileira passará a ser a única na América do Sul, já que a etapa da Argentina não está garantida para 2026, necessitando de uma renovação do contrato, que venceu este ano.

 

 

Na etapa dos Estados Unidos, na pista de Austin, Marc Márquez começou o fim de semana disposto a recuperar a hegemonia na pista, onde é o recordista de vitórias desde que o circuito estreou no calendário. O hexacampeão começou bem o fim de semana, com mais uma pole-position, apesar de ter enfrentado uma disputa mais acirrada para largar na frente do grid. E Marc fez valer a pole, tendo uma disputa brava com Álex Márquez e Francesco Bagnaia logo na primeira volta da corrida sprint. Mas a “Formiga Atômica” logo retomou o controle da situação, e rumou para mais uma vitória, consolidando até aqui um domínio impecável na temporada de 2025, e fugindo cada vez mais na liderança da competição. Mas restava a prova de domingo, e Marc acabou protagonizando uma pequena confusão antes da largada, quando correu para pegar a moto ajustada com pneus de pista seca, uma vez que o circuito, que tinha visto uma chuva pouco antes do horário da corrida, estava secando. O piloto esperou até o último momento possível antes de fazer isso, o que fez vários outros pilotos seguirem o espanhol, provocando um adiamento da largada, e com a FIM autorizando todo mundo a largar em suas posições originais no grid, o que agradou alguns, e desagradou a outros. No fim, largaram, e mais uma vez, parecia tudo encaminhado para um novo triunfo da “Formiga Atômica”, até que o mais velho dos irmãos Márquez tocou na zebra molhada e foi para o chão, danificando a moto, e sendo obrigado a abandonar a corrida. Melhor para “Pecco” Bagnaia, que já tinha superado Álex Marquez, e vinha tentando, sem sucesso, encostar no companheiro de equipe, que tratou de vencer pela primeira vez no Circuito das Américas, e reduziu sua desvantagem para a liderança do campeonato, que ficou com Álex Márquez, graças a seu 2º lugar, posição regular do piloto da Gresini em todas as corridas do ano até aqui. Fabio Di Giannantonio fechou o pódio com uma bela atuação, seguido de Franco Morbidelli em outra prova combativa, com Jack Miller, da Pramac, lavando a alma após várias corridas em baixa. Com o resultado, Álex Márquez é o líder do campeonato com 87 pontos, com Marc Márquez na vice-liderança, com 86 pontos. “Pecco” Bagnaia vem na 3ª posição, com 75 pontos, enquanto Franco Morbidelli é o 4º colocado, com 55, à frente de seu colega na VR46,  Fabio Di Giannantonio, com 44 pontos.

 

 

Na classificação de construtores é onde podemos ver como a Ducati está sobrando na temporada 2025 da MotoGP. A marca de Borgo Panigale venceu todas as três etapas até aqui com seu time de fábrica, e com exceção da primeira prova sprint, onde Ai Ogura fez um surpreendente 4º lugar, dali em diante todas as 4 primeiras colocações da competição foram sempre ocupadas por motos da marca italiana. Isso faz da Ducati a líder inconteste da competição, com 111 pontos acumulados até aqui. O restante do grid, contudo, exibe um equilíbrio impressionante, com a Honda na vice-liderança, mas com apenas 36 pontos, seguida de perto pela KTM, com 34 pontos, com a Aprilia na 4ª posição, com 33. A Yamaha ocupa a lanterna com apenas 28 pontos até aqui. Mas, mais do que equilíbrio, isso denota também como a concorrência não consegue impôr desafio à Ducati, que mesmo tendo perdido um de seus times satélites para esta temporada (a Pramac, que agora usa motos da Yamaha), ainda mantém sua grande hegemonia na competição. Aliás, com a realização do GP no Circuito das Américas, podemos dizer que há um ano só dá Ducati vencendo na classe rainha do motociclismo, já que a última vez que outra marca venceu na categoria foi justamente em Austin, no ano passado, quando Maverick Viñalez chegou na primeira colocação, defendendo a Aprilia, outra marca italiana. A pista do Estado do Texas também marcou dois anos sem vitória da Honda na competição, já que em 2023 Álex Rins, pela equipe satélite da marca nipônica, a LCR, averbou o último triunfo da marca de Hamamatsu.